23
Abr 17

Léxico: «dessalinizador»

Desalinhados

 

      «Manolo Vidal, porta-voz da Naviera Armas, empresa proprietária do ferry, afirmou que “uma perda de eletricidade” repentina causou o acidente, quando o barco estava a deixar Puerta de la Luz, na ilha da Grande Canária, na sexta-feira à noite. […] Em relação ao derrame de combustível, este está a escassos quilómetros da principal empresa dessalinadora que abastece de água potável a capital» («Ferry embate num porto das ilhas Canárias e causa 13 feridos», Lusa/TSF, 22.01.2017, 20h28).

    É o que se lê em vários jornais — e porquê? Ora, porque em castelhano é desaladora, e os jornalistas não pensam duas vezes. Nem uma, aliás. O verbo não é dessalinar, mas dessalinizar, logo é dessalinizadora. Há muitas décadas que há dessalinizadores (substantivo) e estações dessalinizadoras (adjectivo) em Portugal e no mundo, convinha que todos os dicionários, e nomeadamente o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, os registassem.

 

[Texto 7745]

Helder Guégués às 10:19 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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22
Abr 17

Léxico: «dirofilariose»

Doença do verme do coração

 

      «A husky encontrava-se infectada por uma doença parasitária, uma dirofilariose ou “verme do coração”, em que larvas transmitidas por mosquitos se acabam por alojar nas artérias pulmonares e no coração. Trata-se de uma patologia que exige repouso e cuidados» («Condenado a pena suspensa por enterrar cadela viva», Ana Henriques, Público, 22.04.2017, p. 17).

      Não deixa de ser estranho não a encontrarmos no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, porque, afinal, é uma doença parasitária grave que, além de cães e gatos, também atinge o ser humano. A etimologia diz tudo: é uma filariose (filaríase), isto é, uma doença provocada por filárias, e é diro, adjectivo antigo, do latim dīrus, que significa terrível, desumano, cruel.

 

[Texto 7744]

Helder Guégués às 14:50 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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21
Abr 17

Léxico: «alauita»

Usada, mas ignorada

 

      «Para Moscovo, Assad não é o mais importante, fundamental é reassumir-se como potência e preencher um vazio que os EUA começaram a abrir, como a União Soviética tinha preenchido no seu auge. Para o Irão, é mais difícil deixar cair o ditador sírio, mas o que conta mesmo é manter os alauitas (xiitas como os iranianos) no poder» («Assad sobreviveu a Obama e o novo mundo assenta-lhe bem», Sofia Lorena, Público, 23.01.2017, p. 21).

      Não o encontramos no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, isto quando está em muitos outros, e, naturalmente, nos dicionários de outras línguas. Atenção às duas acepções. E quem regista alauita, é claro, tem de registar alauismo.

 

[Texto 7742]

Helder Guégués às 12:08 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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20
Abr 17

Léxico: «descompasso ecológico»

Antes que seja tarde

 

      E a propósito de alterações climáticas e políticas de desenvolvimento sustentável: ontem ouvi por duas vezes a expressão descompasso ecológico. É o nome que se dá ao uso de recursos a velocidade superior à capacidade de regeneração e à criação de resíduos como CO2 a velocidade superior à capacidade de absorção, o que leva ao esgotamento de recursos. Quanto mais depressa for para os dicionários, menos provável — e menos legítimo — será os traidores da língua usarem a expressão inglesa ecological overshoot.

 

[Texto 7741]

Helder Guégués às 23:35 | comentar | ver comentários (1) | favorito

Léxico: «chocalheira-intermédia»

Toca a bulir

 

      Ah, os nomes comuns das plantas nos nossos dicionários... A mulher de Heidegger mandou Zittergras para Hannah Arendt... Que querida! Bem, mas o Zittergras desapareceu. É o nosso — e está nos dicionários — bole-bole, ou bule-bule. Só que também é conhecido por outros nomes comuns (o científico é Briza media), dos quais o mais curioso é chocalheira-intermédia, ausente dos dicionários. Ora esta! Aliás, também se lhe dá o nome de brisa, e muito bem, pois à mínima brisa toda ela treme. (Expressivo também em inglês, quaking grass.) Agora reparem: o mesmo para outros, mas o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não tem chocalheira-intermédia nem brisa, isto quando o Dicionário de Inglês-Português regista «brisa» nesta acepção. Isto carece de algum estudo aturado ou de algum referendo para ser consagrado nos dicionários, como alguns gostariam? Não fazem nem deixariam fazer, se tivessem poder para tal.

 

[Texto 7739]

Helder Guégués às 19:33 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «termossalino»

Incompreensível

 

      «O “caminho” do plástico no Atlântico norte até ao oceano Ártico foi seguido através de uma rede de 17.000 bóias com sensores que transmitem dados via satélite e permitiram confirmar que a poluição segue para norte levada pela chamada “circulação termossalina”, uma vasta corrente conhecida como o “tapete rolante oceânico” por ser responsável pela circulação de grandes massas de água temperada para norte, regulando o clima global e contribuindo para a oxigenação e distribuição de nutrientes nos oceanos» («Maré de lixo no Ártico», Lusa/TSF, 19.04.2017, 20h43).

