15
Mai 17

Léxico: «visão crepuscular»

Vejamos

 

      «Carlos Arroz [presidente do Sindicato Independente dos Médicos e médico de família em Belmonte] diz que também não há meios técnicos nos centros de saúde para atestar a visão crepuscular dos utentes que querem conduzir (e outras questões concretas que os médicos terão de avaliar), nem os consultórios têm tamanho para fazer os tradicionais exames (com letras na parede) à visão dos doentes» («“Até o Ronaldo teria dificuldade em obter um atestado para a carta de condução”», TSF, 15.05.2017, 7h43).

      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora só conhece a visão binocular. A visão crepuscular ou escotópica é a percepção visual quando há fraca iluminação, mediante os bastonetes da retina, só permitindo distinguir grosseiramente as formas dos objectos, mas não as cores. Ora, aquele dicionário regista o adjectivo escotópico, pelo que metade do trabalho está feito.

 

[Texto 7834]

Helder Guégués às 11:21 | comentar | ver comentários (1) | favorito
08
Mar 17

Léxico: «velocidade de cruzeiro»

Já lá podia estar

 

      «A vinha, que começou a ser plantada há dois anos, já começou a dar resultados, sendo expectável chegar este ano às “seis ou sete toneladas por hectare”. Mas quando [sic] “quando atingir a ‘velocidade de cruzeiro’” pode alcançar as 18 toneladas de uvas por época, segundo previsões do administrador da Casa Santos Lima, ao DN» («Lisboa vê nascer novas hortas», Patrícia Susano Ferreira, Destak, 8.03.2017, p. 2).

     É claro que a expressão velocidade de cruzeiro não precisa de ser grafada entre aspas, irritante pecha jornalística. Não percebo porque não se encontra no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora e noutros dicionários, aliás, o que sempre contribuirá para se usar mal.

 

[Texto 7543]

Helder Guégués às 19:43 | comentar | ver comentários (1) | favorito
14
Fev 17

Léxico: «disforia de género»

Machista, dizem?

 

      «O texto, que será hoje entregue na Assembleia da República, deixa clara a distinção entre sexo (biológico) e género (construído). “Os conceitos de homem e de mulher constituem-se como relativos, discutíveis e determinados por localização no espaço, no tempo e na cultura”, lê-se. “Um dos pressupostos centrais da perspectiva patologizante, que recorre a conceitos como disforia de género, implica a produção de uma normativa médica e psiquiátrica que separa pessoas com disforia de género de pessoas com género consentâneo com a (fabricada) homologia naturalizadora”, apontam os investigadores. “A disforia de género apresenta problemas de verificabilidade e de testagem, mas com essa categoria se determina o modo como o Estado interage e reconhece direitos de cidadania. Logo, não se trata de um problema científico, mas antes político e de acesso a direitos”» («Investigadores a favor do fim de parecer médico para alterar género no registo», Ana Cristina Pereira, Público, 14.02.2017, p. 15).

      A disforia de género não é o desacordo profundo entre o sexo biológico e o sexo psicológico? Pelas definições de alguns dicionários, não se chega à compreensão daquilo de que se trata. E a propósito de género, lembrei-me de outra locução, «violência doméstica», de que infelizmente se ouve falar com muita frequência, e não decerto porque tenha aumentado o número de casos. Ora, em Espanha também são noticiados muitos casos, mas o nome que lhe dão é violencia machista. Neste caso, parece-me que estamos mais avançados do que os Espanhóis...

 

[Texto 7479]

Helder Guégués às 22:17 | comentar | ver comentários (5) | favorito
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05
Jan 17

«Bis, bis, bas, bas»

E o leitor, já a ouviu?

 

    Também recentemente, cruzei-me na rua com duas pessoas, um homem e uma mulher, na casa dos 60 anos. O homem fez qualquer afirmação — na altura, retive-a, mas depois eclipsou-se-me —, ao que a mulher respondeu: «Ora nem mais. E bis, bis, bas, bas.» Já estive para trazer o caso para aqui mais de uma vez, mas nem sequer sabia — ah, sim, também tenho esse problema — como o escrever. E porquê? Ora, porque, ao que me parece, é coisa inventada. Hoje, perguntei a algumas pessoas se conheciam a expressão. Uma deu-me uma pista que não me ocorrera: já ouvira algo parecido na zona de Ourém-Fátima — «bis, bis, aspas, aspas». Que será variante da expressão familiar «idem, idem, aspas, aspas». E também esta com variantes mais livres e jocosas, como «idem, idem, na mesma data». Todas, como se sabe, a significarem apoio, concordância, adesão a alguma coisa, por outrem dita anteriormente.

