11
Fev 17

A Justiça vai à escola

Ver para crer

 

      «O novo director do Centro de Estudos Judiciários (CEJ) promete, em entrevista à Renascença, um esforço de todos na formação dos magistrados para que as sentenças e acórdãos sejam perceptíveis pelo cidadão. “Uma decisão que um juiz profira deve ser perceptível para o destinatário. Se não é compreendida, penso que há aí uma falha que deve ser superada”, afirma o juiz conselheiro João Miguel, que dirige agora [sic] escola onde os magistrados são formados. As sentenças “devem bastar-se por a elas [sic] próprias, para que os destinatários as entendam perfeitamente” e para “não serem necessárias outras explicações” adicionais, apela o director do CEJ, entidade que tem produzido alguns documentos com orientações nesse sentido, frisa» («Novo director da escola de juízes quer sentenças que os cidadãos entendam», Liliana Monteiro, Rádio Renascença, 10.02.2017, 21h22).

     Eu imagino a dificuldade que alguns magistrados, de poucas e más leituras, têm a redigir as sentenças. Vamos ver se a situação muda, mas dificilmente nos próximos tempos alguém vai dizer eppur si muove, pois a Justiça mostra-se conservadora em tudo.

 

[Texto 7475]

Helder Guégués às 00:47 | comentar | ver comentários (1) | favorito
Etiquetas: ,
17
Out 16

A nossa querida televisão

Deus nos livre

 

      «‘Super Quiz’ é um programa de [sic] TVI na madrugada que serve para sacar dinheiro em telefonemas a noctívagos, em geral ignorantes. A apresentadora pede o nome dum animal com cinco letras e um diz “elefante”. Outra diz “jaguar”. A TVI ao serviço da cultura» («Os novos proletários da televisão», Eduardo Cintra Torres, «Sexta»/Correio da Manhã, 16.09.2016, p. 74).

      Não sabem ler nem escrever, não sabem contar — que sabem fazer? E com esta matéria-prima, que televisão se pode fazer?

 

[Texto 7163]

Helder Guégués às 15:11 | comentar | favorito
Etiquetas: ,
20
Set 16

Centros de estudo e TPC

Leiam e brinquem

 

      As criancinhas devem ou não fazer trabalhos de casa, TPC? Manuela Leite, directora do centro de estudos Letras e Números, expõe a sua opinião na RTP: «Temos alunos aqui a chegar por volta das 18h00, onde [sic] já estão cansados...» Corta! Corta! Tomem juízo: procurem soluções, deixem as crianças com uma avó, um irmão mais velho, até em casa sozinhas. Incentivem-nas a ler, a pensar, a escrever, a brincar...

 

[Texto 7105]

Helder Guégués às 10:09 | comentar | ver comentários (2) | favorito
Etiquetas: ,
08
Jun 16

Numeração romana

Pobres alunos

 

      Com que então a professora não aceitou que a criancinha representasse o 4 na numeração romana por IIII... «O teu pai pode andar lá pela Internet a ver, mas isso está errado.» Ah, sim, minha espertalhona? Aprendi o meu latinzinho, e fiz algumas leituras, e estou bem certo de que é assim. Até recentemente, aliás, isto mesmo se podia ler em modestíssimas gramáticas de uso escolar, mas agora, pelos vistos, a ciência já é outra. Como ensina o erudito João Pedro Ribeiro, os «Romanos para significar 4 não usavam IV; mas IIII; e para nove VIIII; e do 8.º século se acham exemplos de IIIII». Se há duas formas de representar alguns algarismos na numeração romana, os professores não podem deixar de aceitar ambas. Evidentemente, primeiro têm — é sua obrigação — de aprender.

 

[Texto 6873]

Helder Guégués às 19:26 | comentar | ver comentários (2) | favorito
Etiquetas: ,
03
Nov 15

Sobre o aposto

Maria, onde puseste o aposto?

 

      Já sei que há por aí professores que têm dúvidas sobre esta questão. Diga-se já: não faz parte do conceito de aposto a sua posição, pré-nominal ou pós-nominal. «Segundo a gramática tradicional», lê-se no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, «função sintáctica equivalente à de modificador apositivo do nome.» Os gramáticos menos precipitados, como F. Silveira Bueno, o que dizem é que o «aposto ou continuado1, em geral, aparece entre o sujeito e o predicado» (Gramática Normativa da Língua Portuguêsa. S. Paulo: Saraiva, 1944, p. 468). Interessa a função, não o lugar na frase2. Aliás, o aposto pode às vezes referir-se, como ensinou Mário Barreto (Novíssimos Estudos da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves, 1923, p. 143), não a um substantivo, mas ao sentido de uma oração, e também neste caso se antepõe ou pospõe.

