17
Abr 17

Léxico: «queima/queimada»

E sardinhas

 

   «​Homem morre na sequência de queimada em Sernancelhe» (Rádio Renascença, 17.04.2017, 19h43). Embora eu só quisesse lembrar que, espantosamente, os dicionários ainda não eliminaram uma acepção antiga de queimada para designar um cardume de sardinhas, na verdade, é uma boa oportunidade para dizer que o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) distingue queimada de queima: «Queimada – quando se usa o fogo para renovação de pastagens e eliminação de restolho e ainda, para eliminar sobrantes de exploração agrícola ou florestal e que estão cortados mas não amontoados.» «Queima – quando se utiliza o fogo para eliminar sobrantes de exploração agrícola ou florestais, que estão cortados e amontoados.»

 

[Texto 7732]

Helder Guégués às 23:45 | comentar | ver comentários (2) | favorito

Léxico: «cadeia»

Cadeias boas e cadeias más

 

      «Uma aeronave despenhou-se ao final da manhã desta segunda-feira em Tires, Cascais, num parque de cargas e descargas de um supermercado da cadeia Lidl» («Cascais. Queda de aeronave em Tires faz cinco mortos», Rádio Renascença, 17.04.2017, 12h26).

     O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora tem várias cadeias, decerto, mas não esta, que faz muita falta.

 

[Texto 7731]

Helder Guégués às 23:22 | comentar | ver comentários (1) | favorito
16
Abr 17

«Bojarda», de novo

Com que então ironia...

 

      Sobre bojarda ainda há mais para dizer. Assim, no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, lê-se que o substantivo bojarda é a «variedade de pêra sumarenta e doce». Ora, o que regista Fr. Domingos Vieira no seu dicionário é que o adjectivo bojarda significa «que engana», acrescentando o exemplo da «pêra bojarda», «espécie de pêra que tem má aparência e bom sabor». Não é, contudo, o único problema deste verbete: falta ainda um sentido coloquial, ausência que explica, em parte, o erro que aqui vimos ontem de, a uma bomba, se dar o nome de «bujarda»... (Mas veio agora uma inventada maria-vai-com-as-outras sancionar o seu uso irónico...) Pergunto a mim mesmo que leitor inepto lia, naquele ou noutro dicionário, que uma das acepções é «pontapé violento» e não deduzia que também significa tirázio, bomba. Claro que já sabemos a resposta. Quanto ao étimo desta acepção, talvez seja italiano, como se diz, mas tenho dúvidas. Curiosa é a pista que nos deixa Joana Lopes Alves na obra A Linguagem dos Pescadores da Ericeira, quando afirma que bojarda é, ali, «forma de jogar o pião, atirando com força» (p. 201).

      Agora o que mais interessa: «Quando, por fim, conseguiu fazer a travessia para a Normandia (no Dia D mais 6 e com autorização do rei) pediu que o navio em que seguia “atirasse uma bojarda” aos alemães» (O Factor Churchill, Boris Johnson. Tradução de José Mendonça da Cruz. Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2015, p. 223). «— O nosso alferes devia ter levado uma bojarda. Então a disparar contra nós?! Se alguém lerpasse, não lhe queria estar na pele...» (A Primeira Coluna de Napainor, António S. Viana. Lisboa: Editorial Caminho, 1994, p. 91). «— Trezentos!?... — explodia o Dr. Faustino, como a responder a uma bojarda inimiga. — Você está doido ou quê? É que nem cem lá estão!...» (O Senhor Comendador: retratos de um Portugal de Abril, Cândido Ferreira. Lisboa: Padrões Culturais Editora, 2006, p. 116). «Depois foi caos: com bojardas de lança rocketes e de armas automáticas, os gajos lançaram-se num violentíssimo assalto, tentando apreender as armas deixadas pelos mortos e pelos muitos feridos, o que parece não terem conseguido» (Gostaria de Morrer Naquela Noite, Fernando Chiotte. Sintra: Zéfiro, 2005, p. 68). «Efectua-se o reagrupamento do pessoal e fazem-se os preparativos para o início da operação, enquanto a artilharia descarrega mais umas bojardas» (Dembos: a floresta do medo; Angola, 1969 a 1971, Carlos Augusto Rodrigues Ganhão. Lisboa: Terramar, 2007, p. 148). «Já não chegou ter de ir a pé por toda a zona das “sete curvas”, onde o inimigo gosta de presentear o pessoal com umas bojardas, e temos mais esta!» (O Despertar dos Combatentes: fotos com estórias em Angola, Joaquim Coelho. Lisboa: Clássica Editora, 2005, p. 275). «Vi uma bojarda esgalhar o imbondeiro do largo das viaturas» (O Que agora Me Inquieta, Carlos Coutinho. Lisboa: Livros Horizonte, 1985, p. 11). «Foi novamente dado o alarme e os dos morteiros e dos obuses, já reabastecidos, mandaram mais algumas bojardas para a mata» (Heróis do Capim, José Leon Machado. Edições Vercial, 2016). «Com tudo pronto e esclarecido, aí vamos nós, com a artilharia já a largar bojardas para os objectivos, não se percebendo bem para quê, a não ser que seja para avisar ou espantar a caça» (A Pátria ou a Vida, [Diamantino] Gertrudes da Silva. Viseu: Palimage Editores, 2005, p. 258). Deve chegar.

