26
Jul 17

Adeus, gramática

E a concordância?

 

      Hoje comemora-se o Dia Metropolitano dos Avós no Europarque, em Santa Maria da Feira. Não sabia que havia dias metropolitanos... Bem, vamos aos jornais: «Em cima do parque de estacionamento subterrâneo, além da estátua equestre assente num passeio compacto de pedra, sem lugar a canteiro ou arbusto raquítico que seja, pousam agora além dos pombos – coitados, que esses não ocupam por muito tempo espaço –, táxis e tuk-tuks alinhados em filas, qual gatos à caça dos turistas que enchem esta Lisboa que já não é a de outrora» («Boa para ver de longe», Fernanda Cachão, Correio da Manhã, 25.07.2017, p. 2). E a concordância, Fernanda Cachão? Veja: «Sempre seguidos por bodyguards façanhudos, vestidos de preto, como se fossem a nossa sombra, foi divertido e grotesco vê-los correrem na praia, ofegantes, quais gatos-pingados, atrás de nós quando, descontraídos, resolvemos, em calções de banho, fazer um crosse na praia» (Quase Memórias: Da Descolonização de Cada Território em Particular, vol. 2, António de Almeida Santos. Lisboa: Casa das Letras, 2006, p. 36).

 

[Texto 8058]

Helder Guégués às 13:24 | comentar | favorito
12
Jul 17

Infinitivo impessoal como complemento nominal

Ou preciso de um optometrista?

 

      «Tudo vai depender, como vimos hoje de manhã, da força da norma-padrão em impor suas formas de uso da língua. Por enquanto fica difícil prever de quem será a vitória final» (A Língua de Eulália: Novela Sociolingüística, Marcos Bagno. São Paulo: Editora Contexto, 15.ª ed., 2006, p. 180).

   Sim, eu sei que o autor é doutor em Filologia e em Língua Portuguesa (vénia e segue a pergunta): quando o infinitivo impessoal serve de complemento nominal a adjectivos, não é sempre precedido da preposição «de»? No caso, «fica difícil de prever». Estou a ver bem?

 

[Texto 8016]

Helder Guégués às 20:53 | comentar | ver comentários (6) | favorito
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11
Jul 17

Dativo de interesse

E agora?

 

      «E agora, menino, lava-me essa cara, veste-me roupa lavada e toca a trabalhar!» (Ondas sobre a Areia, Fausto Lopo de Carvalho. Lisboa: Sociedade de Expansão Cultural, 1960, p. 220).

      Uso muito esta construção, que deixa a minha filha a rir a bandeiras despregadas, e garanto que nunca é qualquer coisa semelhante a «limpa-me essas trombas!», não. Agora, talvez até já nem faça parte das gramáticas, sei lá. Dantes, dava-se-lhe o nome, que aprendi em Latim, de dativo de interesse (dativus commodi et incommodi). Repare-se que, e por muito estranho que pareça, aquele me não tem função sintáctica.

 

[Texto 8004]

Helder Guégués às 16:12 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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«Bem haja/bem-haja», de novo

Fica para a próxima

 

     Entre as interjeições de agradecimento, acabo de ver na Gramática Descomplicada, de Sandra Duarte Tavares e Sara Almeida Leite (Lisboa: Planeta, 2015, p. 79), «bem-haja!» e «obrigado!». Está errado, como vimos aqui. (Entretanto, graças à minha sugestão, já foi corrigido no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora.) Não, senhoras professoras: equivalente a obrigado é bem haja, e não bem-haja. As autoras também afirmam que as interjeições «têm uma função exclusivamente emotiva», o que não é, evidentemente, verdade. Aliás, nem se percebe bem o que pretendem dizer com «função emotiva».

