23
Fev 18

«Put oneself in else’s shoes»

Nem pés nem sapatos: cabeça

 

      Pareço o Emplastro: um português qualquer diz um disparate, e lá estou eu por detrás do fautor. No Portugal em Directo, da Antena 1, Mário Galego foi falar com Alexandre Monteiro, arqueólogo e coordenador do Centro de Arqueologia Náutica do Alentejo Litoral, com sede em Alcácer do Sal. A propósito da descoberta de um biberão... — biberão não, porra, que é galicismo — uma mamadeira, assim é que é, enterrada com um bebé numa sepultura romana, disse o arqueólogo: «Nós aqui nas reservas de Alcácer do Sal temos um biberão romano e quando sabemos que esse biberão foi enterrado juntamente com um bebé que morreu quando tinha cerca de quatro meses de idade, nós conseguimos, se formos pais, pôr-nos nos pés daquela família que resolveu enterrar o bebé com o biberão.» Algum revisor manhoso lhe terá dito certo dia que não se diz «pôr-se nos sapatos dos outros» (como fazem alguns tradutores...), mas sem lhe explicar que não se trocam os sapatos pelos pés. Idiomatismo por idiomatismo: os Ingleses põem-se nos sapatos dos outros; nós, ou nos pomos no lugar ou na pele dos outros.

 

[Texto 8799]

Helder Guégués às 18:50 | comentar | ver comentários (1) | favorito
Etiquetas: ,
21
Fev 18

Onde pára o «chatbot»

Inteligência humana

 

      «Por fim, um quarto projecto — a cargo do Centro de Informática e Sistemas da Universidade de Coimbra — quer criar um chatbot para interagir com empreendedores que recorram a serviços públicos (como o Balcão Empreendedor) destinados a criar empresas, registar marcas e tratar de outras burocracias» («Dez milhões para incentivar inteligência artificial no Estado», João Pedro Pereira, Público, 21.02.2018, p. 26).

      Em que dicionário da Infopédia acham que vamos encontrar o termo chatbot? Não sejam burros! Oh, perdão. Não, não: está apenas no Dicionário de Alemão-Português. «INFORMÁTICA [programa que simula artificialmente uma conversa num chat]». Porquê no de alemão? Não sei.

 

[Texto 8787]

Helder Guégués às 22:54 | comentar | favorito
Etiquetas: ,

Cascais (ainda) é vila

Por enquanto

 

      Nada pior do que um jornalista desinformado: «A própria vila de Cascais, hoje cidade, viu serem-lhe colados rótulos estigmatizadores» (Nascido no Estado Novo, Fernando Dacosta. Lisboa: Círculo de Leitores, 2002, pp. 183-84). No dia 7 de Junho, cumprir-se-ão 654 anos desde que Cascais é vila. Vila, Fernando Dacosta. Mesmo hoje, dezasseis anos depois da edição do seu livro, é assim. Não é a primeira vez, eu bem sei, que lembro aqui isto, mas tem de ser, enquanto errarem, tenho de corrigir.

 

[Texto 8780]

Helder Guégués às 17:55 | comentar | favorito
Etiquetas: ,
13
Fev 18

Sugestões do Word

É desligá-lo

 

       De uma coisa tem o Word a certeza: não se escreve «um animal cavernícola». Sugere «uma animal cavernícola», ou «um animal cavernícolo».

 

[Texto 8737]

Helder Guégués às 21:29 | comentar | ver comentários (1) | favorito
Etiquetas: ,
10
Fev 18

«Soalheiro/solarengo», ainda

Ainda não lhe chegou

 

      «Voltamos ao exterior e ao dia solarengo, mas fresco» («Uma lança bóer na África do Sul», Marco C. Pereira, suplemento «b. i.»/Sol, 20.01.2018, p. 31).

      Ainda não chegou a Marco C. Pereira, jornalista, a notícia de que «solarengo», neste sentido, é erro, em má hora apenas admitido no Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa.

 

 [Texto 8721]

Helder Guégués às 19:10 | comentar | ver comentários (2) | favorito
Etiquetas: ,
09
Fev 18

Língua assassinada

Aqui ao lado

 

      Agora podia passar a ser assim, uma enormidade portuguesa, uma enormidade espanhola, até ao fim dos tempos. Ontem vimos um sinal claro da ignorância e do fanatismo de Pablo Iglesias, secretário-geral do Podemos. Hoje, é a vez de Irene Montero, porta-voz de Unidos Podemos no Parlamento espanhol. Porta-voz não — ela reivindicou, e deixou toda a gente a falar no caso, o cargo de «portavoza», para dar maior visibilidade às mulheres na sua luta pela igualdade de direitos com os homens. Porque a língua também evolui. Ignorante.

