18
Mai 17

Vespas e taparueres

A importância de ser rigoroso

 

      «Depois de a empresa Digital Decor ter publicado nas redes sociais algumas fotografias a dar conta das várias etapas de transformação da mota, assumindo a autoria do trabalho, o DN procurou saber de onde surgiu afinal a ideia de fazer entrar o motociclo nas festividades [sic] do tetra encarnado. Carlos Simões, proprietário da agência publicitária, responde: “A ideia foi do próprio Eliseu. Ele é um colecionador, tem algumas motas e esta Vespa antiga é uma relíquia, de 1967, que pertencia à coleção dele”» («Eliseu vai ganhar substituta para a Vespa do 36», Rui Frias, Diário de Notícias, 17.05.2017, 00h24).

   Motociclo? Se for uma Vespa V5A1T, de 50 cc, de 1967, não é um motociclo, mas um ciclomotor. Serão pueris minudências para o jornalista, mas não para mim, nem, suponho, para os leitores do Linguagista. (Ah, sim: vou ter hoje a primeira de quatro aulas de código de motociclos.) E nos dicionários? Temos um lapso... não, dois, no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: as duas acepções de «vespa» estão grafadas em itálico, quando nenhuma — leram bem, nenhuma — deve ser assim grafada. O insectozinho, coitado, apesar de mau, não merece o itálico; o veículo motorizado, por sua vez, também não, pois que se trata de um termo surgido por derivação imprópria. Que eu saiba, ninguém escreve em itálico gilete, maisena, chiclete, cotonete, etc. (A propósito, não sei o que esperam para dicionarizar «taparuere»: «Tira um taparuere. Deita o conteúdo do taparuere num prato. Põe o prato no micro-ondas. Carrega no botão. Espera. Na mesa quadrada, sob a luz do candeeiro suspenso, senta-se a comer», Perfeitos Milagres, Jacinto Lucas Pires. Lisboa: Cotovia, 2007, p. 39.)

 

[Texto 7845]

Helder Guégués às 07:19 | comentar | ver comentários (2) | favorito
30
Abr 17

Do h aspirado

Sempre nos compreenderemos

 

      «O Óquei de Barcelos está na final da Taça CERS em hóquei em patins, depois de vencer os italianos do Sarzana por 3-1, na meia-final, em Viareggio, Itália» («Hóquei em patins. Óquei de Barcelos na final da Taça CERS», Rádio Renascença, 30.04.2017, 00h05).

      Curioso, este caso, o clube Óquei de Barcelos, que pratica, não óquei, mas hóquei. Temos outros casos, é verdade, mas não dentro do mesmo país: nós escrevemos andebol e, no Brasil, escrevem handebol, por exemplo. E, contudo, quem prefere «hóquei» também devia preferir «handebol», ou não? Mas não se procure lógica na língua. Mais estranho, para nós, é que no Brasil, ao que parece de forma maioritária, se aspire o h medial e até o h inicial em muitos vocábulos. No VOLP da Academia Brasileira de Letras, isso até já está assinalado com a indicação «(barra)». Pesquisem, por exemplo, as palavras «bahamiano» e «bahaísmo». E não devia, ocorre-me agora, «saheliano» ter a mesma indicação? Não tem. E não regista «jihadista», por exemplo. Não somos donos da língua, eles que divirjam à vontade. Continuemos nós a escrever jiadista, jiadismo, baamiano, etc.

 

[Texto 7764]

Helder Guégués às 11:08 | comentar | ver comentários (2) | favorito
18
Fev 17

Léxico: «zamaque»

Para mim, já é

 

      No ano passado, a Associação Empresarial Ourém-Fátima, em parceria com o Santuário de Fátima e a Imprensa Nacional-Casa da Moeda, lançou um terço comemorativo do centenário das aparições de Fátima. Por todo o lado leio que é composto «por contas em vidro soprado, produzidas artesanalmente na Marinha Grande, passador e crucifixo em zamak com acabamento de cobre e prata e corrente e arame em latão prateado». Para isto é que precisamos da colaboração dos lexicógrafos: já sabemos que vem do alemão Zink-Aluminium-Magnesium-Kupfer, mas nós estamos em Portugal. Seja zamaque.

