11
Fev 18

«Apadrinhar/amadrinhar»

Crucificados nas aspas

 

      «A maratonista olímpica Rosa Mota está este fim-de-semana em Folgosinho para “amadrinhar” iniciativas de reflorestação e o Free Trail Solidário Renascer Folgosinho que decorre este domingo, com o objetivo [sic] de devolver a paisagem verde, àquela aldeia» («Folgosinho vai ter um castanheiro “Rosa Mota”», Liliana Carona, Rádio Renascença, 11.02.2018, 10h40).

      Quem percebe como pensam estes jornalistas? Liliana Carona, temos duas palavras: apadrinhar, que significa ser padrinho, patrocinar, e amadrinhar, que significa servir de madrinha a, patrocinar. Sendo assim, para que usa as aspas, pode saber-se?

 

[Texto 8725]

Helder Guégués às 16:19 | comentar | favorito
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08
Jul 17

Léxico: «jurispsicológico»

Não percebo

 

      «Quase um ano depois, um parecer “jurispsicológico” entregue pela sua defesa no julgamento afirma que tal confissão foi “condicionada” pelo próprio juiz e por uma colega da PJ» («Como pode a PJ controlar um inspetor cercado por dívidas sem o discriminar?», Carlos Rodrigues Lima, Diário de Notícias, 8.07.2017, 38).

      Nunca hei-de perceber — desisti há muito — a necessidade ou lógica destas aspas usadas pelos jornalistas. Se vislumbro algum sentido na segunda palavra entre aspas, na primeira nem vestígios. Deve ter-se assustado com a palavra — jurispsicológico —, mas foi justamente a sua diminuta frequência de uso que me sugeriu este texto.

 

[Texto 7991]

Helder Guégués às 21:07 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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25
Mar 17

Tradução: «mouth-to-snout»

Ai Jesus!

 

      «Mouth-to-snout resuscitation saves dog in fire» (London Evening Standard, 24.03.2017, p. 25). Li ontem esta notícia a meio da tarde, e fiquei com curiosidade sobre a forma como a traduziriam os nossos meios de comunicação. Literalmente, pois claro, mas tiveram receio de a deixar sem aspas: «A proeza foi lograda após 20 minutos de respiração ‘boca-a-focinho’, que trouxeram o animal de volta ao mundo dos vivos.» Isto no corpo da notícia, que no título nada podia figurar que cheirasse a zoofilia ou qualquer outra parafilia a pedir internamento ou bastão policial: «Bombeiro salva cão após 20 minutos de respiração boca-a-boca» (André de Jesus, SIC, 24.03.2017, 19h16).

 

[Texto 7621]

Helder Guégués às 15:44 | comentar | favorito
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18
Mar 17

Léxico: «cratão»

O léxico da ciência

 

      «Agora, investigadores do Canadá e EUA publicaram um artigo na edição desta semana da revista Science com os resultados de análises a algumas rochas encontradas numa região chamada “Escudo Canadiano” e que revelam que estas amostras preservam a assinatura do momento de formação da crosta da Terra. […] As amostras analisadas fazem parte do que os investigadores chamam “cratões” (unidades geológicas muito antigas), como o do Escudo Canadiano, que é considerado o núcleo do continente norte-americano» («Há rochas “filhas” da crosta original da Terra no Canadá», Andrea Cunha Freitas, Público, 18.03.2017, p. 33).

      Ah, a tolice das aspas! Agora, até nos topónimos. Quanto a cratão, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora define-o como a «região da Terra, rígida e estável, no geral de grande extensão». Embora se possa melhorar esta definição, é muito melhor do que a explicação da jornalista, de que não se percebe nada.

 

[Texto 7575]

Helder Guégués às 11:41 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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05
Nov 16

Cheques carecas

E Rocambole

 

      «Uma situação digna de Rocambole continua a envolver a venda em hasta pública da Casa do Alcaide-mor em Estremoz, que foi classificado como monumento nacional em 1924. Depois de uma criticada hasta pública, o espaço foi adquirido por uma empresa americana, com sede num paraíso fiscal nos EUA, que pagou a caução com um cheque “careca”. A venda acabou por ser revogada» («Empresa comprou monumento nacional com cheque “careca”», Carlos Dias, Público, 4.11.2016, p. 18).

      Carlos Dias, «careca» não precisa de aspas; é um termo informal, apenas isso. Para meu grande espanto — não quero descobrir-lhe a careca, apenas contribuir para que seja melhor —, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não o regista. Ao Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa, muito mais antigo, não escapou: «Que não tem provimento ou cobertura no banco.» E a «situação digna de Rocambole»? Têm aqui um modelo os colegas do jornalista que abusam do adjectivo «dantesco» — felizmente só no Verão —, variando com «uma situação digna de Dante»...

