28
Mar 17

Léxico: «hipoxia»

Não é no sangue

 

      «Mas a morte dos corais não é exclusiva da Grande Barreira de Coral. Na semana passada, a revista Proceedings of the National Academy of Sciences [PNAS] publicou um estudo que mostra como a má qualidade da água pode degradar as zonas costeiras e originar níveis de oxigénio muito baixos (hipoxia), provocando assim “zonas mortas” e, por arrasto, os corais são afectados. A poluição (por águas de esgotos ou agrícolas) e o aquecimento global são as causas apontadas. […] Na costa portuguesa, onde os corais estão em águas temperadas, há três lugares com hipoxia assinalados no estudo de Andrew Altieri: a ria de Aveiro, o rio Mondego e a ria Formosa, segundo disse o investigador» («Corais. Estão a morrer e a culpa é nossa», Teresa Serafim, Público, 28.03.2017, p. 29).

      É claro que não se trata da única acepção registada no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «MEDICINA diminuição do teor de oxigénio no sangue». E mesmo quanto a esta acepção, os dicionários de língua inglesa falam de oxigénio nos tecidos, não no sangue (embora esteja directamente relacionado, naturalmente). No artigo, a acepção é um pouco diferente, e encontramo-la, por exemplo, nos Oxford Dictionaries: «Oxygen deficiency in a biotic environment.»

 

[Texto 7635]

Helder Guégués às 08:44 | comentar | favorito
18
Mar 17

Léxico: «deserto»

E se for outra congregação?

 

      «Sem que nada lhes fosse pedido, as pessoas organizaram-se em grupos que, rodando ao longo dos meses do ano, levam ao mosteiro [no Couço, Coruche] os mantimentos de que a comunidade precisa, para que esta não tenha de abandonar o seu deserto» («Monjas de Belém: “A nossa vida é um grito silencioso”», Mariana Pereira, Diário de Notícias, 18.03.2017, p. 5).

      Já aqui tínhamos visto esta acepção de deserto, e o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não diz nada de diferente: «lugar situado longe de qualquer povoação, onde os monges carmelitas viviam isolados, como os eremitas do cristianismo primitivo». Ora, no caso trata-se das Monjas de Belém — e vivem no seu deserto. Ou seja, será mais correcto não referir nenhuma congregação, ou, então, fazê-lo a título exemplificativo.

 

[Texto 7577]

Helder Guégués às 16:58 | comentar | ver comentários (1) | favorito
07
Mar 17

Léxico: «mocho»

Como é?

 

      «O gosto pelo ofício traz preocupações. O verdadeiro Queijo da Serra, aquele de [sic] goza de Denominação de Origem Protegida (DOP), está em risco, garante o pastor. “Não dão valor a este produto, pagam ao mesmo preço o leite das mochas, e este leite é melhor, e assim perde-se esta raça. Por isso é importante esta ida a Lisboa, para dar a perceber a importância destas ovelhas”, acrescenta [o pastor António Lameiras]» («Ovelhas “Fidalga” ou “Amarela” vão ao Chiado. Desfile alerta para extinção do Queijo da Serra», Liliana Carona, Rádio Renascença, 7.03.2017, 9h50).

      Até parece que o pastor está a afirmar que a raça se designa mocha, mas o artigo começa precisamente assim: «Um rebanho de ovelhas e um carneiro de raça bordaleira da Serra da Estrela é esperado em Lisboa para um desfile no Chiado, esta terça-feira.» Agora reparem no que se pode ler no verbete do adjectivo mocho no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «diz-se do animal que não tem armação porque lha cortaram ou porque nasceu sem ela, devendo tê-la». Porque lha cortaram ou porque nasceu sem ela, devendo tê-la... Então em qual destes casos está, por exemplo, a raça Suffolk, pode saber-se? É claro que a definição não está correcta.

 

[Texto 7539]

Helder Guégués às 12:00 | comentar | ver comentários (2) | favorito
04
Mar 17

«Transtemporal», uma acepção

Menos científico, na verdade

 

      O autor afirma, e bem, que o Livro do Apocalipse tem, ao mesmo tempo, um sentido temporal e um sentido transtemporal. Percebe-se perfeitamente: temporal, porque relata acontecimentos (exagerados?) coevos de João de Patmos, e transtemporal, porque revela ao leitor temeroso as desgraças vindouras, para lá do tempo, porque de todos os tempos. Interrogamos o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora e a resposta não tarda: transtemporal, «através da região ou do lobo temporal». Ora, há palavras além da medicina.

 

[Texto 7526]

Helder Guégués às 22:41 | comentar | ver comentários (1) | favorito

«Monstro», uma acepção

Uma acepção lixada

 

      «O trabalho dura 364 dias (um ano) e a fundamentação para a necessidade do ajuste directo foi “falta de recursos próprios”. Na falta de apanha-monstros próprios, a Junta da Encosta do Sol terá seis tarefeiros “fornecidos” pela empresa ScorDesp para levarem a cabo a tarefa. A pergunta que se impõe é: o que são estes “monstros”, que custam 30 euros por pessoa/dia para apanhar? O contrato não dá resposta. Serão monos?...» («Mão-de-obra para recolha de “monstros”», S. S., Público, 4.03.2017, p. 8).

