25
Mar 17

Tradução: «mouth-to-snout»

Ai Jesus!

 

      «Mouth-to-snout resuscitation saves dog in fire» (London Evening Standard, 24.03.2017, p. 25). Li ontem esta notícia a meio da tarde, e fiquei com curiosidade sobre a forma como a traduziriam os nossos meios de comunicação. Literalmente, pois claro, mas tiveram receio de a deixar sem aspas: «A proeza foi lograda após 20 minutos de respiração ‘boca-a-focinho’, que trouxeram o animal de volta ao mundo dos vivos.» Isto no corpo da notícia, que no título nada podia figurar que cheirasse a zoofilia ou qualquer outra parafilia a pedir internamento ou bastão policial: «Bombeiro salva cão após 20 minutos de respiração boca-a-boca» (André de Jesus, SIC, 24.03.2017, 19h16).

 

[Texto 7621]

Helder Guégués às 15:44 | comentar | favorito
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18
Mar 17

Léxico: «cratão»

O léxico da ciência

 

      «Agora, investigadores do Canadá e EUA publicaram um artigo na edição desta semana da revista Science com os resultados de análises a algumas rochas encontradas numa região chamada “Escudo Canadiano” e que revelam que estas amostras preservam a assinatura do momento de formação da crosta da Terra. […] As amostras analisadas fazem parte do que os investigadores chamam “cratões” (unidades geológicas muito antigas), como o do Escudo Canadiano, que é considerado o núcleo do continente norte-americano» («Há rochas “filhas” da crosta original da Terra no Canadá», Andrea Cunha Freitas, Público, 18.03.2017, p. 33).

      Ah, a tolice das aspas! Agora, até nos topónimos. Quanto a cratão, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora define-o como a «região da Terra, rígida e estável, no geral de grande extensão». Embora se possa melhorar esta definição, é muito melhor do que a explicação da jornalista, de que não se percebe nada.

 

[Texto 7575]

Helder Guégués às 11:41 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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05
Nov 16

Cheques carecas

E Rocambole

 

      «Uma situação digna de Rocambole continua a envolver a venda em hasta pública da Casa do Alcaide-mor em Estremoz, que foi classificado como monumento nacional em 1924. Depois de uma criticada hasta pública, o espaço foi adquirido por uma empresa americana, com sede num paraíso fiscal nos EUA, que pagou a caução com um cheque “careca”. A venda acabou por ser revogada» («Empresa comprou monumento nacional com cheque “careca”», Carlos Dias, Público, 4.11.2016, p. 18).

      Carlos Dias, «careca» não precisa de aspas; é um termo informal, apenas isso. Para meu grande espanto — não quero descobrir-lhe a careca, apenas contribuir para que seja melhor —, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não o regista. Ao Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa, muito mais antigo, não escapou: «Que não tem provimento ou cobertura no banco.» E a «situação digna de Rocambole»? Têm aqui um modelo os colegas do jornalista que abusam do adjectivo «dantesco» — felizmente só no Verão —, variando com «uma situação digna de Dante»...

 

[Texto 7222]

Helder Guégués às 18:58 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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09
Jul 16

Acepção: «cueca»

Não é a peça interior de vestuário

 

      «Joe Allen não está a ter uma semana fácil. Além de ser considerado negociável pelo Liverpool, o médio galês viu Portugal destruir-lhe o sonho de ir à final do Euro 2016 e é possível que vá ter pesadelos com Ricardo Quaresma nos próximos dias — o extremo português fez-lhe duas “cuecas” na mesma jogada, imagens que correram o mundo e se tornaram virais» («Portugal antecipou o reencontro de Allen com as galinhas», João Ruela, Diário de Notícias, 8.07.2016, p. 56).

      Claro que não são necessárias as aspas. O que é preciso, isso sim, é que esta acepção de «cueca(s)» esteja registada em todos os dicionários da língua portuguesa.

 

[Texto 6944]

Helder Guégués às 21:57 | comentar | favorito
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02
Jul 16

Nem eles sabem

Aspas numa só palavra?

 

    «Costa considera “imoral” que Bruxelas queira aplicar sanções a Portugal» (Margarida Gomes, Público, 2.07.2016, p. 8).

   Há livros de estilo de certas publicações que recomendam (mas a ordem para os revisores é a de cortar) este uso equívoco das aspas. Um exemplo: «A citação de palavras isoladas deve ser evitada, para impedir confusões entre citação ou uso irónico da palavra, por exemplo.»

