28
Ago 17

Léxico: «pluma»

Pobreza

 

      «Há uma equipa de investigadores a tentar traçar a pluma do Douro na foz utilizando submarinos. A pluma, que se forma quando águas de diferentes densidades (como o rio e o mar) se encontram, tem uma espessura que varia entre os dois e dez metros e a sua forma está constantemente a mudar, consoante o vento e o caudal do rio. Esta massa de água localizada perto da costa é o principal modo de transporte de nutrientes — ou poluentes — dos rios para o oceano» («Seguindo a pluma do Douro (foz acima, foz abaixo) com submarinos autónomos», Beatriz Silva Pinto, Público, 18.08.2017, p. 18).

      Plumas destas é que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não tem. Nem outros dicionários, aliás.

 

[Texto 8108]

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24
Ago 17

Léxico: «sinalizar»

Pessoas e árvores

 

   «Madeira. Árvore que caiu não estava sinalizada» (Rádio Renascença, 15.08.2017, 19h22). Já segundo o Diário de Notícias da Madeira, «a árvore que caiu é um carvalho com 200 anos que estava sinalizado desde 2014». Estava, não estava. Já repararam no verbo? Sinalizar. Ora, na definição do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, sinalizar é «registar oficialmente, para seguimento institucional, pessoas em situação de risco, visando as suas protecção e segurança sociais (menores, idosos, vítimas de violência doméstica, etc.)». Têm de ir pensando numa nova redacção.

 

[Texto 8104]

Helder Guégués às 05:45 | comentar | ver comentários (5) | favorito
23
Ago 17

Léxico: «enchedeira»

Já extintas, para eles

 

      «“É uma obra de arte que só elas a fazem. Uma pinça, uma tesoura e fio nas mãos, e elas querem é trabalhar”, diz o artesão António Almeida. Ourives desde os nove anos, mas prefere que lhe chamem “filigraneiro”. Com as suas mãos cria a estrutura das filigranas, mas depois é preciso encontrar quem, com o fio que tem a espessura de um cabelo as possa encher. São as “enchedeiras”, cada vez menos e cada vez mais velhas» («Filigrana, uma moda em vias de extinção», Miguel Midões, TSF, 14.08.2017, 9h31).

      Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, morreram há muito, pois de enchedeira diz somente isto: «1. espécie de funil para encher chouriços; 2. mulher que enche chouriços».

 

[Texto 8103]

Helder Guégués às 05:30 | comentar | ver comentários (1) | favorito
21
Ago 17

Léxico: «galera»

Quem diria?

 

      Oi, galera, tudo na paz do Senhor? Quem é que hoje em dia sabe o que significa galera na acepção deste texto? «Conta Mário Lino: Tanganho era de origem modesta, mas não miserável. O seu pai tinha um negócio de aluguer de trens e galeras. O miúdo crescera entre os cavalos e acabaria a trabalhar para o maior mestre de equitação do país — Vitorino Fróis — que o aconselharia no treino do Favorito. Para se preparar para a Volta, José Tanganho levava o cavalo para a Foz do Arelho, saltava para uma das bateiras e remava pela lagoa enquanto o Favorito era obrigado a nadar e a seguir o barco com o objectivo de “ganhar pulmão”» («Tanganho: o herói do povo que ganhou a Volta a Portugal a cavalo», Carlos Cipriano, Público, 14.08.2017, p. 15).

      Sim, quem sabe? Quase ninguém, ou ninguém. Mais estranho é o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora ignorar a acepção de galera mais usada hoje em dia, derivada, por extensão de sentido, daqueloutra: veículo sem tracção própria que se liga a um camião ou tractor. Imperdoável.

 

[Texto 8100]

Helder Guégués às 06:30 | comentar | ver comentários (1) | favorito
08
Ago 17

Léxico: «peitoral»

Cavalos e cães

 

      «Em vigor desde 2009, a legislação aponta para a obrigatoriedade de os donos andarem com o animal na via pública com um açaimo funcional que não lhe permita comer nem morder e, mesmo assim, devidamente seguro com trela curta de até um metro de comprimento, que deve estar fixa a uma coleira ou a um peitoral» («Cães perigosos atacaram mais de 100 pessoas por mês», Rogério Matos, Jornal de Notícias, 8.08.2017, p. 5).

