25
Mar 17

Léxico: «estatina»

Deusas e doenças

 

      E a propósito de farmacêuticos: na semana passada, uma pessoa que estava a ler um jornal inglês perto de mim perguntou-me o que eram statins. Disse-lhe que em português se diz estatinas e, do que eu sabia, o que fazem. Honestamente, creio ter dito mais do que fazem os dicionários, e não acabara de ler a Terapêutica Dermatológica de Stephen E. Wolverton. «QUÍMICA fármaco usado para controlar os níveis de colesterol», lê-se no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Não apenas se diz, actualmente, que o mais provável é que a capacidade das estatinas para baixar a inflamação é que traz benefícios e não a capacidade de baixarem o colesterol, como se conhecem os seus efeitos benéficos sobre o sistema imunitário, o sistema nervoso central e os ossos. Ou seja, pode dizer-se muito mais sobre as estatinas. Sobre o seu uso exagerado na prevenção primária, os muitos efeitos secundários e riscos, um dicionário geral da língua não tem de falar.

    O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora apresenta ainda, neste verbete, outro problema: a etimologia. Indica que provém «Do latim Statina, “divindade”». Isso só é verdade para a primeira acepção: 1. MITOLOGIA divindade invocada na Antiguidade romana quando as crianças davam os primeiros passos». Estatina vem de mevastatin, o nome que o bioquímico japonês Akira Endō deu a esta primeira estatina, e depois -statin passou a sufixo de todas as estatinas. O que já é verdade é que o nome da deusa romana está ligado à raiz indo-europeia stā-, «estar, manter-se de pé», o mesmo acontecendo com o sufixo -statin. Quem souber mais, fale agora ou cale-se para sempre.

 

[Texto 7624]

Helder Guégués às 18:58 | comentar | ver comentários (1) | favorito
26
Fev 17

Tradução: «bizma»

Agora um emplastro

 

      Depois de sovados pelos arrieiros de Yanguas (creio que ainda hoje não se sabe se se trata de Yanguas de Sória ou Yanguas de Segóvia), diz Sancho Pança: «Mas yo le juro, a fe de pobre hombre, que estoy más para bizmas que para pláticas.» Em português, bisma, um emplastro. Talvez provenha também do vocábulo latino epithĕma, que deu aquele epítema que vimos antes (é a teoria a que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora aderiu), mas ainda mais provável é estar relacionado com bis, pois antigamente estes emplastros eram compostos de apenas dois ingredientes, aguardente e mirra. Em muitos e muitos casos, divergir disto na tradução para português não é lá muito avisado e o resultado não se recomenda.

 

[Texto 7511]

Helder Guégués às 21:01 | comentar | favorito
17
Jan 17

Choupo ou álamo

Mais popular, isso sim

 

      «Já no Inverno caíram as suas últimas e resistentes folhas, depois de uma suave passagem do verde-desmaiado ao amarelo-pálido. Refiro-me ao choupo (ou álamo, em versão mais espanholizada), uma das mais belas árvores outonais, só superada pela Ginkgo biloba» («Choupos e não só. Em Lisboa e não só», António Bagão Félix, Público, 17.01.2017, p. 47).

      Não estou a ver porquê mais espanholizada. É verdade que é a palavra que, em castelhano, designa esta árvore, mas o étimo do nosso álamo não está no castelhano. Falemos antes, a propósito de álamo, de alameda, a rua ladeada de árvores, e especialmente álamos, que os puristas, quando os havia, propunham que substituísse avenida, considerado galicismo.

 

[Texto 7414]

Helder Guégués às 09:20 | comentar | ver comentários (1) | favorito
Etiquetas: ,
13
Jan 17

Léxico: «pepino-do-mar»

Também nos copiam

 

      «A Polícia Marítima de Faro apreendeu 35 quilos de pepinos-do-mar, avaliados em sete mil euros. Nos últimos tempos, estes animais têm sido dizimados. A maior apreensão deu-se no ano passado, em junho, com 160 quilos apreendidos, quando o máximo permitido por lei são dois» («Polícia Marítima de Faro apreende pepinos-do-mar avaliados em 7 mil euros», Maria Augusta Casaca, TSF, 13.01.2017, 12h48).

