07
Ago 15

O estatuto determina-o

É assim

 

    «O corpo fora enviado para Inglaterra onde vive sua mãe, a ex-imperatiz Eugénia. Os funerais foram comovedores» (O Último Cais, Helena Marques. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 3.ª ed., 1994, p. 15).

    Claro que é galicismo, agora menos usado. Em francês é funérailles, plural. Se queremos um plural, usemos exéquias, pompas fúnebres. Já uma vez li, e é verdade, que a palavra «funeral» se emprega no plural ou no singular de acordo com a importância, a projecção social, política ou religiosa do finado. Se for alguém como Nelson Mandela, por exemplo, serão os «funerais»; se for alguém que não beneficiava da fama, será mais modestamente «funeral». Desigualdade na vida e na morte. Puta da vida. Actualmente, só nos jornais se vê — mas nos jornais vê-se de tudo — o plural quando devia ser o singular. E, no entanto, Camilo também usou, talvez em dia menos inspirado, este escusado galicismo.

 

[Texto 6144]

Helder Guégués às 17:33 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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30
Jun 15

«Fez o que tinha que fazer»

Je n’ai rien à faire

 

      «O Syriza foi eleito em Janeiro deste ano com 36,3% dos votos e um programa que não tem nada a ver com aquele que as instituições exigem que a Grécia aplique. Colocado entre a espada e a parede, Tsipras fez o que tinha a fazer» («Tsipras fez o que tinha a fazer», João Miguel Tavares, Público, 30.06.2015, p. 48).

      São os piores, porque mais insidiosos, estes galicismos sintácticos. Diz-se, em português estreme, decente, nada ter que ver e fez o que tinha que fazer. E mesmo aquele «colocado» está ali só para encher a frase. Veja-se: «Entre a espada e a parede, Tsipras fez o que tinha que fazer.» «Entre Cila e Caríbdis, Tsipras fez o que tinha que fazer.» «Entre a cruz e a caldeirinha, Tsipras fez o que tinha que fazer.»

 

[Texto 6005]

Helder Guégués às 10:01 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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06
Jul 14

Se são móveis... em francês

Servem para o mesmo

 

 

      Falamos e escrevemos francês, mas depois... falta o acento: récamier. E a propósito: um antiquário queria vender-me uma chaise longue lindíssima. Quer dizer, ele é que dizia que era uma chaise longue. Está bem, tem de ser um galicismo, mas é outro: era uma méridienne.

 

 [Texto 4800]

Helder Guégués às 08:57 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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28
Mar 14

«Falésia/(ar)riba/encosta»

Procuramos, e há pior

 

 

      Repórter Ana Sofia Rodrigues, no Jornal da Tarde de ontem: «A fenda aberta na falésia de mais de dois metros era sinal claro de perigo de queda iminente, razão para que as máquinas avançassem já para a derrocada controlada na praia da Luz, concelho de Lagos.» Falésia, galicismo supérfluo. Contudo, tinha entrevistado Sebastião Teixeira, da Agência Portuguesa do Ambiente, que dissera: «As arribas mexem-se sobretudo durante o Inverno, e é um Inverno alargado que se prolonga por mais uns meses; portanto, na altura da Páscoa, as arribas ainda estão vivas, digamos assim. E portanto ainda podem ocorrer desmoronamentos, e, por isso, as pessoas quando vêm para a Páscoa, vêm com bom tempo, com sol, mas têm que ter um cuidado redobrado relativamente às arribas. Têm que se afastar o mais possível, sempre, das arribas.» E, na semana passada, li um texto em que o autor confundia repetidamente «arriba» – para ele, sempre «falésia» – com «encosta».

 

[Texto 4289]

Helder Guégués às 10:14 | comentar | ver comentários (5) | favorito
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30
Jan 14

Ortografia: «déjà-vu»

Vieram de França

 

 

   «Os discursos do Estado da União de Barack Obama parecem déjà vus nos quais o Presidente todos os anos reanuncia objectivos políticos que vinham de trás. Desta vez, o inquilino da Casa Branca desafiou o Congresso[,] que tem bloqueado as suas políticas de forma mais brutal do que no passado. Estamos em ano eleitoral e Obama sabe que o boicote republicano continuará. A única novidade é o contexto do discurso» («O déjà vu de Obama», editorial, Público, 30.01.2014, p. 27).

    Talvez se leia geralmente grafado sem hífen, mas tanto o Houaiss como o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora registam-no com hífen, até porque aparece como substantivo, ao contrário, por exemplo, de déjà vécu, locução. E depois há isto e o contrário: jamais vu, jamais vécu, jamais entendu...

