02
Out 17

«Olhos mareados»?

Porque é parecido

 

      «Faltava só fechar a porta, saber quem ficava dentro e quem ia dormir a casa. “Adeus, minha querida. Gosto muito de ti”, dizia um senhor, olhos mareados e voz embargada, ele do lado de fora da porta, a mulher lá dentro, onde ficaria com a filha. “Eu sei que ninguém vai para a guerra, mas também ninguém sabe o que vai acontecer”, tenta explicar o senhor» («Dezenas de crianças dormiram na sala onde milhares votaram», Sofia Lorena, Público, 2.10.2017, p. 28).

      Não digo que nunca antes vi, mas não será por isso, evidentemente, que está correcto. É certo que se diz mareado do que perdeu o brilho, do que está embaciado. É isto que se pretende exprimir? Não me parece, mas antes que se estão a encher de lágrimas, logo, dir-se-á olhos marejados.

 

[Texto 8183]

Helder Guégués às 21:09 | comentar | favorito
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30
Set 17

«Arriar forte e feio»

Talvez amanhã

 

      Grande inépcia, a de Teresa Leal Coelho. (E que tal se cortasse essa franja, para começar?) Ah, mas esperem, este blogue é de questões linguísticas. Corta!

      Bem, de vez em quando continuo a ver confusões entre arriar e arrear, de que já aqui tenho tratado. Vejamos: «Nem sempre tudo corria bem e em paz com os anjos. Também sabia ser bera e arrear forte e feio» (Na Boca da Infância, António Damião. Lisboa: Editorial Caminho, 1988, p. 36). António Damião escorregou aqui: é arriar forte e feio. Bater, dar pancada. Mas hoje também li que certo picolho conspícuo (posso dizer «picolho»? O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora encolhe os ombros de papel) tinha «vincada preferência por homens mais velhos que lhe arriassem forte e feio». Ainda está para vir o dicionário que recolha exaustivamente todas as acepções de todas as palavras que usamos no dia-a-dia.

 

[Texto 8179]

Helder Guégués às 15:04 | comentar | ver comentários (2) | favorito
21
Set 17

«Temerosamente/temerariamente»

Mas não queremos

 

      «Vários especialistas recusaram fazer a perícia às músicas de Tony Carreira por receio da dimensão do artista, indica a resposta da Inspecção das Actividades Culturais enviada quase dois anos após o pedido de perícia feito pelo Ministério Público. [...] No documento, o inspector-geral da IGAC explica as razões das recusas: “Por um lado, pela especialidade dos conhecimentos musicais exigíveis, por outro, porque nos contactos efectuados a pessoas com conhecimentos desta natureza, estas têm temerariamente recusado a colaboração ou demonstrado indisponibilidade, fundamentalmente alegando a dimensão do artista, sucesso comercial das obras e receio de futuro litígio em que se possam ver envolvidos”» («Ministério Público propôs acordo entre Tony Carreira e editora que se queixou do cantor», Rádio Renascença, 21.09.2017, 15h07).

      Nenhum especialista aceita fazer a perícia por receio — logo não é temerariamente que o fazem, mas temerosamente. Isto é temerar a língua, isso sim. Não tanto, mera confusão, mais uma. Se quiséssemos enviesar o sentido da frase, diríamos que os especialistas recusaram temerariamente o pedido/proposta da IGAC. Sem receio.

 

[Texto 8164]

Helder Guégués às 20:16 | comentar | ver comentários (1) | favorito (1)
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04
Set 17

«Intersecção/intercepção»

Do Além

 

      O autor não sabe se houve «intersecção do inimigo», se «intercepção do inimigo». Em dias e horas de mais abnegação, até sugerirá, quem sabe, que houve intercessão. Homem de fé, espera que o leitor perceba tudo, por muito mal explicado, e que o espírito de Von Clausewitz não lhe mande maus influxos do Além.

 

[Texto 8115]

Helder Guégués às 05:30 | comentar | favorito
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23
Jul 17

«Sob/sobre», a confusão continua

Jornalistas...

 

      «As Ilhas Paracel, no Mar Meridional da China, eram bancos de areia até a China, em menos de dez anos, as ter transformado em paraísos naturais. O arquipélago suscita grande interesse pela suspeita de estar sob jazigos de petróleo e é reivindicado há décadas por vários países da Ásia. A China tenta garantir a soberania ao tornar as ilhas habitáveis» («As ilhas inabitadas que a China transformou em paraísos naturais», Rádio Renascença, 22.07.2017, 17h51).

      Já aqui tínhamos falado do arquipélago das Paracel. Hoje, porém, o caso é pior: mais uma triste vez, um jornalista confunde as preposições sob e sobre. Mas serão mesmo jornalistas que escrevem isto?

 

[Texto 8047]

Helder Guégués às 16:44 | comentar | favorito
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15
Jul 17

«Caçar/cassar»

Uma triste confusão

 

      «“Graças a Deus, as pessoas ainda não têm consciência que mudou para o melhor [sic] do infractor. Antes de 1 de Junho de 2016, se eu cometesse três contra-ordenações muito graves no mesmo dia, era condenada por elas, ficava imediatamente com a carta caçada e, durante dois anos, não podia tirar uma nova. Hoje em dia, cometo no mesmo dia cinco contra-ordenações graves e três muito graves e tenho seis pontos retirados da carta”, critica Maria Teresa Lume [advogada que acaba de publicar um livro sobre contra-ordenações ao Código da Estrada]» («Os portugueses estão a morrer mais na estrada. Porquê?», Rádio Renascença, 15.07.2017, 9h00).

