13
Out 17

A linguagem cifrada do MP

Não é para todos

 

      «Estes rodeios, a que o Ministério Público chama linguagem cifrada, chegavam ao ponto de deixarem de se conseguir fazer entender. Foi o que sucedeu nas vésperas da Primavera de 2014, ainda ninguém, à excepção dos investigadores, suspeitavam do antigo governante. Para o filho perceber que necessitava de financiamento para as suas despesas quotidianas, a progenitora de José Sócrates ligou-lhe a dizer que estava “depenadinha”» («O dia em que a mãe de Sócrates ficou “depenadinha”», Ana Henriques, Público, 13.10.2017, p. 4).

      Ah, sim, altamente cifrada. Quem, a não ser pessoas irritantemente perspicazes e com longos anos de experiência, ia decifrar que «depenadinha» significava estar sem dinheiro? Nem os dicionários registam nada, como sabemos. Mais de 4000 páginas disto deve ser obra... Antes a montanha de Sísifo.

 

[Texto 8222]

Helder Guégués às 08:52 | comentar | favorito
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12
Out 17

Como se traduz por aí

Ou uma lobotomia pré-frontal?

 

      O mais assustador, o mais feio, no processo da Operação Marquês, na minha opinião? A fotografia do primo de Sócrates, José Paulo Pinto de Sousa, que parece um dos Irmãos Marx. E por falar noutra coisa: como é que este tradutor vê «percussion caps» no original e verte por «cápsulas de precursão»? Choques nas polpas dos dedos resolviam o caso.

 

[Texto 8221]

Helder Guégués às 18:59 | comentar | favorito
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Especialistas de nada

Dos agora

 

     No programa Opinião Pública, da SIC, um opinador de Lisboa, António Catarino, reformado de 58 anos, entre muitos «complexo» e «complicado», sobre a acusação na Operação Marquês, falou «dos agora arguidos». Arguidos já o eram há muito — agora são acusados, pois o Ministério Público deduziu finalmente acusação contra vinte e oito arguidos.

 

[Texto 8220]

Helder Guégués às 12:07 | comentar | favorito
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Léxico: «bem-pensante»

Isso é o que vamos ver

 

      Algumas almas bem-pensantes ficaram muito impressionadas com o número de páginas do despacho final do processo da Operação Marquês. Como tem mais de 4000 páginas, inferem — nem precisaram de ler sequer uma página — que é uma coisa articuladíssima, fundamentadíssima, infalível, devastadora. Isso é mau, e também não é bom que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não registe o vocábulo bem-pensante.

 

[Texto 8219]

Helder Guégués às 08:52 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Incultura geral

Toda a gente sabe

 

     Ingo, austríaco que trabalha na Embaixada da Áustria em Lisboa, está agora na Rádio Renascença. Austríaco, Áustria... A apresentadora Carla Rocha não precisou de mais para supor que o seu convidado falasse «austríaco». Nem toda a ignorância anda escondida — como devia.

 

[Texto 8218]

Helder Guégués às 08:37 | comentar | ver comentários (8) | favorito
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11
Out 17

Léxico: «pescada-do-cabo»

Êxitos

 

      Ontem comi — previra, erradamente, que não seria grande coisa — lombos de pescada-do-cabo (Merluccius capensis/Merluccius paradoxus) em papelotes. Já ofereci (só os invejosos é que se lembram, aposto) uma pescada-do-alto ao Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora; agora, generoso, ofereço-lhe uma pescada-do-cabo. Não quero que lhe (e vos) falte nada.

 

[Texto 8217]

Helder Guégués às 17:38 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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E o politburo?

Fracassos

 

       Fracasso atrás de fracasso: a grande derrota do PCP nas autárquicas (e quando é que o tovarich Jerónimo vai para Pirescoxe tratar das galinhas?), o politburo que não chega ao Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, a previsão de abrandamento da economia em 2018... Olhem, escrevam Politbüro ou politbureau.

 

[Texto 8216]

Helder Guégués às 17:18 | comentar | favorito
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Léxico: «Salomonenses/salomonense»

E estes?

