25
Jul 17

Léxico: «sucatear»

Por uma vez

 

      «Na petição online que apela à sua preservação, refere-se: “Sucateá-la seria uma perda irreparável, uma vez que perderíamos um exemplar das primeiras UTE, [pois] esta automotora não será apenas o símbolo desse importantíssimo dia para o nosso caminho-de-ferro, como é o símbolo do que foi o serviço suburbano e regional da última metade do século XX”» («Primeira automotora eléctrica da linha de Sintra vai ser destruída», Carlos Cipriano, Público, 25.07.2017, p. 16).

      Neste caso, creio que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora tem razão: sucatear («transformar em sucata/vender como sucata») é brasileirismo.

 

[Texto 8055]

Helder Guégués às 09:14 | comentar | favorito
09
Jul 17

Uma cãibra brasileira

Não precisava

 

      «Quem não falhou foi Calmejane, que não olhou mais para trás quando decidiu arrancar e afastar-se dos seus companheiros de escapada na subida de 11,7km [sic] de La Combe de Laisia. Isto apesar de, a cinco quilómetros da meta, ter estado muito perto de colocar o pé no chão por causa de uma câimbra na sua coxa direita» («Nem uma câimbra impediu Lilian Calmejane de vencer a etapa», Jorge Miguel Matias, Público, 9.07.2017, p. 27).

      A variante câimbra, Jorge Miguel Matias, usa-se apenas no Brasil, como já vimos aqui. Se temos cãibra e cambra, não é necessário recorrer a uma brasileira.

 

[Texto 7993]

Helder Guégués às 12:18 | comentar | ver comentários (1) | favorito
08
Jun 16

«Prestar queixa»?

Não dizemos dessa maneira

 

    «Vários meios de comunicação avançaram que as autoridades não iriam prestar queixa de negligência contra os pais do menino, mas a polícia de Hocaido ainda não confirmou esta notícia» («Menino japonês desaparecido saiu do hospital», Diana Bouça-Nova, RTP, 7.06.2016).

     Ao que creio, é no Brasil que se diz assim, prestar queixa, talvez por influência do inglês press charges. Entre nós, nunca li ou ouvi senão apresentar/fazer queixa. Esperemos que o menino Yamato Tanooka, os seus pais e a jornalista aprendessem a lição. 

 

[Texto 6871]

Helder Guégués às 06:57 | comentar | ver comentários (3) | favorito
14
Mai 16

«Lero-lero», conversa fiada além-Atlântico

Ora, não precisamos

 

      «Parece que Obama vai visitar Hiroshima durante uma viagem ao Japão ainda neste mês. Será o primeiro Presidente americano a colocar os pés na cidade das sombras nucleares. Claro que surgiu logo a conversa do “pedir desculpa”, do “perdão histórico que os EUA têm de pedir ao povo japonês”, lero-lero típico da ditadura politicamente correta que controla as universidades americanas — e é mesmo uma ditadura com boicotes e proibições diárias» («Hiroshima: Obama não tem que pedir perdão», Henrique Raposo, Expresso Diário, 13.05.2016).

     Tirando outros pormenores — como «Hiroshima», «colocar os pés», «controla» —, o que me fez mais espécie foi aquele lero-lero, conversa fiada no Brasil e para nós mera entrada de alguns dicionários. Vê-se que desconhece o exame Vieira (de Joaquim Vieira, ex-provedor do jornal Público): «Será que os meus pais vão perceber o que escrevi?» «Henrique, fala cristão», recomendar-lhe-iam. Mas há mais, e vamos já ver de seguida.

 

[Texto 6805]

Helder Guégués às 08:49 | comentar | ver comentários (2) | favorito
05
Set 15

Léxico: «petisqueira»

Isso não é cá

 

      «A compor o certame, há ainda sete restaurantes e cinco petisqueiras com pratos típicos das várias regiões (ilhas incluídas) e um restaurante temático dedicado ao período das Descobertas e à comida tradicional da corte portuguesa» («Feira gastronómica espera que S. Pedro dê ajuda ao negócio», A. T. M., Jornal de Notícias, 29.08.2015, p. 23).

      Nunca tal vi ou ouvi. Como sinónimo de pitéu ou petisco, muito bem; na acepção de restaurante, ou certo tipo de restaurante, é brasileirismo.

