21
Abr 17

Léxico: «casa de recuo»

Já falamos como eles

 

   «Entre os arguidos, com idades entre os 18 e 77 anos, havia responsáveis pela aquisição da droga, o transporte, armazenamento – sobretudo em casas de recuo – preparação, embalagem, distribuição e venda» («Usavam os netos para entregar droga. Mais de 60 pessoas condenadas», Rádio Renascença, 23.01.2017, 14h42).

      Há muito que não ouvia esta expressão. Dizem que é da gíria policial — que os juízes já tiveram de aprender, pois claro, pois encontro-a até em acórdãos. Nos últimos tempos, refere-se quase sempre ao local de armazenamento dos estupefacientes comercializados pelos arguidos. Já a vi usada para traduzir a expressão em língua inglesa safe house.

 

[Texto 7743]

Helder Guégués às 20:46 | comentar | favorito
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14
Abr 17

Léxico: «casula»

Ninguém se importa

 

      «Procissão. Bispos e cardeais com a casula vermelha, cor litúrgica usada no Domingo de Ramos» («O papa chora pelo Egito no Domingo de Ramos», O Meu Papa, ed. n.º 3, 14.04.2017, p. 5).

      Casula, diz o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, é a «veste litúrgica que o sacerdote usa sobre a alva e a estola na celebração da missa». Muito bem, é isso. Mas quem se importaria que se dissesse que a cor da casula varia de acordo com o tempo litúrgico? Essas cores, cujo uso é regulado na Instrução Geral do Missa Romano, são o branco, vermelho, verde, roxo, preto, cor-de-rosa e dourado. Usam-se ainda, fora do que está prescrito na IGMR, vestes litúrgicas de cor azul. (E, a propósito, porque não regista este dicionário o termo paramentaria, se até há estes estabelecimentos em Portugal?)

 

[Texto 7715]

Helder Guégués às 16:06 | comentar | ver comentários (1) | favorito
13
Abr 17

Léxico: «Tríduo Pascal»

Recomendável

 

      Podia dizer-se mais sobre a cerimónia do lava-pés, sem dúvida, mas seria talvez demasiado para um dicionário. Podia referir-se que teve origem nos mosteiros beneditinos, por altura da tomada do hábito, e que depois passou para a liturgia do Tríduo Pascal. Curiosamente, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não regista a locução Tríduo Pascal, o mais conhecido período triduano. Se a registarem, o que me parece completamente justificado, muita atenção, porque há por aí grandes confusões. O Tríduo Pascal tem início na Quinta-Feira Santa, com a ceia do Senhor, e termina com a Vigília Pascal, que é na tarde/noite do Sábado Santo — depois de escurecer —, que, na liturgia, já se considera domingo.

 

[Texto 7709]

Helder Guégués às 16:42 | comentar | ver comentários (1) | favorito
08
Abr 17

Léxico: «candeio»

Caça ou pesca

 

      Uma definição que anda errada há anos em quase todos os dicionários é a de candeio. Eu já uma vez tratei do caso, mas não tive sorte, para mal de todos os falantes. Outros registam o mesmo, mas vejamos o que se diz no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «1. archote para a pesca nocturna; 2. esta pesca». Primeiro: com archotes era talvez há cem anos. Agora, o candeio é com luzes eléctricas ou faróis, que atordoam e desorientam os animais. Segundo: candeio sempre se referiu tanto à pesca como à caça. Já está assim nos clássicos. E nos dicionários do século XIX a definição estava correcta. No dicionário de Fr. Domingos Vieira, por exemplo, está assim: «Candeio, s. m. (De candeia). Facho que serve para pescar ou caçar de noute. — Caçar perdizes ao candeio. = Usado por Bernardes, etc.» Agora, até os mais sabidos, em geral, desconhecem isto. No meu caso, desde pequeno que sabia que havia caça ao candeio (e conheci pessoas que enchiam, numa noite, sacos com tordos), e só muito mais tarde soube que se praticava também pesca ao candeio.

 

[Texto 7692]

Helder Guégués às 20:40 | comentar | ver comentários (2) | favorito
05
Abr 17

Léxico: «briquete»

Blocos densos e compactos

 

    «As notas são desfeitas em fragmentos minúsculos que são depois compactados em briquetes – rolos prensados – e vendidos a uma empresa que os usa como fonte de energia» («Fábrica de dinheiro destrói 525 mil notas por dia», Raquel Oliveira, Público, 5.04.2017, p. 24).

      Estou a ver o que é, então não estou. Alguns supermercados agora já vendem sacos com lenha de sobro, mas antes eram briquetes que tinham à venda. Não são bolas, mas blocos densos e compactos. No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «1. bola de pó de carvão amassado com pez, que serve de combustível; 2. Aglomerado».

