21
Dez 16

Adeus, concordância

Já era

 

      Nunca foi tão fácil disseminar o bem e o mal, o bom e o mau. A Lusa enviou para as redacções de vários meios de comunicação uma notícia sobre o aumento do preço dos passes intermodais. E lá passa o erro em todas as redacções: «O preço dos passes intermodais dos transportes públicos de Lisboa vão aumentar entre 0,10 e 1,30 euros em 2017, na sequência de um despacho do Governo publicado hoje e que fixa um aumento máximo de 1,5%.» Onde estão o brio e o cuidado que se deve ter com o que se publica? Já é o novo normal; ninguém estranha nem protesta.

 

[Texto 7345]

Helder Guégués às 21:54 | comentar | ver comentários (2) | favorito
01
Mai 16

Escrever, reler, rever, publicar

Dois postos de trabalho

 

      Mesmo a propósito, pois é 1.º de Maio. Não acham que a Lusa e a TSF deviam contratar revisores? «Ide e divirtam-se... eu pago», é o título de uma notícia de hoje, sobre um empresário chinês que pagou as férias em Espanha para 2500 empregados seus.

 

[Texto 6780]

Helder Guégués às 22:57 | comentar | ver comentários (6) | favorito
13
Abr 16

«Os três mil milhões»

Não agradeça, mas concorde

 

   «Mark Zuckerberg quer toda a gente online. Ontem, em São Francisco, Califórnia, o fundador do Facebook revelou a intenção de ligar à Internet as três mil milhões de pessoas que em todo o mundo permanecem à margem» («Zuckerberg anuncia o fim dos call centers e um router voador maior do que um 737», Pedro Guerreiro, Público, 13.04.2016, p. 48).

      Pedro Guerreiro, não é «as três mil milhões de pessoas», mas sim «os três mil milhões de pessoas».

 

[Texto 6743]

Helder Guégués às 09:40 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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17
Mar 16

Concordância, já era

Largue as aspas

 

      «Bastidores da “guerra” de Rui Moreira com a TAP deu um livro» (Patrícia Carvalho, Público, 17.03.2016, p. 11). Tão preocupada a jornalista estava que não interpretássemos a questiúncula como um conflito armado entre grupos que envolvesse mortes e destruição, que não resistiu às amparadoras aspas. Tão perturbada, ‘tadinha, que até falhou a concordância: «os bastidores deu um livro». Tão correcto como «o bastidor deram um livro», não é? Agora curioso é que no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora as guerras são todas assim, com sangue e destruição. Contudo, em 2001, o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa registava, e bem, esta acepção, que todos nós já usámos alguma vez: «Desentendimento entre pessoas, em que pode haver agressão física ou verbal. Quando se divorciaram, iniciaram uma guerra sem tréguas.» Pense nisto, Patrícia Carvalho.

 

[Texto 6692]

Helder Guégués às 10:23 | comentar | favorito
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14
Mar 16

Que moeda essa, o índio

Acham tudo normal

 

      Num noticiário da manhã na Antena 3, ouvi que o Ministério do Património e da Cultura de Omã anunciara a descoberta de um navio português naufragado numa ilha remota de Omã em 1503, que fazia a Carreira da Índia e estava incluído na armada de Vasco da Gama. Entre os artefactos encontrados, estava uma raríssima — só se conhece outro exemplar — moeda, chamada índio, que D. Manuel I mandara cunhar especificamente para o comércio com a Índia. É verdade que os dicionários não tratam devidamente a acepção (no Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa lê-se que é a «moeda antiga alusiva ao descobrimento do caminho marítimo para a Índia, cunhada nos finais do século XV»), mas não é por isso que aqui venho, mas sim porque a locutora disse duas ou três vezes «a índio». A pessoa que estava ao meu lado apressou-se a declarar que estava certíssimo, pois subentendia-se a palavra «moeda». Ah, pois, os subentendidos... Subentendem, entendem por baixo... Nunca ouvi nem li, por exemplo, «a escudo» ou «a euro» (e se algum dia ouvir fico com a última prova de que estão todos passados dos carretos).

