12
Jul 17

«Concelho/conselho»

Safa!

 

      Na MotoSport, li um artigo sobre a nova tetracilíndrica BMW S 1000 XR (12.07.2017, 13h47). MotoSport, «de motos percebemos nós», gabam-se eles. E quanto à língua? «Por isso, o concelho é que descubra por si próprio esta preparada atleta de aventura.»

 

[Texto 8017]

Helder Guégués às 21:45 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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11
Jul 17

Como falam os políticos

Os demissionários e os outros

 

     «Nunca tive conhecimento que [sic] ia ser constituído como arguido» (secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, Rocha Andrade, perante a comissão parlamentar de Orçamento, Finanças e Modernização Administrativa). É assim que se deve dizer, «constituído como arguido»? Claro que não, mas, se estudam os dossiês (olha, cá está a tal que «tem resistido ao aportuguesamento»!), não sobra tempo para estudar a língua.

 

[Texto 8005]

Helder Guégués às 16:32 | comentar | favorito
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«Bem haja/bem-haja», de novo

Fica para a próxima

 

     Entre as interjeições de agradecimento, acabo de ver na Gramática Descomplicada, de Sandra Duarte Tavares e Sara Almeida Leite (Lisboa: Planeta, 2015, p. 79), «bem-haja!» e «obrigado!». Está errado, como vimos aqui. (Entretanto, graças à minha sugestão, já foi corrigido no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora.) Não, senhoras professoras: equivalente a obrigado é bem haja, e não bem-haja. As autoras também afirmam que as interjeições «têm uma função exclusivamente emotiva», o que não é, evidentemente, verdade. Aliás, nem se percebe bem o que pretendem dizer com «função emotiva».

 

[Texto 8001]

Helder Guégués às 14:40 | comentar | favorito
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08
Jul 17

Indicação das horas

Mil e uma maneiras de errar

 

      A minha filha acabou ontem de ler O Diário de Aurora, Um Verão em Casa da Minha Avó, de India Desjardins (tradução de Rita Barroso, Lisboa: Oficina do Livro, 2013). Nunca saberei se é interessante ou se está bem ou mal traduzido, mas posso dizer uma coisa: em quase 100 % das dezenas de ocorrências, a indicação das horas está errada. Não é, para referir logo a primeira, na página 12, 15h32, mas 15h32. Não é que jamais pudesse servir de desculpa, mas comprovei que no original está correcto. Portanto, foi infausta invencionice da revisão.

     A minha filha esbarrou, no primeiro parágrafo, numa palavra que não conhecia e não está nos dicionários: chocoólico. (No original: «Bonjour, je m’appelle Aurélie Laflamme, j’ai quatorze ans, bientôt quinze, et je suis une chocoholique.»)

 

[Texto 7989]

Helder Guégués às 10:38 | comentar | ver comentários (5) | favorito
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07
Jul 17

Como se escreve nos jornais

Isso mesmo, arrepiante

 

      «No quadro feminino, Betthanie Mattek-Sands fraturou ontem o joelho. O pior foi mesmo o tempo que teve aos gritos a pedir ajuda, que terá demorado 15 a 20 minutos a chegar. A organização nega as (muitas) críticas» («Lesão arrepiante causa polémica», Destak, 7.07.2017, p. 10).

    Na oralidade, enfim, apesar de tudo, ainda passa, mas na escrita? Não, não, é imperdoável.

 

[Texto 7987]

Helder Guégués às 17:46 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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02
Jul 17

Como se escreve por aí

Estava eu a dizer

 

      Perante críticas, mesmo desrazoáveis, retundo sempre os naturais ímpetos belicosos. Um dos argumentos, e logo à cabeça, do tradutor da missiva de ontem é o de que me falta currículo para o criticar. Pudera. Não chega a ser um argumento — é pura pesporrência dele, que julga que está a falar com a criada. É preciso currículo para lhe criticar «um desajeitado e retundo jovem»? Sei de leitores que desistiram, com asco e revolta, quando chegaram ao «voçês». Isto para não falar de palavras inventadas e frases sem sentido. Como raio se pode ter orgulho num trabalho assim? Posso aprofundar ao mais ínfimo pormenor, se respingar. Currículo...

 

[Texto 7967]

Helder Guégués às 11:08 | comentar | favorito
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28
Jun 17

Cuidado com as teclas!

