04
Jul 17

Tradução: «cautionary tale»

Serve para prevenir, sim, mas...

 

      Há um livro, publicado em 1907, do escritor anglo-francês Hilaire Belloc com o título Cautionary Tales for Children: Designed for the Admonition of Children between the ages of eight and fourteen years. Nele, um rapazinho, Jim, depois de desobedecer à ama, é comido por um leão. Traduzir cautionary tale, expressão que surge noutros contextos, por «conto cautelar» não me parece nada feliz, mas é como o fazem tradutores com currículo... A mim, «conto cautelar» remete-me logo para o Direito, ocorre-me logo a providência cautelar. Não seria melhor traduzir, porque é disso que se trata e neste caso as expressões são usadas e conhecidas, por história exemplar ou conto edificante?

 

[Texto 7974]

Helder Guégués às 08:49 | comentar | ver comentários (7) | favorito
02
Jul 17

Tradução: «sous-bois»

Para o currículo

 

      Não cabe tudo nos dicionários? Cabe, nos digitais cabe e não custa nada. Para o Dicionário de Francês-Português da Porto Editora, sous-bois é «(matas) vegetação rasteira». Ora, isto é mais a definição do que a tradução do termo francês, e num dicionário bilingue procuramos menos a definição do que a correspondência noutra língua. Acontece que temos, e são por vezes usados, os termos sub-bosque e, a cheirar menos a cópia, soto-bosque. (Que eu, oh sacrilégio, não encontro na minha bíblia. A minha bíblia... Assim se vê como treslêem. Caem no blogue de pára-quedas porque descobrem aqui o seu nome e, em vez de tentarem aprender alguma coisa, abespinham-se.) Como no caso anterior, basta acrescentar, até porque em certos contextos poderá ser «vegetação rasteira» a forma mais adequada. As três, então: vegetação rasteira; sub-bosque; soto-bosque.

 

[Texto 7970]

Helder Guégués às 17:31 | comentar | ver comentários (2) | favorito

Tradução: «bas-fond»

É só acrescentar

 

      Muitas vezes, a tradução para bas-fond que vejo por aí é submundo, e não me parece nada mal. (Sim, é verdade, quantas vezes não a vejo por traduzir...) O Dicionário de Francês-Português da Porto Editora, porém, não a propõe entre as possíveis traduções: «ralé, escória, as camadas mais baixas da sociedade». E, contudo, a primeira acepção de submundo do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora é «grupo social constituído por pessoas cujas actividades são consideradas ilícitas ou marginais (crime, jogo, narcotráfico, etc.)».

 

[Texto 7969]

Helder Guégués às 17:16 | comentar | favorito

O que vale o currículo

Só se aplica aos demais

 

      Estes até em artigo de morte pedem o currículo à Velha Ceifeira. Olha se nas editoras lhes fizessem o mesmo a eles, mas com amostras de trabalhos, hã?, que grande perda para a língua. A pessoa — cujo apelido não é Costa — que simpaticamente me ofereceu o livro disse-me que pensara oferecê-lo a uma biblioteca pública, depois de desistir, o que é humano, de o ler até ao fim, «mas parece-me perigoso divulgar isto. Pensei na lareira, por politicamente incorrecto que isto pareça, mas o verniz das capas não convidava ao gesto».

 

[Texto 7968]

Helder Guégués às 12:26 | comentar | favorito
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01
Jul 17

Tradução: «dress code»

Só na cabeça deles

 

    «“Não andamos na rega”. ANTRAL defende “dress code” para taxistas» (Rádio Renascença, 1.07.2017, 21h32).

    O pobre jornalista não conseguiu extrair dos neurónios nada mais português. Como é que se pode julgar que dress code é mais adequado do que «código de vestuário», numa tradução directa, ou «maneira de vestir», por exemplo? Não percebo. Quanto aos taxistas e aos dirigentes associativos dos taxistas, é muito curioso, e certamente por acaso, que se preocupem agora com estas questões. Vê-se logo que são pioneiros. Agora vão passar a andar de fato e gravata — mas, e as maneiras?

