21
Set 17

«Temerosamente/temerariamente»

Mas não queremos

 

      «Vários especialistas recusaram fazer a perícia às músicas de Tony Carreira por receio da dimensão do artista, indica a resposta da Inspecção das Actividades Culturais enviada quase dois anos após o pedido de perícia feito pelo Ministério Público. [...] No documento, o inspector-geral da IGAC explica as razões das recusas: “Por um lado, pela especialidade dos conhecimentos musicais exigíveis, por outro, porque nos contactos efectuados a pessoas com conhecimentos desta natureza, estas têm temerariamente recusado a colaboração ou demonstrado indisponibilidade, fundamentalmente alegando a dimensão do artista, sucesso comercial das obras e receio de futuro litígio em que se possam ver envolvidos”» («Ministério Público propôs acordo entre Tony Carreira e editora que se queixou do cantor», Rádio Renascença, 21.09.2017, 15h07).

      Nenhum especialista aceita fazer a perícia por receio — logo não é temerariamente que o fazem, mas temerosamente. Isto é temerar a língua, isso sim. Não tanto, mera confusão, mais uma. Se quiséssemos enviesar o sentido da frase, diríamos que os especialistas recusaram temerariamente o pedido/proposta da IGAC. Sem receio.

 

[Texto 8164]

Helder Guégués às 20:16 | comentar | ver comentários (1) | favorito (1)
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20
Set 17

Plural de «Júpiter»

Comem toda a luz

 

      «O telescópio espacial “Hubble”, da NASA, descobriu um planeta que parece “asfalto negro”, por ter a capacidade “única” de absorver 94% da luz que recebe, em vez de a refletir para o espaço. [...] Faz parte do grupo de “júpiteres quentes”, que são um conjunto de planetas gigantes e gasosas [sic] que orbitam muito próximos da estrela-mãe» («Descoberto planeta que “come” toda a luz que recebe», Rádio Renascença, 19.09.2017, 22h56).

      Seria espantoso que acertassem nisto. O artigo tem muitos outros erros e descuidos, mas interessa agora este em especial. Há certos plurais, e já vimos aqui alguns — entre os quais o de Júpiter —, com deslocação do acento tónico. Assim, o plural de piter é Juteres. Se nem os jornalistas sabem isto, o que se pode esperar do zé-povinho, ultimamente mais perito em telemóveis e parvoíces feicebuquianas?

 

[Texto 8161]

Helder Guégués às 15:39 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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14
Set 17

«Cônjuge», agora estropiada na escrita

Era previsível

 

     «Viajar com companheiro ou conjugue (31%), viajar com toda a família (30%) e tirar um curso/aprender uma nova competência (26%) são outras motivações que convencem os portugueses» («Licença sabática fora do alcance», João Moniz, Destak, 14.09.2017, p. 4).

     Era previsível: de tanto a pronunciarem mal, tinham de começar a escrevê-la mal. E que tal um ano sabático para aprender o bê-á-bá da língua?

 

[Texto 8151]

Helder Guégués às 19:47 | comentar | favorito
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13
Set 17

«Tratar-se de», novamente

Lamentável

 

      O Ministério Público acusou o cantor Tony Carreira de plagiar onze músicas de autores estrangeiros, com a colaboração do compositor Ricardo Landum. Querida mãezinha! Mas vejamos como se escreve no Ministério Público, porque isso interessa-nos mais: «“Os arguidos publicaram e divulgaram trabalhos mesmo sabendo que se tratavam de meras reproduções, ainda que parciais, de obras alheias, sem individualidade própria, tendo representado a possibilidade de estarem a plagiar obras de outros artistas, e ainda assim conformaram-se com tal resultado”, sublinha o MP» («Ministério Público acusa Tony Carreira de plagiar 11 músicas», Rádio Renascença, 12.09.2017, 14h12).

      Pois, não melhoraram nadinha. No Limoeiro não lhes ensinam isto. Senhor magistrado autor do texto, está errado: tratar-se é um verbo defectivo e impessoal, pelo que se usa sempre na 3.ª pessoa do singular. Do Ministério Público, já aqui tivemos uma amostra do mesmo jaez.

 

[Texto 8150]

Helder Guégués às 15:09 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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A desevolução

Será uma fase — ou para sempre?

