12
Dez 17

Sobre «patrulheiro» e «arvorado»

Olhem que não

 

      «Para este reforço do policiamento de visibilidade, a Polícia de Segurança Pública vai ter no terreno patrulheiros, elementos do trânsito, das Equipas de Intervenção Rápida, das Equipas de Prevenção e Reação Imediata, da investigação criminal (à civil) e de fiscalização, além dos elementos da Unidade Especial de Polícia, como o Corpo de Intervenção e Cinotécnica, e pessoal policial que está atualmente nos serviços administrativos» («PSP reforça policiamento a partir de terça-feira no âmbito da operação “Festas Seguras”», TSF, 11.12.2017, 17h10).

      De patrulheiro, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora só diz que é o «indivíduo que patrulha», o que me parece escasso. Outro termo ligado às forças de segurança é arvorado, que aquele dicionário define como o «soldado raso que exerce provisoriamente atribuições de cabo». Ora, na PSP, por exemplo, e talvez até noutras forças desta natureza, há arvorados. Ou seja, a definição tem de ser mais genérica e não pode estar no domínio MILITAR.

 

[Texto 8463]

Helder Guégués às 08:54 | comentar | ver comentários (1) | favorito
11
Dez 17

Léxico: «galgamento»

Se até temos o verbo

 

      Afinal, não houve alarmismo nenhum nos avisos sobre a tempestade Ana. Um dos dez conselhos da Autoridade Nacional de Protecção Civil à população era este: «Ter especial cuidado na circulação junto da orla costeira e zonas ribeirinhas mais vulneráveis a galgamentos costeiros, evitando-se circular e permanecer nesses locais.» Qualquer engenheiro civil já ouviu algum vez o termo galgamento. Há até estudos, como este aqui, da autoria de Sofia Ferreira de Brito, sobre o galgamento em estruturas marítimas. Logo, o vocábulo tem de ser dicionarizado. No estudo citado, define-se assim o termo: «O galgamento de estruturas marítimas é um fenómeno caracterizado pelo transporte de massa de água sobre o seu coroamento.»

 

[Texto 8462]

Helder Guégués às 14:45 | comentar | ver comentários (6) | favorito
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10
Dez 17

Léxico: «quebra-gelo»

Ora, não me parece

 

      «Com tal abundância de hipóteses, porque não um quebra-gelo?» («Não é nenhum barco do amor mas quebra-gelo desde 1961», Marco C. Pereira, «B. I.»/Sol, 9.12.2017, p. 30).

      Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, quebra-gelo é o «navio munido de um dispositivo para quebrar o gelo, facilitando a navegação nas regiões frias». Não sou engenheiro naval, mas não me parece que esteja correcta esta definição. A característica mais distintiva é a forma da proa, ao que creio. Aquele de que fala Marco C. Pereira e foi fotografado por Sara Wong parece-me igual a qualquer outro navio — mas o casco foi reforçado e foi carregado com 100 toneladas de água para conseguir levar a cabo o seu trabalho de quebrar o gelo do golfo da Bótnia.

 

[Texto 8461]

Helder Guégués às 16:27 | comentar | ver comentários (1) | favorito

Léxico: «suómi»

Faz-me espécie

 

      «Em termos cénicos, Kemi não corta a respiração a ninguém. Também não é uma cidade finlandesa qualquer. Fica no píncaro do Golfo de Bótnia, junto ao único lugar onde a Suécia e a nação suómi se encontram à beira-mar, umas meras centenas de quilómetros a sul do Círculo Polar Ártico» («Não é nenhum barco do amor mas quebra-gelo desde 1961», Marco C. Pereira, «B. I.»/Sol, 9.12.2017, p. 28).

      Isto de nomes de povos e línguas não estarem nos dicionários faz-me muita impressão. Ah, mas vejo que está — com a grafia suômi — no VOLP da Academia Brasileira de Letras. Querem ver que o Brasil tem mais relações com a Finlândia do que Portugal...

 

[Texto 8460]

Helder Guégués às 15:57 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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Léxico: «cone funerário»

Não neste caso

 

      «Os arqueólogos levantam a hipótese de o proprietário do túmulo ser um escriva chamado Maati, cujo nome surge junto ao da sua mulher, Mehi, em 50 cones funerários. Outra possibilidade é a de que pertença a uma pessoa chamada Djehuty Mes, cujo nome aparece esculpido numa das paredes, sobre quem se desconhece, porém, outros detalhes» («Descobertos dois túmulos milenares na cidade egípcia de Luxor», Rádio Renascença, 10.12.2017, 10h19).

      «Escriva»? Temos variantes assim, é verdade, mas não é o caso. É apenas escriba. Mas estamos aqui por causa de cone funerário, que podia estar nos dicionários.

