10
Jan 18

«Azar dos Távoras»

E azar o nosso

 

      «A ministra da Justiça tem uma certeza: “A Constituição prevê um mandato longo e único” para a Procuradoria-Geral da República (PGR). Azar dos Távoras, não prevê nada disso. A revisão constitucional de 1997 definiu, sim, uma limitação de mandatos para juízes do Tribunal Constitucional, assim como para o Tribunal de Contas» («Nem um elogio, nem um “obrigado”», David Dinis, Público, 10.01.2018, p. 44).

      Faz sentido, neste contexto, o uso da expressão (de que já aqui falei) azar dos Távoras? Não me parece.

 

[Texto 8562]

Helder Guégués às 21:19 | comentar | ver comentários (2) | favorito
05
Jan 18

«Direito premial»

Já lá está

 

      É impressão minha ou o chamado Pacto da Justiça não vai passar de retórica? Hoje, a propósito da Cimeira da Justiça, em Tróia, ouvi falar várias vezes em direito premial (de inspiração brasileira?), mas mais conhecido na figura da delação premiada. Ora, fui ver e já está, e se calhar entrou hoje, no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «Conjunto de recursos legais, usados sobretudo no combate à corrupção e à criminalidade económica, que visam promover e premiar a colaboração com a justiça de arguidos que confessem os seus crimes e/ou ajudem a provar os de outros suspeitos, em troca da atenuação da pena a aplicar».

 

[Texto 8549]

Helder Guégués às 22:42 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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26
Dez 17

Léxico: «pescador lúdico»

Reúne todas as condições

 

      «Já aos pescadores lúdicos de pesca à cana, a Marinha aconselha cautela, evitando pescar junto a zonas de arriba nas frentes costeiras atingidas pela rebentação das ondas» («Mau tempo. Marinha alerta que ondas podem chegar aos sete metros», Rádio Renascença, 25.12.2017, 18h22).

      É expressão que se encontra cada vez com maior frequência, e não apenas na imprensa: a Autoridade Marítima Nacional também a usa. Num fórum, uns quantos brasileiros estranhavam o adjectivo, e um até aventava a hipótese — tão facilmente infirmável (outro termo que falta no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora) — de que fosse necessidade pontual do jornalista. Porque está a ter um uso constante, me parecer necessário e o adjectivo «lúdico» ser relativamente desconhecido do falante médio, creio que a expressão devia ser dicionarizada.

 

[Texto 8509]

Helder Guégués às 10:01 | comentar | ver comentários (1) | favorito
26
Nov 17

«Dar de caras com»

Não é para todos

 

      «É impossível passear numa avenida, estar parado na rua a conversar com um amigo, entrar num edifício, ou espreitar por baixo dos arcos de arenito de uma velha arcada, sem dar de cara com uma máquina do tempo» (Os Sonhos de Einstein, Alan Lightman. Tradução de Ana Maria Chaves. Alfragide: Edições Asa II, 10.ª ed., 2010, p. 25).

      As expressões idiomáticas é matéria quase impenetrável... Na 10.ª edição, já devia estar corrigido: é dar de caras com. Mais valia que traduzisse à letra, pois no original não está nenhuma expressão idiomática: without meeting.

 

[Texto 8392]

Helder Guégués às 09:06 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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07
Nov 17

«Bom samaritano»

O que se usa

 

      «O atirador terá cometido suicídio depois de ter sido baleado por um “bom samaritano” chamado Stephen Willeford que estava junto à igreja e encetou uma perseguição, indicam as autoridades texanas» («​Atirador do Texas tinha problemas com a sogra», Rádio Renascença, 6.11.2017, 21h36).

      Aquilo do bom samaritano (e as aspas?) não é da cabeça do jornalista da Renascença, eu sei, mas será mesmo adequado? Decerto, o indivíduo é digno de todos os louvores, e nem é preciso ver o E Se Fosse Consigo?, da SIC, para concluir que a coragem está pelas ruas da amargura. Nos tempos que correm, coragem — coragem para destilar ódio — só atrás do computador e anónimo. Seja como for, bom samaritano devia estar em todos os dicionários. Estranhamente, no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, no verbete do adjectivo samaritano, está este sentido figurado: «caritativo». E não falta nada? Ah, sim, já vem assim nos dicionários há décadas e décadas, mas, na prática, é sempre «bom samaritano» que usamos para nos referirmos ao homem bom, salvador.