      Senhores lexicógrafos, peitoral não é apenas o arreio que cinge o peito do cavalo: também passou a designar, não se esqueçam, algo semelhante para os cães.

 

[Texto 8085]

Helder Guégués às 22:02 | comentar | ver comentários (1) | favorito
16
Jul 17

Acepção: «dezena»

Pouco católico

 

      «Maria do Castelo explica que o projecto é de cariz comunitário, uma vez que as “irmãs ensinaram os Amigos do Mosteiro a fazer Dezenas e nós, agora, ensinamos as pessoas”. Essas Dezenas são, posteriormente, colocadas em pequenos sacos juntamente com uma pagela adequada a cada Mistério do Terço» («Monjas de Belém. A obra que cresce no silêncio da natureza», Rosário Silva, Rádio Renascença, 14.07.2017, 11h44).

      Dezena, pois, mas não perguntem o que é ao Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. É claro que não se escreve com maiúscula inicial. Os jornalistas até são meninos para escreverem «deus» e «Dezena». Para não ir mais longe: no título do artigo está «natureza» com minúscula, quando é tradição e boa prática grafá-lo, nesta acepção, com maiúscula.

 

[Texto 8030]

Helder Guégués às 11:31 | comentar | ver comentários (1) | favorito
15
Jul 17

Acepção: «exoesqueleto»

Já foi

 

      «Os dois primeiros exoesqueletos produzidos em Portugal foram apresentados no Centro de Reabilitação do Norte, em Valadares, Vila Nova de Gaia, para recolher contributos dos profissionais daquela área» («Primeiros exoesqueletos portugueses apresentados no Centro de Reabilitação do Norte», Rádio Renascença, 14.07.2017, 18h25).

      Exoesqueleto (ou exosqueleto) há muito que já não é somente aquilo que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora e outros dicionários dizem.

 

[Texto 8027]

Helder Guégués às 09:32 | comentar | ver comentários (1) | favorito
12
Jul 17

Acepção: «cava»

Não é só no vestuário

 

      «O veículo precipita-se sobre o leito de seixos, com as pedras a serem projetadas no ar e a provocarem ruído nas cavas das rodas» (O Regresso dos Lobos, Sarah Hall. Tradução de Beatriz Sequeira. Queluz de Baixo: Jacarandá, 2016).

      Cavas das rodas (no original, wheel arches), sim. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não regista esta acepção de cava.

 

[Texto 8013]

Helder Guégués às 13:56 | comentar | ver comentários (2) | favorito

Acepção: «abater»

Estão a brincar

 

      «Os lança-granadas-foguete que foram roubados provavelmente não terão possibilidades de ser utilizados com eficácia. Porquê? Porque eles estavam seleccionados para serem o que nós dizemos em gíria militar abatidos», disse ontem o general Pina Monteiro, chefe de Estado-Maior-General das Forças Armadas. Gíria militar... Enfim, isso é o que ele pensa. «Suponha-se, p. ex., que o sujeito A. vai a conduzir um seu veículo automóvel a fim de o entregar numa sucata, para abater, e com cujo proprietário já negociara um preço x pela entrega» (Dano da Perda de Chance: Responsabilidade Civil, Durval Ferreira. Porto: Vida Económica – Editorial, 2016, p. 126). Mais espantoso, se possível, é o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não registar esta acepção – enviar veículo, embarcação ou certo material duradouro para destruição – do verbo abater. Caramba, por esta é que eu não esperava.

 

[Texto 8010]

Helder Guégués às 07:28 | comentar | ver comentários (1) | favorito
06
Jul 17

Acepção: «defeso»

Insustentável

 

      «O Arsenal contratou Lacazette (ex-Lyon), naquela que terá sido a maior compra alguma vez feita pelo clube inglês. Não foram revelados números, mas a imprensa fala em 53M€ no imediato, o que bate a ida de Bernardo Silva para o Man. City (50M€) como o maior negócio do defeso» («Lacazette chega ao Arsenal e passa Bernardo», Destak, 6.07.2017, p. 8).

      Senhores lexicógrafos, talvez esteja na hora de deixar de ignorar que defeso já não é apenas a «época do ano em que é proibido caçar ou pescar», como se lê no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora.

 

[Texto 7983]

Helder Guégués às 19:45 | comentar | ver comentários (3) | favorito