 

[Texto 7966]

Helder Guégués às 23:31 | comentar | favorito
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29
Jun 17

Léxico: «pinking»

Rosa-salmão

 

      «Chama-se “pinking” e é uma categoria de vinho muito rara, porque não pode ser produzida todos os anos. Vai ser lançado pela Adega Cooperativa de Figueira de Castelo Rodrigo. [...] Tudo começou em em [sic] 2014. Jenny Silva, estudante de mestrado de Enologia na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), identificou o fenómeno “pinking” em conjunto com Fernando Nunes e Fernanda Cosme, docentes e investigadores do Centro de Química da UTAD. “Pinking” quer dizer defeito e é historicamente conhecido pelo processo de “aparecimento de uma cor rosa-salmão em vinhos produzidos exclusivamente de uvas de castas brancas”. […] A criação da nova categoria de vinho, que adoptou o nome do fenómeno, vai ser lançada a 7 de Julho, pela Adega Cooperativa Figueira de Castelo Rodrigo que, entretanto, adquiriu a patente à Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro» («Defeito de produção dá origem a vinho raro», Olímpia Mairos, Rádio Renascença, 28.06.2017, 22h07).

      «“Pinking” quer dizer defeito»? Não me parece, Olímpia Mairos. O que eu vejo é que se diz de «of a colour intermediate between red and white, as of coral or salmon». Com essa palavra — mas não haverá também um termo português para o designar? —, designa-se esse defeito do vinho, porque é essa a cor que o vinho toma. Como é igualmente a cor do vinho rosé, e por isso em inglês pinking também significa rosé

 

[Texto 7961]

Helder Guégués às 17:34 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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22
Jun 17

Tradução: «downburst»

Explosão atmosférica

 

      «No esclarecimento ao primeiro-ministro, o IPMA também levanta a hipótese — em que agora trabalha e que constará de um relatório que deverá estar pronto na sexta-feira — de que ocorreu um fenómeno meteorológico chamado downburst já durante o incêndio e que pode ter acelerado a sua propagação. Trata-se de uma massa de ar descendente, que chega até ao solo e se espalha de forma radial, causando ventos fortes. Uma vez chegada ao chão, essa descarga de ar dispara para todas as direcções. Parece um tornado, mas não é» («Afinal, como começou o incêndio?», Teresa Firmino e Andrea Cunha Freitas, Público, 22.06.2017, p. 2).

      Não existirá um termo português para designar o fenómeno? Uma coisa é a facilidade em usar apenas um termo, assim como a relativa conveniência de ser o mesmo seja para um meteorologista português seja para um meteorologista chinês; outra, bem diferente, é, na divulgação dos conhecimentos, a necessidade de usar termos portugueses.

 

[Texto 7939]

Helder Guégués às 10:30 | comentar | ver comentários (17) | favorito
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21
Jun 17

Tradução: «condition»

Sem condições

 

      «O Palácio de Buckingham confirmou a hospitalização do Príncipe Philip, marido da Rainha de Inglaterra. O internamento é considerado uma medida de precaução devido a “uma condição já existente”» («Príncipe Philip de Inglaterra internado no hospital», Rádio Renascença, 21.06.2017, 10h53).

    Mas que «condição», valha-me Deus? Isso é que na Rádio Renascença conhecem bem a língua portuguesa! Não sabem nem querem aprender. Entretanto, no Twitter da Sky News, um engraçadinho escreveu: «Update; ISIS have taken responsibility for his infection.» Espero que os jornalistas portugueses não vejam isto, ou lá o vão levar à letra.

 

[Texto 7935]

Helder Guégués às 12:23 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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16
Jun 17

Léxico: «manspreading»

Mas traduzido

 

      «A câmara municipal de Madrid decidiu lançar uma campanha contra as atitudes menos próprias de homens que se sentam nos transportes públicos de pernas abertas e ocupam um espaço maior do que deviam. Os autocarros vão ter autocolantes contra o manspreading» («Madrid luta com o ‘manspreading’», Destak, 16.06.2017, p. 11).

      E vão usar o termo inglês manspreading nos avisos? Ofereçam então, ao mesmo tempo, um dicionário. Não, não, em castelhano diz-se despatarre. E, é claro, é contra o «despatarre masculino». Mas, do que me lembro da última vez que usei transportes públicos colectivos, também há fêmeas — e não apenas fanchonas — dadas a estes repoltreamentos. E levam, homens e mulheres, para a estrada este comportamento, ocupando uma faixa e meia.

 

[Texto 7924]

Helder Guégués às 07:25 | comentar | favorito
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13
Jun 17

Tradução: «officer»

Atenção, Antena 1

 

      Noticiário das 20h00 na Antena 1, com edição de Luís Soares: «O procurador-geral norte-americano acaba de negar qualquer contacto com oficiais russos durante a campanha para as eleições norte-americanas. São as declarações que Jeff Sessions está a fazer a esta hora no Senado norte-americano.» Quando tiver tempo, caro Luís Soares, veja officer num dicionário de inglês-português; vai ficar surpreendido. Não tem de quê.

 

 

[Texto 7919]

Helder Guégués às 21:54 | comentar | favorito
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