04
Dez 17

«Sobre/sob», de novo

A ignorância continua

 

     A polícia prossegue, no cumprimento da lei, o seu implacável combate à venda de animais de espécies protegidas. «“Foram detidos dois homens por posse de parte das aves, um por posse de aves e por resistência e coação sob funcionário e ainda um quarto por resistência e coação sob funcionário”, esclarece a PSP» («Quatro detidos por alegada venda de aves de espécies protegidas», TSF, 3.12.2017, 19h49).

    Já estou a imaginar os passarinheiros execrandos, os grandes criminosos coagidos debaixo do funcionário, talvez com a promessa de umas bastonadas cariciosas.

 

[Texto 8431]

Helder Guégués às 08:50 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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01
Dez 17

«Pela mão de/à mão»

Como são semelhantes...

 

      «José Pedro era comendador à mão de Jorge Sampaio», disse ontem Ana Lourenço no programa 360º, na RTP3. Confusão com expressões semelhantes: a jornalista queria dizer pela mão de, ou seja, por intervenção de; por iniciativa de. Já à mão significa ao alcance, ao dispor. Nem sequer a expressão correcta seria a minha escolha, como também não foi a de Mário Lopes no Público de hoje, que escreveu que os elementos dos Xutos & Pontapés foram tornados comendadores, «cortesia do então Presidente da República Jorge Sampaio, em 2004».

 

[Texto 8423]

Helder Guégués às 17:49 | comentar | favorito
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19
Nov 17

«Extirpar/estripar»

Arrancar o mal pela raiz

 

      Em Angola, a limpeza — ou simulacro de limpeza, quem sabe? — mal começou. Agora foi detido o director nacional do Tesouro por suspeita de desvio de verbas. Segundo o Observador, que não muda nem sequer uma sílaba do que escreveu a Lusa, João Lourenço afirmou na tomada de posse: «A corrupção e a impunidade têm um impacto negativo direto na capacidade do Estado e dos seus agentes executarem qualquer programa de governação. Exorto por isso todo o nosso povo a trabalhar em conjunto para estripar esse mal que ameaça seriamente os alicerces da nossa sociedade» («Detido diretor nacional do Tesouro angolano por suspeita de desvio de verbas», Observador, 18.11.2017, 12h23).

      Agora querem apenas estripar o mal... Está bem, está. Talvez até lhe ponham apenas uma banda gástrica, para o mal comer menos recursos que pertencem ao povo angolano. Entretanto, alguns leitores chamaram a atenção para o erro, mas nada aconteceu. Gente importante e muito ocupada. É impressionante!

 

[Texto 8354]

Helder Guégués às 10:49 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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01
Nov 17

«Sob/sobre», mais uma vez

Revisto, mas pouco

 

      «Por cada dia que passava, surgiam mais xailes negros pelas ruas, homens de cenhos carregados de tragédias, e Lisboa, ainda sobre a pressão dos efeitos traumáticos da Grande Guerra, esvaída de fome, gania prantos e mortos breves, tão apressados que dir-se-ia que Deus apenas lhes dera vida para que a morte os levasse» (Mataram o Sidónio!, Francisco Moita Flores. Revisão de Ayala Monteiro. Alfragide: Leya, 2010, p. 12).

      Isto de confundir as preposições sob e sobre é muito triste, e ainda mais num livro que foi revisto. Acho, no entanto, que Francisco Moita Flores não é comigo que se vai zangar. Vejam: «Por cada dia que passava, surgiam mais xailes negros pelas ruas e homens de cenhos carregados. Lisboa ainda sobre a pressão do trauma da Guerra, esvaía-se de fome, pranteava os mortos breves, tão mais numerosos que parecia que Deus apenas dava vida para que a morte fizesse o seu trabalho.» Tive acaso acesso aos rascunhos do autor? Não: este segundo texto, datado de Março deste ano, é assinado por Fleming de Oliveira, «advogado, antigo magistrado do MP, antigo Deputado, antigo Presidente da Assembleia Municipal de Alcobaça, crítico literário e autor de várias publicações», que por estes dias lançou a obra No Tempo das Pessoas «Importantes» como Nós, editada pela Câmara Municipal de Alcobaça. Podemos encontrá-lo no seu blogue, aqui.

 

[Texto 8284]

Helder Guégués às 14:39 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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26
Out 17

«Arrematar/arrebatar»

Erros arrebatadores

 

      Foi leiloado um fragmento do Muonionalusta (complicado, muitas sílabas), o meteorito mais antigo conhecido no planeta Terra. Ora, uma notícia sobre qualquer leilão atrai sempre um erro fatal dos jornalistas: «O mineral de 26,5 quilos foi inserido na plataforma de leilões digitais a 13 de Outubro e recebeu 25 licitações, acabando por ser arrebatado por 15.999 euros» («Leiloado o mais antigo meteorito milenar que se conhece», Rádio Renascença, 24.10.2017, 13h15). Confundem, porque são semelhantes, arrebatar com arrematar.

      Parece, segundo aquele artigo, que há agora uma febre louca por meteoritos. Todos querem ficar ricos sem mexer uma palha. «Randy Korotev, um geólogo lunar da Universidade de Washington, relata ao New York Times que, desde 2006, já recebeu cerca de 18 mil e-mails de pessoas a tentar perceber o potencial valor da rocha que tinham encontrado. A grande maioria são o que o especialista chama de “meteowrongs” – rochas e metal que se parecem com meteoritos.» E o geólogo, parvo, perde tempo com isto. Bem, mas não foi ele que inventou o termo meteowrong, como se pode depreender do texto.

