11
Fev 17

«Cavalo de batalha/cavalo-de-batalha»

Pouco avisada eliminação

 

      «O tema da avaliação dos professores acabou em Portugal. Quem o diz é a ex-ministra da Educação Maria de Lurdes Rodrigues, que, precisamente, fez da avaliação de professores o seu cavalo-de-batalha» («Maria de Lurdes Rodrigues diz que a avaliação de professores acabou em Portugal», Clara Viana, Público, 11.02.2017, p. 14).

      Muito bem, é isso mesmo: cavalo-de-batalha. O problema é que os fautores do Acordo Ortográfico de 1990 o levaram sem hífenes para os vocabulários, e os dicionaristas foram inconscientemente na sua senda, destruindo de uma penada um recurso expedito e inteligente da língua, que são as duplas grafias real/aparente. Já aqui vimos um caso igual, pés de galinha/pés-de-galinha.

 

[Texto 7476]

Helder Guégués às 11:06 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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02
Fev 17

Tanto disparate

E o AO90 atrai a parvoíce

 

      Agora estou sempre a topar com um vídeo em que um emigrante português no Brasil que participava (tudo se passou, afinal, há um ano) no programa MasterChef ouve um jurado, um tipo de rosto porcino e língua viperina, dizer-lhe: «Cinco anos no Brasil e nem fala português ainda?!» O concorrente não tugiu nem mugiu, mostrando bem a sua fibra. Mas eis que, entretanto, vejo uma trapalhada já conhecida: no PT Jornal, publicam o vídeo e titulam: «Vídeo: A polémica no Masterchef que ameaça enterrar o Acordo Ortográfico». Quem escreveu isto, não vamos estar agora com paninhos quentes, não percebe boi da questão e devia estar quietinho e caladinho ou, enfim, falar do que percebe.

 

[Texto 7458]

Helder Guégués às 12:31 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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18
Jan 17

O AOLP90 e a idiotice

Presos linguísticos

 

      Sempre houve pessoas desinformadas, temerosas, sem espinha, e sempre há-de haver. Pessoas que não gostavam de ter de adoptar as regras do Acordo Ortográfico de 1990 já me têm perguntado o que lhes acontece se continuarem a escrever como sempre o fizeram. Por vezes brinco e respondo-lhes que as espera, fatalmente, a Colónia Penal do Tarrafal, que vai ser reactivada para este fim. Deviam olhar à sua volta e pensar um pouco, que não faz mal. Observavam, por exemplo, o Documento Único Automóvel que receberam no correio e viam que as únicas palavras que deviam mudar com o AOLP90 estão incólumes: «correctos», «rectificação», «respectiva», «respectivos». Vá lá, pensem, o tempo está a esgotar-se.

 

[Texto 7416]

Helder Guégués às 09:18 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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05
Jan 17

Os nomes e o AOLP90

Foi por ti, Yasmin

 

     «Igualmente surpreendente é que nomes que começam por letras que só no final do século passado entraram no alfabeto português sejam tantas vezes escolhidos. É o caso de Yasmin[,] adoptado 278 vezes, Yara escolhido 248 ou Kyara 163. Nos rapazes também há nomes invulgares que aparecem muitas vezes. Enzo, por exemplo, foi adoptado 376 vezes, Isaac 262 e Kevin 260» («Santiago destrona João num país de Marias», Mariana Oliveira, Público, 4.01.2017, p. 13).

     Então, foi para isto que se fez o Acordo Ortográfico de 1990... Mas essas letras, Mariana Oliveira, não entraram no alfabeto português no fim do século passado.

 

[Texto 7375]

Helder Guégués às 00:46 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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31
Dez 16

Ortografia: «micetoma»

As doze passas

 

   A revista norte-americana Forbes considera o esqueleto proveniente de uma necrópole medieval em Estremoz, encontrado numa escavação arqueológica no Rossio Marquês de Pombal, um dos dez esqueletos mais intrigantes de 2016. «O artigo», lê-se no sítio da TSF, «continuou a autarquia alentejana, refere que o “Mycetoma ou pé de Madura é uma doença fúngica sobejamente conhecida historicamente e que afeta os trabalhadores agrícolas de áreas subtropicais do mundo”, mas “quase nunca é identificado em esqueletos antigos”» («Esqueleto de Estremoz em destaque na Forbes», TSF, 30.12.2016, 19h50).

      Podiam e deviam evitar transcrever textos com erros. Em português é micetoma, que é uma infecção crónica dos tecidos causada por um fungo. É curioso, porque etimologicamente significa «fungo cruel». Uma das passas é para isto, desejar que os jornalistas tenham cuidado com a forma como escrevem. As outras onze podiam ser para acabar com a intrujice do Acordo Ortográfico de 1990, mas isto não vai lá com meros desejos.