    Normalmente, todos estes seres têm mais de uma designação. Idealmente, mesmo os dicionários gerais da língua também deviam indicar, já o tenho dito, o nome científico. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista pepino-do-mar, um animal marinho, um equinoderme. O que não indica, e devia fazê-lo, é que é sinónimo de holotúria, que acolhe. Come-se cru e seco. A este dão os Franceses o nome de bêche-de-mer, que, obviamente, copiaram do nosso «bicho do mar». O Dicionário de Francês-Português da Porto Editora até regista o vocábulo bêche-de-mer, mas trata-se de um homónimo, pois remete para bichlamar (que tem também a variante bichelamar, que não acolhe), e que define assim: «língua de comunicação das ilhas do Pacífico». O que, evidentemente, não é a tradução, mas mera definição. O bichelamar é uma língua crioula que mistura o inglês e o melanésio, caracterizado pela ausência de artigos, e que é falada nas ilhas Vanuatu. Assim, nos textos de apoio da Infopédia, quando, no verbete sobre Vanuatu, se afirma que as línguas são o «francês, o inglês e o bislama», mais valia alterarem para «bichelamar», porque, afinal, é forma mais próxima do étimo, já que os Ingleses copiaram, à sua maneira, o termo francês, copiado do português, como vimos.

 

[Texto 7407]

Helder Guégués às 21:36 | comentar | ver comentários (1) | favorito
16
Dez 16

Sobre «condestável»

É como quem diz

 

      Ontem, no programa Quinta Essência, da Antena 2, ouvi, aliás pela segunda ou terceira vez, a historiadora Manuela Mendonça falar do reinado de D. João II. Convidada a dar uma explicação da etimologia do vocábulo «condestável», respondeu logo alegremente: «Eu tenho uma teoria sobre isso.» E que teoria é essa? Bem, Carlos Magno estrutura o seu império em condados, e no topo da hierarquia do seu palácio põe condes. O botelheiro era conde; o escanção era conde; o que tratava do estábulo do rei era conde — o conde do estábulo, que viria a dar «condestável». Muito bem, muito bem... «Aqui para nós. Vá, vamos cá introduzir um factor de modéstia: é uma ideia sua ou está consagrado assim?» Era uma ideia da historiadora: «Não, é uma ideia minha. Eu também tenho o direito de ter ideias.» Eu também tenho uma teoria: só é uma ideia sua no sentido de se ter apropriado dela. Há muito, muito tempo que se conhece e está registada essa etimologia: condestável vem do latim tardio comes stabuli. Está a escapar-me alguma coisa?

 

[Texto 7330]

Helder Guégués às 16:22 | comentar | ver comentários (4) | favorito
Etiquetas: ,
11
Nov 16

Léxico: «auroque»

Totalmente extinto

 

      «As análises de ADN mostraram que o bisonte-europeu tinha material genético parecido com o bisonte-americano, por um lado, e com as vacas domésticas, por outro. Desta forma, os resultados apontaram para a existência de um cruzamento na Europa entre o bisonte-das-estepes e o antepassado das vacas modernas, o auroque, também ele já extinto desde em 1627» («Misterioso bisonte escondido à vista de todos na arte rupestre», Teresa Serafim, Público, 11.11.2016, p. 30).

      Extinto no mundo, extinto nos dicionários: no Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa não o vão encontrar. Dir-se-ia ter origem no latim, mas não: vem do alemão Auerochs, «boi da planície».

 

[Texto 7232]

Helder Guégués às 21:36 | comentar | favorito
08
Nov 16

Léxico: «fronda»

Tudo do latim

 

      «O “Brexit” e a sua fronda populista continuam a fazer as suas vítimas e a última é o impecável sistema jurisdicional britânico. Não alcanço que razão levou Theresa May a decidir que iniciaria o processo de saída sem consultar previamente o Parlamento» («Do “Brexit” ao “Amerexit”», Paulo Rangel, Público, 8.11.2016, p. 50).

  Fronda. Bela palavra. O Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa ignora-a. Em sentido figurado, como no texto de Paulo Rangel, significa rebelião, insurreição, movimento de oposição. O sentido próprio remete para o nome por que ficou conhecida a revolta, e o partido que lhe deu origem, que estalou no início do reinado de Luís XIV, o Rei-Sol, dirigida contra a regente Ana de Áustria e o cardeal Mazarino. Com maiúscula, portanto, Fronda. Em francês, porém, é Fronde/fronde, no que a nossa língua ficou a ganhar, pois, para nós, fronde (que também existe em francês neste sentido) é folhagem, ramagem. Em francês, fronde tem ainda outro sentido, que nos falta, e que podemos traduzir por funda, fisga. Aliás, por diversas alterações, poderá vir do latim popular *fundula, isto é, pequena funda. Sim, recebemos tudo do latim. Fisga também: é um regressivo do verbo fisgar, do latim vulgar *fixicāre, apanhar, agarrar fixamente.

