27
Mar 17

Léxico: «backdoor»

Outros tempos

 

      «As agências de segurança governamentais têm como principal objetivo a segurança da população do seu país. Com o aumento de ferramentas mais seguras para comunicações escritas, orais ou visuais, alguns governos, uns de forma clara, outros de forma mais obscura, obrigam a criação de acessos alternativos à informação. A ideia por detrás destas imposições é que exista uma backdoor que, em caso de um atentado à segurança nacional, seja possível que se ceda as conversas de um cidadão específico a pedido da agência governamental» («Espionagem online e privacidade», Pedro Tarrinho, Público, 19.04.2015, p. 54).

      É o excerto de um texto de 2015, mas cada vez ouço e leio mais a palavra backdoor, nos últimos dias relacionada com o atentado de Londres e o acesso ao WhatsApp que, em certas circunstâncias, o Governo britânico quer ter. Este textinho só serve para lembrar que está na hora de os dicionários bilingues darem conta destas acepções. Para o Dicionário de Inglês-Português da Porto Editora, backdoor ainda só tem acepções da era pré-tecnológica: «porta das traseiras; porta de serviço». Talvez desta última acepção se pudesse forjar uma nova, atinente ao que estamos a tratar, mas melhor será, porventura, dizer que se trata de um programa informático concebido para permitir o acesso secreto e remoto a um dispositivo informático. Aceitam-se, contudo, outras sugestões.

 

[Texto 7634]

Helder Guégués às 22:42 | comentar | favorito
25
Mar 17

Aborto ou feticídio?

Uma dúvida

 

      «Barcelos. Autor de massacre indiciado de 4 crimes de homicídio e 1 de aborto» (Rádio Renascença, 24.03.2017, 22h04).

      Hão-de pensar que venho increpar o uso de «massacre» em vez de «chacina» — também, mas não só. Num caso destes, podemos falar mesmo de chacina, mortandade, sem parecermos pateticamente hiperbólicos? E, sobretudo, estamos mesmo perante um crime de aborto? Ao que me parece, o nosso Código Penal só fala de duas figuras criminais que podiam estar em causa, aborto e infanticídio, mas não vejo que o crime de Barcelos se encaixe em nenhuma delas. Não faltará aqui uma terceira figura, intermédia — o feticídio? Que se pronunciem os juristas.

 

[Texto 7619]

Helder Guégués às 09:37 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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07
Fev 17

O que é o Sahel?

Não lhes perguntem

 

      Ángel Losada, representante especial da União Europeia para o Sahel, em entrevista ao Público, afirma que o Sahel não está no nosso radar e até a palavra é desconhecida das elites europeias. Creio que os dicionários também não ajudam. Vejamos. Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, saheliano é o «relativo ou pertencente ao Sahel, região de estepes secas do Norte da África, ou que é seu natural ou habitante». Já o embaixador explica que, «em linha horizontal, o Sahel vai da Mauritânia à Eritreia e inclui países com títulos extremos, como o Níger (o país mais pobre do mundo) e o Mali (que tem a maior taxa de natalidade do planeta)» («“O Sahel concentra todas as crises do mundo”», Bárbara Reis, Público, 7.02.2017, p. 24). Na legenda da infografia, lê-se a definição: «Uma cintura de 5400 quilómetros de comprimento, que vai do Atlântico ao mar Vermelho, e tem mil quilómetros de largura». Os dicionários podem e devem melhorar; os dicionários em linha podem e devem melhorar todos os dias.

 

[Texto 7469]

Helder Guégués às 09:12 | comentar | ver comentários (7) | favorito
05
Fev 17

Carta apostólica, não encíclica

Não é tudo igual

 

      «Tudo começou quando o papa Paulo VI foi a Bombaim (1964), após a anexação de Goa, Damão e Diu pela Índia. Depois, o papa publicou a encíclica Africae Terrarum onde apoiava transformações políticas e eclesiais em África» (Angola – Justiça e paz nas Intervenções da Igreja Católica (1989-2002), Tony Neves. Alfragide: Leya, 2012, p. 307).

      Quase tudo certo: o documento papal citado não é uma encíclica, mas uma carta apostólica em forma de motu proprio. Ia escrever que é o latim que atrapalha logo as pessoas, mas o autor é padre espiritano e o texto é o da sua tese de doutoramento em Ciência Política. Mais um pouco de latim: é uma litterae apostolicae motu proprio datae. A Africæ Terrarum foi a primeira carta dirigida a África por um papa. Neste caso, relativa às linhas para a aplicação do Concílio Vaticano II. Fica o alerta: devemos ser sempre o mais cuidadosos possível.

 

[Texto 7466]

Helder Guégués às 18:23 | comentar | favorito
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16
Jan 17

Definição de «sal»

Já não é o único

 

      Faz muito bem o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora em não definir o sal como «substância dura, solúvel, friável, etc.», porque, se é a forma mais comum, a verdade é que também já há sal líquido. Lê-se naquele dicionário: «designação comum do cloreto de sódio, usado no tempero e na conservação dos alimentos». Na embalagem que tenho à minha frente, de sal produzido em Castro Marim, afirma-se que é «100 % natural, rico em minerais, 5 x menos sódio e 20 x mais magnésio». Então, pode dizer-se que é um sal hipossódico, palavra que recentemente sugeri que fosse incluída naquele dicionário.

