18
Mai 17

Léxico: «vinil»

Assim se fala

 

      «“Começámos a pensar que este acervo devia ser utilizado para fins educativos, culturais e para aqueles que hoje se interessam pelo vinil. Já não nos interessa ter isso em prateleiras e já andávamos a pensar onde pôr”, disse Rui Moreira, acrescentando que, “quando apareceu este parceiro”, a Câmara percebeu que seria uma boa opção ali instalar a fonoteca» («Porto terá fonoteca com mais de 30 mil vinis, metade doados pela Renascença», Rádio Renascença, 17.05.2017, 16h119).

    Esta específica acepção de vinil, disco fonográfico feito deste material, tem de ir para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora.

 

[Texto 7842]

Helder Guégués às 05:49 | comentar | ver comentários (1) | favorito
11
Mai 17

Léxico: «dendrito»

Não o procurem aí

 

      «A investigadora Maria Helena Braga desenvolveu uma bateria sólida mais segura do que as “tradicionais”, evitando curto-circuitos e explosões, capaz de armazenar mais energia, “não poluente” e produzida com materiais ecológicos. Esta inovação surge “da necessidade de se fazerem baterias seguras, sem electrólito (substância que se dissolve para originar uma solução que conduz electricidade) inflamável, que é, actualmente, utilizado nas baterias de ião lítio”, disse à agência Lusa a investigadora do Departamento de Engenharia Física da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP). Estas baterias agora desenvolvidas, para além dos eléctrodos sólidos, encontrados também nas baterias de ião de lítio, têm um electrólito em vidro, que impede a formação de dendritos (curto-circuitos internos). De acordo com a investigadora, de 45 anos, nas baterias de ião de lítio, os dendritos “crescem como lanças”, atravessando o separador que divide os dois eléctrodos sólidos e fazendo um curto-circuito que vai aquecer a bateria levando, eventualmente, à sua explosão» («Portuguesa cria bateria revolucionária», Rádio Renascença, 11.05.2017, 8h49).

    Não procurem estes dendritos nos dicionários, pois não os vão encontrar. O dentrito é uma estrutura filamentosa, uma minúscula fibra de lítio, que pode causar curto-circuitos, cujo nome, imagino, deriva da sua semelhança com alguma das acepções de dendrito, talvez o prolongamento ramificado do neurónio, também chamado celulípeto.

 

[Texto 7820]

Helder Guégués às 15:50 | comentar | ver comentários (3) | favorito
07
Mai 17

Léxico: «forquilha»

Corrija-se

 

      «Sob a ação das pinças de quatros pistões, que transmitem potência sem ser demasiado agressivas e sem que o ABS seja notório, mesmo nas travagens mais “à queima”, apoiando o peso do conjunto na forquilha bem afinada e que nos dá uma leitura muito boa do asfalto, a direção obrigou a algum esforço e mostrou uma tendência de querer “fechar” em inclinação, o que me obrigou a utilizar o guiador largo para contrariar essa força» («Ambição reforçada», Bruno Gomes, Motociclismo, n.º 313, Maio de 2017, p. 54).

      Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, só as bicicletas têm forquilha: «parte da bicicleta que termina a estrutura metálica do quadro, à frente, com duas hastes entre as quais se encaixa a roda dianteira; garfo». Mas não é assim, claro.

 

 

[Texto 7804]

Helder Guégués às 11:58 | comentar | ver comentários (1) | favorito
06
Mai 17

Léxico: «treliça»

É só acrescentar

 

      «O quadro em treliça [da Ducati Monster] que abraça o motor é bastante esguio e, juntamente com o totalmente novo braço oscilante, contribuiu para realçar o pedigree desportivo desta Monster» («Regresso às bases», Francisco Brandão Ferreira, Motociclismo, n.º 313, Maio de 2017, p. 40).

    Conhecemos outras treliças. Esta é uma estrutura de curtos segmentos tubulares de aço ou de liga leve que forma o quadro de alguns motociclos.