 

      Nem tudo neste triste mundo melhora, bem pelo contrário. A Uber, por exemplo, tem vindo a piorar a olhos vistos. São cada vez mais os motoristas, uberistas, que vêm lá detrás do sol-posto e não conhecem a cidade e — sobretudo — não sabem usar o GPS. Cinco estrelas abaixo de zero. Mais piorias: «Novo iPhone desbloqueado com a fase». É um título do Destak.

 

[Texto 8145]

Helder Guégués às 08:44 | comentar | favorito
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11
Set 17

Afinal, é McCarthy

Está até nos dicionários

 

      «Quando colaboraste com Joseph MacCarty no período da “caça às bruxas”, confesso que não te augurava grande futuro, mas o tempo e a História encarregaram-se de demonstrar que eu não tinha razão» (Amados Cães, José Jorge Letria. Revisão de Henrique Tavares e Castro. Cruz Quebrada: Oficina do Livro, 3.ª ed., 2008, p. 177).

      Podíamos facilmente ser levados a crer que sim, pois, vimo-lo aqui, diz-se macartismo ou macarthismo; o nome do senador, porém, só se escreve de uma forma: McCarthy.

 

[Texto 8143]

Helder Guégués às 18:46 | comentar | favorito
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10
Set 17

AO90 na prática

Desisto

 

      Será mesmo boa ideia ter um carro de 80 mil euros quando a Iberent aluga, por exemplo, um Toyota Yaris por 5 euros ao dia? Mas a mensagem: «Aguarde que entraremos em contato.» E isto é escrito por pessoas mais ou menos inteligentes. Está bem, estou a exagerar: menos. Desisto.

 

[Texto 8142]

Helder Guégués às 18:15 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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AO90 cego e surdo

A cada Natal

 

      «Neste ano, as festas iniciaram-se a 26 de agosto e, como manda a tradição, terminam a 24, com a procissão dedicada à padroeira da freguesia. Até lá, há muita animação: concertos gratuitos para toda a família e para um público mais jovem – até esse dia vão atuar os Amor Eletro e Tiago Bettencourt, entre outros –, eventos desportivos, um festival de tunas, ranchos folclóricos, teatro de rua, lançamento de livros, cinema ao ar livre, e muito mais» («Já não há cavalos mas ainda se faz [sic] bons negócios na Feira da Luz», Filomena Naves, Diário de Notícias, 10.09.2017, p. 45).

      Não sabia que o grupo de Marisa Liz tinha mudado de nome. Já não é Amor Electro? A aplicação cega do Acordo Ortográfico de 1990 brinda-nos com estas coisas ridículas. Alguém avise Filomena Naves, porque eu só a encontro a cada Natal, ainda faltam mais de cem dias.

 

[Texto 8141]

Helder Guégués às 10:46 | comentar | favorito
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07
Set 17

Como se pontua por aí

Mal, pois claro

 

    E agora dois exemplos singelos de pontuação errada: «Diamond compreendeu, nesse instante, que, em circunstância alguma, deveria regressar a esse tema, pois correria o risco de ser tratado por Newton abaixo de Leibniz, o que, na hierarquia de valores do seu ilustre dono ainda seria pior que “abaixo de cão”» (Amados Cães, José Jorge Letria. Revisão de Henrique Tavares e Castro. Cruz Quebrada: Oficina do Livro, 3.ª ed., 2008, p. 52). «Companheira inseparável de Marilyn, Maf partilhava os seus segredos, incluindo aqueles que envolviam os dois poderosos irmãos Kennedy, a saber John e Robert, cujo trágico fim muito a comoveram» (Idem, ibidem, p. 192). Há, como sabemos, em muitíssimos casos, diversas formas de pontuar correctamente. Diversas, não arbitrárias.

 

[Texto 8136]

Helder Guégués às 11:09 | comentar | favorito
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06
Set 17

Como falam os polícias

Talvez na mesma galáxia

 

      Paulo Rodrigues, da Associação Sindical dos Profissionais de Polícia (ASPP), a propósito do não descongelamento da carreira dos polícias: «Esperemos que não tênhamos de desenvolver nenhuma acção de protesto.»

 

[Texto 8129]

Helder Guégués às 08:11 | comentar | favorito
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