 

[Texto 7222]

Helder Guégués às 18:58 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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09
Jul 16

Acepção: «cueca»

Não é a peça interior de vestuário

 

      «Joe Allen não está a ter uma semana fácil. Além de ser considerado negociável pelo Liverpool, o médio galês viu Portugal destruir-lhe o sonho de ir à final do Euro 2016 e é possível que vá ter pesadelos com Ricardo Quaresma nos próximos dias — o extremo português fez-lhe duas “cuecas” na mesma jogada, imagens que correram o mundo e se tornaram virais» («Portugal antecipou o reencontro de Allen com as galinhas», João Ruela, Diário de Notícias, 8.07.2016, p. 56).

      Claro que não são necessárias as aspas. O que é preciso, isso sim, é que esta acepção de «cueca(s)» esteja registada em todos os dicionários da língua portuguesa.

 

[Texto 6944]

Helder Guégués às 21:57 | comentar | favorito
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02
Jul 16

Nem eles sabem

Aspas numa só palavra?

 

    «Costa considera “imoral” que Bruxelas queira aplicar sanções a Portugal» (Margarida Gomes, Público, 2.07.2016, p. 8).

   Há livros de estilo de certas publicações que recomendam (mas a ordem para os revisores é a de cortar) este uso equívoco das aspas. Um exemplo: «A citação de palavras isoladas deve ser evitada, para impedir confusões entre citação ou uso irónico da palavra, por exemplo.»

 

[Texto 6931]

Helder Guégués às 19:52 | comentar | favorito
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19
Mai 16

Carteiristas entre aspas

Deus da tecnologia

 

      «Joaquina Gonçalves, 85 anos, assumiu ontem a sua condição de viúva no julgamento pelo furto de uma carteira no desfile da Queima das Fitas, que decorreu no tribunal de pequena instância criminal, no Porto. A idosa, com duas condenações pelo mesmo crime, não se cansou de clamar por inocência. “Que Deus me mate. Que me pare a pilha do coração!”, desabafou em tribunal, depois de chamar mentirosos aos agentes que a incriminaram» («À terceira, Ministério Público pediu prisão suspensa para “carteirista” de 85 anos», Mariana Oliveira, Público, 19.05.2016, p. 13).

      É a melhor imprecação dos últimos anos: «Que me pare a pilha do coração!» E as aspas do título, Mariana Oliveira? Deve ser porque foi pedida somente pena suspensa. Assim, é apenas «carteirista» e não, mais ofensivamente, carteirista.

 

[Texto 6819]

Helder Guégués às 07:01 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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17
Mar 16

Concordância, já era

Largue as aspas

 

      «Bastidores da “guerra” de Rui Moreira com a TAP deu um livro» (Patrícia Carvalho, Público, 17.03.2016, p. 11). Tão preocupada a jornalista estava que não interpretássemos a questiúncula como um conflito armado entre grupos que envolvesse mortes e destruição, que não resistiu às amparadoras aspas. Tão perturbada, ‘tadinha, que até falhou a concordância: «os bastidores deu um livro». Tão correcto como «o bastidor deram um livro», não é? Agora curioso é que no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora as guerras são todas assim, com sangue e destruição. Contudo, em 2001, o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa registava, e bem, esta acepção, que todos nós já usámos alguma vez: «Desentendimento entre pessoas, em que pode haver agressão física ou verbal. Quando se divorciaram, iniciaram uma guerra sem tréguas.» Pense nisto, Patrícia Carvalho.

 

[Texto 6692]

Helder Guégués às 10:23 | comentar | favorito
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18
Fev 16

«Nuvem», uma acepção de todos os dias

Deixe-se disso

 

      «Segundo a juíza Sheri Pym, do Tribunal Distrital para o Distrito Central da Califórnia, a empresa tem de ajudar mais as autoridades — cumprindo as suas obrigações, a Apple entregou tudo o que o atacante tinha guardado no iCloud, um serviço onde é possível gravar fotografias e outro tipo de documentos fora do telemóvel, na chamada “nuvem”» («Desbloquear iPhone de terrorista teria implicações “arrepiantes”», Alexandre Martins, Público, 18.02.2016, p. 22).

      Então conte lá, Alexandre Martins: para que pôs o cordão sanitário das aspas à volta da palavra? É um neologismo, sim, mas uma acepção como qualquer outra, e já acolhida nos dicionários, que se ouve todos os dias.

 

[Texto 6630]

Helder Guégués às 20:52 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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