25
Mai 17

Léxico: «toroidal»

Sempre alguma coisa nova

 

      «Redondo? Nem por isso: um pneu poderia parecer redondo, mas na verdade tal não é verdade. Um pneu não é 100% redondo, mas sim toroidal. Se no mundo perfeito isso deveria ser uma realidade, a prática dita uma grande dificuldade para produzir um pneu totalmente redondo devido a várias fases de produção que apenas resultam no formato toroidal perto do processo de elaboração do pneu» («Segredos dos pneus: O que deve saber deste componente essencial!», Motor 24, 24.05.2017).

    Toroidal: em forma de toro. Pois claro, mas eu não conhecia o vocábulo. Mas alguns dicionários registam — e, como exemplos, são mais claros, a meu ver — que toroidal é a forma da câmara-de-ar ou do dónute.

 

[Texto 7870]

Helder Guégués às 23:59 | comentar | favorito
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13
Mai 17

Visões e aparições

Qual a novidade?

 

      Houve por aí alguma agitação quando, esta semana, o P.e Anselmo Borges falou de Fátima e disse, aos microfones da TSF, que na Cova da Iria não houve aparições, mas visões. Que grande novidade, realmente! Em terra de cegos... Só os jornalistas é que são apanhados de surpresa com estas afirmações. Leiam, se fazem favor, o comentário teológico de Joseph Ratzinger a propósito dos acontecimentos na Cova da Iria. Os três pastorinhos não são os videntes de Fátima? Então, os videntes têm visões. (Agora estudem bem o que são, para a teologia, visões.) Ainda assim, ontem, na RTP, António Marujo, jornalista de assuntos religiosos, não deixou de realçar, com alguma surpresa, que Francisco tivesse usado também a palavra «visões».

 

[Texto 7828]

Helder Guégués às 17:08 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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10
Mai 17

Léxico: «indulgência»

Quanto à culpa

 

      Como já se esperava, o Santuário de Fátima anunciou a concessão, por mandato do Papa Francisco, da indulgência plenária de 27 de Novembro de 2016 a 26 de Novembro de 2017. E como define indulgência o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora? Assim: «RELIGIÃO perdão da pena temporal devida pelos pecados já perdoados». E está errado? Não, mas não está claro, sobretudo para as pessoas mais afastadas da religião (mas cerca de 70 % da população portuguesa declara-se católica). Ora bem, no pecado temos de distinguir a culpa, resultado da ofensa que feriu a amizade com Deus, da pena devida pelos danos causados à ordem estabelecida por Deus e aos direitos alheios. Assim, a indulgência é a remissão, perante Deus, da pena temporal devida pelos pecados já perdoados quanto à culpa.

 

[Texto 7816]

Helder Guégués às 09:04 | comentar | ver comentários (1) | favorito
09
Mai 17

Léxico: «copra»

Mas que amêndoa?

 

      Estava aqui a comer coco da Costa do Marfim e lembrei-me de ir ver o que diz o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora sobre a palavra copra. Isto: «amêndoa de um coqueiro cultivado em várias regiões tropicais, que fornece um óleo, o óleo de copra, utilizado na indústria». É, pouco mais ou menos, o que dirão todos os dicionários de língua portuguesa, e ocorre-nos logo também o termo inglês, coconut. Já o dicionário da Real Academia Espanhola é assim que o define: «Médula del coco de la palma.» E num guia do Taiti em língua castelhana, leio isto: «Copra: la pulpa de la nuez del coco, de la que se obtiene el famoso aceite de coco.» Aonde quero chegar? Bem, não me parece que a definição seja clara. «Amêndoa de um coqueiro»...

 

[Texto 7813]

Helder Guégués às 21:18 | comentar | ver comentários (1) | favorito
01
Mai 17

Léxico: «termoplástico»

Falta o adjectivo

 

      Ora aqui temos um capacete termoplástico. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora define termoplástico assim: «nome masculino substância que se torna plástica por aquecimento». Não é muito diferente da definição do dicionário da Real Academia Espanhola: «adj. Dicho de un material: Maleable por el calor.» A diferença, e é grande, está toda nisto: num, é substantivo, no outro, adjectivo. Quanto a mim, a definição do dicionário da Porto Editora é, com uma pequena alteração, a do adjectivo: «Diz-se da substância, especialmente plásticos sintéticos e resinas, que se torna plástica por aquecimento». Isto porque «termoplástico», como substantivo, é, não uma qualquer substância, mas antes um plástico, um polímero artificial. Leia-se o que se diz no Collins: «countable noun Thermoplastic materials are types of plastic which become soft when they are heated and hard when they cool down.» «adjective (of a material, esp a synthetic plastic or resin) becoming soft when heated and rehardening on cooling without appreciable change of properties.»

 

[Texto 7771]

Helder Guégués às 16:16 | comentar | ver comentários (3) | favorito

«Negacionismo/revisionismo»

É tirar conclusões

 

      «Mélenchon disse que Marine Le Pen é tão radical como o seu pai, Jean-Marie Le Pen – condenado por racismo e “negacionismo” histórico – e desmentiu os que o acusam de indefinição numa altura em que é preciso travar a extrema-direita» («França: Esquerda insta Macron a gesto político para deter extrema-direita», Lusa/TSF, 30.04.2017, 22h02).