     Então, num tempo em que se fala tanto, e com tanta razão, em alterações climáticas e em políticas de desenvolvimento sustentável, este termo, que se usa a par de termoalino, ouvido diariamente nas universidades e empregado em estudos, não vai para os dicionários? Vocabulário é conhecimento, e só a certos feiticeiros pode interessar manter estes vocábulos fora dos dicionários. Contrariemo-los.

 

[Texto 7738]

Helder Guégués às 11:27 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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Léxico: «nematocisto»

Se são sinónimos...

 

      «O estudo foi feito com duas espécies de alforrecas – animal aquático de corpo mole e gelatinoso, com tentáculos que, após o contacto, podem injetar uma espécie de espinho – muito perigosas que habitam na costa do Havai e da Austrália. […] Pelo contrário, a aplicação de água do mar “não gera a descarga das células urticantes, por isso este é o remédio recomendado para a picada das alforrecas [nas costas espanholas]”, acrescentaram» («Em Portugal basta água salgada para tratar as picadas das alforrecas», Lusa/TSF, 19.04.2017, 21h49).

    Alforreca, medusa e água-viva não são sinónimos? Pois pelo Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não se chega a perceber completamente. A definição mais pobre, mas talvez suficiente se houver remissões dos outros verbetes, é a de medusa: «forma de celenterado adaptada à vida errante, com aspecto de campânula, disco ou sino; alforreca». Cá está, remete para alforreca: «designação comum aos celenterados marinhos cifozoários, de corpo em forma de campânula, mole, gelatinoso e transparente, e órgãos urticantes capazes de provocar ardência e queimaduras quando em contacto com a pele humana». Este não remete para nenhum sinónimo, mas sabemos que há, pelo menos, outro, água-viva: «designação comum aos celenterados marinhos cifozoários, de corpo em forma de campânula, mole, gelatinoso e transparente, e órgãos urticantes capazes de provocar ardência e queimaduras quando em contacto com a pele humana; alforreca». Para ser útil, cada verbete tem de remeter para os outros dois sinónimos. Como seria igualmente útil saber-se que as células urticantes têm a designação de cnidócitos ou cnidoblastos (cujo prolongamento em ponta se chama cnidocílio, o sensor), capazes de ejectar uma pequena cápsula arredondada, um organelo intracelular, o nematocisto, que contém um filamento espiralado, uma espécie de espinho. Ora, se cnidócito e cnidoblasto estão no dicionário (mas a definição difere), nematocisto não o encontramos lá.

 

[Texto 7737]

Helder Guégués às 09:38 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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19
Abr 17

Léxico: «ergoftalmologia»

Absolutamente nada

 

  «Para Fernando Trancoso Vaz, do Grupo Português de Ergoftalmologia da Sociedade Portuguesa de Oftalmologia, o Síndrome da Fadiga Ocular com uso de computador, ou outros aparelhos digitais, é responsável por um número crescente de queixas de desconforto e cansaço ocular (astenopia) que motivam uma observação numa consulta de oftalmologia» («Sete em cada dez com fadiga visual», Destak, 19.04.2017, p. 4).

    Um termo destes não tem nada de técnico para estar registado somente no Dicionário de Termos Médicos da Porto Editora. Ou vão deixar desamparados os consulentes do principal dicionário?

 

[Texto 7735]

Helder Guégués às 11:22 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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18
Abr 17

Léxico: «psoriático»

É a oportunidade

 

      «Os medicamentos para as artrites reumatóide, idiopática juvenil, psoriática e as espondiloartrites passam a ser gratuitos para os doentes, uma vez que o Serviço Nacional de Saúde (SNS) vai comparticipá-los a 100%, segundo uma portaria publicada esta terça-feira» («Medicamentos para a artrite reumatóide passam a ser gratuitos em Maio», Rádio Renascença, 18.04.2017, 16h57).

      Há vários adjectivos relativos a psoríase. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não regista este, que só encontramos no Dicionário de Português-Alemão e no Dicionário de Português-Italiano. Pontas soltas.

 

[Texto 7734]

Helder Guégués às 20:22 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «acelerador linear»

Uma tentativa

 

      «​A Ordem dos Médicos denunciou que há uma grande carência de aceleradores lineares na região Centro» («Ordem dos Médicos denuncia carência de equipamentos de radioterapia no Centro», Rádio Renascença, 17.04.2017, 19h59).

    O meu sonho é que, ao consultar um dicionário, se encontrasse explicação, mínima que fosse, para quase todas as dúvidas. Há um artigo de apoio, extenso, na Infopédia em que se explica o que é um acelerador de partículas linear. Contudo, no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, só encontramos uma definição de acelerador de partículas em 79 caracteres. Há diversos tipos de aceleradores lineares, mas, no campo da medicina, proponho esta definição: «Equipamento de radioterapia usado para tratar com precisão tecidos ou órgãos neoplásicos.» Podemos melhorar esta definição?

 

[Texto 7733]

Helder Guégués às 10:42 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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