16
Jul 17

Acepção: «dezena»

Pouco católico

 

      «Maria do Castelo explica que o projecto é de cariz comunitário, uma vez que as “irmãs ensinaram os Amigos do Mosteiro a fazer Dezenas e nós, agora, ensinamos as pessoas”. Essas Dezenas são, posteriormente, colocadas em pequenos sacos juntamente com uma pagela adequada a cada Mistério do Terço» («Monjas de Belém. A obra que cresce no silêncio da natureza», Rosário Silva, Rádio Renascença, 14.07.2017, 11h44).

      Dezena, pois, mas não perguntem o que é ao Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. É claro que não se escreve com maiúscula inicial. Os jornalistas até são meninos para escreverem «deus» e «Dezena». Para não ir mais longe: no título do artigo está «natureza» com minúscula, quando é tradição e boa prática grafá-lo, nesta acepção, com maiúscula.

 

[Texto 8030]

Helder Guégués às 11:31 | comentar | ver comentários (1) | favorito
15
Jul 17

Acepção: «exoesqueleto»

Já foi

 

      «Os dois primeiros exoesqueletos produzidos em Portugal foram apresentados no Centro de Reabilitação do Norte, em Valadares, Vila Nova de Gaia, para recolher contributos dos profissionais daquela área» («Primeiros exoesqueletos portugueses apresentados no Centro de Reabilitação do Norte», Rádio Renascença, 14.07.2017, 18h25).

      Exoesqueleto (ou exosqueleto) há muito que já não é somente aquilo que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora e outros dicionários dizem.

 

[Texto 8027]

Helder Guégués às 09:32 | comentar | ver comentários (1) | favorito
12
Jul 17

Acepção: «cava»

Não é só no vestuário

 

      «O veículo precipita-se sobre o leito de seixos, com as pedras a serem projetadas no ar e a provocarem ruído nas cavas das rodas» (O Regresso dos Lobos, Sarah Hall. Tradução de Beatriz Sequeira. Queluz de Baixo: Jacarandá, 2016).

      Cavas das rodas (no original, wheel arches), sim. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não regista esta acepção de cava.

 

[Texto 8013]

Helder Guégués às 13:56 | comentar | ver comentários (2) | favorito

Acepção: «abater»

Estão a brincar

 

      «Os lança-granadas-foguete que foram roubados provavelmente não terão possibilidades de ser utilizados com eficácia. Porquê? Porque eles estavam seleccionados para serem o que nós dizemos em gíria militar abatidos», disse ontem o general Pina Monteiro, chefe de Estado-Maior-General das Forças Armadas. Gíria militar... Enfim, isso é o que ele pensa. «Suponha-se, p. ex., que o sujeito A. vai a conduzir um seu veículo automóvel a fim de o entregar numa sucata, para abater, e com cujo proprietário já negociara um preço x pela entrega» (Dano da Perda de Chance: Responsabilidade Civil, Durval Ferreira. Porto: Vida Económica – Editorial, 2016, p. 126). Mais espantoso, se possível, é o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não registar esta acepção – enviar veículo, embarcação ou certo material duradouro para destruição – do verbo abater. Caramba, por esta é que eu não esperava.

 

[Texto 8010]

Helder Guégués às 07:28 | comentar | ver comentários (1) | favorito
06
Jul 17

Acepção: «defeso»

Insustentável

 

      «O Arsenal contratou Lacazette (ex-Lyon), naquela que terá sido a maior compra alguma vez feita pelo clube inglês. Não foram revelados números, mas a imprensa fala em 53M€ no imediato, o que bate a ida de Bernardo Silva para o Man. City (50M€) como o maior negócio do defeso» («Lacazette chega ao Arsenal e passa Bernardo», Destak, 6.07.2017, p. 8).

      Senhores lexicógrafos, talvez esteja na hora de deixar de ignorar que defeso já não é apenas a «época do ano em que é proibido caçar ou pescar», como se lê no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora.

 

[Texto 7983]

Helder Guégués às 19:45 | comentar | ver comentários (3) | favorito
30
Jun 17

Léxico: «maçarico»

É impressionante

 

      É assim mesmo, e não precisamos de consultar o bruxo da Guiné para saber que será assim por muito tempo. Para não ir mais longe: onde é que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista a acepção de recruta, aprendiz no verbete maçarico? Não regista. «Os outros, infantaria, eram tropa da Metrópole e, por acréscimo, novatos — “maçaricos”, na gíria consagrada» (O Canto dos Fantasmas, João Aguiar. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1990, p. 151).