 

[Texto 8713]

Helder Guégués às 08:56 | comentar | ver comentários (2) | favorito
Etiquetas: ,
08
Fev 18

Como se escreve por aí

O fato do país

 

      «Também a francesa BVLH começou este ano a produção em Portugal. O número ainda é curto, 10%, mas a ideia é que cresça. A empresa que é, em França, líder na produção de cenoura biológica para todos os grandes grupos de distribuição, quer começar a vender em Portugal uma couve doce (chamada “choudou”), que pode ser comida crua. Além do solo e do clima, Pedro Marques, responsável comercial de exportação, admite que o fato do país ter bons antecedentes no que ao biológico refere, [sic] foi decisivo na escolha» («Verde, cru e comestível», Joana de Sousa Dias, TSF, 8.02.2018, 13h17).

     Ainda cheguei a pensar que houvesse trapalhada ali na escrita do nome da couve, mas os jornalistas nunca se atrapalham nem erram com coisas complexas, apenas com as simples: «o fato do país». Vai roto.

 

[Texto 8712]

Helder Guégués às 13:56 | comentar | ver comentários (1) | favorito
Etiquetas: ,

Léxico: «criptomilionário»

Boa acção do dia

 

      «Forbes divulga a primeira lista de criptomilionários. Há nomes bem conhecidos» (Juliana Nogueira Santos, Eco, Economia Online, 7.02.2018). Não é como sucede com os dinossauros, talvez não valha a pena, com o rumo que as criptomoedas estão a ter, dicionarizá-lo. Leiamos agora mais um pouco (embora nos vá fazer mal, já sei) o artigo: «A revista considera ainda que os valores poderão estar fora dos limites ou que haverão, com certeza, milionários esquecidos por esse mundo fora.» Juliana Nogueira Santos, *haverão no futuro e *hão agora mesmo, neste triste presente em que uma jornalista cinca numa porcaria tão simples. «A dar os primeiros passos na área da economia», lê-se no seu perfil. E na área da língua portuguesa?

 

[Texto 8711]

Helder Guégués às 13:36 | comentar | favorito
Etiquetas: ,
07
Fev 18

Gramática atropelada

Com tractores é assim

 

      «Todos os dias acorda com as galinhas, em direção à garagem. Henrique Ferreira, 90 anos, espera-lhe um dia de trabalho pela frente» («Velho demais para conduzir trator?», Liliana Carona, Rádio Renascença, 7.02.2018, 10h14).

      Liliana Carona, é assim que se escreve agora? Reveja bem a matéria. E, enquanto a jornalista se ocupa a estudar a gramática, para os responsáveis da Renascença vai a pergunta: quando é que, em relação ao Acordo Ortográfico de 1990, se definem de uma vez e deixa de ser dez no cravo e uma na ferradura?

 

[Texto 8705]

Helder Guégués às 15:18 | comentar | ver comentários (1) | favorito
Etiquetas: ,
05
Fev 18

Um abstruso etc.

Senhora professora, meus senhores

 

      Deus nos livre de duas coisas: dos quiproquós dos boticários e dos etc. dos notários. Isto dizia-se dantes, mas talvez convenha, à luz de novas descobertas, reformular o provérbio. A professora de Português, mas a leccionar outra disciplina, escreveu no quadro uma enumeração aberta, que rematou com «etc...», o que não escapou a uma aluna, que teve a infeliz ideia de dizer em voz alta que não se escrevia assim. Os autores brasileiros (pois cá ninguém se dá ao trabalho de se ocupar de questões tão insignificantes) que tratam da matéria apenas admitem etc... para marcar uma ironia, que, também reconhecem, será caso raro. Raríssimo. Nunca vi. Oh minha senhora, não é nada disso: ou emprega o etc., ou as reticências, não ambas as formas para mostrar que a enumeração está incompleta. «Não, lamento, mas estás enganada.» Sendo assim, outro provérbio: Discípulo com cuidado, e o mestre bem gago.

 

[Texto 8687]

Helder Guégués às 15:29 | comentar | favorito
Etiquetas: ,