      Como se fala habitualmente em caça à multa, o jornalista nem pensou uma vez; mas não: é carta cassada, isto é, anulada. É uma vergonha que um jornalista dê estes erros. E ninguém o corrige, ninguém vê.

 

[Texto 8029]

Helder Guégués às 11:13 | comentar | favorito
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03
Jul 17

«Sob/sobre», a confusão continua

Não estudem, não

 

      Vamos ver se este também me exige o currículo: «Embora o ministro da Defesa já tenha assumido a responsabilidade política pelo assalto aos Paióis Nacionais, em Tancos, os partidos à esquerda do PS não parecem satisfeitos. Embora não tenham pedido claramente a demissão de Azeredo Lopes, o tom das críticas acentuou-se» (João Moniz, Destak, 3.07.2017, p. 4). Uma notícia assim só merecia um título, este — «Ministro(s) sobre pressão». Que tal? Nota-se muito que confundem coisas básicas?

 

[Texto 7971]

Helder Guégués às 09:30 | comentar | ver comentários (1) | favorito (1)
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14
Mai 17

Ortografia: «bem-haja ≠ bem haja»

Vamos lá desconfundir

 

      «Bem-haja, Papa Francisco!» Assim termina Frei Bento Domingues a sua crónica de hoje no jornal Público («Fátima: que futuro?», p. 39). Termina, e termina mal. Frei Bento Domingues, veja: «Bem haja, Papa Francisco!» Mas: «O nosso bem-haja, Papa Francisco!» Bem haja é uma forma de agradecimento equivalente a «muito obrigado»; bem-haja usa-se como substantivo. Os dicionários, temos de o reconhecer, não ajudam nada na distinção. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, por exemplo, no verbete obrigado, que define como a «exclamação que exprime agradecimento» (será? Então porque é que de grato não diz o mesmo?), devia acrescentar todos os sinónimos, entre os quais este bem haja. E, em bem-haja, talvez bastasse esta nota: «bem-haja ≠ bem haja».

 

[Texto 7831]

Helder Guégués às 11:27 | comentar | ver comentários (1) | favorito
13
Mai 17

Visões e aparições

Qual a novidade?

 

      Houve por aí alguma agitação quando, esta semana, o P.e Anselmo Borges falou de Fátima e disse, aos microfones da TSF, que na Cova da Iria não houve aparições, mas visões. Que grande novidade, realmente! Em terra de cegos... Só os jornalistas é que são apanhados de surpresa com estas afirmações. Leiam, se fazem favor, o comentário teológico de Joseph Ratzinger a propósito dos acontecimentos na Cova da Iria. Os três pastorinhos não são os videntes de Fátima? Então, os videntes têm visões. (Agora estudem bem o que são, para a teologia, visões.) Ainda assim, ontem, na RTP, António Marujo, jornalista de assuntos religiosos, não deixou de realçar, com alguma surpresa, que Francisco tivesse usado também a palavra «visões».

 

[Texto 7828]

Helder Guégués às 17:08 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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09
Mai 17

«Escopo/escopro»

Nem de longe

 

      «O artista de rua britânico Banksy desenhou em Dover, no Reino Unido, um mural com uma representação da bandeira da União Europeia (UE) e que remete para a decisão do Reino Unido de sair da organização comunitária. O mural apresenta um operário a bater, com um martelo e um escopo, numa das estrelas representadas na bandeira, provocando uma fissura simbólica na União Europeia» («Banksy com nova obra em Dover inspirada no processo do ‘Brexit’», Destak, 9.05.2017, p. 11).

     Pois, todos erramos — mas uns mais, outros menos. Um melhor conhecimento da língua, em que se incluem, obviamente, as variantes, evitaria este erro. Escopo e escopro não têm nenhuma relação, afinidade ou origem comum, nada. E, já agora, devo dizer que na pintura de Bansky me parece estar representado um ponteiro e não um escopro.

 

[Texto 7809]

Helder Guégués às 09:27 | comentar | ver comentários (9) | favorito
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14
Abr 17

Menos uma confusão

Outra bojarda

 

      Aliás, a abécula, confusionista mais trapalhão do que os jornalistas que critica, diz que a bomba matou talibãs. Confunde insurgentes com extremistas. Ah, mas esperem, ele tem uma teoria: insurgente é um horrível anglicismo! Confunde, mais uma vez, etimologia com uso histórico do vocábulo. Até me apetecia oferecer-lhe o Lexicón etimológico y semántico del Latín, de Santiago Segura Munguía, que comprei esta semana, mas eu já lhe dou tanto, quando ele nada merece, é melhor não. Lá para o Natal ocupo-me novamente de ti, não fiques ansioso.

 

[Texto 7718]

Helder Guégués às 22:15 | comentar | favorito
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