 

[Texto 6931]

Helder Guégués às 19:52 | comentar | favorito
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19
Mai 16

Carteiristas entre aspas

Deus da tecnologia

 

      «Joaquina Gonçalves, 85 anos, assumiu ontem a sua condição de viúva no julgamento pelo furto de uma carteira no desfile da Queima das Fitas, que decorreu no tribunal de pequena instância criminal, no Porto. A idosa, com duas condenações pelo mesmo crime, não se cansou de clamar por inocência. “Que Deus me mate. Que me pare a pilha do coração!”, desabafou em tribunal, depois de chamar mentirosos aos agentes que a incriminaram» («À terceira, Ministério Público pediu prisão suspensa para “carteirista” de 85 anos», Mariana Oliveira, Público, 19.05.2016, p. 13).

      É a melhor imprecação dos últimos anos: «Que me pare a pilha do coração!» E as aspas do título, Mariana Oliveira? Deve ser porque foi pedida somente pena suspensa. Assim, é apenas «carteirista» e não, mais ofensivamente, carteirista.

 

[Texto 6819]

Helder Guégués às 07:01 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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17
Mar 16

Concordância, já era

Largue as aspas

 

      «Bastidores da “guerra” de Rui Moreira com a TAP deu um livro» (Patrícia Carvalho, Público, 17.03.2016, p. 11). Tão preocupada a jornalista estava que não interpretássemos a questiúncula como um conflito armado entre grupos que envolvesse mortes e destruição, que não resistiu às amparadoras aspas. Tão perturbada, ‘tadinha, que até falhou a concordância: «os bastidores deu um livro». Tão correcto como «o bastidor deram um livro», não é? Agora curioso é que no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora as guerras são todas assim, com sangue e destruição. Contudo, em 2001, o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa registava, e bem, esta acepção, que todos nós já usámos alguma vez: «Desentendimento entre pessoas, em que pode haver agressão física ou verbal. Quando se divorciaram, iniciaram uma guerra sem tréguas.» Pense nisto, Patrícia Carvalho.

 

[Texto 6692]

Helder Guégués às 10:23 | comentar | favorito
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18
Fev 16

«Nuvem», uma acepção de todos os dias

Deixe-se disso

 

      «Segundo a juíza Sheri Pym, do Tribunal Distrital para o Distrito Central da Califórnia, a empresa tem de ajudar mais as autoridades — cumprindo as suas obrigações, a Apple entregou tudo o que o atacante tinha guardado no iCloud, um serviço onde é possível gravar fotografias e outro tipo de documentos fora do telemóvel, na chamada “nuvem”» («Desbloquear iPhone de terrorista teria implicações “arrepiantes”», Alexandre Martins, Público, 18.02.2016, p. 22).

      Então conte lá, Alexandre Martins: para que pôs o cordão sanitário das aspas à volta da palavra? É um neologismo, sim, mas uma acepção como qualquer outra, e já acolhida nos dicionários, que se ouve todos os dias.

 

[Texto 6630]

Helder Guégués às 20:52 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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11
Fev 16

Léxico: «desoligarquizar»

Essa já é velha

 

      «Os outros fatores do desacerto ucraniano são o lamentável estado da oposição e o adiamento da descentralização administrativa. A Ucrânia continua sem “desoligarquizar” o Estado, o que não só a aproxima mais de Moscovo do que de Bruxelas como a condena a ciclos revolucionários intermitentes. Em 25 anos já vai no terceiro» («Desoligarquizar por aí», Bernardo Pires de Lima, Diário de Notícias, 11.02.2016, p. 30).

      Mais uma vez, não percebo porque usam aspas nestes casos. Julgará Bernardo Pires de Lima que a palavra está mal formada ou tem um sentido que não se adequa completamente ao que pretende dizer? Está bem formada, dicionarizada e até enciclopedizada: está vai para sessenta anos na Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, e a abonação é uma frase de um discurso proferido por Rui Barbosa no Senado brasileiro, em 1914.

 

[Texto 6612]

Helder Guégués às 20:17 | comentar | favorito
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28
Jan 16

Sobre «ponte», aspas e falta de revisão

Isto nunca mais acaba

 

      «Os trabalhos de revisão vão decorrer nas oficinas da EMEF (empresa do grupo CP) no Entroncamento e deverão ocupar cerca de 60 trabalhadores durante 30 meses. Durante esse período a CP fica com menos um comboio para responder aos picos de procura, normalmente aos fins-de-semana, em períodos de férias, “pontes” e nos meses de Verão» («“Revisão da meia vida” dá nova cara aos comboios Alfa Pendulares», Carlos Cipriano, Público, 28.01.2016, p. 8).

      Carlos Cipriano, para que são as aspas em «ponte»? Querem ver que é um uso metalinguístico? É uma acepção como outra qualquer: «dia útil em que não se trabalha intercalado entre um feriado e um fim-de-semana» (Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora). O Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa apenas regista a expressão fazer ponte, o que não me parece o mais correcto, e por uma razão bem simples: não se usa só integrada na expressão.

 

[Texto 6572]

Helder Guégués às 21:09 | comentar | favorito
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