05
Fev 18

De Ródão «rodense»?

Indiscutível — ou não

 

      Sabiam que o ceramista Manuel Cargaleiro é natural de Vila Velha de Ródão? Embora haja bons motivos para ir a Vila Velha de Ródão, é quase sempre referida na imprensa pelos piores motivos. Bem, mas não é disso que eu quero falar. Entre as questões que ninguém discute está esta: será mesmo assim tão óbvio que o gentílico relativo a Vila Velha de Ródão seja «rodense»? Pode ser o mais fácil, por analogia com outros semelhantes, mas eu esperava que fosse «rodanense».

 

[Texto 8688]

Helder Guégués às 15:31 | comentar | favorito
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16
Jan 18

Silva Escura

Coisas da selva

 

      «Um homem de 69 anos matou a mulher de 66 anos e tentou cometer suicídio, esta terça-feira de manhã, na residência do casal, em Silva Escura, Sever do Vouga, disse à Lusa fonte da GNR» («Idoso matou a mulher e tentou cometer suicídio», Rádio Renascença, 16.01.2018, 14h05).

      Interessante este topónimo, Silva Escura. Saberão os nossos leitores que «silva», etimologicamente, significa «selva»? Sabiam? Cuidado com o nariz. Sim, há registos de que esta localidade já tinha este nome numa época anterior ao século X, sendo já habitada nessa altura, e era então coberta, precisamente, por cerrada selva — a silva do nome. E há mais Silvas no País.

 

[Texto 8588]

Helder Guégués às 19:26 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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10
Dez 17

Léxico: «podcast»

Seria mais informativo

 

      «A novidade começou por ser conhecida como “audioblogging”, só assumindo o nome podcast em 2004, num artigo do The Guardian. O termo é uma contracção dos termos broadcast e iPod, um aparelho da Apple que tinha revolucionado o áudio portátil. Aliás, a Apple é uma das maiores responsáveis pela popularização do formato, graças à criação de um segmento no software iTunes e de um directório na loja de conteúdos» («Os podcasts chegaram à idade maior», Diogo Queiroz de Andrade, Público, 5.12.2017, p. 28).

      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista apenas que vem «do inglês podcast, “idem”».

 

[Texto 8457]

Helder Guégués às 14:42 | comentar | favorito
27
Nov 17

Léxico: «galicínio»

Hora a que os galos cantam

 

      E a propósito de gaios, lembrei-me daquela complexa divisão do dia a que procedeu Censorino, o gramático do século III. Uma dessas divisões era o gallicinium, primeiro cantar do galo. Ora, quem diria que essa palavra ainda resiste nos nossos dicionários, como no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora? Espantoso. Galicínio: «1. hora da manhã a que os galos cantam; 2. canto do galo».

 

[Texto 8405]

Helder Guégués às 21:45 | comentar | favorito
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05
Set 17

«Coli Sare»

Queremos saber

 

      Se virmos um mapa da Guiné-Bissau, o que encontramos é Coli Sare, e não Cóli-Sari, ali no triângulo formado por Farim, Olossato e Mansabá. Surpreende, no entanto, haver tão poucas referências à toponímia das ex-colónias portuguesas, isto num momento em que se publicam tantos livros sobre a Guerra Colonial. As aldeias dos Fulas com sare ou sara no nome significa que eram antigas; se tinham sintchã ou sintcham no nome, eram de fundação recente.

 

[Texto 8116]

Helder Guégués às 06:15 | comentar | favorito
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28
Jun 17

Etimologia: «floresta»

Explicando melhor

 

      «Florestas contínuas e contíguas não são floresta, são monoculturas. Floresta veio do latim forestis, derivado de foris (“fora”), que significa “mata exterior” com árvores, arbustos e plantas rasteiras, fora dos limites comunitários, onde só o rei estava autorizado a explorar a caça e a extracção de madeira» («Depressa e bem não há quem», Maria Amélia Martins-Loução [bióloga, professora catedrática da Universidade de Lisboa], Público, 28.06.2017, p. 47).

      Está certo, sim, mas faltou dizer alguma coisa mais: floresta quase de certeza veio do francês forêt, e este proviria de um adjectivo latino forestis ou ƒoresta, que significa o que se lê no texto, mas, dado que é um adjectivo, fica subentendido silva; assim silva forestis é que propriamente significa bosque exterior, fora dos limites comunitários.

 

[Texto 7956]

Helder Guégués às 13:59 | comentar | favorito
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23
Jun 17

Léxico: «britango»

Origem obscura...