 

  [Texto 3953]

Helder Guégués às 16:01 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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29
Jan 14

Sobre: «elite»

Gente de eleição

 

 

      «Élite. Francesismo dos mais vulgarizados, até com pronúncia esdrúxula e aberta! E nós em português possuímos vários termos que lhe correspondem perfeitamente: escol, boa sociedade, alta roda, a gente fina, a aristocracia; nata, flor, fina flor; beijinho. E note-se que escolhida “élite” é disparate equivalente a escolhida escolhida.// Classes d’élite serão em português — classes superiores.// Les gents d’élite, na nossa língua — gente de eleição» (Grande Dicionário de Dificuldades e Subtilezas do Idioma Português, vol. 1, Vasco Botelho de Amaral. Lisboa: Centro Internacional de Línguas, 1958, p. 1268.).

 

  [Texto 3941]

Helder Guégués às 10:25 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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13
Jan 14

«Nada que ver»

Fiquem com esta

 

 

    «É, sobretudo, fora dos elementos afectos à Ditadura e entre os seus inimigos que se defende a primeira tese — a Ditadura nada tem que ver com a política» (Discursos, volume primeiro, 1928-1934, Oliveira Salazar. Coimbra: Coimbra Editora, 1961, 5.ª ed., p. 61).

   Nada de especial, dizem, de novo!? Vão lá dizer isso a milhões de escrevinhadores, de escritores e tradutores a catedráticos, passando por jornalistas. «Nada a ver» é galicismo. Je n’ai rien à voir avec ça. Afinal, são portugueses ou não?

 

  [Texto 3849]

Helder Guégués às 22:45 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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11
Jan 14

Tradução: «shussshing»

Galicismos, bons e maus

 

 

      O único ruído que se ouvia era o «shussshing» do vestido dela. Assim, com três esses. O tradutor verteu para «frufrulhar», que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista que significa fazer frufru e se usa no Brasil. Claro que, em rigor, não tem de estar aqui um verbo, ou, pelo menos, é indiferente, pelo que a opção por «ruge-ruge» me parece melhor. Sim, ou por «frufru», «um galicismo que não é mau», leio aqui num boletim da Sociedade de Língua Portuguesa.

 

  [Texto 3835]

Helder Guégués às 15:31 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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08
Jan 14

Vários «golpes»

Autênticas facadas

 

 

      «Golpe de mar aconteceu pouco depois das 16h [sic] de ontem na zona da Foz. Mar também causou problemas na Caparica e Praia Grande» («Duas ondas varrem carros e ferem quatro pessoas», Público, 7.01.2014, p. 23).

      Foi uma edição em que se viram mais golpes, todos galicismos: «golpe de génio» (p. 6), «golpe de asa» (p. 9), «golpes militares» (p. 31), «golpe de Estado» (p. 33).

 

  [Texto 3811]

Helder Guégués às 08:10 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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21
Set 13

«Aporte», um galicismo

Seria menos um

 

 

      Já que andamos, nos últimos tempos, a falar tanto de termos médicos, não podemos substituir o galicismo aporte, em frases como «o aporte de oxigénio às células cerebrais», por termo genuinamente português?

 

  [Texto 3308]

Helder Guégués às 09:19 | comentar | ver comentários (5) | favorito
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24
Ago 13

Demasiado francês

Quase nos enganavam

 

 

      «E com uma característica que importa salientar: foi dada primazia à reutilização de materiais. Há pupitres (peças em madeira usadas para fazer a remuage do espumante) que foram transformadas em mesas, paletes que serviram de base para sofás, caixas individuais de vinho que resultaram em óptimos e originais suportes de papel higiénico» («Noites com uma pitada de sal e champanhe», Maria José Santana, «Fugas»/Público, 24.08.2013, p. 28).

      Embora o Público seja parquíssimo em itálico — mas faz mal —, como vi a remuage em itálico, ainda pensei que «pupitre», que conheço bem do castelhano, fosse português. Nada disso: a palavra é francesa, como remuage. Vejam aqui uma imagem. É acepção que não está, por exemplo, no Dicionário Francês-Português da Porto Editora, que apenas regista: «carteira; escrivaninha; estante de música; estante de coro». Para o dicionário da Real Academia Espanhola, é o «mueble de madera, con tapa en forma de plano inclinado, para escribir sobre él». («De madera», cara Maria José Santana, repare bem.) No Trésor, lemos: «ŒNOL. Pupitre (à bouteilles, de cave). Meuble de cave constitué par deux panneaux de bois inclinés, percés de trous, dans lesquels on introduit le col des bouteilles et qui sert à les maintenir en position inclinée, en particulier dans la fabrication du champagne».

 

  [Texto 3233]

Helder Guégués às 20:34 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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