17
Jul 17

Léxico: «palmiê»

Francês, e não do melhor

 

      «Na Baía de Cascais já não se avista só ao longe um barco a arder. Agora, está cheia a pão e bolos frescos. É assim a nova pastelaria francesa da vila — a Paul — que abriu este sábado, 15 de julho, mais um espaço em Portugal com uma elegante vitrine carregada de boas sugestões. Croissants, parmiers, pain au chocolat ou tartelettes. Tudo bons motivos para passar por lá à primeira oportunidade» («Paul: a pastelaria francesa à conquista de Cascais», Adriano Guerreiro, NiT, 17.07.2017, 13h34).

      Devem pensar, por qualquer motivo que teimosamente me escapa, que o itálico não foi feito para a Internet. Bolaria francesa, apenas — mas todos podem ter nome português ou aportuguesado. (O quê, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não regista bolaria?!) Será que o infame palmier também resiste ao aportuguesamento? Sim, porque o escriba atrapalhou-se, era isto que queria escrever. Mas até Saramago já usou o aportuguesamento «palmiê». Andam distraídos.

 

[Texto 8036]

Helder Guégués às 19:03 | comentar | ver comentários (1) | favorito
14
Jul 17

«Baseball/beisebol/basebol»!?

Chegam duas, ou até uma

 

      Sim, concordo: faz muita impressão escrever-se icebergue, um semiaportuguesamento, e ler-se /ajsəˈbɛrɡ(ə)/. Para isso, contudo, há remédio: escrever aicebergue, que se lê da mesma maneira, /ajsəˈbɛrɡ(ə)/. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista ainda uma terceira (!) forma, iceberg, o termo inglês. Semelhantemente, também faz impressão escrever-se basebol e ler-se /bɐjzəˈbɔɫ/; mais uma vez, para isso há remédio: escrever beisebol. E novamente o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista ainda uma terceira (!) forma, baseball, o termo inglês. Salvo melhor opinião, as formas em inglês não fazem sentido nenhum neste dicionário. Alguém procura nele, por exemplo, «football»? Mas há aqui diferenças: em «beisebol» remete para «basebol», mas em «aicebergue» não remete para «icebergue». A meu ver, uma vez que já não são o que eram, as remissões têm de ser sempre mútuas; um dicionário bom também diria sempre qual a forma preferencial. Esse seria um dicionário para os nossos dias.

 

[Texto 8026]

Helder Guégués às 18:38 | comentar | favorito
12
Jul 17

Por mim, gim

Modas

 

      «Faleceu a 18 de Janeiro de 1984, com apenas 48 anos de idade, vítima de uma cirrose (era um bebedor inveterado de gim), foi sepultado no cemitério do Alto de São João e deixou grande parte dos seus bens ao Partido [sic] a que tinha sido fiel toda a vida» (José Carlos Ary dos Santos, Paulo Marques. Lisboa: Parceira A. M. Pereira, 2008, p. 42).

      Gim, muito bem. Mas agora a moda é o gin. Não, na verdade, este já era, este Verão a bebida da moda é o vinho do Porto branco com água tónica, P&T, diz o Independent.

 

[Texto 8018]

Helder Guégués às 22:17 | comentar | ver comentários (1) | favorito
11
Jul 17

Empréstimos e aportuguesamento

Depende, não é?

 

      «É de notar que não existe um critério ou conjunto de critérios que permitam prever se uma palavra estrangeira vai sofrer adaptação ou não. Dossier, por exemplo, tem resistido ao aportuguesamento (dossiê), enquanto o ateliê tem mais adeptos (de atelier)» (Gramática Descomplicada, Sandra Duarte Tavares e Sara Almeida Leite. Lisboa: Planeta, 2015, p. 93).

      A experiência de cada falante é, por natureza, diversa, mas a minha, contudo, e no que respeita a esta questão, é precisamente a contrária: usa-se mais e há mais tempo o aportuguesamento «dossiê».

 

[Texto 8002]

Helder Guégués às 15:48 | comentar | ver comentários (1) | favorito
18
Mai 17

Vespas e taparueres

A importância de ser rigoroso

 

      «Depois de a empresa Digital Decor ter publicado nas redes sociais algumas fotografias a dar conta das várias etapas de transformação da mota, assumindo a autoria do trabalho, o DN procurou saber de onde surgiu afinal a ideia de fazer entrar o motociclo nas festividades [sic] do tetra encarnado. Carlos Simões, proprietário da agência publicitária, responde: “A ideia foi do próprio Eliseu. Ele é um colecionador, tem algumas motas e esta Vespa antiga é uma relíquia, de 1967, que pertencia à coleção dele”» («Eliseu vai ganhar substituta para a Vespa do 36», Rui Frias, Diário de Notícias, 17.05.2017, 00h24).

   Motociclo? Se for uma Vespa V5A1T, de 50 cc, de 1967, não é um motociclo, mas um ciclomotor. Serão pueris minudências para o jornalista, mas não para mim, nem, suponho, para os leitores do Linguagista. (Ah, sim: vou ter hoje a primeira de quatro aulas de código de motociclos.) E nos dicionários? Temos um lapso... não, dois, no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: as duas acepções de «vespa» estão grafadas em itálico, quando nenhuma — leram bem, nenhuma — deve ser assim grafada. O insectozinho, coitado, apesar de mau, não merece o itálico; o veículo motorizado, por sua vez, também não, pois que se trata de um termo surgido por derivação imprópria. Que eu saiba, ninguém escreve em itálico gilete, maisena, chiclete, cotonete, etc. (A propósito, não sei o que esperam para dicionarizar «taparuere»: «Tira um taparuere. Deita o conteúdo do taparuere num prato. Põe o prato no micro-ondas. Carrega no botão. Espera. Na mesa quadrada, sob a luz do candeeiro suspenso, senta-se a comer», Perfeitos Milagres, Jacinto Lucas Pires. Lisboa: Cotovia, 2007, p. 39.)