 

[Texto 7226]

Helder Guégués às 09:30 | comentar | ver comentários (3) | favorito
Etiquetas: ,
25
Out 16

Léxico: «cupo»

Veio de Espanha

 

      «A Comunidade espanhola de Castela e Leão aprovou o Plano de Aproveitamento Cinegético para as áreas localizadas a norte do rio Douro para as temporadas de 2016-2017, 2017-2018 e 2018-2019, prevendo o abate de 143 lobos por vários processos de caça. Os cupos regionais serão os seguintes: Burgos, 15; Leão, 53; Palencia, 30; Valladolid, 5; e Zamora, 40» («Castela e Leão. Poderá caçar-se 143 lobos», Caça & Cães de Caça, Novembro de 2016, p. 14).

      Não conhecia. É o que dá não ser caçador. Entretanto, já sei o que significa, apesar de nem rasto dela nos dicionários. Cupo é o limite de peças a abater. Vem de onde não sopram bons ventos: cupo, em castelhano, significa parte, percentagem em geral.

 

[Texto 7193]

Helder Guégués às 22:51 | comentar | ver comentários (3) | favorito
Etiquetas: ,
24
Out 16

Sobre os fusos horários

E os Minorquinos

 

      A 30 de Outubro, chega o horário de Inverno. Aqui ao lado, os Minorquinos (não é complexo de quem tem mais de 1,80 m, é mesmo o gentílico relativo à ilha espanhola no mar Mediterrâneo) serão os primeiros a verem o pôr-do-Sol. A 1 de Novembro, a ilha balear verá desaparecer a luz do Sol às 17h40, ao passo que no Oeste da península tal só acontecerá às 18h25. Isto tem alguma lógica? Claro que não, e por isso amanhã o Parlamento das Ilhas Baleares aprovará uma declaração institucional para que se mantenha o horário de Verão, idealizado em 1784 por Benjamin Franklin (1706-1790), antes de haver luz eléctrica. Não podia deixar de haver fusos horários? Ah, e a propósito: estão a ver a representação do mundo com os fusos horários? Já alguma vez pensaram na razão do nome? Isso mesmo: porque se assemelham ao fuso de fiar, ou a um gomo de laranja. Em castelhano é huso; em português, fuso; em francês, fuseau; em italiano, fuso. Os Ingleses não têm imaginação, e por isso dizem time zone; como tão-pouco a têm os Alemães, e por isso dizem o mesmo, mas à sua maneira, Zeitzone.

 

[Texto 7182]

Helder Guégués às 21:42 | comentar | ver comentários (2) | favorito
Etiquetas: ,
09
Out 16

Léxico: «esteira»

Cuidado na tradução

 

      «O Sunsailer tem três versões para seis, oito ou dez passageiros e trabalha com dois motores eléctricos de seis cavalos. Estes são alimentados por quatro baterias que recebem a energia solar de seis painéis fotovoltaicos implantados na própria embarcação. Tem uma velocidade de cruzeiro de cinco nós (e máxima de 6,5 nós) e um casco com 40 centímetros, expressamente desenhado (e patenteado) para não deixar esteira (rasto). O objectivo é não agitar as águas de lagoas e outras zonas húmidas onde o respeito pela natureza é fundamental» («Os barcos solares são tão simples quanto parecem — e gastam zero», Carlos Cipriano, Público, 9.10.2016, p. 14).

      É daqui que provém a expressão na esteira de, isto é, no rasto de, seguir os passos ou exemplo de alguém. O étimo é o latino storĕa/storĭa. Curiosamente, em castelhano, que tem o vocábulo estera, do mesmo étimo, que serve para significar o tecido de junco, palma ou outro material para cobrir o chão, no sentido de rasto usa o vocábulo estela.

 

 

[Texto 7147]

Helder Guégués às 16:44 | comentar | ver comentários (1) | favorito
Etiquetas: ,