11
Dez 17

Léxico: «galgamento»

Se até temos o verbo

 

      Afinal, não houve alarmismo nenhum nos avisos sobre a tempestade Ana. Um dos dez conselhos da Autoridade Nacional de Protecção Civil à população era este: «Ter especial cuidado na circulação junto da orla costeira e zonas ribeirinhas mais vulneráveis a galgamentos costeiros, evitando-se circular e permanecer nesses locais.» Qualquer engenheiro civil já ouviu algum vez o termo galgamento. Há até estudos, como este aqui, da autoria de Sofia Ferreira de Brito, sobre o galgamento em estruturas marítimas. Logo, o vocábulo tem de ser dicionarizado. No estudo citado, define-se assim o termo: «O galgamento de estruturas marítimas é um fenómeno caracterizado pelo transporte de massa de água sobre o seu coroamento.»

 

[Texto 8462]

Helder Guégués às 14:45 | comentar | ver comentários (6) | favorito
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10
Dez 17

Léxico: «suómi»

Faz-me espécie

 

      «Em termos cénicos, Kemi não corta a respiração a ninguém. Também não é uma cidade finlandesa qualquer. Fica no píncaro do Golfo de Bótnia, junto ao único lugar onde a Suécia e a nação suómi se encontram à beira-mar, umas meras centenas de quilómetros a sul do Círculo Polar Ártico» («Não é nenhum barco do amor mas quebra-gelo desde 1961», Marco C. Pereira, «B. I.»/Sol, 9.12.2017, p. 28).

      Isto de nomes de povos e línguas não estarem nos dicionários faz-me muita impressão. Ah, mas vejo que está — com a grafia suômi — no VOLP da Academia Brasileira de Letras. Querem ver que o Brasil tem mais relações com a Finlândia do que Portugal...

 

[Texto 8460]

Helder Guégués às 15:57 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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Léxico: «cone funerário»

Não neste caso

 

      «Os arqueólogos levantam a hipótese de o proprietário do túmulo ser um escriva chamado Maati, cujo nome surge junto ao da sua mulher, Mehi, em 50 cones funerários. Outra possibilidade é a de que pertença a uma pessoa chamada Djehuty Mes, cujo nome aparece esculpido numa das paredes, sobre quem se desconhece, porém, outros detalhes» («Descobertos dois túmulos milenares na cidade egípcia de Luxor», Rádio Renascença, 10.12.2017, 10h19).

      «Escriva»? Temos variantes assim, é verdade, mas não é o caso. É apenas escriba. Mas estamos aqui por causa de cone funerário, que podia estar nos dicionários.

 

[Texto 8458]

Helder Guégués às 14:48 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «molhanga»

É mais do que isso

 

      Certo cronista pergunta hoje no Público qual foi a última vez que comeu carne de porco assada. Felizmente dá a resposta, porque nós nunca saberíamos. Foi em 1977. No meu caso, foi precisamente ontem: na Pop Sandwich, na Frederico Arouca, aqui em Cascais. As sandes de carne assada nunca estão secas, e, no entanto, não têm molhanga nem manteiga. Estamos aqui por causa da molhanga: o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora remete para molhança, da qual diz que é a «grande quantidade de molho». Não é apenas a grande quantidade de molho, molhanga também é o molho muito espesso ou muito condimentado, e até o molho pouco apurado.

 

[Texto 8456]

Helder Guégués às 08:51 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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09
Dez 17

Léxico: «ultraciclismo/ultraciclista»

E somos os melhores

 

      «Ultraciclista Celso Fonseca bateu recentemente vários recordes de longa distância. [...] O português espera que a proeza abra perspectivas de carreira como praticante de ultraciclismo e também para promover campanhas de sensibilização em torno da saúde mental, já que tem assume [sic] sofrer de problemas psicológicos há vários anos» («País de Gales. Português passa de sem-abrigo a recordista mundial», Rádio Renascença, 9.12.2017, 10h22).

    Ultraciclismo e ultraciclista. Claro que existem, pois então, os nossos dicionários é que ainda não o sabem.

 

[Texto 8454]

Helder Guégués às 18:51 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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08
Dez 17

Léxico: «poteiro»

Discriminação

 

      «No século XVII, os ofícios ligados aos barros de Estremoz (oleiros de barro fino, oleiros de barro grosso, telheiros e poteiros) eram profissões exercidas por homens, certamente com algum contributo feminino na área da decoração e dos acabamentos, mas o de bonequeira, exercido por mulheres, não era considerado, como refere o Livro das Taxas dos Ofícios de Estremoz, 1675-1732» («Foi arte de mulheres anónimas, é Património da Humanidade», Carlos Dias, Público, 8.12.2017, p. 32).

     Telheiro muito bem, mas poteiro foi extinto pelo Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora.

