24
Mar 17

Tradução: «associate»

Mau, descambamos

 

      «Rowley [comissário adjunto da Scotland Yard] aproveitou fazer [sic] um apelo a quem possa auxiliar nas investigações. “Quem conheceu Khalid Masood e sabe quem são os seus associados pode ajudar e dar-nos informação sobre lugares que visitou recentemente”» («Polícia faz duas novas detenções relacionadas com ataque de Westminster», Rádio Renascença, 24.03.2017, 8h12).

      Afinal, não é só na TSF que se vêem estes erros crassíssimos de tradução. Sim, a polícia usou o termo associates — mas, no contexto, significa cúmplices, como me parece evidente.

 

[Texto 7616]

Helder Guégués às 12:49 | comentar | favorito
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O verbo «assistir», regência

Erro pouco poético

 

      Chegou ontem, e na linha do assunto vinha isto: «CCB | comemora o Dia Mundial da Poesia já este sábado, dia 25 de Março e as bilheteiras para os Dias da Música abrem no dia 23, sexta-feira. Apresse-se antes que esgotem os concertos que mais gostaria de assistir!» Não têm uma gramaticazinha lá no Centro Cultural de Belém?

 

[Texto 7609]

Helder Guégués às 11:32 | comentar | favorito
23
Mar 17

O verbo «aderir», regência

Endesa, não sais daqui ilesa

 

      Queremos ler as notícias na Rádio Renascença, e pimba, salta-nos a publicidade da Endesa, cujos funcionários andam por aí a bater às portas quais Testemunhas de Jeová. Tarifa Quero +. E depois isto (ou esta cagada, se preferirem): «Quantos mais produtos aderir, mais descontos acumula.» Então o verbo aderir não se constrói com a preposição a, suas melgas eléctricas espanholas?

 

[Texto 7607]

Helder Guégués às 19:59 | comentar | favorito
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21
Mar 17

Matusalém e Sísifo

Umas bíblicas, outras não

 

      Estava aqui a ler sobre Matusalém, essa figura bíblica que, como outros patriarcas, era proposto como modelo de identificação religiosa para glorificar a idade e a longevidade e lembrei-me de ter lido no blogue Ouriquense que Miguel Sousa Tavares afirmou na SIC que o mito de Sísifo é uma história bíblica. O Eremita conta-o com mais graça: «Foi preciso Sousa Tavares dizer que o mito de Sísifo é uma história bíblica para voltar a sentir algum sangue nas guelras. Raios, Miguel, então a tua mãe, que amava a Grécia, não te explicou o mito de Sísifo, meu filistino diletante de telegenia perdida? A operação Marquês começa a erodir os pilares da nossa civilização» (para ler tudo, aqui).

 

[Texto 7590]

Helder Guégués às 19:13 | comentar | favorito
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19
Mar 17

«Tratar-se de», todos os dias

Vamos esquecer isto

 

      «Marcelo Rebelo de Sousa convidou vários chefes de Estado para participarem no centenário das Aparições de Fátima e na visita do Papa. Segundo o “Expresso”, os esforços diplomáticos já estarão a surtir efeito e, a dois meses da vinda de Francisco, cinco chefes de Estado já terão confirmado a sua presença. Tratam-se dos presidentes de São Tomé, do Paraguai, da Colômbia, de Cabo Verde e da Guiné-Bissau. Todos estes governantes são católicos, mas não deverão ter direito a audiências com o Papa – que vem a Fátima como peregrino e não em visita oficial de Estado. Francisco será recebido em Monte Real por Marcelo Rebelo de Sousa, António Costa e Ferro Rodrigues» («Fátima. Cinco chefes de Estado vêm ver o Papa», Jornal de Notícias, 19.03.2017, p. 6).

   Não está assinado, mas os jornalistas dos artigos que o ladeiam devem saber quem o escreveu. Temos de mudar a gramática, já que não aprendem.

 

[Texto 7582]

Helder Guégués às 16:25 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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16
Mar 17

«Tratar-se de»

E a gramática?