 

      «Quer observar o britango e a águia perdigueira? Pode fazê-lo nas Arribas do Douro» (Olímpia Mairos, Rádio Renascença, 22.06.2017, 16h53). Vamos antes observá-los no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. A última, águia-perdigueira, não a regista. Ao britango (Neophron percnopterus), descreve-o assim: «ave de rapina da família dos Accipitrídeos, tem plumagem branca, com a extremidade das asas negras, cauda longa e cuneiforme e face amarela; abutre-do-egipto». A etimologia, garante-nos este dicionário, é de origem obscura. Não é: está muito bem estabelecido que o étimo é árabe. Aliás, outro nome por que é conhecida esta ave, abanto, também é de origem árabe, e, nesta acepção, aquele dicionário nem sequer a regista. E não é branco, branco, mas branco-sujo, e devia dizer-se que é o abutre mais pequeno da Europa. É a ave que figura no logótipo do Parque Natural do Douro Internacional.

 

[Texto 7941]

Helder Guégués às 11:26 | comentar | ver comentários (2) | favorito
01
Abr 17

Léxico: «chavelha»

Tudo vai desaparecendo

 

      «Diz que é o último entalhador da Serra da Estrela a fazer chavelhas e colheres de pastor, artigos em vias de extinção. António Feiteiro gostava que houvesse jovens interessados em aprender e seguir os seus passos na arte de trabalhar a madeira em talha. Deu um curso a jovens desempregados. Alguns venderam as ferramentas, nenhum aprendeu o ofício» («O último entalhador da Serra da Estrela», Liliana Carona, Rádio Renascença, 1.04.2017, 9h00).

      Chavelha ou chaveta, mas na acepção aqui usada – peça de madeira que se usa na coleira do chocalho das ovelhas para o fechar – não estão no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Se nem sequer nos dicionários ficar a memória destas coisas, que nos resta? É curioso, e há mais exemplos na língua, porque tanto chavelha, que veio mais directamente do vocábulo latino clavicŭla, como chaveta, formado já no português, significam ambos «pequena chave». Aliás, do mesmo étimo temos ainda cravelha, de formação semiculta, clavija e cavilha.

 

[Texto 7654]

Helder Guégués às 09:58 | comentar | ver comentários (2) | favorito
25
Mar 17

Léxico: «estatina»

Deusas e doenças

 

      E a propósito de farmacêuticos: na semana passada, uma pessoa que estava a ler um jornal inglês perto de mim perguntou-me o que eram statins. Disse-lhe que em português se diz estatinas e, do que eu sabia, o que fazem. Honestamente, creio ter dito mais do que fazem os dicionários, e não acabara de ler a Terapêutica Dermatológica de Stephen E. Wolverton. «QUÍMICA fármaco usado para controlar os níveis de colesterol», lê-se no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Não apenas se diz, actualmente, que o mais provável é que a capacidade das estatinas para baixar a inflamação é que traz benefícios e não a capacidade de baixarem o colesterol, como se conhecem os seus efeitos benéficos sobre o sistema imunitário, o sistema nervoso central e os ossos. Ou seja, pode dizer-se muito mais sobre as estatinas. Sobre o seu uso exagerado na prevenção primária, os muitos efeitos secundários e riscos, um dicionário geral da língua não tem de falar.

    O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora apresenta ainda, neste verbete, outro problema: a etimologia. Indica que provém «Do latim Statina, “divindade”». Isso só é verdade para a primeira acepção: 1. MITOLOGIA divindade invocada na Antiguidade romana quando as crianças davam os primeiros passos». Estatina vem de mevastatin, o nome que o bioquímico japonês Akira Endō deu a esta primeira estatina, e depois -statin passou a sufixo de todas as estatinas. O que já é verdade é que o nome da deusa romana está ligado à raiz indo-europeia stā-, «estar, manter-se de pé», o mesmo acontecendo com o sufixo -statin. Quem souber mais, fale agora ou cale-se para sempre.

 

[Texto 7624]

Helder Guégués às 18:58 | comentar | ver comentários (2) | favorito
26
Fev 17

Tradução: «bizma»

Agora um emplastro

 

      Depois de sovados pelos arrieiros de Yanguas (creio que ainda hoje não se sabe se se trata de Yanguas de Sória ou Yanguas de Segóvia), diz Sancho Pança: «Mas yo le juro, a fe de pobre hombre, que estoy más para bizmas que para pláticas.» Em português, bisma, um emplastro. Talvez provenha também do vocábulo latino epithĕma, que deu aquele epítema que vimos antes (é a teoria a que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora aderiu), mas ainda mais provável é estar relacionado com bis, pois antigamente estes emplastros eram compostos de apenas dois ingredientes, aguardente e mirra. Em muitos e muitos casos, divergir disto na tradução para português não é lá muito avisado e o resultado não se recomenda.

 

[Texto 7511]

Helder Guégués às 21:01 | comentar | favorito