 

[Texto 7411]

Helder Guégués às 15:34 | comentar | favorito
09
Jan 17

Tradução: «pain de mie»

Só miolo

 

      A avaliar pelos dicionários bilingues, em França, o país dos pães, não há pão de forma. O Dicionário de Francês-Português da Porto Editora não o regista. Há muitas variedades, mas não esta. Então, pergunto, o que é o francês pain de mie, pode saber-se? Aquele dicionário regista, isso sim, mie de pain, «miolo de pão». Ora, o pain de mie é isso literalmente, «pão de miolo», ou seja, pão em que o principal não é a crosta, a côdea, mas sim o miolo. Ou há outra tradução?

 

[Texto 7394]

Helder Guégués às 23:26 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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06
Jan 17

Léxico: «divertículo»

Por melhores definições

 

    Se não soubermos o que significa divertículo, pela consulta da maioria dos dicionários não ficamos muito elucidados. Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, por exemplo, é o «apêndice oco de uma cavidade ou tubo, em forma de bolsa ou dedo». É pouquíssimo, quase nada. A definição da Sociedade Portuguesa de Endoscopia Digestiva (SPED) leva-nos mais longe: «Os divertículos são pequenas bolsas que se formam na parede de qualquer segmento do tudo [sic] digestivo (figura 1), sendo a sua ocorrência mais frequente no intestino grosso (cólon).» Para o dicionário da Real Academia Espanhola, é a «bolsa o saco anormal en la pared de un órgano hueco, como el colon». E mais: se regista divertículo e diverticulite, aquele dicionário não acolhe diverticulose.

 

[Texto 7381]

Helder Guégués às 14:00 | comentar | ver comentários (1) | favorito
31
Dez 16

«Missas vespertinas»

Mas não todas as tardes

 

      Na Igreja de Nossa Senhora dos Navegantes, aqui em Cascais, as missas aos sábados às 18h30 e aos domingos ao meio-dia são em língua inglesa. Ah, e as vespertinas também. Ora, acontece que os dicionários — tenho agora apenas três à mão, mas já me dirão se é assim em todos — não explicam o que são estas missas vespertinas. No verbete — agora estou apenas a seguir o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora — «vespertino», o leitor não fica a saber muito, excepto que se refere à tarde. Se, o que não me parece provável, passar para o verbete «véspera(s)», a acepção 4 («horas do ofício divino que se rezam de tarde») pode levá-lo a interiorizar a ideia de que é qualquer missa ao fim da tarde. Não é. As missas vespertinas são apenas as que antecedem os domingos e as solenidades.

 

[Texto 7367]

Helder Guégués às 17:16 | comentar | ver comentários (2) | favorito
30
Dez 16

«Vegetariano/vegetaliano»

Mas não são

 

      Para muitos (todos?) dicionários, vegetaliano ou vegetariano é tudo igual. Meros sinónimos, variantes. É o que faz, por exemplo, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, que simplesmente remete do primeiro para o segundo vocábulo. Ora, quando traduzimos e encontramos as palavras lado a lado, reflectimos melhor e temos de convir que não é tudo igual. Por exemplo, convidamos um amigo a vir jantar a nossa casa, e ele previne-nos de «qu’il est végétarien ou végétalien ou même qu’il n’aime pas tel ou tel aliment». Pois é... Não podemos fingir que o segundo vocábulo não está lá, pois não? «Les végétariens s’abstiennent simplement de viande et de poisson, mais prennent du lait, des œufs et des fromages [...]. Les végétaliens sont beaucoup plus rigoureux, car ils s’interdisent tous les produits animaux et ne consomment que des végétaux» (Le Monde, 16.02.1977, p. 25).

 

[Texto 7365]

Helder Guégués às 13:15 | comentar | ver comentários (8) | favorito
17
Dez 16

Manobra de Heimlich

É para corrigir

 

      Morreu hoje, aos 96 anos, o cirurgião torácico norte-americano Henry Heimlich, que inventou a manobra de Heimlich. Que nos interessa isto, perguntam? Muito. Deve ser o procedimento que mais vidas salva em todo o mundo. Eu aprendi a fazê-la num curso. (Esta é a parte do heimlich, «secreto», em alemão...) Não estará nos dicionários gerais, mas no Dicionário de Termos Médicos da Porto Editora encontramo-la, à manobra de Heimlich: «manobra destinada a fazer expelir alimentos que foram obstruir a árvore traqueobrônquica. Consiste em fazer compressões, enérgicas e repetidas, do abdómen junto ao rebordo costal, de modo a forçar movimentos diafragmáticos». Algumas afinações: a manobra destina-se a expulsar o que quer que se encontre a obstruir a árvore traqueobrônquica, e não apenas — obviamente, gostava de dizer, mas, pelos vistos... — alimentos. Se uma criança engolir uma tampa de esferográfica, por exemplo, não fazemos esta manobra? Corrijam. Quanto ao nome do médico: é Henry Judah Heimlich, e não, como se lê naquele dicionário, Harry J. Heimlich. E já podem completar: «Henry J. Heimlich, cirurgião torácico norte-americano, 1920-2016)».

 

[Texto 7334]

Helder Guégués às 22:23 | comentar | ver comentários (8) | favorito