 

[Texto 7725]

Helder Guégués às 19:54 | comentar | ver comentários (1) | favorito
15
Abr 17

Léxico: «bateria»

Aceitem estas

 

      «A PSP apreendeu mais de 4.700 artigos pirotécnicos e de [...] 59 quilogramas de pólvora, numa operação de fiscalização a oito pirotecnias nos distritos de Braga, Porto e Viseu, realizada na quarta e na quinta-feira. […] Desta operação resultou a apreensão de 4.719 artigos pirotécnicos, “designadamente balonas, cabeças de foguete, foguetes e baterias”, e de 59 quilogramas de pólvora, que foram destruídos no local» («PSP apreendeu mais de 4700 artigos pirotécnicos», Rádio Renascença, 15.04.2017, 16h45).

      Pirotecnia, nesta acepção de fábrica onde se produzem artefactos pirotécnicos, já aqui tínhamos visto. Não tenho agora dúvidas de que tem uso relativamente disseminado. Basta pesquisar para encontrar Pirotecnia Oleirense, Pirotecnia das Beiras, Pirotecnia Minhota, etc. E bateria, neste sentido, para designar uma peça pirotécnica com vários disparos (16, 25, 36, etc.), também não está em todos os dicionários.

 

[Texto 7722]

Helder Guégués às 19:58 | comentar | ver comentários (1) | favorito
28
Mar 17

Léxico: «digressão»

Nem lúdica nem cultural

 

      «Britânica está a preocupar os fãs. Disse que não voltará a fazer digressões mundiais porque acha que “não é boa nisso”» («Adele», Correio da Manhã, 28.03.2017, p. 39).

      Nem com boa vontade podemos aceitar que se diga que é a segunda acepção de digressão que encontramos no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, «viagem que demora algum tempo e é geralmente de natureza lúdica ou cultural; passeio». Não. Uma digressão de um artista, de um cantor, é outra coisa, e merece, por si só, uma acepção à parte.

 

[Texto 7640]

Helder Guégués às 22:32 | comentar | ver comentários (5) | favorito

Léxico: «hipoxia»

Não é no sangue

 

      «Mas a morte dos corais não é exclusiva da Grande Barreira de Coral. Na semana passada, a revista Proceedings of the National Academy of Sciences [PNAS] publicou um estudo que mostra como a má qualidade da água pode degradar as zonas costeiras e originar níveis de oxigénio muito baixos (hipoxia), provocando assim “zonas mortas” e, por arrasto, os corais são afectados. A poluição (por águas de esgotos ou agrícolas) e o aquecimento global são as causas apontadas. […] Na costa portuguesa, onde os corais estão em águas temperadas, há três lugares com hipoxia assinalados no estudo de Andrew Altieri: a ria de Aveiro, o rio Mondego e a ria Formosa, segundo disse o investigador» («Corais. Estão a morrer e a culpa é nossa», Teresa Serafim, Público, 28.03.2017, p. 29).

      É claro que não se trata da única acepção registada no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «MEDICINA diminuição do teor de oxigénio no sangue». E mesmo quanto a esta acepção, os dicionários de língua inglesa falam de oxigénio nos tecidos, não no sangue (embora esteja directamente relacionado, naturalmente). No artigo, a acepção é um pouco diferente, e encontramo-la, por exemplo, nos Oxford Dictionaries: «Oxygen deficiency in a biotic environment.»