 

[Texto 8458]

Helder Guégués às 14:48 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «podcast»

Seria mais informativo

 

      «A novidade começou por ser conhecida como “audioblogging”, só assumindo o nome podcast em 2004, num artigo do The Guardian. O termo é uma contracção dos termos broadcast e iPod, um aparelho da Apple que tinha revolucionado o áudio portátil. Aliás, a Apple é uma das maiores responsáveis pela popularização do formato, graças à criação de um segmento no software iTunes e de um directório na loja de conteúdos» («Os podcasts chegaram à idade maior», Diogo Queiroz de Andrade, Público, 5.12.2017, p. 28).

      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista apenas que vem «do inglês podcast, “idem”».

 

[Texto 8457]

Helder Guégués às 14:42 | comentar | favorito

Léxico: «molhanga»

É mais do que isso

 

      Certo cronista pergunta hoje no Público qual foi a última vez que comeu carne de porco assada. Felizmente dá a resposta, porque nós nunca saberíamos. Foi em 1977. No meu caso, foi precisamente ontem: na Pop Sandwich, na Frederico Arouca, aqui em Cascais. As sandes de carne assada nunca estão secas, e, no entanto, não têm molhanga nem manteiga. Estamos aqui por causa da molhanga: o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora remete para molhança, da qual diz que é a «grande quantidade de molho». Não é apenas a grande quantidade de molho, molhanga também é o molho muito espesso ou muito condimentado, e até o molho pouco apurado.

 

[Texto 8456]

Helder Guégués às 08:51 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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09
Dez 17

Léxico: «ultraciclismo/ultraciclista»

E somos os melhores

 

      «Ultraciclista Celso Fonseca bateu recentemente vários recordes de longa distância. [...] O português espera que a proeza abra perspectivas de carreira como praticante de ultraciclismo e também para promover campanhas de sensibilização em torno da saúde mental, já que tem assume [sic] sofrer de problemas psicológicos há vários anos» («País de Gales. Português passa de sem-abrigo a recordista mundial», Rádio Renascença, 9.12.2017, 10h22).

    Ultraciclismo e ultraciclista. Claro que existem, pois então, os nossos dicionários é que ainda não o sabem.

 

[Texto 8454]

Helder Guégués às 18:51 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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08
Dez 17

Léxico: «poteiro»

Discriminação

 

      «No século XVII, os ofícios ligados aos barros de Estremoz (oleiros de barro fino, oleiros de barro grosso, telheiros e poteiros) eram profissões exercidas por homens, certamente com algum contributo feminino na área da decoração e dos acabamentos, mas o de bonequeira, exercido por mulheres, não era considerado, como refere o Livro das Taxas dos Ofícios de Estremoz, 1675-1732» («Foi arte de mulheres anónimas, é Património da Humanidade», Carlos Dias, Público, 8.12.2017, p. 32).

     Telheiro muito bem, mas poteiro foi extinto pelo Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora.

 

[Texto 8452]

Helder Guégués às 21:56 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «mantélico»

Falta sempre alguma

 

      «Embora não possamos lá chegar, as erupções vulcânicas arrastam até nós, por exemplo, xenólitos — fragmentos de uma rocha encapsulada por outra rocha maior —, que permitem compreender o que por lá se passa. [...] A sua separação foi causada, entre outros factores, pela ascensão de uma pluma mantélica do manto profundo [fenómeno geológico que consiste na ascensão de um grande volume de magma], que quebrou a crosta muito mais frágil e fina» («O ouro das estrelas foi parar ao manto da Terra», Raquel Dias da Silva, Público, 8.12.2017, p. 31).

      Xenólito está no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, mas, valha a verdade, a jornalista explica-o de forma muito mais clara. Mantélico, porém, aquele dicionário não regista e, o que ainda é pior, está nos textos de apoio da Infopédia. Pontas soltas.

 

[Texto 8451]

Helder Guégués às 21:49 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «portão»

Brasileirismo? Hum...

 

      «Para mais, todas as versões do Panamera Sport Turismo oferecem, de série, o portão traseiro com abertura e fecho eléctricos e o banco posterior rebatível electricamente a partir da mala, na proporção 40/20/40, o que permite expandir a capacidade da bagageira até um máximo de 1.390 litros (1.295 litros na variante híbrida)» («Panamera Sport Turismo. Aí está a super carrinha [sic]», António Sousa Pereira, Observador, 2.03.2017).

      Já ando há algum tempo a ler e a ouvir a palavra portão para designar a porta traseira dos carros e talvez sobretudo de carrinhas. Como em inglês é tailgate, que é sobretudo «portão», foi só copiar. E, já que estamos aqui, vejo que, no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, a última acepção de «portão» é um brasileirismo, um sinónimo de «cancela». Há-de ser outro falso brasileirismo, pois na Beira Alta às cancelas já ouvi chamar portão.

 

[Texto 8449]

Helder Guégués às 19:50 | comentar | ver comentários (2) | favorito