02
Mai 17

Tradução: «tonneau cover»

Só vendo

 

      Um vizinho meu, provavelmente a pessoa mais simpática que conheço, tem dois Citroëns C1, um deles descapotável. Este, por vezes, quando está na garagem, tem uma cobertura parcial, que só hoje soube que se chama tonneau. Algumas carrinhas de caixa aberta também têm tonneau cover, e, nestes casos, dizermos que é uma cobertura de bagageira talvez seja suficientemente claro. No caso de um automóvel, já não é fácil encontrarmos tradução. Se usarmos apenas «cobertura», quem ouve ou lê não vai perceber de que tipo de cobertura se trata.

 

[Texto 7775]

Helder Guégués às 19:44 | comentar | ver comentários (10) | favorito
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29
Abr 17

Tradução: «close call»

Por um triz

 

      «Mas o certo é que todos nós, com mais ou menos experiência, já teremos passado — e, infelizmente, algumas vezes ficado — pelo que os ingleses chamam um “close call”, o escapar à justa de uma situação potencialmente perigosa no trânsito» («A melhor defesa é o ataque», Luís Carlos Sousa, Motociclismo, n.º 312, Abril de 2017, p. 4).

      Lemos no Dicionário de Inglês-Português da Porto Editora: «a close call Estados Unidos da América quase um desastre». O Cambridge Dictionary, porém, prescinde do artigo e define-o assim: «a situation in which something bad, unpleasant, or dangerous almost happens, but you manage to avoid it». E no Novo Dicionário de Expressões Idiomáticas Americanas, de Luiz Lugani Gomes (São Paulo: Thomson, 2003, p. 66), ficamos a saber que se diz close call ou close shave, que o autor define como «algo indesejável que só não acontece por um triz, uma quase-ocorrência, um quase-acidente, derrota, fracasso etc.».

 

[Texto 7761]

Helder Guégués às 19:58 | comentar | ver comentários (1) | favorito
20
Abr 17

Léxico: «descompasso ecológico»

Antes que seja tarde

 

      E a propósito de alterações climáticas e políticas de desenvolvimento sustentável: ontem ouvi por duas vezes a expressão descompasso ecológico. É o nome que se dá ao uso de recursos a velocidade superior à capacidade de regeneração e à criação de resíduos como CO2 a velocidade superior à capacidade de absorção, o que leva ao esgotamento de recursos. Quanto mais depressa for para os dicionários, menos provável — e menos legítimo — será os traidores da língua usarem a expressão inglesa ecological overshoot.

 

[Texto 7741]

Helder Guégués às 23:35 | comentar | ver comentários (1) | favorito
19
Abr 17

Tradução: «razor tape»

Inglês inútil

 

      «Em resposta à Renascença, a direcção-geral dos Serviços Prisionais garante que está previsto o reforço da instalação de rede laminada com “Razor Tape”, uma rede que corta quando se tenta transpô-la. De resto, a mesma rede não impediu a fuga de um recluso no passado dia 7 em Viseu» («Caxias. Dois meses de fuga, um recluso por apanhar e segurança reforçada nem vê-la», Liliana Monteiro, Rádio Renascença, 19.04.2017, 19h37).

     Para quê as maiúsculas? Razor tape não será, com certeza, marca, ou, se o for, coincide com a designação do material, que não é rede laminada (também existe, sim), mas arame (farpado) laminado. Com arame laminado fazem-se redes, decerto, mas uma barreira feita com arame concertina, que também pode ser laminado, montada em estruturas de ferro chamadas pescoço de cavalo, não é uma rede. O tipo de arame mais conhecido, que não pelo nome, que nem sequer está nos dicionários, é o arame recozido, muito dúctil, usado na agricultura para amarrar a palha, na construção civil para amarrar ferro e na indústria para amarrar resíduos, por exemplo.

 

[Texto 7736]

Helder Guégués às 21:22 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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16
Abr 17

Léxico: «pistola de atordoamento»

Aguardemos

 

      «O chefe da polícia de Nova Iorque, William Morris, confirma que não foram disparados tiros e que o som ouvido foi de uma pistola de atordoamento utilizada pela polícia do metro» («Situação de pânico faz 16 feridos no metro de Nova Iorque», Rádio Renascença, 15.04.2017, 19h30).

   Pensava que as pistolas de atordoamento eram apenas para os bovinos, mas parece que não — se estiver bem traduzido. Na CNN, lê-se: «No shots were fired, and the sound was of police using a stun gun on someone, NYPD Chief William Morris said.» Não há muito, numa tradução, vi que verteram captive bolt gun por «pistola de atordoamento», e era precisamente para atordoar (claro que stun é «atordar», bem sei) bovinos. Pode ser que alguém saiba mais.