 

[Texto 7489]

Helder Guégués às 17:38 | comentar | ver comentários (2) | favorito
18
Jan 17

Traduzir «smartphone»

Semiaportuguesamento não chega

 

      O Brasil é um país fantástico. Lá, são tão loucos por tecnologia como nós. Sobretudo por telemóveis, ou, agora, esmartefones. Exactamente, é desta forma que muitos escrevem a palavra. Ainda ontem me perguntaram o que achava do semiaportuguesamento «smartfone». Bem, «fone» já nós tínhamos, mas a parte mais bárbara é o «smart». De qualquer maneira, já «telemóvel» é uma palavra idiota, porque o que é móvel é o fone, não o tele. Enfim. Bem sei que se trata de duas coisas diferentes, mas em que circunstâncias é que temos mesmo de usar o termo inglês ou o seu equivalente em português, se o encontrarmos? Raríssimas. E na tradução, como é?, perguntam-me. Se fazer essa distinção tiver importância decisiva, porque não «telefone inteligente»?

 

[Texto 7418]

Helder Guégués às 11:08 | comentar | ver comentários (4) | favorito
01
Dez 16

Léxico: «gazilionário»

Inventada

 

    «A equipa que Donald Trump se prepara para levar para a Casa Branca, a partir de 20 de Janeiro, é composta de “gazilionários”, escrevia há dias o site Politico. Entre os nomes já confirmados e os falados, os novos ministros dos EUA podem representar “uma aglomeração de riqueza impressionante e sem precedentes na História americana” — 35 mil milhões de dólares» («A lista dos multimilionários», Público, 1.12.2016, p. 20).

   É verdade, é o que se podia ler no Politico: «Trump’s team of gazillionaires». Já tinha ouvido a palavra, mas nunca a tinha lido aportuguesada. Gazilionário, estupidamente rico.

 

[Texto 7293]

Helder Guégués às 20:28 | comentar | ver comentários (1) | favorito
28
Nov 16

Rio Cuanza

Não é nostalgia, não

 

      «Os camaradas que vinham da patrulha das áreas da nascente do Cuanza, [sic] viram o avião a deitar fumo e a voar sem direcção» (Dino Matrosse na Mira da PIDE, Julião Mateus Paulo. Alfragide: Editorial Caminho, 2013, p. 117).

   Então, um angolano, ainda para mais com funções no Estado, escreve em pleno século XXI Cuanza, e na tradução de um livro inglês que aqui tenho o tradutor optou repetidamente por Kwanza? Imperdoável.

 

[Texto 7283]

Helder Guégués às 20:57 | comentar | ver comentários (1) | favorito
10
Nov 16

Léxico: «caviomorfo»

Também é o novo normal

 

      «Uma equipa de cientistas usou um interface neurológico, sem fios e em tempo real, para restabelecer a comunicação entre o cérebro e a medula lesionada de dois macacos rhesus e conseguiu, em poucos dias, que os primatas voltassem a andar. É a primeira vez que uma neurotecnologia restaura a locomoção e foi em primatas. Os resultados da experiência são publicados hoje na revista científica Nature» («Macacos paralisados voltam a andar com bypass neurológico», Andrea Cunha Freitas, Público, 10.11.2016, p. 31).

      Não percebo, e já o disse aqui uma vez, porque é que escrevem rhesus se se pode escrever reso. O que me traz à mente o caso do Octodon degus, o simpático caviomorfo originário do Chile. Como aportuguesar o nome: degu ou dego? E reparo agora que «caviomorfo» não está nos dicionários...