Ai a pressa

 

      Parece-me que José Mário Costa se esqueceu de rever o texto («“O Cuidado com a Língua” e a realidade», p. 46) que mandou para publicação no Público de hoje. Cinco amostras. Aqui, atrapalhou-se com as vírgulas, pondo uma no pior sítio, entre sujeito e verbo: «O facto de a RTP, desta vez, ter preferido contratualizar com a produtora um “pacote” de 26 episódios, em nada alterou a estrutura-base do Cuidado com a Língua!, que assenta em 13 episódios por série, emitidos semanalmente.» Mais: «de que sou autor e responsável pelos conteúdos, juntamente com professora Maria Regina Rocha»; «faltavam ser emitidos dois episódios»; «as suas particularidades próprias e especificas»; «foi sendo interrompida, sempre — e não “pontualmente”, como escreveu Deusdado —, de 15 em dias».

 

[Texto 7958]

Helder Guégués às 15:17 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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27
Jun 17

O processo dos Távoras

O azar dos Távoras

 

      No programa Visita Guiada, Paula Moura Pinheiro, agora com o cabelo mais domado, para alívio dos nossos nervos, levou-nos ao Museu Nacional dos Coches (MNC), instalado em novo edifício. «Foi num carro destes», disse, apontando para uma carruagem, «que o rei D. José sofreu [em 3 de Setembro de 1758] o atentado que viria depois a servir de argumento para o processo dos Távora.» Lamentável, tanto mais que, no caso, habitualmente até se vê o apelido pluralizado — como todos o devem ser. Aqui há uns anos, passou na RTP uma minissérie, da autoria de Francisco Moita Flores, com o título O Processo dos Távoras. E também não faltam obras com o mesmo título. A meu ver, até devia dicionarizar-se a expressão azar dos Távoras.

 

[Texto 7952]

Helder Guégués às 10:37 | comentar | favorito
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O verbo «haver», mais uma vez

Já é azar

 

    O quê, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não regista o adjectivo estarrecedor? É estarrecedor! Ainda mais estarrecedor: o Mata-Bicho de ontem voltou a escorregar no verbo haver, esse malvado que tem de ser descomplicado por decreto. Eu não acredito que João Quadros seja indocível, mas também já é azar que Bruno Nogueira padeça da mesma ignorância e não corrija o texto. E na RDP ninguém diz nada? Muito estranho. «No jornal espanhol El Mundo, apareceu uma notícia onde dizem que o incêndio em Pedrógão pode pôr em causa o futuro de António Costa como primeiro-ministro, e que provavelmente vão haver eleições no fim do Verão.»

 

[Texto 7951]

Helder Guégués às 09:54 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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De novo o verbo «haver»

Nem tudo vai bem

 

      Não fui eu que vi, mas confio como Passos Coelho não devia ter confiado: um amigo meu viu anteontem um DVD do drama político Tout va bien, de Jean-Luc Godard e Jean-Pierre Gorin, numa edição de 2013. Tudo correcto, com o selo da IGAC, mas quem vê capas, já se sabe, não vê o conteúdo. Logo no início, uma sequência diabólica de frases: «Nessa cidade haveriam casas»; «Haveriam muitas pessoas»; «Haveriam trabalhadores»; «Haveriam agricultores». Para a posteridade: tradução e legendagem de Elisa Pires de Carvalho. Quantos anos de exercício da actividade teria quando traduziu este filme? Vinte ou mais, e eis este erro estarrecedor. Pode ser o pior erro da tradução, mas não é o único.

 

[Texto 7950]

Helder Guégués às 09:14 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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21
Jun 17

Como escrevem os jornalistas

E a vida continua

 

     «Com pouco espaço para explanar a linha de monocarril pela densa malha urbana da cidade, a solução encontrada foi fazer passar o comboio por um conjunto de edifícios. Com efeito, a Linha 2 do Chongqing Rail Transit (CRT) atravessa o sexto piso de um bloco de apartamentos em Liziba» («E se o metro lhe entrasse pela casa dentro?», Motor 24, 21.06.2017).

     O jornalista — ou quem escreveu isto — sabe vagamente que há assim um verbo — mas qual? Errou logo na segunda letra: não é explanar, que significa tornar claro, explicar em pormenor, mas espraiar, isto é, alargar, estender. Mas que interessa, não é?, os leitores estão tão entretidos com o Facebook, que nem dão pelo erro.

 

[Texto 7937]

Helder Guégués às 22:38 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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