09
Mai 17

«Retratação/retractação»

Não está desligado

 

      «“Se viram o meu monólogo, sabem que eu estava um pouco chateado porque Donald Trump insultou um dos meus amigos. Por isso, retribuí com algumas hipóteses de insultos para o Presidente. E não me arrependo disso. Acho que ele sabe tomar conta dele [sic] — eu tenho piadas; ele tem os códigos das armas nucleares. É uma luta equilibrada. Mas, apesar de voltar a fazer o mesmo, desta vez mudaria algumas palavras que foram mais rudes do que era preciso”, disse o humorista [Stephen Colbert], no que parecia ser o início de uma retratação» («A boca de Donald Trump deixou Stephen Colbert em apuros», Alexandre Martins, Público, 8.05.2017, p. 18).

      É sempre erro, mas no Público é simplesmente imperdoável. Repito: im-per-do-á-vel. A meritória batalha contra o Acordo Ortográfico de 1990 que empreendeu também faz impender sobre o Público, a meu ver, a responsabilidade de usar melhor, usar correctamente, a ortografia que defende com tanto denodo e veemência.

 

[Texto 7811]

Helder Guégués às 10:40 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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04
Mai 17

O AO90 desinterpretado

Mais uma machadada

 

      É só uma coisinha, mas a língua é feita de uma multiplicidade de coisinhas. A Rádio Renascença pediu a Sara de Almeida Leite que «desfizesse alguns mitos» sobre o Acordo Ortográfico de 1990. Mitos, enfim... À pergunta sobre se passa a ser obrigatório escrever os nomes das ruas e das disciplinas com minúscula, respondeu Sara de Almeida Leite: «Não. O uso de minúscula, nesses casos, é opcional. Assim, quem quiser pode continuar a escrever “Avenida da Liberdade” e “Matemática”, em vez de “avenida da liberdade” e “matemática”» («Oito mitos sobre o acordo ortográfico», Marta Grosso, 4.05.2017, 18h03). Espero que pouca gente menos fadada para a língua leia o texto, ou vamos ver mais vezes «avenida da liberdade», «avenida mário soares», e por aí fora. Para já, Marta Grosso, corrija, se faz favor, que isso não está escrito na pedra. Quantas vezes já eu li que «o 25 de abril» trouxe isto e aquilo. Agora, pode piorar um pouco.

 

[Texto 7790]

Helder Guégués às 19:25 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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Como se escreve por aí

Escolham — se puderem

 

      Na Rádio Renascença: «Ecrãs tácteis podem provocar atrasos na fala das crianças» (4.05.2017, 8h13). Na TSF: «Estudo: Écrans táteis podem causar atrasos na fala das crianças» (4.05.2017, 11h21).

 

[Texto 7786]

Helder Guégués às 15:34 | comentar | favorito
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11
Fev 17

«Cavalo de batalha/cavalo-de-batalha»

Pouco avisada eliminação

 

      «O tema da avaliação dos professores acabou em Portugal. Quem o diz é a ex-ministra da Educação Maria de Lurdes Rodrigues, que, precisamente, fez da avaliação de professores o seu cavalo-de-batalha» («Maria de Lurdes Rodrigues diz que a avaliação de professores acabou em Portugal», Clara Viana, Público, 11.02.2017, p. 14).

      Muito bem, é isso mesmo: cavalo-de-batalha. O problema é que os fautores do Acordo Ortográfico de 1990 o levaram sem hífenes para os vocabulários, e os dicionaristas foram inconscientemente na sua senda, destruindo de uma penada um recurso expedito e inteligente da língua, que são as duplas grafias real/aparente. Já aqui vimos um caso igual, pés de galinha/pés-de-galinha.

 

[Texto 7476]

Helder Guégués às 11:06 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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02
Fev 17

Tanto disparate

E o AO90 atrai a parvoíce

 

      Agora estou sempre a topar com um vídeo em que um emigrante português no Brasil que participava (tudo se passou, afinal, há um ano) no programa MasterChef ouve um jurado, um tipo de rosto porcino e língua viperina, dizer-lhe: «Cinco anos no Brasil e nem fala português ainda?!» O concorrente não tugiu nem mugiu, mostrando bem a sua fibra. Mas eis que, entretanto, vejo uma trapalhada já conhecida: no PT Jornal, publicam o vídeo e titulam: «Vídeo: A polémica no Masterchef que ameaça enterrar o Acordo Ortográfico». Quem escreveu isto, não vamos estar agora com paninhos quentes, não percebe boi da questão e devia estar quietinho e caladinho ou, enfim, falar do que percebe.