 

      «Quando Charles Smith foi filmado a dizer “o ministro é corrupto”, ele era efectivamente corrupto. E o mais provável, tendo em conta este vasto rol de suspeitas, é que não se tratassem de mera [sic] tentações ocasionais de José Sócrates, mas de um modo de vida — e, mais grave, uma forma muito eficaz de construir uma carreira política e uma sólida corte de fiéis no Portugal dos anos 80, 90 e 2000» («Sócrates e a pergunta que ninguém quer fazer», João Miguel Tavares, Público, 16.03.2017, p. 52).

      Tanta espertalhice, mas com a gramática elementar é que não atinam. João Miguel Tavares, tratar-se é um verbo defectivo e impessoal, pelo que se usa sempre na 3.ª pessoa do singular. Percebe? «Não se tratasse de meras tentações».

 

[Texto 7568]

Helder Guégués às 09:38 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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10
Mar 17

Uma mesa muito especial

Erros por todo o lado

 

      Loja de luxo. Na montra, várias peças de mobiliário, entre as quais uma mesinha minúscula muito bonita. Num cartãozinho, também de luxo, este miserável erro: «Mesa com gaveta e pernas espraiadas com aplicações cinzeladas em bronze dourado.» A única coisa espraiadíssima era o preço, de muitas centenas de euros. O que eu vi é que as pernas eram espiraladas e com aplicações cinzeladas de bronze dourado.

 

[Texto 7546]

Helder Guégués às 09:53 | comentar | favorito
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02
Mar 17

«Desmarcar-se»/«demarcar-se»

A tempo de aprender

 

      O fabuloso mundo do futebol... Ontem à noite, a taberna do pai do árbitro Jorge Ferreira foi vandalizada. «Está escrito», ouvi-o hoje de manhã em declarações à Antena 1, «nada me move contra ninguém. As pessoas desmarcam-se de tudo e de todos, eu não me desmarco da arbitragem, nem daquilo que gosto de fazer.» Diz aquilo que ouve, pois desmarcar-se é termo futebolístico — fugir à marcação do adversário. Contudo, o que Jorge Ferreira queria dizer era demarcar-se, ou seja, afastar-se do futebol. Como é, ao que parece, consultor financeiro, talvez fale apenas inglês no dia-a-dia, e por isso não domina a língua portuguesa... 

 

[Texto 7522]

Helder Guégués às 14:20 | comentar | favorito
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23
Fev 17

«Voix de chèvre»

Errar em todas as línguas

 

      «[José Miguel Batista] Seguiu-o como orfeonista que Zeca também foi, e na canção de Coimbra... “O Zeca tinha uma voz relativamente pequena, mas muito bem timbrada, e com um vibrato bonito, nem muito voie de chèvre, nem muito prolongado. Era um homem que tinha muita sensibilidade, um ouvido e uma cultura, que conseguiram fazer dele, além de simples orfeonista, solista do Orfeon Académico de Coimbra”» («As pegadas de Zeca Afonso em Coimbra», Miguel Midões, TSF, 23.02.2017, 9h05).

      Mas, Miguel Midões, se estamos a falar de vozes, não é voix de chèvre que se diz em francês? Percebo: ouviu /vwa/ e nem pensou, o caminho só podia ser esse. Mas é voix de chèvre, sinónimo de voix chevrotante, ou seja, voz trémula — como a das cabras. Pode ser egofonia...

 

[Texto 7501]

Helder Guégués às 09:35 | comentar | favorito
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18
Fev 17

Erros a toda a hora

Lampreias e dedais

 

      Acabo de ler que o dedal sai do Monopólio depois de votação na Internet. Ora esta... Mas está bem, tudo acaba, e com certeza os mais novos nem sabem o que é um dedal (thimble, para a legião de anglófonos que nos segue). Ao menos foi por votação. Pode acaso dizer-se o mesmo da saída dos revisores dos jornais? Só se foi por votação dos accionistas, que os leitores não foram ouvidos. Nem quando os corrigimos. Ainda hoje, em certo noticiário da televisão, afirmaram que a lampreia é um peixe (e ontem, vimo-lo aqui, que o teredem é um insecto), e aos reparos só respondem: «Ah, vamos tomar nota.»

 

[Texto 7490]

Helder Guégués às 17:52 | comentar | ver comentários (12) | favorito
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