 

[Texto 6375]

 

 

1 Vejo que, no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, se diz que «continuado» é nome masculino, e remete para «aposto». Ora, o que dantes se dizia era que o aposto era o mesmo que adjectivo apositivo ou nome continuado.

 

Curiosamente, em concanim, este complemento antepõe-se ao nome a que se apõe (não estou a brincar com as palavras) e, reparem, fica sempre no nominativo, ainda que o nome receba alguma flexão. (Gramática Concani, Graciano Morais: Lisboa: Agência-Geral do Ultramar, 1961, p. 64) E ainda dizem que em latim é difícil...

 

Helder Guégués às 22:12 | comentar | favorito
Etiquetas: ,
21
Out 15

Pronúncia: «deixis/dêixis»

Deixem a dêixis

 

      Saber que há professores de Português que pronunciam deixis (ou «dêixis», aportuguesado) como se aquele x valesse ch deixa-me ainda com menos fé na humanidade. E valerá a pena perdermos tempo a lembrar, aconselhar, ensinar que se pronuncia como «tóxico»? Com certeza que não, pois também não sabem pronunciar o vocábulo «tóxico». Isto já não é de Homo sapiens, mas de Homo demens.

 

[Texto 6344]

Helder Guégués às 22:25 | comentar | ver comentários (1) | favorito
Etiquetas: ,
04
Jun 15

Introdução à Cultura e Línguas Clássicas

Uma boa notícia

 

      «Gaudeamus! Foi deste modo que a Associação de Professores de Latim e Grego (APLG) reagiu ontem ao anúncio do Ministério da Educação e Ciência (MEC) dando conta que, no próximo ano lectivo, começará a ser desenvolvido um projecto de Introdução à Cultura e Línguas Clássicas no ensino básico. […] A componente de Introdução à Cultura e Línguas Clássicas terá um carácter opcional e poderá ser oferecida por escolas do 1.º ao 3.º ciclo. Os conteúdos destinados às escolas vão estar disponíveis no site da Direcção-Geral de Educação a partir do próximo dia 5, data do lançamento oficial do projecto. […] Em vários países europeus, as aulas de Latim estão entre as mais populares. Na Alemanha, por exemplo, onde é ensinado a partir do 5.º ano, é o terceiro idioma estrangeiro mais estudado nas escolas» («Latim e Grego também vão ser ensinados nas escolas básicas», Clara Viana, Público, 4.06.2015, p. 4).

 

[Texto 5939]

Helder Guégués às 07:33 | comentar | ver comentários (2) | favorito
Etiquetas: ,
31
Mai 15

PNL e Acordo Ortográfico de 1990

Mas não quero dar ideias

 

      «O livro [Conversas com Versos], já nas lojas, tem o carimbo Ler+, do Plano Nacional de Leitura, mas não aplica, ostensivamente, o novo acordo ortográfico. “Não aderimos, nem vamos aderir. A tentativa de unificar foi totalmente frustrada, foi feita por pessoas catedráticas que não andam na rua, não comunicam com as pessoas no metro, no autocarro. Este nosso trabalho é extremamente colectivo, toda a gente entrou, fez coros, deu opiniões, foi uma coisa livre, como se fôssemos crianças num recreio” [diz Eugénia Melo e Castro]» («“Este trabalho foi uma coisa livre, como se fôssemos crianças num recreio”», Nuno Pacheco, Público, 31.05.2015, p. 32).

      Tão ostensivamente, imagino, como todos os livros que fazem parte do Plano Nacional de leitura e não seguem a nova ortografia. Isto não são sinais contraditórios, quererem impor as novas regras ortográficas e as obras com o selo do PNL poderem seguir ou não essas regras?

 

[Texto 5927]

Helder Guégués às 12:01 | comentar | ver comentários (5) | favorito
Etiquetas: ,
08
Mai 15

PACC

Que surpresa...

 

      «Mais de metade dos professores que, em Março, realizaram os testes de Português e Educação Especial para o 2.º ciclo e Física e Química chumbaram nesta avaliação integrada na Prova de Avaliação de Conhecimentos e Capacidades (PACC)» («Professores chumbam nas provas de Português e de Física e Química», Clara Viana, Público, 8.05.2015, p. 10).

