01
Nov 17

«Quer levar-nos a todos»

Então não é?

 

      «– O futuro a Deus pertence. Ele decidirá – depois, com um sentido mais clínico, rematou a conversa: – A “espanhola” quer levar-nos todos para o cemitério, Alice» (Mataram o Sidónio!, Francisco Moita Flores. Revisão de Ayala Monteiro. Lisboa: Leya, 2010, p. 9).

      As aspas, as aspas... Bem, mas estamos aqui por outro motivo: com todo/todos (e outros pronomes indefinidos), não se costuma usar o complemento directo regido da preposição a? «A espanhola quer levar-nos a todos para o cemitério, Alice.»

 

[Texto 8286]

Helder Guégués às 18:36 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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25
Out 17

«Reparar em si/reparar nela»

Esta é mais grave

 

      «Essas raparigas tratavam-na [a Lupe] com desdém, quando se davam ao trabalho de reparar em si» (Pintar o Futuro — Uma História de Amor e de Esperança, Louise L. Hay e Lynn Lauber. Tradução de Duarte Sousa Tavares. Lisboa: Pergaminho, 2012, p. 22).

      Esta é uma justa homenagem a Montexto, que já nos ensinou isto dezenas de vezes. Qual o sujeito da frase, Duarte Sousa Tavares? Essas raparigas. Então, «quando se davam ao trabalho de reparar nela», Lupe. «These girls treated her with contempt when they noticed her at all.» Confesso que por vezes não é assim tão fácil de ver; este caso, porém, é para principiantes.

 

[Texto 8264] 

Helder Guégués às 21:26 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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17
Out 17

O particípio de «intervir»

Todas as opiniões

 

      «Os Estados têm intervido ao investir em infra-estruturas e em indústrias de base, etc.» Estamos sempre, todos nós, não é?, a corrigir este erro. Ora, há quem defenda (Helena Mateus Montenegro, por exemplo, nas Questões de Gramática do Português, pp. 25-26) que, para desambiguar e por ser mais eufónico nas formas compostas com o verbo «ter», o particípio passado de «intervir» é intervido. E não defende o mesmo Rodrigo de Sá Nogueira, na página 272 do seu Dicionário de Verbos Portugueses Conjugados?

 

[Texto 8229]

Helder Guégués às 11:35 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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13
Out 17

«Um», pronome?

Uma lacuna?

 

      Numa vinheta do Garfield, diz o gato: «Uns aguentam mais do que outros.» O que é aquele «uns»? Determinante não é, certamente, e não encaixa em nenhuma das subclasses do pronome. E, no entanto, tem de ser pronome, porque substitui um nome... mas qual? Não se tratará de uma lacuna na classificação? O Dicionário Terminológico não nos dá resposta.

 

[Texto 8223]

Helder Guégués às 18:02 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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26
Jul 17

Adeus, gramática

E a concordância?

 

      Hoje comemora-se o Dia Metropolitano dos Avós no Europarque, em Santa Maria da Feira. Não sabia que havia dias metropolitanos... Bem, vamos aos jornais: «Em cima do parque de estacionamento subterrâneo, além da estátua equestre assente num passeio compacto de pedra, sem lugar a canteiro ou arbusto raquítico que seja, pousam agora além dos pombos – coitados, que esses não ocupam por muito tempo espaço –, táxis e tuk-tuks alinhados em filas, qual gatos à caça dos turistas que enchem esta Lisboa que já não é a de outrora» («Boa para ver de longe», Fernanda Cachão, Correio da Manhã, 25.07.2017, p. 2). E a concordância, Fernanda Cachão? Veja: «Sempre seguidos por bodyguards façanhudos, vestidos de preto, como se fossem a nossa sombra, foi divertido e grotesco vê-los correrem na praia, ofegantes, quais gatos-pingados, atrás de nós quando, descontraídos, resolvemos, em calções de banho, fazer um crosse na praia» (Quase Memórias: Da Descolonização de Cada Território em Particular, vol. 2, António de Almeida Santos. Lisboa: Casa das Letras, 2006, p. 36).

 

[Texto 8058]

Helder Guégués às 13:24 | comentar | favorito
12
Jul 17

Infinitivo impessoal como complemento nominal

Ou preciso de um optometrista?

 

      «Tudo vai depender, como vimos hoje de manhã, da força da norma-padrão em impor suas formas de uso da língua. Por enquanto fica difícil prever de quem será a vitória final» (A Língua de Eulália: Novela Sociolingüística, Marcos Bagno. São Paulo: Editora Contexto, 15.ª ed., 2006, p. 180).