 

[Texto 7378]

Helder Guégués às 21:34 | comentar | favorito
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«Gaiola pombalina»

Num barril de pólvora

 

      «Em Lisboa, lamentou, nem as construções novas nem as reabilitações têm em conta o risco de terramotos. “A Baixa é um marco da história da humanidade que nós próprios temos andado a destruir”, disse [Mário Lopes, investigador do Instituto Superior Técnico], referindo-se à remoção das chamadas “gaiolas pombalinas” e ao aumento do número de pisos sem o reforço das bases dos edifícios. “Isto é a receita para o desastre”» («Risco sísmico em Lisboa: “É como estar num barril de pólvora”», João Pedro Pincha, Público, 5.01.2017, p. 14).

      (Pombaline cage, para a legião de anglófonos que nos segue.) Podia facilmente estar nos dicionários gerais da língua. É, como se sabe, das primeiras estruturas anti-sísmicas do mundo, de inspiração naval, que consiste essencialmente numa estrutura de madeira de pinheiro-silvestre, importado do Norte da Europa. É um dos legados pombalescos (vá, temos de o usar ou ainda morre nos dicionários).

 

[Texto 7376]

Helder Guégués às 10:44 | comentar | ver comentários (1) | favorito
07
Dez 16

Léxico: «ranceiro»

Coisas de Rio de Onor?

 

      «É no quintal, atrás da casa, quase no fim da rua da Igreja, que Bernardino Preto, de 82 anos, está concentrado, num trabalho muito particular. “Tenho que estar aqui concentrado, nas galinhas, senão vem ela e leva-mas outra vez. Ela anda por aí ranceira, ranceira e apanhou-a sem darmos por conta. Eu estava aqui a picar lenha, a minha mulher estava ali sentada e quando fomos a encerrá-las faltava uma galinha. Pronto! Lá a raposa a levou”, diz desolado» («INATEL leva Rio de Onor a Lisboa», Afonso de Sousa, TSF, 7.12.2016).

      Vá lá, sejam prestáveis mais uma vez e tentem encontrar-me esta palavra — ranceiro — em algum dicionário. Valha a verdade que também não conhecia «picar a lenha».

 

[Texto 7308]

Helder Guégués às 16:29 | comentar | ver comentários (7) | favorito
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30
Nov 16

«Concurso vazio»

Desertos e vazios

 

    «A existência de “problemas com as assinaturas digitais” nas propostas submetidas a 15 de Novembro pela EDP, Prio e Mobilectric, levou a Mobi.e a propor a exclusão de todas elas, para declarar o concurso vazio, explicou Alexandre Videira [presidente da Mobi.e]» («Mobi.e obrigada a repetir concurso para carregadores de veículos eléctricos», Ana Brito, Público, 30.11.2016, p. 19).

   Aqui vimos a expressão concurso deserto, conceito diferente. Isto trouxe-me à mente outra expressão, fruto (quando não furto) da mente esforçada dos nossos burocratas, que é «procedimento concursal».

 

[Texto 7292]

Helder Guégués às 09:43 | comentar | favorito
18
Nov 16

«Ser alvo de»

Promete não esquecer?

 

      «Num ou noutro caso, ainda são alvos de bullying ou vítimas de isolamento — mas são a minoria» («Relaxe, ser marrão pode ser cool», Raquel Lito, Sábado, n.º 655, 17.11.2016, p. 90).

      Já é menos cool — ou seria, se o mundo fosse normal — dar esse erro ao usar a expressão, que é, na verdade, invariável, como já em tempos vimos.

 

[Texto 7251]

Helder Guégués às 09:18 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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09
Nov 16

Léxico: «novo normal»

Agora é só esperar

 

      «Trump é a extravagância ou o novo normal?» (Francisco Louçã, Público, 9.11.2016, p. 47). Agora estou sempre a ouvir esta expressão. Até já há uma rubrica na rádio com este título. Diz-se que a expressão foi cunhada por Mohamed A. El-Erian, economista e colunista da Bloomberg View, para dizer que esta crise não é como as que já se viveram no passado e que, por isso, quando passar, porque tudo passa, será um novo normal, não o normal de antes. Só temos de esperar para saber se é assim.

 

[Texto 7230]

Helder Guégués às 21:46 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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08
Nov 16

Léxico: «andar a monte»

Nem todos se entregam

 

      «O alegado homicida de Aguiar de [sic] Beira entregou-se esta noite às forças policiais, um mês depois de andar “a monte” no seguimento da morte de um agente da GNR e um civil» («Pedro Dias entregou-se à PJ», TSF, 8.11.2016, 22h03).

    O alegado homicida e a alegada melhor «polícia científica» do mundo. Vê-se. O Palito entregou-se; entregou-se o Piloto. Só o jornalista não se entregou ao estudo da língua. As aspas são para quê, exactamente? E a expressão é, como dá a entender, a monte ou andar a monte? Nunca pensou nisto, não é? Mas é tudo simples.

 

[Texto 7227]

Helder Guégués às 22:29 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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