26
Jul 17

Adeus, gramática

E a concordância?

 

      Hoje comemora-se o Dia Metropolitano dos Avós no Europarque, em Santa Maria da Feira. Não sabia que havia dias metropolitanos... Bem, vamos aos jornais: «Em cima do parque de estacionamento subterrâneo, além da estátua equestre assente num passeio compacto de pedra, sem lugar a canteiro ou arbusto raquítico que seja, pousam agora além dos pombos – coitados, que esses não ocupam por muito tempo espaço –, táxis e tuk-tuks alinhados em filas, qual gatos à caça dos turistas que enchem esta Lisboa que já não é a de outrora» («Boa para ver de longe», Fernanda Cachão, Correio da Manhã, 25.07.2017, p. 2). E a concordância, Fernanda Cachão? Veja: «Sempre seguidos por bodyguards façanhudos, vestidos de preto, como se fossem a nossa sombra, foi divertido e grotesco vê-los correrem na praia, ofegantes, quais gatos-pingados, atrás de nós quando, descontraídos, resolvemos, em calções de banho, fazer um crosse na praia» (Quase Memórias: Da Descolonização de Cada Território em Particular, vol. 2, António de Almeida Santos. Lisboa: Casa das Letras, 2006, p. 36).

 

[Texto 8058]

Helder Guégués às 13:24 | comentar | favorito
21
Dez 16

Adeus, concordância

Já era

 

      Nunca foi tão fácil disseminar o bem e o mal, o bom e o mau. A Lusa enviou para as redacções de vários meios de comunicação uma notícia sobre o aumento do preço dos passes intermodais. E lá passa o erro em todas as redacções: «O preço dos passes intermodais dos transportes públicos de Lisboa vão aumentar entre 0,10 e 1,30 euros em 2017, na sequência de um despacho do Governo publicado hoje e que fixa um aumento máximo de 1,5%.» Onde estão o brio e o cuidado que se deve ter com o que se publica? Já é o novo normal; ninguém estranha nem protesta.

 

[Texto 7345]

Helder Guégués às 21:54 | comentar | ver comentários (3) | favorito
01
Mai 16

Escrever, reler, rever, publicar

Dois postos de trabalho

 

      Mesmo a propósito, pois é 1.º de Maio. Não acham que a Lusa e a TSF deviam contratar revisores? «Ide e divirtam-se... eu pago», é o título de uma notícia de hoje, sobre um empresário chinês que pagou as férias em Espanha para 2500 empregados seus.

 

[Texto 6780]

Helder Guégués às 22:57 | comentar | ver comentários (6) | favorito
13
Abr 16

«Os três mil milhões»

Não agradeça, mas concorde

 

   «Mark Zuckerberg quer toda a gente online. Ontem, em São Francisco, Califórnia, o fundador do Facebook revelou a intenção de ligar à Internet as três mil milhões de pessoas que em todo o mundo permanecem à margem» («Zuckerberg anuncia o fim dos call centers e um router voador maior do que um 737», Pedro Guerreiro, Público, 13.04.2016, p. 48).

      Pedro Guerreiro, não é «as três mil milhões de pessoas», mas sim «os três mil milhões de pessoas».

 

[Texto 6743]

Helder Guégués às 09:40 | comentar | ver comentários (2) | favorito
Etiquetas: ,
17
Mar 16

Concordância, já era

Largue as aspas

 

      «Bastidores da “guerra” de Rui Moreira com a TAP deu um livro» (Patrícia Carvalho, Público, 17.03.2016, p. 11). Tão preocupada a jornalista estava que não interpretássemos a questiúncula como um conflito armado entre grupos que envolvesse mortes e destruição, que não resistiu às amparadoras aspas. Tão perturbada, ‘tadinha, que até falhou a concordância: «os bastidores deu um livro». Tão correcto como «o bastidor deram um livro», não é? Agora curioso é que no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora as guerras são todas assim, com sangue e destruição. Contudo, em 2001, o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa registava, e bem, esta acepção, que todos nós já usámos alguma vez: «Desentendimento entre pessoas, em que pode haver agressão física ou verbal. Quando se divorciaram, iniciaram uma guerra sem tréguas.» Pense nisto, Patrícia Carvalho.