 

[Texto 7231]

Helder Guégués às 23:12 | comentar | ver comentários (3) | favorito
04
Nov 16

Léxico: «caterpílar»

Pela primeira vez

 

      «Foi pelas 11h de ontem que o caterpílar avançou sobre uma das construções existentes nos terrenos onde vai nascer a Feira Popular de Lisboa, em Carnide. Visivelmente feliz com aquele que caracterizara momentos antes como “um dia histórico para a cidade”, o presidente da câmara pegou no seu telemóvel, pediu a um membro da sua equipa que o fotografasse junto à máquina e acabou mesmo por ensaiar uma selfie» («Feira Popular: A selfie de Medina e o operador de caterpílar sereno», Inês Boaventura, Público, 4.11.2016, p. 12).

      Creio que é a primeira vez que vejo caterpílar fora dos dicionários. É melhor do que caterpillar, isso sem dúvida, até porque, com dois ll, só temos os Mellos, que eram simples Merloos, e depois se desprosaicaram, pela assimilação do r com o l, em Mellos. Espertas, estas aves (Turdus merula).

 

[Texto 7219]

Helder Guégués às 09:39 | comentar | favorito
24
Out 16

«Tur de Kuban»...

A busca do exótico

 

      «O caçador espanhol Mario Migueláñez sofreu uma queda mortal enquanto caçava ao tur de Kuban na República de Kabardia-Balkaria, no Cáucaso russo» («Caçador espanhol morre a caçar tur», Caça & Cães de Caça, Novembro de 2016, p. 12).

      Tur de Kuban... Não tem também o nome, mais português, de cabra-montês-caucásica? Então, qual a dúvida? E a república da Federação Russa não é a Cabárdia-Balcária? Ora, ora. Ah, e a propósito de cabra-montês: em castelhano também se diz cabra montés.

 

[Texto 7186] 

Helder Guégués às 23:30 | comentar | ver comentários (1) | favorito

Então que seja «trol»

No éter

 

    «Esta nova era precisa de um novo nome: chamemos-lhe o Troloceno. Para quem não conhece, o troll é aquela figura da Internet cuja principal ocupação é desestabilizar um adversário. O objectivo de um troll (trolar, na linguagem da net) não é participar de um debate mas usar as regras do debate para minar o próprio debate, afastar as pessoas mais razoáveis, criar confusão, desconversar e no fim do processo vitimizar-se se for denunciado. Não precisamos de nos demorar na etiologia ou na sintomática do troll. Como disse um juiz do Supremo americano sobre outro assunto, sabemos que se trata de um troll quando estamos perante um troll» («Bem-vindos ao Troloceno», Rui Tavares, Público, 24.10.2016, p. 48).

      E porque não trol, como vejo por aí? E por isso Troloceno, e não Trolloceno. Sim, assenta-lhe muito bem esse nome. Aparecem por aqui alguns, mas dissolvem-se no éter.

 

[Texto 7183]

Helder Guégués às 22:06 | comentar | ver comentários (4) | favorito
21
Set 16

Léxico: «Breslávia»

Não somos polacos (ou poloneses)

 

      «Em Lisboa, o número de rotas disponíveis passará de 18 para 23, com o lançamento de Bolonha, com três voos por semana, Glasgow, duas vezes por semana, Luxemburgo, quatro por semana, Toulouse, diariamente, e Wroclaw (Breslávia)» («Ryanair lança novas rotas e promoções a partir de €14,99», Margarida Fiúza, Expresso Diário, 21.09.2016).

      Melhor: Glásgua, Luxemburgo, Tolosa e Breslávia. Agora a sério: creio que é a primeira vez que vejo este aportuguesamento num jornal. Por mim, perfeito. Se Warszawa passou a Varsóvia, não vejo porque não. De qualquer maneira, quem é que escreve e pronuncia bem Wrocław? Parece que é «Vróst-lav», mas devemos fingir que não sabemos.

 

[Texto 7115]

Helder Guégués às 21:22 | comentar | ver comentários (2) | favorito