14
Abr 17

Menos uma confusão

Outra bojarda

 

      Aliás, a abécula, confusionista mais trapalhão do que os jornalistas que critica, diz que a bomba matou talibãs. Confunde insurgentes com extremistas. Ah, mas esperem, ele tem uma teoria: insurgente é um horrível anglicismo! Confunde, mais uma vez, etimologia com uso histórico do vocábulo. Até me apetecia oferecer-lhe o Lexicón etimológico y semántico del Latín, de Santiago Segura Munguía, que comprei esta semana, mas eu já lhe dou tanto, quando ele nada merece, é melhor não. Lá para o Natal ocupo-me novamente de ti, não fiques ansioso.

 

[Texto 7718]

Helder Guégués às 22:15 | comentar | favorito
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Léxico: «bojarda/bujarda»

Bojarda do dia

 

      Não vamos esperar pela «nossa especialista em língua portuguesa»: vamos mesmo nós lembrar àquela abécula que bujarda é uma coisa bem diferente de bojarda. Esta, a bojarda, é qualquer disparate ou calinada das grandes; peta; chuto violento; bujarda é um martelo com duas cabeças, usado no acabamento de cantaria. O que me espanta é que ele, armado em parvo e em olisipógrafo (ócios de funcionário público, suspeito), de certeza que já leu a expressão «pedra bujardada» (cá está mais um verbo, bujardar, ignorado pelo Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora), mas, pelos vistos, foi conhecimento tão efémero como manteiga em focinho de cão. Não se incomodem, ele vem cá ler.

 

[Texto 7716]

Helder Guégués às 16:48 | comentar | favorito
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05
Abr 17

Apóstrofo/apóstrofe

Apóstrofo, senhores, apóstrofo

 

      «Um auto-intitulado “vigilante linguístico” percorre as ruas de Bristol, em Inglaterra, durante a noite para corrigir os letreiros das lojas. O erro gramatical mais frequente da cidade é a colocação de apóstrofes. […] Considerado o “Banksy da pontuação”, o primeiro letreiro que corrigiu foi num edifício estatal que tinha, desnecessariamente, duas apóstrofes colocadas. O método de correcção é a colocação de adesivos por cima dos erros. […] Durante o dia, o zelador da língua de William Shakespeare trabalha como engenheiro e dedica-se à família» («Há um vigilante da gramática à solta nas ruas», Rádio Renascença, 5.04.2017, 20h21).

    Está certo: apóstrofe é do género feminino. Está errado: o sinal gráfico chama-se apóstrofo. Há séculos, desde sempre, não é assim desde 1990. Como é que o Banksy da pontuação ia resolver isto? Com autocolantes em milhares de ecrãs de computadores não dava. Claro que sabemos: em inglês, apostrophe designa tanto o sinal gráfico como o recurso estilístico. 

[Texto 7679]

Helder Guégués às 23:37 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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10
Mar 17

Uma mesa muito especial

Erros por todo o lado

 

      Loja de luxo. Na montra, várias peças de mobiliário, entre as quais uma mesinha minúscula muito bonita. Num cartãozinho, também de luxo, este miserável erro: «Mesa com gaveta e pernas espraiadas com aplicações cinzeladas em bronze dourado.» A única coisa espraiadíssima era o preço, de muitas centenas de euros. O que eu vi é que as pernas eram espiraladas e com aplicações cinzeladas de bronze dourado.

 

[Texto 7546]

Helder Guégués às 09:53 | comentar | favorito
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02
Mar 17

«Desmarcar-se»/«demarcar-se»

A tempo de aprender

 

      O fabuloso mundo do futebol... Ontem à noite, a taberna do pai do árbitro Jorge Ferreira foi vandalizada. «Está escrito», ouvi-o hoje de manhã em declarações à Antena 1, «nada me move contra ninguém. As pessoas desmarcam-se de tudo e de todos, eu não me desmarco da arbitragem, nem daquilo que gosto de fazer.» Diz aquilo que ouve, pois desmarcar-se é termo futebolístico — fugir à marcação do adversário. Contudo, o que Jorge Ferreira queria dizer era demarcar-se, ou seja, afastar-se do futebol. Como é, ao que parece, consultor financeiro, talvez fale apenas inglês no dia-a-dia, e por isso não domina a língua portuguesa... 

