01
Jan 18

Tradução: «flamme [de vétérinaire]»

Ia correr mal

 

      O pobre cavalo falhou nas quatro patas e caiu. Provavelmente uma insolação. Como tinha uma flamme de vétérinaire na mala, a nossa personagem deu-a ao oficial que o acompanhava. Muito bem, a tradutora viu que era uma «navalha de veterinário», mas, se se fiasse no Dicionário de Francês-Português da Porto Editora, nunca lá chegaria. Melhor, chegaria ao erro. No Trésor de la Langue Française Informatisé, lê-se que uma flamme é uma «lancette de vétérinaire. La flamme proprement dite des vétérinaires est une grosse pointe de lancette portée à angle droit par un manche de métal (LITTRÉ-ROBIN 1865)». Uma lanceta, mais propriamente. Algumas, porém, mais parecem canivetes suíços. Vejam-nas aqui à venda no eBay.

 

[Texto 8535]

Helder Guégués às 20:39 | comentar | favorito
24
Dez 17

Léxico: «porco-formigueiro»

Também no Brasil

 

      «Fogo atinge café e loja do zoológico londrino. Pelo menos um animal morto e quatro desaparecidos. [...] O animal que morreu é um porco formigueiro. Quatro suricatas estão dadas como desaparecidas na sequência do incêndio que afetou o café e a loja do zoológico londrino» («Oito pessoas assistidas após incêndio no Zoo de Londres», TSF, 23.12.2017, 17h22).

      Na Folha de S. Paulo, o título da notícia é assim: «Incêndio no zoológico de Londres mata um aardvark e suricatos desaparecem». No corpo da notícia, têm de acrescentar que se trata de um «animal africano». Muito esclarecedor... Podia ser pior? Pode sempre: «Incêndio no zoológico de Londres mata um aardvark e meerkats desaparecem». O VOLP da Academia Brasileira de Letras regista «suricato» e «suricata», ao passo que nós só temos este último. Ah, e também regista «porco-formigueiro». O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista porco-formigueiro (aqui), numa definição longa, mas não completa: falta o nome científico, que é Orycteropus afer.

 

[Texto 8505]

Helder Guégués às 11:05 | comentar | favorito

Tradução: «potable»

Não é água

 

      Há erros e erros, nem todos têm a mesma gravidade. Ontem, ao início da noite, vi na RTP2 uma parte do episódio Mistério na Ópera, da série Mistérios de Paris. Comecei a ver precisamente quando duas personagens, duas mulheres, conversavam e a mais velha lançava as cartas à mais nova. Ia aparecer um amor. A mais velha comentou então que desejava que não fosse um espectador. «Nem um empregado, já dormi com a maior parte dos potáveis», responde a mais nova. Onde é que o responsável pela tradução e legendagem, Miguel Vasconcelos, alguma vez ouviu isto de um português? Nunca. Erro crasso que temos de defenestrar. Em português, «potável» significa que se pode beber, e nada mais. Já em francês, que é a língua da série, potable tem um significado adequado ao contexto: «[En parlant d’une pers.] Ça t’apprend à connaître les hommes : des flambards dont pas un sur dix peut faire un amoureux potable (QUENEAU, Pierrot, 1942, p. 98)» (in Trésor de la langue française informatisé). Como traduzir então? Por exemplo, por «aproveitável», «aceitável». Pobres telespectadores...

 

[Texto 8504]

Helder Guégués às 10:29 | comentar | favorito
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12
Dez 17

Léxico: «feature phone»

Se tem de ser

 

      «Ao longo de 2017, a empresa vendeu 370 mil telemóveis. Cerca de um terço foram smartphones, enquanto os restantes foram os telemóveis com teclas tradicionais, que na gíria do sector se chamam hoje feature phones. Tipicamente, estes aparelhos são baratos e destinam-se a mercados em desenvolvimento e a utilizadores mais velhos (o mais barato da Iki Mobile custa 17 euros)» («Telemóvel made in Portugal arranca a partir de Janeiro em Coruche», João Pedro Pereira, Público, 12.12.2017, p. 18).