 

[Texto 7458]

Helder Guégués às 12:31 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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18
Jan 17

O AOLP90 e a idiotice

Presos linguísticos

 

      Sempre houve pessoas desinformadas, temerosas, sem espinha, e sempre há-de haver. Pessoas que não gostavam de ter de adoptar as regras do Acordo Ortográfico de 1990 já me têm perguntado o que lhes acontece se continuarem a escrever como sempre o fizeram. Por vezes brinco e respondo-lhes que as espera, fatalmente, a Colónia Penal do Tarrafal, que vai ser reactivada para este fim. Deviam olhar à sua volta e pensar um pouco, que não faz mal. Observavam, por exemplo, o Documento Único Automóvel que receberam no correio e viam que as únicas palavras que deviam mudar com o AOLP90 estão incólumes: «correctos», «rectificação», «respectiva», «respectivos». Vá lá, pensem, o tempo está a esgotar-se.

 

[Texto 7416]

Helder Guégués às 09:18 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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05
Jan 17

Os nomes e o AOLP90

Foi por ti, Yasmin

 

     «Igualmente surpreendente é que nomes que começam por letras que só no final do século passado entraram no alfabeto português sejam tantas vezes escolhidos. É o caso de Yasmin[,] adoptado 278 vezes, Yara escolhido 248 ou Kyara 163. Nos rapazes também há nomes invulgares que aparecem muitas vezes. Enzo, por exemplo, foi adoptado 376 vezes, Isaac 262 e Kevin 260» («Santiago destrona João num país de Marias», Mariana Oliveira, Público, 4.01.2017, p. 13).

     Então, foi para isto que se fez o Acordo Ortográfico de 1990... Mas essas letras, Mariana Oliveira, não entraram no alfabeto português no fim do século passado.

 

[Texto 7375]

Helder Guégués às 00:46 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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31
Dez 16

Ortografia: «micetoma»

As doze passas

 

   A revista norte-americana Forbes considera o esqueleto proveniente de uma necrópole medieval em Estremoz, encontrado numa escavação arqueológica no Rossio Marquês de Pombal, um dos dez esqueletos mais intrigantes de 2016. «O artigo», lê-se no sítio da TSF, «continuou a autarquia alentejana, refere que o “Mycetoma ou pé de Madura é uma doença fúngica sobejamente conhecida historicamente e que afeta os trabalhadores agrícolas de áreas subtropicais do mundo”, mas “quase nunca é identificado em esqueletos antigos”» («Esqueleto de Estremoz em destaque na Forbes», TSF, 30.12.2016, 19h50).

      Podiam e deviam evitar transcrever textos com erros. Em português é micetoma, que é uma infecção crónica dos tecidos causada por um fungo. É curioso, porque etimologicamente significa «fungo cruel». Uma das passas é para isto, desejar que os jornalistas tenham cuidado com a forma como escrevem. As outras onze podiam ser para acabar com a intrujice do Acordo Ortográfico de 1990, mas isto não vai lá com meros desejos.

 

[Texto 7366]

Helder Guégués às 16:24 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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27
Dez 16

Como se escreve por aí

Nada higiénico

 

      A rapaziada da Dinheiro Vivo está entusiasmadíssima: nas casas de banho do Aeroporto Internacional de Narita, no Japão, há rolos de papel para limpar os telemóveis. Vai daí, escrevem assim: «Os passageiros que chegam ao aeroporto são encorajados a ler as folhas anticéticas com as informações antes de as mandar para o lixo, para saber onde se encontram pontos Wi-Fi e outras informações de viagem, de acordo com o mesmo portal» («No Japão o papel higiénico está a servir para limpar smartphones», 26.12.2016).

      Já podiam ter corrigido, tantas horas depois, mas os leitores, esses anormais desocupados, que se lixem, não é assim?

 

[Texto 7357]

Helder Guégués às 14:09 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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24
Dez 16

O que se diz e escreve na televisão

Fatos narrados

 

      Ontem vi um episódio da série Miúdo Graúdo, na RTP1. Gostei — excepto dos erros, alguns de estarrecer, como um «vão haver», entre outros. Na ficha técnica, isto: «Esta série é uma obra de ficção, qualquer semelhança das personagens e fatos narrados com acontecimentos reais será uma mera coincidência.» Técnicos de tudo e mais alguma coisa, revisores ou alguém que saiba português é que já seria luxo, não é?

 

[Texto 7349]

Helder Guégués às 18:13 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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