16
Jan 18

Léxico: «emergente»

Não vem à superfície

 

      Hoje ouvi um médico, na Antena 1, a propósito do surto da gripe, falar de casos urgentes e de casos emergentes. Parece-me que é a primeira vez que deparo com a palavra com este sentido. Não creiam que é a segunda acepção («que surge ou advém inesperadamente») do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Nada. É uma acepção médica, enfim, de uso na comunidade médica: relativo a emergência ou que tem carácter de emergência. Dicionários fora dos dicionários.

 

[Texto 8590]

Helder Guégués às 22:51 | comentar | ver comentários (4) | favorito
28
Nov 17

Léxico: «tolde»

Estamos na época dela

 

      «Isabel Sousa, de 43 anos, vai puxando o toldo para que nenhuma azeitona se perca no chão, e atesta a qualidade do fruto. “Temos bastante e boa azeitona e bem grandinha. E com este tempo apanha-se bem”, diz à Renascença. O trabalho não é difícil. “Não custa nada, porque a máquina ajuda a varejar. A azeitona cai toda no tolde e é só apanhar”, conta Isabel, explicando que “das árvores pequeninas, a azeitona é apanhada directamente com as mãos, porque não convém andar a bater”» («Há mais azeitona do que a esperada. Compradores estrangeiros oferecem preços aliciantes», Olímpia Mairos, Rádio Renascença, 28.11.2017, 9h42).

      Nesta acepção, sempre ouvi «tolde» e não «toldo». O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora limita-se a remeter de tolde para toldo, mas faz mal, porque não se pode afirmar que a definição deste — «pano de lona ou qualquer outra cobertura que sirva para abrigar do sol ou da chuva» — contempla a acepção em causa.

 

[Texto 8410]

Helder Guégués às 12:13 | comentar | ver comentários (1) | favorito
06
Out 17

Acepção «ilha»

Tomem estas duas

 

      «O Ministério Público (MP) acusou 18 pessoas por tráfico de droga, em “ilhas” de Vila Nova de Gaia (bairros típicos do Porto), e posse ilegal de arma, anunciou a Procuradoria-Geral Distrital do Porto. Segundo a acusação, os factos terão ocorrido entre 2013 e março deste ano e estão relacionados com a aquisição e comercialização de droga, nomeadamente canábis, cocaína, heroína e anfetaminas, a partir de “ilhas” de Gaia» («Ministério Público acusa 18 pessoas de tráfico de droga em “ilhas” de Gaia», Destak, 6.10.2017, p. 4).

      Uma ilha é mesmo um bairro? Não o diria assim; não o diz o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora; não o disse Leite de Vasconcelos, para quem eram «agrupamentos iguais, ou muito semelhantes, entre si, de moradias». Mas, reparo agora, aquele dicionário não acolhe acepções correntes de «ilha». Por exemplo, esta: «Peg e Harry estavam parados ao pé da ilha da cozinha, com sorrisos rasgados no rosto» (O Que Ela Deixou para Trás, Ellen Marie Wiseman. Tradução de Susana A. Lopes. S. Pedro do Estoril: Chá das Cinco, 2015). (No original, island counter.) E não só: não têm os supermercados e hipermercados ilhas, o nome dado aos frigoríficos horizontais com tampas deslizantes transparentes?

 

[Texto 8192]

Helder Guégués às 11:05 | comentar | ver comentários (5) | favorito
03
Out 17

Léxico: «outonada»

Vocação ou maldição?

 

      «As ondas de calor já não fustigam o Alentejo como em Junho, Julho e Agosto, mas as amplitudes térmicas (30º de máxima e 16º/18º de mínima) continuam elevadas. E ontem voltou o calor em força. Apenas os agricultores e os produtores pecuários persistem nas suas preocupações em relação à seca. Sabem que, se tardarem as “outonadas” (chuvas de Outono), as consequências serão dramáticas, sobretudo para o abeberamento do gado e para as sementeiras» («A seca alastra-se pelo país mas em pleno Alentejo desperdiça-se água», Carlos Dias, Público, 3.10.2017, p. 17).

      Eu sei, eu sei: repito-me muito, mas levei a peito melhorar o mundo, e quis logo começar — caprichos! — pelo Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Que, confirmem, não regista aquela acepção de «outonada» (e fazer compreender aos jornalistas que só em contextos metalinguísticos é que são precisas as aspas, alguma vez conseguirei?). «1. Outono; 2. tempo próprio do Outono; 3. colheita que se faz no Outono». Um fruto outonado, por exemplo, o que é? Sim, aqui já é adjectivo, que aquele dicionário não regista. Fruto outonado é o fruto atempado.

 

[Texto 8186]

Helder Guégués às 20:38 | comentar | ver comentários (7) | favorito
28
Ago 17

Léxico: «pluma»

Pobreza

 

      «Há uma equipa de investigadores a tentar traçar a pluma do Douro na foz utilizando submarinos. A pluma, que se forma quando águas de diferentes densidades (como o rio e o mar) se encontram, tem uma espessura que varia entre os dois e dez metros e a sua forma está constantemente a mudar, consoante o vento e o caudal do rio. Esta massa de água localizada perto da costa é o principal modo de transporte de nutrientes — ou poluentes — dos rios para o oceano» («Seguindo a pluma do Douro (foz acima, foz abaixo) com submarinos autónomos», Beatriz Silva Pinto, Público, 18.08.2017, p. 18).