 

[Texto 5830]

Helder Guégués às 13:38 | comentar | ver comentários (2) | favorito
Etiquetas:
02
Abr 15

Ensino do Latim, de novo

Um insano elogio à incultura

 

      O Público, desta vez no editorial, regressa, o que era previsível, ao tema do ensino do Latim. Cada um avaliará por si; quanto a mim, estudar Latim foi uma das decisões mais importantes da minha vida. Laus Deo.

      «Há um ano, nas páginas de opinião do PÚBLICO, uma professora deixava no ar esta pergunta: “Será possível que ninguém queira aprender Latim em Portugal? Que nenhum aluno se interesse pelo mundo antigo e pelas histórias que percorrem a arqueologia da humanidade? Que os jovens portugueses sejam tão diferentes dos seus congéneres europeus? Há verdadeiramente interesse, por parte de quem decide, que a situação mude?” Da parte dos alunos, a resposta estava dada: contra os 13 mil que em 1996 fizeram o exame de Latim do 12.º ano, os números de 2014 eram verdadeiramente catastróficos, mostrando que apenas 114 se apresentaram a exame nesta disciplina (exame que agora se realiza no final do 11.º ano). Culpa dos alunos? Também, mas não principalmente. A verdade é que o ensino do Latim foi sendo visto ao longo dos anos como coisa menor, com os resultados que estão à vista. Culpa, em primeiro lugar, de quem decide. Ora quem decide, ou seja, o Ministério da Educação, vem agora admitir (como se registou no artigo “Latim a remar contra a maré”, publicado na edição de 1 
de Abril) que “está a preparar o reforço do ensino de Latim e Cultura Clássica no ensino secundário”, admitindo, quanto ao ensino básico, estar “a estudar a possibilidade de a oferta curricular ser definida em algumas escolas”. Isto, para recorrer ao próprio Latim, é uma “salvação” in extremis. Ou seja: no limite, nos últimos momentos vitais. É como se à cabeceira de um moribundo se sentassem especialistas a discutir um plano a médio prazo que viesse a devolver-lhe a vida. Mesmo que se salve a intenção (para já é apenas isso que temos pela frente, uma intenção), tudo o resto caminha a desfavor. A começar por um “acordo ortográfico” que menospreza e renega a raiz latina e grega da língua portuguesa, agora reduzida na fala e na grafia a ferramenta utilitária e esvaziada de bases científicas. E a esta miséria chegámos, num insano elogio à incultura» («Salvação do Latim tardia e in extremis», Público, 2.04.2015, p. 43).

 

[Texto 5713]

Helder Guégués às 07:35 | comentar | ver comentários (1) | favorito
Etiquetas: ,
01
Abr 15

Ensino do Latim

Perdemos todos

 

      «Em 1996, cerca de 13 mil alunos fizeram o exame de 12.º ano de Latim. Em 2014, foram 114 os alunos que se apresentaram a exame — que agora se realiza no final do 11.º ano. O que se passou entretanto? Nos últimos 15 anos, o latim foi desaparecendo das escolas do país. Na região de Lisboa, por exemplo, um aluno do secundário que queira estudar Latim tem poucas opções. “Já há alguns anos que as pessoas sabem que Latim é no Camões”, diz Mário Paulo Martins, um dos dois professores que leccionam este ano lectivo a disciplina nesta escola» («Latim: a remar contra a maré», Catarina Espírito Santo, Público, 1.04.2015, p. 12).

      O latim voltou a ser, graças à inépcia de quem nos governa, um conhecimento só ao alcance de uns quantos. No privado, como ficámos a saber por este trabalho do Público, não param: «Algumas escolas privadas, como o Colégio de São Tomás, em Lisboa, ou o Rainha Santa Isabel, em Coimbra, introduziram já há vários anos o Latim e a Cultura Clássica a partir do 5.º ano. Outras há que tinham essa tradição, mas perderam o ensino do Latim, como o Colégio de S. João de Brito ou os Maristas. Susana Marta Pereira é professora na St. Peter’s School, em Palmela, onde o Latim foi recentemente tornado disciplina obrigatória, para já do 5.º ao 7.º ano.»

      O Ministério da Educação, ficámos também a saber, está a estudar, sabe Deus durante quantos anos, o reforço do ensino do Latim e da Cultura Clássica no ensino básico e secundário. Uma das medidas tem de ser não apenas permitir, mas até incentivar que os alunos da área de ciências e tecnologias do ensino secundário possam aprender Latim. Entretanto, já passaram quatro anos desde que a UNESCO recomendou aos países com línguas de origem latina que ensinem o Latim nas escolas. Estamos à espera de quê?

 

[Texto 5705]

Helder Guégués às 09:25 | comentar | ver comentários (9) | favorito
Etiquetas: ,