 

[Texto 8301]

Helder Guégués às 11:31 | comentar | ver comentários (1) | favorito
01
Nov 17

«Aqui há atrasado»

Mas vamos revivescê-la

 

      «Aqui há atrasado, um amigo jurista garantia-me que se o Ministério Público o acusasse de um crime de homicídio em Bragança, havendo cem testemunhas que garantissem que à hora do crime ele estava em Vila Real de Santo António, a primeira coisa que faria era fugir do país o mais depressa possível» («O maior problema da nossa democracia», Pedro Marques Lopes, Diário de Notícias em linha, 29.10.2017, 00h07).

    Pedem-me que comente o uso da expressão aqui há atrasado. Obedeço. Começar por dizer que não a aprecio nem a usaria, não é útil a ninguém. Já garantir que está correcta, que o seu uso sempre foi circunscrito e hoje em dia quase ninguém a emprega, isso já tem utilidade. «Conta-se que um ladrão de sepulturas que aqui há atrasado violou uma campa, morreu logo ali como esganado por mãos invisíveis e à mesma hora lhe ardia a casa de moradia com mulher, filhos e netos lá dentro» (O Prenúncio das Águas, Rosa Lobato de Faria. Porto: Asa, 1999, p. 43).

 

[Texto 8285]

Helder Guégués às 15:40 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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28
Out 17

Léxico: «na diagonal»

Perfunctoriamente

 

      Aqui esta jovem escreve que não põe de lado casar-se «se ou ver química». Deus lhe depare um bom analfabeto ou, uma vez que só tem 32 anos, lhe infunda no cérebro a vontade irreprimível de saber escrever de forma minimamente decente. Como isso não é para os próximos anos, partamos para coisas mais ponderosas. Então Maria Luísa Arantes, juíza da Relação do Porto e co-relatora do polémico acórdão de 11 de Outubro, assinado por Neto de Moura, vem agora afirmar que leu o texto do acórdão apenas na diagonal? Fica-lhe muito bem desculpar-se desta maneira, não haja dúvida. E o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, que não acolhe este na diagonal, também tem trabalho para fazer.

 

[Texto 8274] 

Helder Guégués às 20:44 | comentar | ver comentários (4) | favorito
28
Jun 17

Léxico: «troca o passo»/«carqueja»

Pobre selenita

 

      Ontem, a minha filha fartou-se de rir quando eu usei as expressões «troca o passo» e «carqueja» com datas, coisa inédita para ela. «Mete-se pela via rápida ou lá o que é, tão lenta em construção como era o comboio de mil oitocentos e troca o passo, vai-se por ali fora num ápice, os carros à compita, a progredirem até à cidade capital do distrito e a trocarem de posição» (O Deputado, António Modesto Navarro. Alpiarça: Garrido, 2002, p. 134). «FELÍCIA – Sou eu que falo: – Felícia do Rego, do Beco das Alcaparras. – Lisboa, tantos de tal de mil quinhentos e carqueja» (Estudos de Língua e Cultura Portuguesa. Lisboa: Universidade Aberta, 1996, p. 159).

     Se chegasse agora aqui o tal selenita, não as encontraria em nenhum dicionário, quando era facílimo, e bastava indicar-se que são expressões jocosas.

 

[Texto 7960] 

Helder Guégués às 18:12 | comentar | favorito
18
Jun 17

Léxico: «estar à bica»

Anda a ler

 

      «Quer dizer, estávamos à bica de sair e ficámos outra vez à espera, perdemos um ano», disse ontem Passos Coelho. É isso, tomou por modelo Jerónimo de Sousa, e agora não perde nenhuma oportunidade de usar uma palavra ou expressão menos comum. Estar à (ou na) bica é estar prestes a conseguir alguma coisa; estar em primeiro lugar. É expressão que vem do tempo em que a população se abastecia em fontes públicas, em chafarizes.

 

[Texto 7928]

Helder Guégués às 10:50 | comentar | favorito
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15
Mai 17

Léxico: «visão crepuscular»

Vejamos

 

      «Carlos Arroz [presidente do Sindicato Independente dos Médicos e médico de família em Belmonte] diz que também não há meios técnicos nos centros de saúde para atestar a visão crepuscular dos utentes que querem conduzir (e outras questões concretas que os médicos terão de avaliar), nem os consultórios têm tamanho para fazer os tradicionais exames (com letras na parede) à visão dos doentes» («“Até o Ronaldo teria dificuldade em obter um atestado para a carta de condução”», TSF, 15.05.2017, 7h43).

      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora só conhece a visão binocular. A visão crepuscular ou escotópica é a percepção visual quando há fraca iluminação, mediante os bastonetes da retina, só permitindo distinguir grosseiramente as formas dos objectos, mas não as cores. Ora, aquele dicionário regista o adjectivo escotópico, pelo que metade do trabalho está feito.

 

[Texto 7834]

Helder Guégués às 11:21 | comentar | ver comentários (1) | favorito