 

[Texto 7675]

Helder Guégués às 10:41 | comentar | ver comentários (3) | favorito
04
Abr 17

Léxico: «microgravidade»

A 6,37 milhões de quilómetros

 

     «Em França, o Instituto para a Medicina e Fisiologia no Espaço quer estudar a microgravidade e está à procura de homens que estejam dispostos a ficar dois meses numa cama deitados. O tempo todo» («Oferta de emprego de sonho? 16 mil euros para passar dois meses numa cama», Rádio Renascença, 4.04.2017, 18h07).

      Uma imperdível oferta de emprego. Entretanto, podemos ter outro problema: segundo o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, microgravidade é a «ausência quase total de gravidade, que se verifica fundamentalmente no espaço». Do que li, concluo que tal ocorre em duas circunstâncias: na Terra, em diversas experiências de microgravidade simulada em torres de queda livre, e, no espaço, a bordo de naves e estações espaciais e em voos parabólicos. Portanto, no espaço, sim, mas a bordo de naves. Percebi bem? Mas não é só isso: «ausência quase total de gravidade» pode igualmente induzir em erro. Como o próprio prefixo micro- indica, trata-se de um valor pequeno, e nunca nulo ou próximo disso, pois para que a atracção gravitacional fosse reduzida a um milionésimo da atracção gravitacional na superfície terrestre seria necessário estar-se aproximadamente a 6,37 milhões de quilómetros da Terra. (E dava jeito ter o adjectivo microgravitacional dicionarizado.)

 

[Texto 7673]

Helder Guégués às 22:56 | comentar | ver comentários (2) | favorito
27
Mar 17

Léxico: «backdoor»

Outros tempos

 

      «As agências de segurança governamentais têm como principal objetivo a segurança da população do seu país. Com o aumento de ferramentas mais seguras para comunicações escritas, orais ou visuais, alguns governos, uns de forma clara, outros de forma mais obscura, obrigam a criação de acessos alternativos à informação. A ideia por detrás destas imposições é que exista uma backdoor que, em caso de um atentado à segurança nacional, seja possível que se ceda as conversas de um cidadão específico a pedido da agência governamental» («Espionagem online e privacidade», Pedro Tarrinho, Público, 19.04.2015, p. 54).

      É o excerto de um texto de 2015, mas cada vez ouço e leio mais a palavra backdoor, nos últimos dias relacionada com o atentado de Londres e o acesso ao WhatsApp que, em certas circunstâncias, o Governo britânico quer ter. Este textinho só serve para lembrar que está na hora de os dicionários bilingues darem conta destas acepções. Para o Dicionário de Inglês-Português da Porto Editora, backdoor ainda só tem acepções da era pré-tecnológica: «porta das traseiras; porta de serviço». Talvez desta última acepção se pudesse forjar uma nova, atinente ao que estamos a tratar, mas melhor será, porventura, dizer que se trata de um programa informático concebido para permitir o acesso secreto e remoto a um dispositivo informático. Aceitam-se, contudo, outras sugestões.

 

[Texto 7634]

Helder Guégués às 22:42 | comentar | favorito
25
Mar 17

Aborto ou feticídio?

Uma dúvida

 

      «Barcelos. Autor de massacre indiciado de 4 crimes de homicídio e 1 de aborto» (Rádio Renascença, 24.03.2017, 22h04).

      Hão-de pensar que venho increpar o uso de «massacre» em vez de «chacina» — também, mas não só. Num caso destes, podemos falar mesmo de chacina, mortandade, sem parecermos pateticamente hiperbólicos? E, sobretudo, estamos mesmo perante um crime de aborto? Ao que me parece, o nosso Código Penal só fala de duas figuras criminais que podiam estar em causa, aborto e infanticídio, mas não vejo que o crime de Barcelos se encaixe em nenhuma delas. Não faltará aqui uma terceira figura, intermédia — o feticídio? Que se pronunciem os juristas.

 

[Texto 7619]

Helder Guégués às 09:37 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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07
Fev 17

O que é o Sahel?

Não lhes perguntem

 

      Ángel Losada, representante especial da União Europeia para o Sahel, em entrevista ao Público, afirma que o Sahel não está no nosso radar e até a palavra é desconhecida das elites europeias. Creio que os dicionários também não ajudam. Vejamos. Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, saheliano é o «relativo ou pertencente ao Sahel, região de estepes secas do Norte da África, ou que é seu natural ou habitante». Já o embaixador explica que, «em linha horizontal, o Sahel vai da Mauritânia à Eritreia e inclui países com títulos extremos, como o Níger (o país mais pobre do mundo) e o Mali (que tem a maior taxa de natalidade do planeta)» («“O Sahel concentra todas as crises do mundo”», Bárbara Reis, Público, 7.02.2017, p. 24). Na legenda da infografia, lê-se a definição: «Uma cintura de 5400 quilómetros de comprimento, que vai do Atlântico ao mar Vermelho, e tem mil quilómetros de largura». Os dicionários podem e devem melhorar; os dicionários em linha podem e devem melhorar todos os dias.

 

[Texto 7469]

Helder Guégués às 09:12 | comentar | ver comentários (7) | favorito