 

[Texto 6212] 

Helder Guégués às 08:58 | comentar | ver comentários (10) | favorito
08
Ago 15

Léxico: «fuzuê»

Paf!

 

      «É antes de mais incompetente. Depois de todo o fuzué a respeito das contas do PS, o PàF [Portugal à Frente, nome desinspirado, com sigla infelicíssima, da coligação CDS + PSD] apresente um programa sem compromissos precisos, sem descrever os instrumentos para as políticas, sem indicar prazos e medidas, portanto sem credibilidade. Evita o debate no país não dizendo quase nada sobre o que pretende para o país. Talvez tudo isto não seja então falta de “ousadia” mas antes pela língua de pau do poder, paroquial e cortês, sobretudo matreiro porque sabe que a “Europa” não autoriza veleidades» («Um bocejo bem perigoso», Francisco Louçã, Público, 8.08.2015, p. 46).

      Fuzué ou fuzuê é confusão ou conflito, que eu julgava que se usava apenas no Brasil. Brasileirismo, provavelmente de origem banta, é. Francisco Louçã tinha largas dezenas de alternativas, mas escolheu esta palavra como a mais adequada. Os políticos nunca sabem — nem sequer nisto — do que precisamos.

 

[Texto 6149]

Helder Guégués às 09:32 | comentar | ver comentários (2) | favorito
24
Mai 15

Léxico: «xará»

Homónimo

 

    «Tenho um primo que também é xará do meu avô», diz Kalaf Epalanga (também conhecido, ou mais conhecido, como Kalaf Ângelo) a Anabela Mota Ribeiro («2»/Público, 24.05.2015, p. 10 e ss.). «O que é xará?», pergunta a entrevistadora. «Aquele que tem o mesmo nome.» «Como se escreve?», quis ainda saber a entrevistadora. O músico é sincero: «Nunca escrevi essa palavra. Há palavras que às vezes é com X, outras com CH. E às vezes trocamos. Por exemplo, tarrachinha.» Não é bem isto que ele queria dizer. Essas que às vezes escrevemos com x outras com ch são palavras como xixi ou chichi. «Xará» aparece-me de vez em quando, até em traduções. É brasileirismo (vem do tupi) de que não precisamos, evidentemente, mas, ainda assim, fiquei surpreendido que a jornalista não a conhecesse.

 

[Texto 5885]

Helder Guégués às 12:45 | comentar | ver comentários (2) | favorito
20
Nov 14

«Chamar o hugo/chamar o gregório»

Também nisto

 

      E não só as mulheres portuguesas não se lamentariam daquela forma, como nenhum português chamaria o hugo, pois o gregório é mais gutural.

 

[Texto 5281]

Helder Guégués às 20:20 | comentar | favorito
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Sim, é português, mas...

É outra variedade

 

      Cá está uma queixa que jamais se ouvirá a uma mulher portuguesa: «Meu marido me trata como se eu fosse uma simples caçapa de sinuca. E lá vai disto.» Sim, a língua é a mesma, mas muito nos separa.

 

[Texto 5279]

Helder Guégués às 18:39 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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08
Out 14

«Tropelão» por «tropeção»

Sem filtros

 

      Parte da imprensa cita hoje o presidente do Sindicato dos Funcionários Judiciais, que alertou que o sistema Citius está a funcionar com «dificuldades» e aos «tropelões» em metade das comarcas. Mas o adjectivo «tropelão» é um brasileirismo que designa o cavalo que tropeça muito. Como a imprensa e a justiça.

 

[Texto 5127]

Helder Guégués às 10:09 | comentar | ver comentários (1) | favorito
18
Set 14

Sobre «pedestre»

Se for no Brasil

 

 

      «Num passeio de uma zona turística da cidade [de Chongqing, China] foi criado um corredor dividido em duas linhas. Ao longo de cerca de 50 metros os pedestres podem escolher entre a linha para quem quer andar e a destinada a quem fala ou escreve ao telemóvel. O corredor é semelhante aos criados para os ciclistas e está dividido entre “Telemóveis não” e qualquer coisa como “Telemóveis, ande por sua conta e risco”» («Cidade chinesa cria corredor para quem quer andar e falar ao telemóvel», Público, 18.09.2014, p. 56).

      Se cá se fizer o mesmo, vão chamar-lhe «televia». Mas claro que é para peões e não para pedestres.

 

[Texto 5056]

Helder Guégués às 09:52 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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