      Pronto, aprendamos, já que os jornalistas insistem diariamente em escrever em inglês. Imagino que os que têm o tamanho de um cartão bancário também são feature phones. Ah, não, não: de certeza que encontramos uma forma de o dizer em português. Telemóvel básico. 

 

[Texto 8465]

Helder Guégués às 23:42 | comentar | favorito
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06
Dez 17

Sobre «beau-père»

O contexto dirá

 

      Lá partiu para o Além Jean-Philippe Smet para continuar no bem-bom e a fugir aos impostos. Ah, sim, assim de repente não sabem de quem se trata. É o nome real de Johnny Hallyday. Hoje, na Cadena Cope, estavam três ou quatro tagarelas a discutir porque adoptara o cantor aquele nome artístico. Como se não existisse a Internet. Assentaram que seria porque o inglês estava então em voga (e agora?), o que é verdade, decerto, mas não é a explicação. Boa parte da população belga tem os apelidos Smet, de Smet e Smets (o equivalente, em inglês, a Smith, ou aos alemães Schmidt, Schmitt e Schmit). Talvez, sei lá, uma espécie de Silva entre nós. Imaginem Marco Paulo com o nome João Simão da Silva. Com os pais separados logo no início da sua infância, o menino Jean-Philippezinho foi recolhido por uma tia paterna cuja filha tinha um companheiro, dançarino acrobático americano, amigo e modelo de Jean-Philippe Smet, que pisava os palcos com o nome artístico Hallyday. E por fuga aos impostos: aqui há uns anos, foi notícia: «Le beau-père de Johnny Hallyday condamné à 6 mois». É curioso que beau-père signifique sogro e padrasto. Tem duplo sentido. (E, então com 64 anos, Johnny Hallyday podia ter sogro e/ou padrasto.) Como beau-père é um pai por casamento, tanto se aplica ao sogro como ao padrasto. (E, mutatis mutandis, pode dizer-se o mesmo de belle-mère.)

 

[Texto 8442]

Helder Guégués às 17:39 | comentar | favorito
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05
Dez 17

Como se traduz por aí

Com ovelhas, mas bípedes

 

      «Um dos maiores diamantes do mundo foi vendido esta segunda-feira, por cerca de 5,5 milhões de euros. A maior parte das receitas vai beneficiar a população da Serra Leoa. O “Diamante da Paz” tem o formato de um ovo, 709 quilates e foi encontrado por um pastor católico» («“Diamante da Paz” vendido para melhorar a vida das pessoas da Serra Leoa», Rádio Renascença, 4.12.2017, 23h49).

      A sorte deste pastor católico serra-leonês, realmente... Um belo dia, quando vai com o seu magro rebanho de ovelhas para o árido agro, dá uma valente biqueirada numa pedra e só depois, assestando melhor os lúzios, vê que encontrou um dos maiores diamantes do mundo. Vou tornar-me pastor, e é já! Mas esperem, esperem, diz-me aqui o Inquirer.net que quem descobriu o Diamante da Paz foi o «evangelical Pastor Momoh». Estou a ver: o pontapé não foi do pastor.

 

[Texto 8436] 

Helder Guégués às 10:59 | comentar | favorito
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Tradução: «task shifting»

Não se esperava outra coisa

 

      «O oftalmologista português João de Deus integra uma lista das 100 personalidades “mais influentes da saúde a nível mundial” e foi o único português a receber um prémio de personalidade da saúde mais influente internacionalmente. [...] Além da área da liderança, João de Deus destacou-se pelo trabalho desenvolvido quanto à transferência de tarefas médicas para outros profissionais de saúde (‘task shifting’), tendo desenvolvido vários estudos sobre esta temática. O médico considera que esta transferência de competência, iniciada como experiência nalguns países, “comporta riscos” e pode levar à “diminuição da qualidade dos cuidados prestados aos doentes”» («Médico português é um dos mais influentes do mundo», Rádio Renascença, 5.12.2017, 7h31).

