06
Dez 16

O género de «ênfase» (e de «epítome»)

É menina

 

      Santana Castilho, «especialista na área da Educação», no noticiário das 5 da tarde na Antena 1, a propósito dos resultados do PISA: «Por exemplo, o ênfase terrível de Nuno Crato em tudo querer medir, tudo querer avaliar, e achar que com exames se aprendia mais, se isso não tivesse sido feito, eu não sei se os resultados não seriam ainda melhores.»

      A pedido de muitos especialistas, qualquer dia «ênfase» é do género masculino. Entretanto, porém, é do género feminino, e por isso temos ali um erro. Ultimamente, ando a ver muito, em traduções, outro erro, que é atribuir o género feminino a «epítome». Tudo trocado.

 

[Texto 7305]

Helder Guégués às 20:13 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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15
Set 16

Género: «Torá»

O argueiro e a trave

 

      «A Câmara da Covilhã [CMC] vai revelar hoje, numa conferência de imprensa, a descoberta de um Torá (pergaminho judaico) com cerca de 400 anos e escrito em hebraico. O achado esteve dez anos embrulhado num lençol em casa de um construtor civil que, quando o encontrou no meio do entulho de uma casa devoluta, não sabia do que se tratava» («Empreiteiro descobre Torá com 400 anos ao demolir casa devoluta», Rosa Ramos, Jornal de Notícias, 15.09.2016, p. 32).

      O empreiteiro não sabia — e a jornalista, que nem acerta no género de «Torá»? Na edição em papel, é verdade que há uma caixa de texto em que se explica o que é (mas também com erros), mas a explicação entre parêntesis é simplesmente para rir.

 

[Texto 7086]

Helder Guégués às 11:17 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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01
Abr 16

«A polme»?

Reduzidos a isto

 

      Na emissão de ontem do programa O Mapa de Receitas de James Martin, no 24 Kitchen, o chefe estava à beira do Loch Fyne, na costa oeste da Escócia e um dos pratos que preparou foi precisamente lagostins ali pescados, passados por um polme (segredo, que eu já conhecia: juntar água tónica) e fritos. Para Rita Amado, a tradutora, porém, não era um polme — mas, repetidas vezes, «uma polme». Parece que há um — um! — dicionário que o regista como feminino. Infelizmente, é seguido por vários chefes, como Henrique Sá Pessoa, Vítor Sobral, entre outros. Mas uma tradutora... Onde foram buscar isto? Ora, como se vê escrito muitas vezes «reduzido a polme», hão-de achar que se trata do artigo... Não? Então expliquem-nos, porque, desde 1585, numa obra do P.e Fernão Cardim, até hoje o termo sempre foi considerado do género masculino.

 

[Texto 6721]

Helder Guégués às 14:24 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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03
Jan 16

«A primeira-ministra»

Com cataclismo, a presidente

 

      «A investigadora [Carla Martins, do Centro Interdisciplinar de Estudos de Género e professora no curso de Jornalismo da Universidade Lusófona] recorda que a primeira vez que as questões de género emergiram na política portuguesa foi “em 1979, quando Maria de Lourdes Pintasilgo foi indigitada primeira-ministra” no V Governo Constitucional de iniciativa do Presidente da República António Ramalho Eanes, e “houve a abertura a dois sexos”, ou seja, “a política nacional passou a ter dois sexos”. Isto, apesar de formalmente Maria de Lourdes Pintasilgo “ainda ser chamada primeiro-ministro” na comunicação social, uma vez que se considerava que a palavra só tinha masculino» («Duas mulheres candidatas representam uma “viragem” na política portuguesa», São José Almeida, Público, 3.01.2016, p. 10).

      Como antes, na imprensa portuguesa (e na brasileira — vocês não são melhores, caros irmãos!), Indira Gandhi era «a primeiro-ministro da União Indiana». A não ser que haja um cataclismo (e não «cataclisma», como ultimamente ando a ver), não é desta que vamos ter uma presidente.

 

[Texto 6520]

Helder Guégués às 16:22 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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15
Dez 15

Género de «personagem»

Apesar de tudo

 

     Eis um professor que aprendeu que a palavra «personagem» é do género feminino. Quando um aluno escreveu «o personagem», assinalou o erro; o aluno, porém, ficou completamente baralhado, pois no ano lectivo anterior outro professor corrigira-o por atribuir o género feminino à palavra.