 

[Texto 7802]

Helder Guégués às 20:56 | comentar | ver comentários (1) | favorito
17
Abr 17

Léxico: «queima/queimada»

E sardinhas

 

   «​Homem morre na sequência de queimada em Sernancelhe» (Rádio Renascença, 17.04.2017, 19h43). Embora eu só quisesse lembrar que, espantosamente, os dicionários ainda não eliminaram uma acepção antiga de queimada para designar um cardume de sardinhas, na verdade, é uma boa oportunidade para dizer que o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) distingue queimada de queima: «Queimada – quando se usa o fogo para renovação de pastagens e eliminação de restolho e ainda, para eliminar sobrantes de exploração agrícola ou florestal e que estão cortados mas não amontoados.» «Queima – quando se utiliza o fogo para eliminar sobrantes de exploração agrícola ou florestais, que estão cortados e amontoados.»

 

[Texto 7732]

Helder Guégués às 23:45 | comentar | ver comentários (2) | favorito

Léxico: «cadeia»

Cadeias boas e cadeias más

 

      «Uma aeronave despenhou-se ao final da manhã desta segunda-feira em Tires, Cascais, num parque de cargas e descargas de um supermercado da cadeia Lidl» («Cascais. Queda de aeronave em Tires faz cinco mortos», Rádio Renascença, 17.04.2017, 12h26).

     O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora tem várias cadeias, decerto, mas não esta, que faz muita falta.

 

[Texto 7731]

Helder Guégués às 23:22 | comentar | ver comentários (1) | favorito
16
Abr 17

«Bojarda», de novo

Com que então ironia...

 

      Sobre bojarda ainda há mais para dizer. Assim, no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, lê-se que o substantivo bojarda é a «variedade de pêra sumarenta e doce». Ora, o que regista Fr. Domingos Vieira no seu dicionário é que o adjectivo bojarda significa «que engana», acrescentando o exemplo da «pêra bojarda», «espécie de pêra que tem má aparência e bom sabor». Não é, contudo, o único problema deste verbete: falta ainda um sentido coloquial, ausência que explica, em parte, o erro que aqui vimos ontem de, a uma bomba, se dar o nome de «bujarda»... (Mas veio agora uma inventada maria-vai-com-as-outras sancionar o seu uso irónico...) Pergunto a mim mesmo que leitor inepto lia, naquele ou noutro dicionário, que uma das acepções é «pontapé violento» e não deduzia que também significa tirázio, bomba. Claro que já sabemos a resposta. Quanto ao étimo desta acepção, talvez seja italiano, como se diz, mas tenho dúvidas. Curiosa é a pista que nos deixa Joana Lopes Alves na obra A Linguagem dos Pescadores da Ericeira, quando afirma que bojarda é, ali, «forma de jogar o pião, atirando com força» (p. 201).

      Agora o que mais interessa: «Quando, por fim, conseguiu fazer a travessia para a Normandia (no Dia D mais 6 e com autorização do rei) pediu que o navio em que seguia “atirasse uma bojarda” aos alemães» (O Factor Churchill, Boris Johnson. Tradução de José Mendonça da Cruz. Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2015, p. 223). «— O nosso alferes devia ter levado uma bojarda. Então a disparar contra nós?! Se alguém lerpasse, não lhe queria estar na pele...» (A Primeira Coluna de Napainor, António S. Viana. Lisboa: Editorial Caminho, 1994, p. 91). «— Trezentos!?... — explodia o Dr. Faustino, como a responder a uma bojarda inimiga. — Você está doido ou quê? É que nem cem lá estão!...» (O Senhor Comendador: retratos de um Portugal de Abril, Cândido Ferreira. Lisboa: Padrões Culturais Editora, 2006, p. 116). «Depois foi caos: com bojardas de lança rocketes e de armas automáticas, os gajos lançaram-se num violentíssimo assalto, tentando apreender as armas deixadas pelos mortos e pelos muitos feridos, o que parece não terem conseguido» (Gostaria de Morrer Naquela Noite, Fernando Chiotte. Sintra: Zéfiro, 2005, p. 68). «Efectua-se o reagrupamento do pessoal e fazem-se os preparativos para o início da operação, enquanto a artilharia descarrega mais umas bojardas» (Dembos: a floresta do medo; Angola, 1969 a 1971, Carlos Augusto Rodrigues Ganhão. Lisboa: Terramar, 2007, p. 148). «Já não chegou ter de ir a pé por toda a zona das “sete curvas”, onde o inimigo gosta de presentear o pessoal com umas bojardas, e temos mais esta!» (O Despertar dos Combatentes: fotos com estórias em Angola, Joaquim Coelho. Lisboa: Clássica Editora, 2005, p. 275). «Vi uma bojarda esgalhar o imbondeiro do largo das viaturas» (O Que agora Me Inquieta, Carlos Coutinho. Lisboa: Livros Horizonte, 1985, p. 11). «Foi novamente dado o alarme e os dos morteiros e dos obuses, já reabastecidos, mandaram mais algumas bojardas para a mata» (Heróis do Capim, José Leon Machado. Edições Vercial, 2016). «Com tudo pronto e esclarecido, aí vamos nós, com a artilharia já a largar bojardas para os objectivos, não se percebendo bem para quê, a não ser que seja para avisar ou espantar a caça» (A Pátria ou a Vida, [Diamantino] Gertrudes da Silva. Viseu: Palimage Editores, 2005, p. 258). Deve chegar.