      Para ser importante, tinha mesmo de envolver qualquer coisa em inglês, não é? Pelo que se vê, nem sequer era necessário recorrer à expressão inglesa, porque é disso mesmo que se trata, de uma transferência de tarefas médicas para outros profissionais de saúde. É o que diz a definição da Organização Mundial da Saúde: «Task shifting involves the rational redistribution of tasks among health workforce teams. Specific tasks are moved, where appropriate, from highly qualified health workers to health workers with shorter training and fewer qualifications in order to make more eficient use of the available human resources for health.»

 

[Texto 8435]

Helder Guégués às 10:46 | comentar | favorito
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02
Dez 17

Como se escreve por aí

Até amanhã

 

      «Duas valas comuns, com 140 cadáveres de civis, alegadamente mortos pelo grupo terrorista Estado Islâmico (EI), foram descobertas na comarca de Sinyar, no noroeste do Iraque, revelaram este sábado as forças iraquianas» («Iraque. Descobertas duas valas comuns com mais de 100 corpos», Rádio Renascença, 30.11.2017, 19h23).

      Mas são mesmo jornalistas que escrevem isto? Hum... Agora os seguranças são polivalentes, põem os caixotes do lixo à porta, ajudam a dominar uma pessoa mais violenta, preenchem papelada, não terá algum escrito esta notícia? Bem, o problema é propriamente de tradução. Claro, e de domínio do português. Desde quando é que, numa notícia assim, se usa o termo «comarca»? E em todo o lado leio que a cidade se chama Sinjar ou Shingal. Mais à frente, que não cito no excerto, já se fala, não em valas comuns, mas em fossas. É como calha, afinal, a maioria das pessoas já está na cama a esta hora.

 

[Texto 8426] 

Helder Guégués às 22:10 | comentar | favorito
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Tradução: «escapologist»

Como Houdini

 

      «Foi Eduardo Marçal Grilo, ex-ministro da Educação e actual administrador da Fundação Calouste Gulbenkian, que esta semana fez uma comparação digna de registo. Numa entrevista à revista Visão, Marçal Grilo disse que o primeiro-ministro, António Costa, “parece o Grande Houdini” (um dos mais famosos escapologistas e ilusionistas da história, como explica a Wikipédia)» («A comparação. Houdini», Público, 2.12.2017, p. 11).

      Escapologista se acrescentarmos um a ao inglês escapologist. Então, dessa forma, não nos faltaria nenhuma. Não é propriamente esse o caminho recomendado. Pois, mas como se diz em português? Aceitam-se sugestões. E vejo que a podemos encontrar no Dicionário de Alemão-Português da Porto Editora. No verbete Entfesselungskünstler, Entfesselungskünstlerin, lá está: «ilusionista, escapologista».

 

[Texto 8424]

Helder Guégués às 20:24 | comentar | ver comentários (5) | favorito
30
Nov 17

«Bangladechiano/bangladeshiano»

Anónimo que escreves

 

      «“Por exemplo, não somos grandes consumidores de queijo, temos apenas dois tipos de queijo no Bangladesh. Mas um deles foi trazido pelos portugueses e ainda hoje se consome.” Hoje, diz [Imtiaz Ahmed, o embaixador do Bangladesh em Lisboa], a situação é inversa, com uma comunidade crescente de bangladeshis a vir viver para Portugal» («Rozario, Costa e Gomes esperam Papa no Bangladesh», Rádio Renascença, 30.11.2017, 6h52).

      Quem escreveu o artigo é que não se sabe, na Renascença é assim, como nos blogues. Bem, tal como no caso do termo bangla, vê-se de imediato que o problema é tratar-se, em boa parte, de uma tradução, daí as opções menos pensadas. Ora, em português — regista-o, e muito bem, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora —, diz-se bangladechiano e bangladeshiano.

 

[Texto 8419]

Helder Guégués às 11:22 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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