      Plumas destas é que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não tem. Nem outros dicionários, aliás.

 

[Texto 8108]

Helder Guégués às 06:30 | comentar | ver comentários (4) | favorito
24
Ago 17

Léxico: «sinalizar»

Pessoas e árvores

 

   «Madeira. Árvore que caiu não estava sinalizada» (Rádio Renascença, 15.08.2017, 19h22). Já segundo o Diário de Notícias da Madeira, «a árvore que caiu é um carvalho com 200 anos que estava sinalizado desde 2014». Estava, não estava. Já repararam no verbo? Sinalizar. Ora, na definição do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, sinalizar é «registar oficialmente, para seguimento institucional, pessoas em situação de risco, visando as suas protecção e segurança sociais (menores, idosos, vítimas de violência doméstica, etc.)». Têm de ir pensando numa nova redacção.

 

[Texto 8104]

Helder Guégués às 05:45 | comentar | ver comentários (5) | favorito
23
Ago 17

Léxico: «enchedeira»

Já extintas, para eles

 

      «“É uma obra de arte que só elas a fazem. Uma pinça, uma tesoura e fio nas mãos, e elas querem é trabalhar”, diz o artesão António Almeida. Ourives desde os nove anos, mas prefere que lhe chamem “filigraneiro”. Com as suas mãos cria a estrutura das filigranas, mas depois é preciso encontrar quem, com o fio que tem a espessura de um cabelo as possa encher. São as “enchedeiras”, cada vez menos e cada vez mais velhas» («Filigrana, uma moda em vias de extinção», Miguel Midões, TSF, 14.08.2017, 9h31).

      Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, morreram há muito, pois de enchedeira diz somente isto: «1. espécie de funil para encher chouriços; 2. mulher que enche chouriços».

 

[Texto 8103]

Helder Guégués às 05:30 | comentar | ver comentários (1) | favorito
21
Ago 17

Léxico: «galera»

Quem diria?

 

      Oi, galera, tudo na paz do Senhor? Quem é que hoje em dia sabe o que significa galera na acepção deste texto? «Conta Mário Lino: Tanganho era de origem modesta, mas não miserável. O seu pai tinha um negócio de aluguer de trens e galeras. O miúdo crescera entre os cavalos e acabaria a trabalhar para o maior mestre de equitação do país — Vitorino Fróis — que o aconselharia no treino do Favorito. Para se preparar para a Volta, José Tanganho levava o cavalo para a Foz do Arelho, saltava para uma das bateiras e remava pela lagoa enquanto o Favorito era obrigado a nadar e a seguir o barco com o objectivo de “ganhar pulmão”» («Tanganho: o herói do povo que ganhou a Volta a Portugal a cavalo», Carlos Cipriano, Público, 14.08.2017, p. 15).

      Sim, quem sabe? Quase ninguém, ou ninguém. Mais estranho é o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora ignorar a acepção de galera mais usada hoje em dia, derivada, por extensão de sentido, daqueloutra: veículo sem tracção própria que se liga a um camião ou tractor. Imperdoável.

 

[Texto 8100]

Helder Guégués às 06:30 | comentar | ver comentários (1) | favorito
08
Ago 17

Léxico: «peitoral»

Cavalos e cães

 

      «Em vigor desde 2009, a legislação aponta para a obrigatoriedade de os donos andarem com o animal na via pública com um açaimo funcional que não lhe permita comer nem morder e, mesmo assim, devidamente seguro com trela curta de até um metro de comprimento, que deve estar fixa a uma coleira ou a um peitoral» («Cães perigosos atacaram mais de 100 pessoas por mês», Rogério Matos, Jornal de Notícias, 8.08.2017, p. 5).

      Senhores lexicógrafos, peitoral não é apenas o arreio que cinge o peito do cavalo: também passou a designar, não se esqueçam, algo semelhante para os cães.

 

[Texto 8085]

Helder Guégués às 22:02 | comentar | ver comentários (1) | favorito
16
Jul 17

Acepção: «dezena»

Pouco católico

 

      «Maria do Castelo explica que o projecto é de cariz comunitário, uma vez que as “irmãs ensinaram os Amigos do Mosteiro a fazer Dezenas e nós, agora, ensinamos as pessoas”. Essas Dezenas são, posteriormente, colocadas em pequenos sacos juntamente com uma pagela adequada a cada Mistério do Terço» («Monjas de Belém. A obra que cresce no silêncio da natureza», Rosário Silva, Rádio Renascença, 14.07.2017, 11h44).

      Dezena, pois, mas não perguntem o que é ao Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. É claro que não se escreve com maiúscula inicial. Os jornalistas até são meninos para escreverem «deus» e «Dezena». Para não ir mais longe: no título do artigo está «natureza» com minúscula, quando é tradição e boa prática grafá-lo, nesta acepção, com maiúscula.

 

[Texto 8030]

Helder Guégués às 11:31 | comentar | ver comentários (1) | favorito