 

[Texto 8452]

Helder Guégués às 21:56 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «mantélico»

Falta sempre alguma

 

      «Embora não possamos lá chegar, as erupções vulcânicas arrastam até nós, por exemplo, xenólitos — fragmentos de uma rocha encapsulada por outra rocha maior —, que permitem compreender o que por lá se passa. [...] A sua separação foi causada, entre outros factores, pela ascensão de uma pluma mantélica do manto profundo [fenómeno geológico que consiste na ascensão de um grande volume de magma], que quebrou a crosta muito mais frágil e fina» («O ouro das estrelas foi parar ao manto da Terra», Raquel Dias da Silva, Público, 8.12.2017, p. 31).

      Xenólito está no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, mas, valha a verdade, a jornalista explica-o de forma muito mais clara. Mantélico, porém, aquele dicionário não regista e, o que ainda é pior, está nos textos de apoio da Infopédia. Pontas soltas.

 

[Texto 8451]

Helder Guégués às 21:49 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «teque»

E até se usam mais

 

      «Maria Inácia começa por esticar o barro antes de desenhar a saia do próximo “Amor Cego”, um dos membros do figurado de Estremoz, com os olhos vendados. Barro sobre barro e sem recurso a cola, os bonecos lá ganham forma num artesanato à moda antiga, que utiliza apenas o canivete e o teque. O resto é feito com as mãos da artesã, como manda a tradição» («As irmãs de Estremoz que herdaram a tradição dos bonecos de barro», Roberto Dores, TSF, 7.12.2017, 10h59).

      É esse o nome, sim, teque, que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora define assim: «instrumento próprio para trabalhar o barro, geralmente de madeira ou plástico, que tem a forma de uma haste fina com uma extremidade que pode ter diferentes formas (curva, espalmada, etc.) consoante se pretenda moldar, escavar, sulcar, etc.». Na verdade, há teques duplos. Aquele dicionário diz-nos também que o étimo é o inglês tackle, e é provável, sim, embora este termo designe genericamente o equipamento requerido para a prática de uma tarefa ou desporto. É mais uma razão para não compreender porque não registam, por exemplo, crenco e quico, que vimos aqui e aqui.

 

[Texto 8448]

Helder Guégués às 14:18 | comentar | favorito
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Léxico: «melão»

Pois é

 

    «Quando vimos o que foi dito ao longo destes dois anos, por dirigentes do PSD e por comentadores que nunca esconderam a sua animosidade, relativamente à actual situação governativa, e, em particular, pela actuação do ministro Mário Centeno, e até tudo foi feito para o tentar derrubar, acho que certas pessoas – e aqui vou usar o vernáculo – estarão com um grande melão. Isto deita por terra o que foi dito nos últimos anos», disse o deputado António Filipe em entrevista à TSF. Camarada, não diga isso ao Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, que ele não sabe o que significa.

 

[Texto 8447]

Helder Guégués às 14:13 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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07
Dez 17

«Figurado»?

Bem cedo

 

      «Os “Bonecos de Estremoz” pertencem a uma arte de carácter popular, com mais de 300 anos de história, tendo sido o primeiro figurado do mundo a merecer a distinção de Património Cultural Imaterial da Humanidade, na sequência da candidatura apresentada pela Câmara Municipal de Estremoz, no distrito de Évora» («“Bonecos de Estremoz” aprovados como Património Cultural Imaterial da Humanidade», Rádio Renascença, 6.12.2017, 1h45).

      É, e pouco passa das 9 da manhã, a palavra do dia. Nunca eu tinha deparado com a palavra nestas funções. Será cópia de outra língua? (Os jornalistas/radialistas da Antena 1, com António Macedo à cabeça, têm de ir a Estremoz para comprovarem como os estremocenses pronunciam o topónimo.)

 

[Texto 8446]

Helder Guégués às 09:42 | comentar | favorito
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06
Dez 17

Léxico: «autoficção»

Ou nem tão novo

 

      «Depois dos livros de crónicas, finalmente chega ao mercado livreiro a novela de estreia do famoso músico dos Buraka Som Sistema, um livro que se apresenta como um “um romance musical” de auto-ficção» («‘Também os Brancos Sabem Daçar’ [sic] Kalaf Epalanga | Caminho», Destak, 6.12.2017, p. 12).

      Parece que os especialistas ainda não assentarem definitivamente numa definição do que é a autoficção (assentemos nós, pelo menos, na grafia), pelo que tive de ir ver o que se diz. Digamos que é um género híbrido, que mistura as experiências do autor com a ficção. Não parece nada de radicalmente novo, mas o neologismo foi cunhado por Serge Doubrovsky em 1977. É, dizem outros, a ficcionalização de factos e acontecimentos absolutamente reais. E precisaremos mesmo de «ficcionalização»?

 

[Texto 8445]

Helder Guégués às 23:46 | comentar | ver comentários (5) | favorito
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