 

[Texto 7522]

Helder Guégués às 14:20 | comentar | favorito
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15
Fev 17

«Contar/contabilizar»

Usurpação de funções

 

      «Em menos de um mês, a nova Administração norte-americana já contabiliza a primeira baixa de peso. Há vários dias que a demissão do conselheiro para a Segurança Nacional, Michael Flynn, era uma notícia pronta para ser dada, mas a forma atabalhoada como o processo foi conduzido é apenas parte do início mais conturbado de uma Presidência na história recente dos EUA» («Saída de Flynn mostra caos da Casa Branca», João Ruela Ribeiro, Público, 15.02.2017, p. 23).

   E isso de contabilizar não é mais propriamente tarefa para os contabilistas, João Ruela Ribeiro? A Administração conta as baixas (e também tuíta muito).

 

[Texto 7480]

Helder Guégués às 08:51 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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20
Nov 16

Agora é assim?

Há aí confusão

 

      «Porém, há áreas em que o CC praticamente não sofreu alterações, como na parte geral, o primeiro livro, ligado aos direitos de personalidade, sublinha o secretário-geral [Carlos Sousa Mendes]; hoje, por exemplo, o chamado direito ao esquecimento no Facebook e nas redes sociais (a possibilidade de apagar de vez o nosso registo na InterNet se violarem a nossa intimidade), tem base em normas escritas há 50 anos, acrescenta» («O Código Civil fez 50 anos e não envelheceu mal», Joana Gorjão Henriques, Público, pp. 8-9).

      Então agora é assim que se escreve Internet? Nem está por acaso a confundir com Youtube/YouTube, não? E será mesmo necessário abreviar Código Civil daquela maneira, CC?

 

[Texto 7259]

Helder Guégués às 21:57 | comentar | favorito
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03
Nov 16

Eutimia e heteronímia

E nímia confiança

 

      O psiquiatra Ricardo Gusmão, coordenador português da Aliança Europeia contra a Depressão, que entre nós é designada Eutimia (como nome comum, eutimia é sossego de espírito), foi ao Quinta Essência, na Antena 2, falar sobre depressões. E às tantas, largou esta pérola: «É engraçado porque a palavra “esgotamento” é um heterónimo popular de “depressão”.» Era neste ponto — aliás, repetido — que fazia falta uma daquelas tão peculiares gargalhadas de João Almeida, noutros pontos presentes e destoantes.

 

[Texto 7217]

Helder Guégués às 20:08 | comentar | favorito
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25
Out 16

«Maçaroca/massaroca»

Está mal, pá

 

      E a propósito de beijoca e de outras palavras igualmente patuscas terminadas em -oca, lembrei-me do par maçaroca/massaroca, que nem professoras/autoras distinguem e conhecem. Digo e provo. «— Sim, pá. Maçaroca, pilim, bago ou, se preferes um termo menos vulgar, dinheiro. Trago aí uma verdadeira fortuna em notas e sobretudo em moedas» (Uma Aventura na Televisão, Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada. Lisboa: Editorial Caminho, 2.ª ed., 1998). A espiga de milho é maçaroca; o termo popular para dinheiro é massaroca. Eu sei que há dicionários que apenas registam «maçaroca» para as duas acepções.

 

[Texto 7191]

Helder Guégués às 13:12 | comentar | ver comentários (1) | favorito
16
Out 16

Léxico: «trazer/vir à colação»

Parece mentira

 

      E a propósito de coagido: hoje, no programa Vozes da Lusofonia, o convidado era Paco Bandeira, que não ouvia há anos. A última vez, em lugar de guitarras e vozes, era de gritos e armas que se falava a propósito dele. Nesse ano, deu uma entrevista à Nova Gente, e uma das perguntas era se se considerava um homem violento. Que não, respondeu. E mais: «Ela [a ex-companheira] tinha de arranjar maneira de a arma ser chamada à coação.» E é isto. Se foi ele, um homem das palavras, ou a jornalista, uma mulher das palavras, a tão ignorantemente confundir coa(c)ção com colação, nunca saberemos, nem nos interessa. Trazer/vir à colação é referir, citar alguma coisa a propósito.

 

[Texto 7162]

Helder Guégués às 15:04 | comentar | favorito
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