 

[Texto 6681]

Helder Guégués às 22:40 | comentar | favorito
29
Fev 16

Uma dificuldade pública

Absurdo repetido

 

      Estava aqui a consultar os censos de 1981 de Aurangabad (ah, sim, a vida não é fácil), e do que me lembrei foi do absurdo — absurdo repetido — de um título de hoje no Público (caro Nuno Pacheco, pelas alminhas!): «Governo quer fazer um “censos” da população com deficiência» (p. 12). Mas que raio de português é este, pode saber-se?

 

[Texto 6650]

Helder Guégués às 23:45 | comentar | ver comentários (1) | favorito
20
Fev 16

«Os piores possíveis»

Evidentemente

 

      «Até há pouco tempo, mais de duas mil famílias moravam ainda sob tendas — recentemente, o U. N. R. W. A. [United Nations Relief and Works Agency] construiu casas de zinco. As condições do campo, evidentemente, são as piores possível» (Palestinianos, os Novos Judeus, Helena Salem. Lisboa: Livros Horizonte, 1978, p. 67).

      O pior possível, pois claro, mas os piores possíveis. É erro que vejo com alguma frequência, e percebo porquê. Pois, mas não é expressão tão fixa que se prescinda da concordância. Uma pessoa menos alfabetizada nunca erra nestas coisas. «Sob tendas» matava de novo João de Araújo Correia. É curioso que no sítio dos Livros Cotovia, que publicou uma obra desta autora, já falecida, se lê que é autora da obra Palestinos, os Novos Judeus. Era bom, era.

 

[Texto 6636]

Helder Guégués às 20:52 | comentar | ver comentários (1) | favorito
29
Jan 16

«Os milhões»

Desportivamente

 

      «As 4,2 milhões de razões para o tour de Proença pela China» (Isabel Paulo e Pedro Candeias, Expresso Diário, 28.01.2016). Podia ser, mas é antes assim: «Os 4,2 milhões de razões para o tour de Proença pela China.» Haja concordância (e paciência, para mim). Não têm de quê, Isabel Paulo e Pedro Candeias.

 

[Texto 6576]

Helder Guégués às 09:16 | comentar | favorito
07
Jan 16

«Tempos “horribilis”»?

Os que vivemos

 

      «Também o Sindicato dos Funcionários do SEF aplaudiu a escolha. Num comunicado assinado pela presidente, Manuela Niza Ribeiro, esta sublinha a “reconhecida dedicação e integridade” da nova directora nacional, que diz ter uma “visão global e actual do papel do serviço”, o que constitui “uma lufada de ar fresco após tempos horribilis”» («Inspectora de carreira é a nova directora do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras», Mariana Oliveira, Público, 6.01.2016, p. 15).

      Quando integramos palavras e expressões latinas e de outras línguas declináveis em frases na nossa língua, surge-nos quase sempre esta dúvida: a que gramática, mesmo que mínima, atendemos? No caso: «tempos» é plural; horribilis, singular. Gramática mínima é atender, pelo menos, à concordância. Se, para não complicar, abstrairmos do caso e classe, deixamos no nominativo e seria então horribiles. Tempos horribiles.

 

[Texto 6527]

Helder Guégués às 00:27 | comentar | favorito
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25
Set 15

Uma certa construção

Só para mentes iluminadas

 

      «É necessário a cada momento fazer um balanço correcto da força real que se tem e daquela que é necessária ter, nunca esquecendo que a apreciação da força duma organização revolucionária não deve ser feita tanto por aquilo que é, como por aquilo que seria necessário que fosse para cumprir as tarefas que lhe cabem numa situação histórica determinada.» Tentem lá esquecer-se ou não querer saber que é uma citação de Álvaro Cunhal (Discursos Políticos, vol. 11. Lisboa: Edições Avante!, 1980, p. 311). Aquela construção — «é necessária ter» — é correcta?

 

[Texto 6270]

Helder Guégués às 23:06 | comentar | ver comentários (1) | favorito