 

[Texto 8270]

Helder Guégués às 14:56 | comentar | favorito
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23
Out 17

«Mandado/mandato», mais uma triste vez

Cérebros desligados

 

      «A PSP do Porto anunciou a detenção de 16 pessoas, três das quais por alegado tráfico de droga, no âmbito de uma operação realizada na Baixa do Porto na madrugada de sábado. Posse de armas proibidas (uma), condução sob o efeito de álcool (oito), mandato pendente (uma), desobediência (duas) e condução sem carta (uma) foram os restantes motivos que levaram às detenções» («Vários detidos levam a PSP a deter 16 pessoas na Baixa do Porto», Destak, 23.10.2017, p. 2).

      Esta não entra na cabeça dos jornalistas, é escusado. Confundem mandado com mandato, uma coisa simplicíssima, todos os dias. Já o título foi escrito com o cérebro completamente desligado: («Vários detidos levam a PSP a deter 16 pessoas na Baixa do Porto».

 

[Texto 8253]

Helder Guégués às 09:42 | comentar | favorito
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02
Out 17

«Olhos mareados»?

Porque é parecido

 

      «Faltava só fechar a porta, saber quem ficava dentro e quem ia dormir a casa. “Adeus, minha querida. Gosto muito de ti”, dizia um senhor, olhos mareados e voz embargada, ele do lado de fora da porta, a mulher lá dentro, onde ficaria com a filha. “Eu sei que ninguém vai para a guerra, mas também ninguém sabe o que vai acontecer”, tenta explicar o senhor» («Dezenas de crianças dormiram na sala onde milhares votaram», Sofia Lorena, Público, 2.10.2017, p. 28).

      Não digo que nunca antes vi, mas não será por isso, evidentemente, que está correcto. É certo que se diz mareado do que perdeu o brilho, do que está embaciado. É isto que se pretende exprimir? Não me parece, mas antes que se estão a encher de lágrimas, logo, dir-se-á olhos marejados.

 

[Texto 8183]

Helder Guégués às 21:09 | comentar | favorito
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30
Set 17

«Arriar forte e feio»

Talvez amanhã

 

      Grande inépcia, a de Teresa Leal Coelho. (E que tal se cortasse essa franja, para começar?) Ah, mas esperem, este blogue é de questões linguísticas. Corta!

      Bem, de vez em quando continuo a ver confusões entre arriar e arrear, de que já aqui tenho tratado. Vejamos: «Nem sempre tudo corria bem e em paz com os anjos. Também sabia ser bera e arrear forte e feio» (Na Boca da Infância, António Damião. Lisboa: Editorial Caminho, 1988, p. 36). António Damião escorregou aqui: é arriar forte e feio. Bater, dar pancada. Mas hoje também li que certo picolho conspícuo (posso dizer «picolho»? O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora encolhe os ombros de papel) tinha «vincada preferência por homens mais velhos que lhe arriassem forte e feio». Ainda está para vir o dicionário que recolha exaustivamente todas as acepções de todas as palavras que usamos no dia-a-dia.

 

[Texto 8179]

Helder Guégués às 15:04 | comentar | ver comentários (2) | favorito
21
Set 17

«Temerosamente/temerariamente»

Mas não queremos

 

      «Vários especialistas recusaram fazer a perícia às músicas de Tony Carreira por receio da dimensão do artista, indica a resposta da Inspecção das Actividades Culturais enviada quase dois anos após o pedido de perícia feito pelo Ministério Público. [...] No documento, o inspector-geral da IGAC explica as razões das recusas: “Por um lado, pela especialidade dos conhecimentos musicais exigíveis, por outro, porque nos contactos efectuados a pessoas com conhecimentos desta natureza, estas têm temerariamente recusado a colaboração ou demonstrado indisponibilidade, fundamentalmente alegando a dimensão do artista, sucesso comercial das obras e receio de futuro litígio em que se possam ver envolvidos”» («Ministério Público propôs acordo entre Tony Carreira e editora que se queixou do cantor», Rádio Renascença, 21.09.2017, 15h07).

      Nenhum especialista aceita fazer a perícia por receio — logo não é temerariamente que o fazem, mas temerosamente. Isto é temerar a língua, isso sim. Não tanto, mera confusão, mais uma. Se quiséssemos enviesar o sentido da frase, diríamos que os especialistas recusaram temerariamente o pedido/proposta da IGAC. Sem receio.

 

[Texto 8164]

Helder Guégués às 20:16 | comentar | ver comentários (1) | favorito (1)
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04
Set 17

«Intersecção/intercepção»

Do Além

 

      O autor não sabe se houve «intersecção do inimigo», se «intercepção do inimigo». Em dias e horas de mais abnegação, até sugerirá, quem sabe, que houve intercessão. Homem de fé, espera que o leitor perceba tudo, por muito mal explicado, e que o espírito de Von Clausewitz não lhe mande maus influxos do Além.

 

[Texto 8115]

Helder Guégués às 05:30 | comentar | favorito
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23
Jul 17

«Sob/sobre», a confusão continua

Jornalistas...

 

      «As Ilhas Paracel, no Mar Meridional da China, eram bancos de areia até a China, em menos de dez anos, as ter transformado em paraísos naturais. O arquipélago suscita grande interesse pela suspeita de estar sob jazigos de petróleo e é reivindicado há décadas por vários países da Ásia. A China tenta garantir a soberania ao tornar as ilhas habitáveis» («As ilhas inabitadas que a China transformou em paraísos naturais», Rádio Renascença, 22.07.2017, 17h51).

      Já aqui tínhamos falado do arquipélago das Paracel. Hoje, porém, o caso é pior: mais uma triste vez, um jornalista confunde as preposições sob e sobre. Mas serão mesmo jornalistas que escrevem isto?

 

[Texto 8047]

Helder Guégués às 16:44 | comentar | favorito
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