   É o jornalista a armar-se em engraçado (e a falhar no intento). A verdade é que, se consultarmos alguns dicionários, e entre os quais o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, nem sequer o verbete mono tem esta específica acepção. Neste dicionário, o que se diz de mono é que se trata do «objecto sem valor a que não se sabe o que fazer», mas os monstros, palavra que os autarcas gostam muito de usar (mas têm desculpa, pois também são eles que resolvem o problema), são muito mais do que isso.

 

[Texto 7524]

Helder Guégués às 09:37 | comentar | ver comentários (1) | favorito
01
Mar 17

«Pendura», uma acepção

Olhem que não

 

      «O seu enfant terrible, o cavaleiro do LSD, vendedor de ilusões psicadélicas em pastilhas prontas a derreter debaixo da língua, encontrava-se displicentemente sentado no seu monstro de duas rodas, uma bota apoiada no chão e a outra atravessada por cima do banco, recostado no ferro que servia de encosto no lugar do pendura» (O Último Ano em Luanda, Tiago Rebelo. Alfragide: Asa, 9.ª ed., 2013, p. 36).

   Pendura numa moto, pois claro, mas o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora só regista «num automóvel, pessoa que ocupa o lugar ao lado do condutor».

 

[Texto 7520]

Helder Guégués às 23:15 | comentar | ver comentários (1) | favorito
23
Fev 17

«Bater», uma acepção

Repito: um trabalho contínuo

 

      «Já em Faro, foi José Pontes que aceitou bater à máquina a tese de final de curso do Zeca: “Implicações Substancialistas da Filosofia Sartriana”. O Pontes nunca tinha ouvido falar de Sartre, mas dedicou-se ao trabalho. Durante duas semanas, uma hora por dia, depois das 17h, Zeca Afonso ia até à Caixa Agrícola, onde José Pontes estava empregado. Ele ditava; o Pontes escrevia» («Zeca Afonso, o professor que não usava gravata e estava do lado dos alunos», Joana Carvalho Reis, TSF, 23.02.2017, 7h04).

      Ora cá está uma acepção vulgaríssima do verbo bater, sinónima de dactilografar, que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não regista.

 

[Texto 7500]

Helder Guégués às 08:59 | comentar | ver comentários (5) | favorito
21
Fev 17

«Luz», uma acepção

Na sombra

 

      «Mais de oito mil portugueses produzem luz para autoconsumo» (Ana Brito, Público, 20.02.2017, p. 18). Luz por electricidade é usado todos os dias e por quase todos os falantes — e não está nos dicionários. Não devia estar?

 

[Texto 7494]

Helder Guégués às 08:50 | comentar | ver comentários (2) | favorito
20
Fev 17

«Cabelo», uma acepção

Por um cabelo

 

      «Os fugitivos, que continuam a monte, recorreram à técnica do cabelo, em que se utiliza um fio metálico. Com esse fio, terão serrado duas barras de ferro, passando para o exterior da cela» (Rita Soares, noticiário das 7 da manhã, Antena 1). Ou cabelo americano: «Na noite do passado domingo, no Estabelecimento Prisional do Linhó, evadiram-se os primeiros reclusos de 2007. Os dois cidadãos brasileiros serraram as grades com um cabelo americano, nome dado a um fio de corte, e com ajuda de cordas passaram os muros» («Prisões. Carregueira é o único estabelecimento sem fugas», José Bento Amaro, Público, 14.01.2007, p. 3). Nos dicionários, nem rasto.

 

[Texto 7493]

Helder Guégués às 21:27 | comentar | ver comentários (2) | favorito
09
Ago 16

Léxico: «pateira»

Não cair como um pato

 

      Boa sugestão, esta do Observador: uma visita à Vila Sassetti, em Sintra, e, de seguida, uma ida até ao Parque da Pena. Aqui, uma visita aos vários lagos. «Nos lagos surgem duas estruturas de abrigo para aves aquáticas (pateiras), cuja arquitectura invoca as duas mais imponentes construções dos domínios de D. Fernando II: o Castelo dos Mouros e o Palácio da Pena» («Os 20 segredos de Sintra», Simone Carvalho, Observador, 7.08.2016).

      Conhecia a palavra, não conhecia a acepção. Estará certa? Adalberto Alves, no Dicionário de Arabismos da Língua Portuguesa (Lisboa: INCM, 2013, p. 695), de pateira diz, para o que aqui nos interessa, que é a «lagoa ou pântano onde existem patos». Ora, a jornalista afirma que as estruturas de abrigo para aves aquáticas se chamam pateiras. Confusão ou é mesmo outra acepção? Cá está mais um caso em que não tenho certezas, mas apenas dúvidas. Na Aguçadoura, até podem esperar que eu solucione tudo (ao passo que o contributo que eles dão é mandar bocas com pseudónimo patusco), mas o meu mérito também está, não raras vezes, em duvidar.

 

[Texto 7013]

Helder Guégués às 13:11 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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