15
Jun 15

«Repinte»?

Tem pinta de estrangeiro

 

   «O estado da pintura [Saul e David], sujeita a cortes e repintes, a inconsistência estilística que nela reconheciam alguns especialistas e a grande qualidade dos discípulos do mestre do século de ouro holandês colocavam muitas questões: porque é que a autoria levanta dúvidas? Seriam estes os seus tamanho e formato originais?» («Restauro mostra que o velho rei Saul sempre limpou as lágrimas à cortina», Lucinda Canelas, Público, 15.06.2015, p. 26).

    Repinte parece e é castelhano. Ainda pensei que proviesse do artigo do jornal El País que a jornalista cita, mas neste só se usa o particípio repintado. Certo é que é comum ler-se neste e noutros jornais do país vizinho, quando se trata de restauro de pinturas, repinte, que é a segunda pintura que se faz numa parte de um quadro para a restaurar ou refrescar. Para o acto ou efeito de pintar, nós só temos repintura.

 

[Texto 5976] 

Helder Guégués às 07:15 | comentar | favorito
23
Mai 14

Colchetes e touros

Cada vez mais pobres

 

 

      «João Moura, 54 anos, estava a montar um cavalo novo no tentadero [pequena arena] da sua Quinta de Santo António, perto de Monforte, quando o animal escorregou e lhe caiu em cima. Foi por volta das 19.00 de ontem. O acidente deixou o cavaleiro inconsciente durante largos minutos. Assistido no local durante cerca de uma hora pela Viatura Médica de Emergência e Reanimação (VMER), foi levado para o Hospital de Portalegre em estado considerado grave» («Acidente com cavalo fere João Moura», Luís Godinho, Diário de Notícias, 23.05.2014, p. 19).

    Já aqui tinha falado deste castelhanismo. Dantes, eram vários os dicionários que registavam «tentadeiro». Outra que se eclipsou na viragem e na voragem do tempo. (E os colchetes, caro Luís Godinho, para que servem aqui? E «viatura médica de emergência e reanimação» em maiúsculas?) Claro que para se escrever como deve ser não são necessários dicionários, basta que quem escreve reflicta um pouco.

 

[Texto 4610] 

Helder Guégués às 10:12 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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30
Abr 14

Sobre «palangre»

Como sempre o conhecemos

 

 

      «A frota de pesca portuguesa está a ser subutilizada em relação às oportunidades de pesca, diz um relatório da Comissão Europeia, com dados de 2012. O relatório salienta, no caso de Portugal, haver indicadores técnicos que mostram uma utilização “relativamente baixa” dos navios de cerco, usados na pesca da sardinha e do carapau. Segundo os peritos de Bruxelas, para além de “muitas frotas apresentarem baixas taxas de utilização”, os navios entre os 10 e os 12 metros que usam artes de pesca ativa e passiva são “economicamente não lucrativos”. A pesca de palangre à linha e de dragas menores de 12 metros (para bivalves) também são tidas como não lucrativas» («Portugueses não sabem pescar», Diário de Notícias, 30.04.2014, p. 30).

   Portugueses não sabem pescar, jornalistas não sabem escrever – permanece tudo como sempre o conhecemos, graças a Deus. Vejamos: se palangre, que é castelhano, significa «cordel largo y grueso del cual penden a trechos unos ramales con anzuelos en sus extremos», faz algum sentido usar o castelhanismo?

 

[Texto 4484] 

Helder Guégués às 09:34 | comentar | ver comentários (5) | favorito
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28
Fev 14

«Algunos resultaban útiles»

Um pouco mais, e ficava igual

 

      «Estes fantásticos projectos de conduta eram insensatos e torpes. Mas, à força de ensaiar muitos, alguns resultavam úteis e ficavam fixados como aquisições prodigiosas» (Sobre a Caça e os Touros, José Ortega y Gasset. Tradução de José Bento. Lisboa: Edições Cotovia, 2004, 2.ª ed., p. 80).

   Reparem: «alguns resultavam úteis». É, como costuma dizer Montexto, castelhano com palavras portuguesas. «Algunos resultaban útiles». Nós não dizemos assim, e a culpa não é minha.

 

[Texto 4148]

Helder Guégués às 18:22 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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16
Out 13

Léxico: «palangreiro»

E por isso

 

 

      «A Sociedade de Pesca do Arade deverá agilizar, nas próximas horas, a trasladação do corpo do pescador marroquino morto à facada por outro tripulante a bordo do palangreiro Príncipe das Marés, a 800 quilómetros da costa de Cabo Verde, crime que começará agora a ser investigado pelas autoridades daquele país africano» («Cabo Verde investiga morte em barco português», Paulo Julião, Diário de Notícias, 16.10.2013, p. 23).