 

[Texto 7725]

Helder Guégués às 19:54 | comentar | ver comentários (1) | favorito
15
Abr 17

Léxico: «bateria»

Aceitem estas

 

      «A PSP apreendeu mais de 4.700 artigos pirotécnicos e de [...] 59 quilogramas de pólvora, numa operação de fiscalização a oito pirotecnias nos distritos de Braga, Porto e Viseu, realizada na quarta e na quinta-feira. […] Desta operação resultou a apreensão de 4.719 artigos pirotécnicos, “designadamente balonas, cabeças de foguete, foguetes e baterias”, e de 59 quilogramas de pólvora, que foram destruídos no local» («PSP apreendeu mais de 4700 artigos pirotécnicos», Rádio Renascença, 15.04.2017, 16h45).

      Pirotecnia, nesta acepção de fábrica onde se produzem artefactos pirotécnicos, já aqui tínhamos visto. Não tenho agora dúvidas de que tem uso relativamente disseminado. Basta pesquisar para encontrar Pirotecnia Oleirense, Pirotecnia das Beiras, Pirotecnia Minhota, etc. E bateria, neste sentido, para designar uma peça pirotécnica com vários disparos (16, 25, 36, etc.), também não está em todos os dicionários.

 

[Texto 7722]

Helder Guégués às 19:58 | comentar | ver comentários (1) | favorito
28
Mar 17

Léxico: «digressão»

Nem lúdica nem cultural

 

      «Britânica está a preocupar os fãs. Disse que não voltará a fazer digressões mundiais porque acha que “não é boa nisso”» («Adele», Correio da Manhã, 28.03.2017, p. 39).

      Nem com boa vontade podemos aceitar que se diga que é a segunda acepção de digressão que encontramos no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, «viagem que demora algum tempo e é geralmente de natureza lúdica ou cultural; passeio». Não. Uma digressão de um artista, de um cantor, é outra coisa, e merece, por si só, uma acepção à parte.

 

[Texto 7640]

Helder Guégués às 22:32 | comentar | ver comentários (5) | favorito

Léxico: «hipoxia»

Não é no sangue

 

      «Mas a morte dos corais não é exclusiva da Grande Barreira de Coral. Na semana passada, a revista Proceedings of the National Academy of Sciences [PNAS] publicou um estudo que mostra como a má qualidade da água pode degradar as zonas costeiras e originar níveis de oxigénio muito baixos (hipoxia), provocando assim “zonas mortas” e, por arrasto, os corais são afectados. A poluição (por águas de esgotos ou agrícolas) e o aquecimento global são as causas apontadas. […] Na costa portuguesa, onde os corais estão em águas temperadas, há três lugares com hipoxia assinalados no estudo de Andrew Altieri: a ria de Aveiro, o rio Mondego e a ria Formosa, segundo disse o investigador» («Corais. Estão a morrer e a culpa é nossa», Teresa Serafim, Público, 28.03.2017, p. 29).

      É claro que não se trata da única acepção registada no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «MEDICINA diminuição do teor de oxigénio no sangue». E mesmo quanto a esta acepção, os dicionários de língua inglesa falam de oxigénio nos tecidos, não no sangue (embora esteja directamente relacionado, naturalmente). No artigo, a acepção é um pouco diferente, e encontramo-la, por exemplo, nos Oxford Dictionaries: «Oxygen deficiency in a biotic environment.»

 

[Texto 7635]

Helder Guégués às 08:44 | comentar | favorito