      Porquê as aspas em «negacionismo»? Comecemos por ver como definem a palavra os dicionários. Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «rejeição de conceitos básicos, incontestáveis e apoiados por consenso científico em favor de ideias não fundamentadas ou controversas». Hum... Para o dicionário da Real Academia Espanhola: «Actitud que consiste en la negación de hechos históricos recientes y muy graves que están generalmente aceptados. El negacionismo del Holocausto.» Passemos agora à definição de um conceito aparentado — revisionismo. No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «HISTÓRIA posição de quem nega a existência de um facto documentado ou de quem propõe interpretações não fundamentadas de fenómenos históricos já estudados; negacionismo». No dicionário da Real Academia Espanhola: «Tendencia a someter a revisión metódica doctrinas, interpretaciones o prácticas establecidas con el propósito de actualizarlas y a veces de negarlas. Sometieron a revisionismo la teoría de la evolución. En Alemania es ilegal el revisionismo del Holocausto

 

[Texto 7767]

Helder Guégués às 11:09 | comentar | ver comentários (1) | favorito
21
Abr 17

Léxico: «casa de recuo»

Já falamos como eles

 

   «Entre os arguidos, com idades entre os 18 e 77 anos, havia responsáveis pela aquisição da droga, o transporte, armazenamento – sobretudo em casas de recuo – preparação, embalagem, distribuição e venda» («Usavam os netos para entregar droga. Mais de 60 pessoas condenadas», Rádio Renascença, 23.01.2017, 14h42).

      Há muito que não ouvia esta expressão. Dizem que é da gíria policial — que os juízes já tiveram de aprender, pois claro, pois encontro-a até em acórdãos. Nos últimos tempos, refere-se quase sempre ao local de armazenamento dos estupefacientes comercializados pelos arguidos. Já a vi usada para traduzir a expressão em língua inglesa safe house.

 

[Texto 7743]

Helder Guégués às 20:46 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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14
Abr 17

Léxico: «casula»

Ninguém se importa

 

      «Procissão. Bispos e cardeais com a casula vermelha, cor litúrgica usada no Domingo de Ramos» («O papa chora pelo Egito no Domingo de Ramos», O Meu Papa, ed. n.º 3, 14.04.2017, p. 5).

      Casula, diz o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, é a «veste litúrgica que o sacerdote usa sobre a alva e a estola na celebração da missa». Muito bem, é isso. Mas quem se importaria que se dissesse que a cor da casula varia de acordo com o tempo litúrgico? Essas cores, cujo uso é regulado na Instrução Geral do Missa Romano, são o branco, vermelho, verde, roxo, preto, cor-de-rosa e dourado. Usam-se ainda, fora do que está prescrito na IGMR, vestes litúrgicas de cor azul. (E, a propósito, porque não regista este dicionário o termo paramentaria, se até há estes estabelecimentos em Portugal?)

 

[Texto 7715]

Helder Guégués às 16:06 | comentar | ver comentários (1) | favorito
13
Abr 17

Léxico: «Tríduo Pascal»

Recomendável

 

      Podia dizer-se mais sobre a cerimónia do lava-pés, sem dúvida, mas seria talvez demasiado para um dicionário. Podia referir-se que teve origem nos mosteiros beneditinos, por altura da tomada do hábito, e que depois passou para a liturgia do Tríduo Pascal. Curiosamente, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não regista a locução Tríduo Pascal, o mais conhecido período triduano. Se a registarem, o que me parece completamente justificado, muita atenção, porque há por aí grandes confusões. O Tríduo Pascal tem início na Quinta-Feira Santa, com a ceia do Senhor, e termina com a Vigília Pascal, que é na tarde/noite do Sábado Santo — depois de escurecer —, que, na liturgia, já se considera domingo.

 

[Texto 7709]

Helder Guégués às 16:42 | comentar | ver comentários (1) | favorito
08
Abr 17

Léxico: «candeio»

Caça ou pesca

 

      Uma definição que anda errada há anos em quase todos os dicionários é a de candeio. Eu já uma vez tratei do caso, mas não tive sorte, para mal de todos os falantes. Outros registam o mesmo, mas vejamos o que se diz no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «1. archote para a pesca nocturna; 2. esta pesca». Primeiro: com archotes era talvez há cem anos. Agora, o candeio é com luzes eléctricas ou faróis, que atordoam e desorientam os animais. Segundo: candeio sempre se referiu tanto à pesca como à caça. Já está assim nos clássicos. E nos dicionários do século XIX a definição estava correcta. No dicionário de Fr. Domingos Vieira, por exemplo, está assim: «Candeio, s. m. (De candeia). Facho que serve para pescar ou caçar de noute. — Caçar perdizes ao candeio. = Usado por Bernardes, etc.» Agora, até os mais sabidos, em geral, desconhecem isto. No meu caso, desde pequeno que sabia que havia caça ao candeio (e conheci pessoas que enchiam, numa noite, sacos com tordos), e só muito mais tarde soube que se praticava também pesca ao candeio.

 

[Texto 7692]

Helder Guégués às 20:40 | comentar | ver comentários (2) | favorito