 

[Texto 7964]

Helder Guégués às 10:00 | comentar | ver comentários (1) | favorito
18
Mai 17

Léxico: «vinil»

Assim se fala

 

      «“Começámos a pensar que este acervo devia ser utilizado para fins educativos, culturais e para aqueles que hoje se interessam pelo vinil. Já não nos interessa ter isso em prateleiras e já andávamos a pensar onde pôr”, disse Rui Moreira, acrescentando que, “quando apareceu este parceiro”, a Câmara percebeu que seria uma boa opção ali instalar a fonoteca» («Porto terá fonoteca com mais de 30 mil vinis, metade doados pela Renascença», Rádio Renascença, 17.05.2017, 16h119).

    Esta específica acepção de vinil, disco fonográfico feito deste material, tem de ir para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora.

 

[Texto 7842]

Helder Guégués às 05:49 | comentar | ver comentários (1) | favorito
11
Mai 17

Léxico: «dendrito»

Não o procurem aí

 

      «A investigadora Maria Helena Braga desenvolveu uma bateria sólida mais segura do que as “tradicionais”, evitando curto-circuitos e explosões, capaz de armazenar mais energia, “não poluente” e produzida com materiais ecológicos. Esta inovação surge “da necessidade de se fazerem baterias seguras, sem electrólito (substância que se dissolve para originar uma solução que conduz electricidade) inflamável, que é, actualmente, utilizado nas baterias de ião lítio”, disse à agência Lusa a investigadora do Departamento de Engenharia Física da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP). Estas baterias agora desenvolvidas, para além dos eléctrodos sólidos, encontrados também nas baterias de ião de lítio, têm um electrólito em vidro, que impede a formação de dendritos (curto-circuitos internos). De acordo com a investigadora, de 45 anos, nas baterias de ião de lítio, os dendritos “crescem como lanças”, atravessando o separador que divide os dois eléctrodos sólidos e fazendo um curto-circuito que vai aquecer a bateria levando, eventualmente, à sua explosão» («Portuguesa cria bateria revolucionária», Rádio Renascença, 11.05.2017, 8h49).

    Não procurem estes dendritos nos dicionários, pois não os vão encontrar. O dentrito é uma estrutura filamentosa, uma minúscula fibra de lítio, que pode causar curto-circuitos, cujo nome, imagino, deriva da sua semelhança com alguma das acepções de dendrito, talvez o prolongamento ramificado do neurónio, também chamado celulípeto.

 

[Texto 7820]

Helder Guégués às 15:50 | comentar | ver comentários (3) | favorito
07
Mai 17

Léxico: «forquilha»

Corrija-se

 

      «Sob a ação das pinças de quatros pistões, que transmitem potência sem ser demasiado agressivas e sem que o ABS seja notório, mesmo nas travagens mais “à queima”, apoiando o peso do conjunto na forquilha bem afinada e que nos dá uma leitura muito boa do asfalto, a direção obrigou a algum esforço e mostrou uma tendência de querer “fechar” em inclinação, o que me obrigou a utilizar o guiador largo para contrariar essa força» («Ambição reforçada», Bruno Gomes, Motociclismo, n.º 313, Maio de 2017, p. 54).

      Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, só as bicicletas têm forquilha: «parte da bicicleta que termina a estrutura metálica do quadro, à frente, com duas hastes entre as quais se encaixa a roda dianteira; garfo». Mas não é assim, claro.

 

 

[Texto 7804]

Helder Guégués às 11:58 | comentar | ver comentários (1) | favorito
06
Mai 17

Léxico: «treliça»

É só acrescentar

 

      «O quadro em treliça [da Ducati Monster] que abraça o motor é bastante esguio e, juntamente com o totalmente novo braço oscilante, contribuiu para realçar o pedigree desportivo desta Monster» («Regresso às bases», Francisco Brandão Ferreira, Motociclismo, n.º 313, Maio de 2017, p. 40).

    Conhecemos outras treliças. Esta é uma estrutura de curtos segmentos tubulares de aço ou de liga leve que forma o quadro de alguns motociclos.

 

[Texto 7802]

Helder Guégués às 20:56 | comentar | ver comentários (1) | favorito
17
Abr 17

Léxico: «queima/queimada»

E sardinhas

 

   «​Homem morre na sequência de queimada em Sernancelhe» (Rádio Renascença, 17.04.2017, 19h43). Embora eu só quisesse lembrar que, espantosamente, os dicionários ainda não eliminaram uma acepção antiga de queimada para designar um cardume de sardinhas, na verdade, é uma boa oportunidade para dizer que o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) distingue queimada de queima: «Queimada – quando se usa o fogo para renovação de pastagens e eliminação de restolho e ainda, para eliminar sobrantes de exploração agrícola ou florestal e que estão cortados mas não amontoados.» «Queima – quando se utiliza o fogo para eliminar sobrantes de exploração agrícola ou florestais, que estão cortados e amontoados.»

 

[Texto 7732]

Helder Guégués às 23:45 | comentar | ver comentários (2) | favorito