   Sim, eu sei que o autor é doutor em Filologia e em Língua Portuguesa (vénia e segue a pergunta): quando o infinitivo impessoal serve de complemento nominal a adjectivos, não é sempre precedido da preposição «de»? No caso, «fica difícil de prever». Estou a ver bem?

 

[Texto 8016]

Helder Guégués às 20:53 | comentar | ver comentários (6) | favorito
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11
Jul 17

Dativo de interesse

E agora?

 

      «E agora, menino, lava-me essa cara, veste-me roupa lavada e toca a trabalhar!» (Ondas sobre a Areia, Fausto Lopo de Carvalho. Lisboa: Sociedade de Expansão Cultural, 1960, p. 220).

      Uso muito esta construção, que deixa a minha filha a rir a bandeiras despregadas, e garanto que nunca é qualquer coisa semelhante a «limpa-me essas trombas!», não. Agora, talvez até já nem faça parte das gramáticas, sei lá. Dantes, dava-se-lhe o nome, que aprendi em Latim, de dativo de interesse (dativus commodi et incommodi). Repare-se que, e por muito estranho que pareça, aquele me não tem função sintáctica.

 

[Texto 8004]

Helder Guégués às 16:12 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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«Bem haja/bem-haja», de novo

Fica para a próxima

 

     Entre as interjeições de agradecimento, acabo de ver na Gramática Descomplicada, de Sandra Duarte Tavares e Sara Almeida Leite (Lisboa: Planeta, 2015, p. 79), «bem-haja!» e «obrigado!». Está errado, como vimos aqui. (Entretanto, graças à minha sugestão, já foi corrigido no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora.) Não, senhoras professoras: equivalente a obrigado é bem haja, e não bem-haja. As autoras também afirmam que as interjeições «têm uma função exclusivamente emotiva», o que não é, evidentemente, verdade. Aliás, nem se percebe bem o que pretendem dizer com «função emotiva».

 

[Texto 8001]

Helder Guégués às 14:40 | comentar | favorito
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06
Jul 17

Vocativo e pontuação

Não me diga, Elsa

 

      «São cada vez menos as pessoas que usam a vírgula para separar a interjeição do vocativo em emails ou em comentários nas redes sociais. É o que acontece quando escrevemos “*Olá Joana!” ou “*Bom dia Joana!”» (101 Erros de Português Que Acabam com a Sua Credibilidade, Elsa Fernandes. Lisboa: Verso de Kapa, 2017, p. 104).

      Ai é, Elsa Fernandes? E se não se tratar de uma interjeição, já está correcto? A chave está no vocativo: deve aparecer sempre isolado, com uma ou com duas vírgulas, dependendo da frase. Não acha, Elsa Fernandes? Bem, Elsa Fernandes, fica pelo menos assente que não é a interjeição que está em causa. Promete não falhar?

 

[Texto 7985]

Helder Guégués às 20:31 | comentar | ver comentários (2) | favorito

«Enviar em anexo»

Não vejo porquê

 

      «Quase todos os dias enviamos e recebemos documentos por email e é muito comum lermos (e escrevermos): “A proposta segue *em anexo” ou “envio *em anexo a proposta”.

    Esta construção não está correta. Quando “anexo” surge como adjetivo com função adverbial, o “em” deve ser eliminado» (101 Erros de Português Que Acabam com a Sua Credibilidade, Elsa Fernandes. Lisboa: Verso de Kapa, 2017).

      Nunca tinha pensado nesta questão. Não vejo o que possa estar errado no uso desta locução adverbial. Aliás, anexo não é apenas adjectivo. E não temos também outra expressão semelhante, em apenso? Qual é o erro?

 

[Texto 7984]

Helder Guégués às 20:06 | comentar | ver comentários (8) | favorito
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03
Jul 17

Preposição «mediante», as dúvidas

Quero mesmo saber

 

      Faz-me sempre muita confusão (falta de currículo?) o uso da preposição acidental mediante em certos contextos. Hoje, no Portugal em Directo, da Antena 1, a jornalista Cláudia Costa perguntou a um autarca de um dos concelhos devastados pelo incêndio se sabia «ou não que, mediante a tragédia, vários turistas nacionais cancelaram reservas». Esta preposição nasceu para isto?

 

[Texto 7973]

Helder Guégués às 15:16 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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