 

[Texto 7845]

Helder Guégués às 07:19 | comentar | ver comentários (2) | favorito
30
Abr 17

Do h aspirado

Sempre nos compreenderemos

 

      «O Óquei de Barcelos está na final da Taça CERS em hóquei em patins, depois de vencer os italianos do Sarzana por 3-1, na meia-final, em Viareggio, Itália» («Hóquei em patins. Óquei de Barcelos na final da Taça CERS», Rádio Renascença, 30.04.2017, 00h05).

      Curioso, este caso, o clube Óquei de Barcelos, que pratica, não óquei, mas hóquei. Temos outros casos, é verdade, mas não dentro do mesmo país: nós escrevemos andebol e, no Brasil, escrevem handebol, por exemplo. E, contudo, quem prefere «hóquei» também devia preferir «handebol», ou não? Mas não se procure lógica na língua. Mais estranho, para nós, é que no Brasil, ao que parece de forma maioritária, se aspire o h medial e até o h inicial em muitos vocábulos. No VOLP da Academia Brasileira de Letras, isso até já está assinalado com a indicação «(barra)». Pesquisem, por exemplo, as palavras «bahamiano» e «bahaísmo». E não devia, ocorre-me agora, «saheliano» ter a mesma indicação? Não tem. E não regista «jihadista», por exemplo. Não somos donos da língua, eles que divirjam à vontade. Continuemos nós a escrever jiadista, jiadismo, baamiano, etc.

 

[Texto 7764]

Helder Guégués às 11:08 | comentar | ver comentários (2) | favorito
18
Fev 17

Léxico: «zamaque»

Para mim, já é

 

      No ano passado, a Associação Empresarial Ourém-Fátima, em parceria com o Santuário de Fátima e a Imprensa Nacional-Casa da Moeda, lançou um terço comemorativo do centenário das aparições de Fátima. Por todo o lado leio que é composto «por contas em vidro soprado, produzidas artesanalmente na Marinha Grande, passador e crucifixo em zamak com acabamento de cobre e prata e corrente e arame em latão prateado». Para isto é que precisamos da colaboração dos lexicógrafos: já sabemos que vem do alemão Zink-Aluminium-Magnesium-Kupfer, mas nós estamos em Portugal. Seja zamaque.

 

[Texto 7489]

Helder Guégués às 17:38 | comentar | ver comentários (2) | favorito
18
Jan 17

Traduzir «smartphone»

Semiaportuguesamento não chega

 

      O Brasil é um país fantástico. Lá, são tão loucos por tecnologia como nós. Sobretudo por telemóveis, ou, agora, esmartefones. Exactamente, é desta forma que muitos escrevem a palavra. Ainda ontem me perguntaram o que achava do semiaportuguesamento «smartfone». Bem, «fone» já nós tínhamos, mas a parte mais bárbara é o «smart». De qualquer maneira, já «telemóvel» é uma palavra idiota, porque o que é móvel é o fone, não o tele. Enfim. Bem sei que se trata de duas coisas diferentes, mas em que circunstâncias é que temos mesmo de usar o termo inglês ou o seu equivalente em português, se o encontrarmos? Raríssimas. E na tradução, como é?, perguntam-me. Se fazer essa distinção tiver importância decisiva, porque não «telefone inteligente»?

 

[Texto 7418]

Helder Guégués às 11:08 | comentar | ver comentários (4) | favorito
01
Dez 16

Léxico: «gazilionário»

Inventada

 

    «A equipa que Donald Trump se prepara para levar para a Casa Branca, a partir de 20 de Janeiro, é composta de “gazilionários”, escrevia há dias o site Politico. Entre os nomes já confirmados e os falados, os novos ministros dos EUA podem representar “uma aglomeração de riqueza impressionante e sem precedentes na História americana” — 35 mil milhões de dólares» («A lista dos multimilionários», Público, 1.12.2016, p. 20).

   É verdade, é o que se podia ler no Politico: «Trump’s team of gazillionaires». Já tinha ouvido a palavra, mas nunca a tinha lido aportuguesada. Gazilionário, estupidamente rico.

 

[Texto 7293]

Helder Guégués às 20:28 | comentar | ver comentários (1) | favorito
28
Nov 16

Rio Cuanza

Não é nostalgia, não

 

      «Os camaradas que vinham da patrulha das áreas da nascente do Cuanza, [sic] viram o avião a deitar fumo e a voar sem direcção» (Dino Matrosse na Mira da PIDE, Julião Mateus Paulo. Alfragide: Editorial Caminho, 2013, p. 117).

   Então, um angolano, ainda para mais com funções no Estado, escreve em pleno século XXI Cuanza, e na tradução de um livro inglês que aqui tenho o tradutor optou repetidamente por Kwanza? Imperdoável.

 

[Texto 7283]

Helder Guégués às 20:57 | comentar | ver comentários (1) | favorito