      Vimo-lo no Assim Mesmo, há mais de dois anos. Continua ausente de quase todos os dicionários. Sem pena nossa. É, também já o sabemos, alienígena. Castelhano.

 

  [Texto 3399]

Helder Guégués às 19:15 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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12
Mai 13

«Desgranar»?

Mas é bonito

 

 

      «Muitos [peregrinos a caminho de Fátima] vão a pé, desgranando as contas do rosário, apoiados num bordão, de mochila às costas e bolhas nos pés» («Oásis», Gonçalo Portocarrero de Almada, i, 11.05.2013, p. 13).

      À puridade lhe digo, Sr. Padre: acho que só para lá de Badajoz é que se diz dessa forma. Aliás, é pronominal, desgranarse, pois é o que se diz das contas de um colar, de um rosário, etc., quando se soltam. Claro que, em sentido figurado, até das horas se pode dizer o mesmo. Mas para lá de Badajoz.

 

[Texto 2828]

Helder Guégués às 18:07 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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17
Abr 12

Sobre «cidadania»

É o costume

 

 

      «Ainda antes da actual crise, a discrição que era apanágio da monarquia conheceu sérios sobressaltos. Juan Carlos ultrapassou bem o que foi a sua maior gaffe diplomática, quando, em Novembro de 2007, na sessão final da XVII Cimeira Ibero-Americana, no Chile, repreendeu Hugo Chávez com a pergunta: “Por que não te calas?” O Presidente venezuelano interrompia José Luís Rodriguez Zapatero, que saíra em defesa do seu antecessor, José Maria Aznar, acusado de ser “fascista” pelo mandatário de Caracas. A cidadania espanhola apoiou a atitude do monarca e foram impressos cachecóis com a frase de Juan Carlos. A sua popularidade saiu reforçada» («Juan Carlos. Polémicas de uma caçada», Nuno Ribeiro, Público, 17.04.2012, p. 23).

      É raríssimo que se fale, na impresa, de algo relacionado com Espanha e não se infiltre um castelhanismo. É o caso. «Cidadania», na acepção de conjunto dos cidadãos de um povo ou nação, é puramente castelhano.

 

[Texto 1376]

Helder Guégués às 10:03 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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11
Dez 11

«Levar a cabo»

Somos todos espanhóis

 

 

      Um castelhanismo já bem enraizado na nossa língua, com todo o ar castiço (com os castelhanismos, esse também é o problema: têm quase sempre, antigos ou recentes, ar de castiços — até «castiço» vem do castelhano castizo...), é a locução levar a cabo. Interessante é ver que, em Espanha, só no final do século XIX se passou a aceitar llevar a cabo, considerada forma espúria, a par de llevar al cabo, castiça (ou castiza, se quiserem...) dos quatro costados (ou por los cuatro costados, se lhes aprouver...).

 

 

[Texto 800]

Helder Guégués às 08:50 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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10
Dez 11

«Levar o nome»

Uma forma de contrabando

 

 

      «Existe ainda, em Espanha, um prémio que leva o nome de Elisa e Marcela, destinado a distinguir iniciativas que defendam os direitos dos homossexuais. E a Universidade da Corunha tem actualmente em exposição uma mostra dedicada ao tormentoso caso das duas mulheres» («Marcela e Elisa, um amor de contrabando», Jorge Marmelo, «P2»/Público, 10.12.2011, p. 4).

      Mas esta não é forma de dizer inteiramente castelhana? «Muy semejante al libro que lleva el nombre de Juan Díaz Rengifo es el rarísimo Cisne de Apolo» (Historia de las ideas estéticas en España: Siglos XVI y XVII, Menéndez y Pelayo. Madrid: Imprenta de A. Pérez Dubrull, 1896, p. 321).

 

 

[Texto 796] 

Helder Guégués às 17:15 | comentar | ver comentários (9) | favorito
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11
Out 11

«É de pura lógica»?

De contrabando

 

 

      «Salvo en casos excepcionalísimos de absoluta flagrancia, es de pura lógica que, etc.» E os tradutores (dois)? «Salvo em casos excepcionalíssimos de absoluto flagrante, é de pura lógica que, etc.» E esta forma de dizer é portuguesa? Emparelha — até porque estamos a falar de dois tradutores — com o «logicamente» contrabandeado de Espanha de Luís Figo.

 

[Texto 572] 

Helder Guégués às 14:57 | comentar | ver comentários (7) | favorito
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