 

      Ah, sim, os Canacas encontraram refúgio no Vocabulário da Língua Portuguesa de Rebelo Gonçalves. A mesma sorte não tiveram os Salomonenses, os naturais das ilhas Salomão. Seremos incapazes de fazer um vocabulário melhor, quando aquele já tem dezenas de anos? Não teremos inteligência, instrumentos, vontade? De que temos medo?

 

[Texto 8215]

Helder Guégués às 16:20 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «Canacas/canaca»

Ah, com dois kk...

 

      «V., por exemplo, o estudo de Maurice Leenhardt sobre a sociedade melanésica e a concepção de pessoa entre os Canacas, onde o corpo não é concebido como forma e matéria isoladas do mundo natural (Leenhardt [1947] 1971)» (Itinerários: a investigação nos 25 anos do ICS, Manuel Villaverde Cabral et al. Lisboa: Imprensa de Ciências Sociais, 2008, p. 675).

    Sim, podemos ver esse estudo de Maurice Leenhardt; o que não podemos ver é os Canacas no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Por isso, numa obra, o tradutor escreveu Kanacas e pôs-lhe uma nota de rodapé... Um homem não é de ferro: com dois kk, quem ia conseguir resistir? E, contudo, e estranhamente, encontramo-lo no Dicionário de Inglês-Português e no Dicionário de Neerlandês-Português.

 

[Texto 8214]

Helder Guégués às 16:05 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Pretos e negros

Ideias feitas

 

      E por falar dos pobres Bugis: na TSF, ouvi anteontem uma entrevista ao encenador Rogério Carvalho, que é negro — ou será preto? É o que vamos descobrir já de seguida. Para a peça que tem no Teatro São Luiz, escolheu treze actores, todos negros — ou serão pretos? «O Jean Genet utiliza a palavra nègre, que é mais pejorativa do que noir, mas em português é o contrário. Há conotações diferentes quando dizemos negros ou pretos. Manteve o título Os Negros», pergunta-lhe Ana Sousa Dias. «O tradutor manteve e nós também. Em Portugal, a palavra “negro” passa por não ser pejorativa, mas a palavra correcta ao referir-se a uma pessoa preta é mesmo “preto”. A palavra que identificamos como pura e que se relaciona com as pessoas nascidas em África que tenham a cor preta é a palavra “preto”. À medida que as pessoas foram adquirindo uma aproximação à cultura ocidental, entraram numa alienação porque perderam as raízes, as ligações aos movimentos culturais. Quando os europeus chegaram a África, os pretos eram os pretos, depois foram-se transformando em negros. Enquanto para os franceses nègre corresponde a uma alienação, a palavra noir não o é. Nègre é um aculturado, que tem uma relação mais próxima com a civilização ocidental, com a cultura ocidental, mesmo no que se refere ao teatro ocidental. Isso significa que houve uma passagem de noir a nègre no sentido da alienação, é um movimento alienatório, uma perda de identidade. Na própria peça, Genet faz essa transposição de um ritual em que se procura aproximar dessa identidade.» Quem é ignorante, é a pergunta que se impõe quando lemos, a propósito de preto, isto no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «pejorativo designação preconceituosa, discriminatória ou ignorante de pessoa que tem a pele de cor escura, por elevada pigmentação». Por elevada pigmentação... Tem mais que ver com raça do que com cores: há pretos mais claros do que muitos brancos.

 

[Texto 8213]

Helder Guégués às 09:03 | comentar | favorito

Léxico: «Bugis»

Derrotados pelos dicionários

 

      «Indirectamente, o negócio continuou, via Macassar [Macáçar], nas Celebes do Sudeste, para onde se refugiaram muitas famílias católicas, portuguesas e malaias, depois da queda de Malaca. [...] Era uma pequena Malaca, com fortes laços macaenses, no país dos Bugis» (A Viagem de Comércio Macau-Manila, nos Séculos XVI a XIX, Benjamim Videira Pires. Lisboa: Centro de Estudos Marítimos de Macau, 1994, p. 33).

      Tudo o que é histórico vai sendo varrido dos dicionários, como se fosse sucata ou um peso morto. Pobres Bugis, derrotados pelos dicionários.

 

[Texto 8212]

Helder Guégués às 08:39 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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