 

[Texto 7726]

Helder Guégués às 23:04 | comentar | favorito
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15
Abr 17

Como se fala na televisão

E se traduz

 

      Numa passagem rápida por vários canais televisivos, li isto na CMTV: «Pacote suspeito lançou alerta junto à Casa Branca». É assim que dizemos, «pacote»? Para já, via-se que era um saco ou mochila de cor preta, mas, se queriam ser menos específicos — como fizeram vários meios de comunicação social estrangeiros —, diziam, sei lá, «volume, objecto». Mas, claro, nos tais canais lia-se «suspicious package»... Já não vi nem ouvi mais, mas não me admirava nada que acrescentassem que a «icónica» Avenida Pensilvânia fora evacuada.

 

[Texto 7723]

Helder Guégués às 20:22 | comentar | favorito
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04
Abr 17

Tradução: «vivement»

É mais do que isso

 

      Quando ainda trabalhava, não passava o tempo, assegura ela, como outros colegas, a dizer a si mesma: «Vivement la retraite!» Coitada, há gente assim. Não conhece a origem comum de trabalho e tripálio (que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora agora já regista), nem nunca leu aquela observação de Nietzsche. Bem, mas a nossa preocupação agora é outra: aquele vivement. O Dicionário de Francês-Português da Porto Editora diz-nos que é um advérbio e se traduz por «vivamente». Naquela frase, porém, não é advérbio, mas interjeição (o que não é consensual, é verdade), e não se traduz daquela forma. Por outras palavras, o verbete daquele dicionário está a precisar de uns retoques.

 

[Texto 7668]

Helder Guégués às 10:36 | comentar | ver comentários (3) | favorito
03
Abr 17

Tradução: «news literacy»

Espantoso

 

   «“O anúncio de hoje envia uma forte mensagem de que a alfabetização mediática é importante. Não podemos melhorar apenas a produção de notícias. Necessitamos de nos melhorar a nós próprios, ser melhores e mais ativos como utilizadores, consumidores e criadores de meios”, declarou [Dan Gillmor, professor na Universidade Estadual do Arizona]» («Nasceu a “Integridade das Notícias”», Lusa/TSF, 3.04.2017, 21h42). E no original: «Today’s announcement sends a strong signal that news literacy matters. We can’t upgrade only just the supply of news. We need to upgrade ourselves, to become better, more active media users as consumers and creators.» Quem diria que iam traduzir assim? Muito bem, perdoamos-lhes já alguns dos erros do passado. Sobre o futuro ninguém se pode pronunciar.

 

[Texto 7667]

Helder Guégués às 23:17 | comentar | favorito
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01
Abr 17

Ortografia: «panóptico»

Avô e neto

 

      «A construção da prisão de Sant Vittore começou em 1872 e ficou concluída sete anos depois, durante o Reino de Itália de Umberto I. O projeto foi realizado numa zona então da periferia pelo engenheiro Francesco Lucca, que seguiu o modelo do chamado “pan-ótico” (uma prisão ideal imaginada em 1791 pelo filósofo e jurista inglês Jeremy Bentham)» («A história de San Vittore, a prisão construída em estrela», O Meu Papa, ed. n.º 1, 31.03.2017, p. 15).

      Ainda nem há uma hora, passei pela Avenida Rei Humberto II de Itália, aqui em Cascais. Está bem que o neto viveu em Cascais vários anos, mas o avô não pode perder o h só porque não teve igual sorte. Já vimos que temos a tradição de traduzir o nome dos monarcas estrangeiros, senhor tradutor da revista O Meu Papa. Avô e neto são Humberto. Já «pan-ótico» revela ou falta de cuidado ou uma triste compreensão das regras do Acordo Ortográfico de 1990. Pendo para esta última hipótese, até porque neste artigo vamos encontrar duas vezes «boas vindas».

 

[Texto 7656]

Helder Guégués às 19:53 | comentar | favorito

Tradução: «magistrato di sorveglianza»

O espírito, não a letra

 

      «Ali estão Gloria Manzelli, diretora da estrutura [Prisão de San Vittore], a sua vice Teresa Mazzotta, o provedor Luigi Pagano, o comandante Manuele Federico, o capelão Marco Recalcati e a presidente dos juízes de vigilância Giovanna Di Rosa» («“Sinto-me em casa: obrigado pelo acolhimento”», Matteo Valsecchi, O Meu Papa, ed. n.º 1, 31.03.2017, p. 14).

      Sejamos claros: em português, «juízes de vigilância» não significa nada. Nada. E porquê? Porque não se traduzem somente palavras, traduzem-se conceitos, tem de se procurar uma correspondência entre duas realidades diferentes, que, no caso, é juiz de execução de penas. Em alternativa, mas apenas quando não existir correspondência, até se pode traduzir literalmente, no caso, «juiz de vigilância», do italiano magistrato di sorveglianza, mas impõe-se obrigatoriamente uma nota explicativa.

 

[Texto 7655]

Helder Guégués às 19:07 | comentar | favorito
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