 

[Texto 7635]

Helder Guégués às 08:44 | comentar | favorito
18
Mar 17

Léxico: «deserto»

E se for outra congregação?

 

      «Sem que nada lhes fosse pedido, as pessoas organizaram-se em grupos que, rodando ao longo dos meses do ano, levam ao mosteiro [no Couço, Coruche] os mantimentos de que a comunidade precisa, para que esta não tenha de abandonar o seu deserto» («Monjas de Belém: “A nossa vida é um grito silencioso”», Mariana Pereira, Diário de Notícias, 18.03.2017, p. 5).

      Já aqui tínhamos visto esta acepção de deserto, e o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não diz nada de diferente: «lugar situado longe de qualquer povoação, onde os monges carmelitas viviam isolados, como os eremitas do cristianismo primitivo». Ora, no caso trata-se das Monjas de Belém — e vivem no seu deserto. Ou seja, será mais correcto não referir nenhuma congregação, ou, então, fazê-lo a título exemplificativo.

 

[Texto 7577]

Helder Guégués às 16:58 | comentar | ver comentários (1) | favorito
07
Mar 17

Léxico: «mocho»

Como é?

 

      «O gosto pelo ofício traz preocupações. O verdadeiro Queijo da Serra, aquele de [sic] goza de Denominação de Origem Protegida (DOP), está em risco, garante o pastor. “Não dão valor a este produto, pagam ao mesmo preço o leite das mochas, e este leite é melhor, e assim perde-se esta raça. Por isso é importante esta ida a Lisboa, para dar a perceber a importância destas ovelhas”, acrescenta [o pastor António Lameiras]» («Ovelhas “Fidalga” ou “Amarela” vão ao Chiado. Desfile alerta para extinção do Queijo da Serra», Liliana Carona, Rádio Renascença, 7.03.2017, 9h50).

      Até parece que o pastor está a afirmar que a raça se designa mocha, mas o artigo começa precisamente assim: «Um rebanho de ovelhas e um carneiro de raça bordaleira da Serra da Estrela é esperado em Lisboa para um desfile no Chiado, esta terça-feira.» Agora reparem no que se pode ler no verbete do adjectivo mocho no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «diz-se do animal que não tem armação porque lha cortaram ou porque nasceu sem ela, devendo tê-la». Porque lha cortaram ou porque nasceu sem ela, devendo tê-la... Então em qual destes casos está, por exemplo, a raça Suffolk, pode saber-se? É claro que a definição não está correcta.

 

[Texto 7539]

Helder Guégués às 12:00 | comentar | ver comentários (2) | favorito
04
Mar 17

«Transtemporal», uma acepção

Menos científico, na verdade

 

      O autor afirma, e bem, que o Livro do Apocalipse tem, ao mesmo tempo, um sentido temporal e um sentido transtemporal. Percebe-se perfeitamente: temporal, porque relata acontecimentos (exagerados?) coevos de João de Patmos, e transtemporal, porque revela ao leitor temeroso as desgraças vindouras, para lá do tempo, porque de todos os tempos. Interrogamos o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora e a resposta não tarda: transtemporal, «através da região ou do lobo temporal». Ora, há palavras além da medicina.

 

[Texto 7526]

Helder Guégués às 22:41 | comentar | ver comentários (1) | favorito

«Monstro», uma acepção

Uma acepção lixada

 

      «O trabalho dura 364 dias (um ano) e a fundamentação para a necessidade do ajuste directo foi “falta de recursos próprios”. Na falta de apanha-monstros próprios, a Junta da Encosta do Sol terá seis tarefeiros “fornecidos” pela empresa ScorDesp para levarem a cabo a tarefa. A pergunta que se impõe é: o que são estes “monstros”, que custam 30 euros por pessoa/dia para apanhar? O contrato não dá resposta. Serão monos?...» («Mão-de-obra para recolha de “monstros”», S. S., Público, 4.03.2017, p. 8).

   É o jornalista a armar-se em engraçado (e a falhar no intento). A verdade é que, se consultarmos alguns dicionários, e entre os quais o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, nem sequer o verbete mono tem esta específica acepção. Neste dicionário, o que se diz de mono é que se trata do «objecto sem valor a que não se sabe o que fazer», mas os monstros, palavra que os autarcas gostam muito de usar (mas têm desculpa, pois também são eles que resolvem o problema), são muito mais do que isso.

 

[Texto 7524]

Helder Guégués às 09:37 | comentar | ver comentários (1) | favorito