 

[Texto 6692]

Helder Guégués às 10:23 | comentar | favorito
Etiquetas: ,
14
Mar 16

Que moeda essa, o índio

Acham tudo normal

 

      Num noticiário da manhã na Antena 3, ouvi que o Ministério do Património e da Cultura de Omã anunciara a descoberta de um navio português naufragado numa ilha remota de Omã em 1503, que fazia a Carreira da Índia e estava incluído na armada de Vasco da Gama. Entre os artefactos encontrados, estava uma raríssima — só se conhece outro exemplar — moeda, chamada índio, que D. Manuel I mandara cunhar especificamente para o comércio com a Índia. É verdade que os dicionários não tratam devidamente a acepção (no Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa lê-se que é a «moeda antiga alusiva ao descobrimento do caminho marítimo para a Índia, cunhada nos finais do século XV»), mas não é por isso que aqui venho, mas sim porque a locutora disse duas ou três vezes «a índio». A pessoa que estava ao meu lado apressou-se a declarar que estava certíssimo, pois subentendia-se a palavra «moeda». Ah, pois, os subentendidos... Subentendem, entendem por baixo... Nunca ouvi nem li, por exemplo, «a escudo» ou «a euro» (e se algum dia ouvir fico com a última prova de que estão todos passados dos carretos).

 

[Texto 6681]

Helder Guégués às 22:40 | comentar | favorito
29
Fev 16

Uma dificuldade pública

Absurdo repetido

 

      Estava aqui a consultar os censos de 1981 de Aurangabad (ah, sim, a vida não é fácil), e do que me lembrei foi do absurdo — absurdo repetido — de um título de hoje no Público (caro Nuno Pacheco, pelas alminhas!): «Governo quer fazer um “censos” da população com deficiência» (p. 12). Mas que raio de português é este, pode saber-se?

 

[Texto 6650]

Helder Guégués às 23:45 | comentar | ver comentários (1) | favorito
20
Fev 16

«Os piores possíveis»

Evidentemente

 

      «Até há pouco tempo, mais de duas mil famílias moravam ainda sob tendas — recentemente, o U. N. R. W. A. [United Nations Relief and Works Agency] construiu casas de zinco. As condições do campo, evidentemente, são as piores possível» (Palestinianos, os Novos Judeus, Helena Salem. Lisboa: Livros Horizonte, 1978, p. 67).

      O pior possível, pois claro, mas os piores possíveis. É erro que vejo com alguma frequência, e percebo porquê. Pois, mas não é expressão tão fixa que se prescinda da concordância. Uma pessoa menos alfabetizada nunca erra nestas coisas. «Sob tendas» matava de novo João de Araújo Correia. É curioso que no sítio dos Livros Cotovia, que publicou uma obra desta autora, já falecida, se lê que é autora da obra Palestinos, os Novos Judeus. Era bom, era.

 

[Texto 6636]

Helder Guégués às 20:52 | comentar | ver comentários (1) | favorito
29
Jan 16

«Os milhões»

Desportivamente

 

      «As 4,2 milhões de razões para o tour de Proença pela China» (Isabel Paulo e Pedro Candeias, Expresso Diário, 28.01.2016). Podia ser, mas é antes assim: «Os 4,2 milhões de razões para o tour de Proença pela China.» Haja concordância (e paciência, para mim). Não têm de quê, Isabel Paulo e Pedro Candeias.

 

[Texto 6576]

Helder Guégués às 09:16 | comentar | favorito
07
Jan 16

«Tempos “horribilis”»?

Os que vivemos

 

      «Também o Sindicato dos Funcionários do SEF aplaudiu a escolha. Num comunicado assinado pela presidente, Manuela Niza Ribeiro, esta sublinha a “reconhecida dedicação e integridade” da nova directora nacional, que diz ter uma “visão global e actual do papel do serviço”, o que constitui “uma lufada de ar fresco após tempos horribilis”» («Inspectora de carreira é a nova directora do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras», Mariana Oliveira, Público, 6.01.2016, p. 15).

      Quando integramos palavras e expressões latinas e de outras línguas declináveis em frases na nossa língua, surge-nos quase sempre esta dúvida: a que gramática, mesmo que mínima, atendemos? No caso: «tempos» é plural; horribilis, singular. Gramática mínima é atender, pelo menos, à concordância. Se, para não complicar, abstrairmos do caso e classe, deixamos no nominativo e seria então horribiles. Tempos horribiles.

 

[Texto 6527]

Helder Guégués às 00:27 | comentar | favorito
Etiquetas: ,