   Todos conhecemos as boas razões para considerar personagem apenas do género feminino, mas há muito que é difícil encontrar dicionários que não a registem como palavra de ambos os géneros. Lê-se no respectivo verbete do Grande Dicionário Sacconi, que a considera sobrecomum (como a criança ou o cônjuge): «O VOLP classifica esta palavra como substantivo comum de dois, admitindo, assim, ao lado de a personagem, também o personagem. Convém salientar, no entanto, que nada há que justifique o seu emprego no gênero masculino, em nossa língua» (p. 1584). Termina assim: «Apesar de tudo, porém, não há erro no emprego de “o personagem”, pela razão exposta inicialmente.» Dito assim, é um argumento de autoridade. Bem, seja como for, não pode é vir alguém — professor ou não — virar tudo das avessas e reputar errado atribuir-lhe o género feminino. Isso é que não. Para terminar, devo lembrar que já Rebelo Gonçalves, no Vocabulário da Língua Portuguesa (1966), verdadeira bíblia da ortografia, a regista dos dois géneros.

 

[Texto 6482]

Helder Guégués às 17:29 | comentar | ver comentários (18) | favorito
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13
Nov 15

«Grama» — tem dois géneros, Ana Maia

Menino ou menina?

 

      «Mais à frente, uma máquina coloca as embalagens, escritas na língua do país para onde vão, e finalmente o folheto informativo. São todas pesadas numa máquina para controlo. Uma grama a menos pode ser sinal de que o folheto não está» («Diabetes. Na Alemanha há uma “cidade da insulina” que não dorme», Ana Maia, Diário de Notícias, 13.11.2015, p. 20).

       Tal como aqui uma letra a mais é sinal de que a jornalista ainda não sabe que o vocábulo «grama» tem um sentido no masculino e outro no feminino. Amanhã já lhe dirão.

 

[Texto 6392]

Helder Guégués às 23:42 | comentar | favorito
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13
Out 15

«Caudal»: masculino ou feminino?

Para corrigir

 

      «Para vós, Bórgias, para vós, raça de Locusta, e de Brinvilliers, para vós, envenenadores impunes, o patíbulo neste mundo, donde fugiu espavorida a vergonha e a justiça; e as caudais de súlfur em combustão eterna nas furnas tartáreas, onde é de fé que dá urros medonhos um condenado chamado Nicot, que trouxe para a Europa o tabaco, e teve a impudência de o trazer a Portugal em 1560, onde viera com embaixada de França» (O Que Fazem Mulheres, Camilo Castelo Branco).

      É substantivo masculino ou feminino, indiferentemente — mas não para todos os dicionários. Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, caudal, a torrente impetuosa, é somente do género masculino. Para corrigir, meus senhores.

 

[Texto 6316]

Helder Guégués às 15:44 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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13
Ago 15

Sobre «delfim»

Então, vendo bem...

 

      «Lula admite erros mas defende a sua delfim» (João Almeida Moreira, Diário de Notícias, 13.08.2015, p. 34). Mas, João Almeida Moreira, delfim é do género masculino! Solução? Qual havia de ser? Se é masculino, será: «Lula admite erros, mas defende o seu delfim.» Existe o feminino, delfina, mas os dicionários dizem que é a esposa do delfim, e este é no sentido próprio, o herdeiro do trono de França, e não no sentido figurado, presumível herdeiro político. A alternativa é redigir a frase de outra forma: «Lula admite erros, mas defende a sua herdeira política.» E, no entanto, faz lembrar o uso de «benjamim» (substantivo e adjectivo), que, como já aqui vimos, tanto se pode dizer «o benjamim» como «a benjamim».

 

[Texto 6164]

Helder Guégués às 21:37 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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25
Jul 15

Género de «síndroma(e)»

A quem a conhecer...

 

   «É sobre este síndrome [síndrome de Sjögren] que vamos falar com o Dr. Filipe Barcelos, médico reumatologista» (Carla Trafaria, Bom Dia[,] Portugal, 24.07.2015). No fim, voltou a atribuir o género masculino ao vocábulo. Errado. A doença inflamatória crónica pode ser grave, mas laborar assim em tal erro, depois de tudo o que já se disse sobre a «sida», também não deixa de o ser. Síndroma e síndrome, que vieram do grego, pertencem ambos, em português, ao género feminino.

 

[Texto 6085]

Helder Guégués às 21:08 | comentar | ver comentários (5) | favorito
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