 

[Texto 7366]

Helder Guégués às 16:24 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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27
Dez 16

Como se escreve por aí

Nada higiénico

 

      A rapaziada da Dinheiro Vivo está entusiasmadíssima: nas casas de banho do Aeroporto Internacional de Narita, no Japão, há rolos de papel para limpar os telemóveis. Vai daí, escrevem assim: «Os passageiros que chegam ao aeroporto são encorajados a ler as folhas anticéticas com as informações antes de as mandar para o lixo, para saber onde se encontram pontos Wi-Fi e outras informações de viagem, de acordo com o mesmo portal» («No Japão o papel higiénico está a servir para limpar smartphones», 26.12.2016).

      Já podiam ter corrigido, tantas horas depois, mas os leitores, esses anormais desocupados, que se lixem, não é assim?

 

[Texto 7357]

Helder Guégués às 14:09 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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24
Dez 16

O que se diz e escreve na televisão

Fatos narrados

 

      Ontem vi um episódio da série Miúdo Graúdo, na RTP1. Gostei — excepto dos erros, alguns de estarrecer, como um «vão haver», entre outros. Na ficha técnica, isto: «Esta série é uma obra de ficção, qualquer semelhança das personagens e fatos narrados com acontecimentos reais será uma mera coincidência.» Técnicos de tudo e mais alguma coisa, revisores ou alguém que saiba português é que já seria luxo, não é?

 

[Texto 7349]

Helder Guégués às 18:13 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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14
Dez 16

O AOLP90 em revisão

Mais do que uma

 

      Esta noite tive um pesadelo. Tudo teve origem nesta simples linha de um artigo do Notícias ao Minuto lido já perto da meia-noite: «“Sem pés para andar” ou “não tem pés nem cabeça”, foi como Vital Moreira tratou as recentes notícias chegadas da Academia de [sic] Ciências de Lisboa, afirmando que em janeiro apresentará uma proposta para rever o Acordo Ortográfico.» Estive vai-não-vai para perguntar à jornalista, Inês Esparteiro Araújo, se tinha mesmo a certeza. Desisti. Tive o tal pesadelo. Agora, relido de manhã, compreendi que o artigo está simplesmente mal redigido: afinal, a proposta que será apresentada em Janeiro é a da Academia das Ciências de Lisboa (ACL). Uf! É que me lembrei logo deste texto no Assim Mesmo. Está bem, desta estamos livres. Mas disseram-me agora mesmo que vão ser apresentadas outras propostas de revisão do Acordo Ortográfico de 1990. Agora, já não pára. Agora, já não para. De qualquer maneira, e já que falo nisto, devo dizer que não me parece que Vital Moreira (ver aqui) compreendesse o alcance e a natureza do contributo da ACL para esta questão.

 

[Texto 7326]

Helder Guégués às 11:32 | comentar | ver comentários (5) | favorito
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12
Dez 16

Léxico: «bioacetato»

Um problema de óptica

 

      «Em 2014 nasceu a VAVA, uma marca que Pedro Silva admite ser a sua cara e a imagem da visão que tem do mundo, ou seja, não há espaço para o passado, o clássico ou o banal. Apenas luxo. A começar pelos materiais utilizados na produção destes óculos. As lentes são de cristal puro, a armação é de bioacetato» («Óculos, luxo, Viana do Castelo, Cristiano Ronaldo? Tem tudo a ver», Sónia Santos Silva, TSF, 12.12.2016).

      Neologismo à vista: bioacetato. Mas vejam como, graças ao Acordo Ortográfico de 1990, agora temos óculos para os ouvidos: «A VAVA é uma marca portuguesa de óculos. Apesar de ter uma história ainda curta, já faz vista grossa no mercado de luxo na área da ótica.» Viram a entrevista do Prof. Artur Anselmo, presidente da Academia das Ciências de Lisboa, ao Público e a várias televisões?

 

[Texto 7317]

Helder Guégués às 20:36 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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28
Nov 16

«Búteo-de-harris»

Registe-se

 

      «À TSF, o autarca de Salvaterra de Magos, Hélder Esménio, destaca a relação entre a falcoaria e o município, que há cerca de dois anos se registou como Capital Nacional da Falcoaria» («Um enfermeiro falcoeiro e um búteo de Harris chamado Setembro», Isabel Meira, TSF, 28.11.2016).

   Nunca tinha pensado nisto, mas é claro que tinha de ser assim: tem de ser registado. (Como a TSF segue o Acordo Ortográfico de 1990, escrever-se-á búteo-de-harris, também conhecido por gavião-asa-de-telha. Búteo apresenta a variante bútio. É palavra que veio do árabe.)

 

[Texto 7285]

Helder Guégués às 22:02 | comentar | favorito
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