 

[Texto 8001]

Helder Guégués às 14:40 | comentar | favorito
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06
Jul 17

Vocativo e pontuação

Não me diga, Elsa

 

      «São cada vez menos as pessoas que usam a vírgula para separar a interjeição do vocativo em emails ou em comentários nas redes sociais. É o que acontece quando escrevemos “*Olá Joana!” ou “*Bom dia Joana!”» (101 Erros de Português Que Acabam com a Sua Credibilidade, Elsa Fernandes. Lisboa: Verso de Kapa, 2017, p. 104).

      Ai é, Elsa Fernandes? E se não se tratar de uma interjeição, já está correcto? A chave está no vocativo: deve aparecer sempre isolado, com uma ou com duas vírgulas, dependendo da frase. Não acha, Elsa Fernandes? Bem, Elsa Fernandes, fica pelo menos assente que não é a interjeição que está em causa. Promete não falhar?

 

[Texto 7985]

Helder Guégués às 20:31 | comentar | ver comentários (2) | favorito

«Enviar em anexo»

Não vejo porquê

 

      «Quase todos os dias enviamos e recebemos documentos por email e é muito comum lermos (e escrevermos): “A proposta segue *em anexo” ou “envio *em anexo a proposta”.

    Esta construção não está correta. Quando “anexo” surge como adjetivo com função adverbial, o “em” deve ser eliminado» (101 Erros de Português Que Acabam com a Sua Credibilidade, Elsa Fernandes. Lisboa: Verso de Kapa, 2017).

      Nunca tinha pensado nesta questão. Não vejo o que possa estar errado no uso desta locução adverbial. Aliás, anexo não é apenas adjectivo. E não temos também outra expressão semelhante, em apenso? Qual é o erro?

 

[Texto 7984]

Helder Guégués às 20:06 | comentar | ver comentários (8) | favorito
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03
Jul 17

Preposição «mediante», as dúvidas

Quero mesmo saber

 

      Faz-me sempre muita confusão (falta de currículo?) o uso da preposição acidental mediante em certos contextos. Hoje, no Portugal em Directo, da Antena 1, a jornalista Cláudia Costa perguntou a um autarca de um dos concelhos devastados pelo incêndio se sabia «ou não que, mediante a tragédia, vários turistas nacionais cancelaram reservas». Esta preposição nasceu para isto?

 

[Texto 7973]

Helder Guégués às 15:16 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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30
Mai 17

Como se escreve por aí

Uma pouca-vergonha

 

      A minha filha, com 10 anos!, veio mostrar-me esta frase de um livro que começou a ler esta tarde: «— Muito bem, Marta troca com o Ivo. Vamos lá Lobos que temos de terminar esta jangada rapidamente! — incentiva Miguel» (Os Lobos na Descida do Rio, José Carlos Completo e Mónica Cortesão Gonçalves. Lisboa: Grafitexto, 2014, p. 20).

      Então uma criança de 10 anos sabe ver que está errado e os autores não sabem nem viram nada? Folheei o livro rapidamente, para não ficar doente, e posso dizer que, só em vírgulas absolutamente obrigatórias como esta, a isolar o vocativo, faltam centenas. Como estará o resto? Pergunto, mas não quero saber. É claro que já a aconselhei a não ler o livro.

 

[Texto 7885]

Helder Guégués às 22:20 | comentar | ver comentários (1) | favorito
17
Mai 17

Cognome ou atributo?

Ainda bem que pergunta

 

      Robin dos Bosques, mas Reginald Front-de-Bœuf? Não pode ser; mas avançámos um pouco, pois muitos já se tinham esquecido de que para nós sempre foi Robin dos Bosques, e não Robin Hood. Tem de ser, então, Reginaldo Cabeça de Boi. Por vezes, não sei porquê, também se vê o cognome com hífenes. O cognome... mas será mesmo cognome, ou é atributo? Já Ricardo Coração de Leão nunca vi com hífenes, e não é exactamente igual? E então, cognome ou atributo?

 

[Texto 7841]

Helder Guégués às 23:57 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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13
Mai 17

Os Graças em Fátima

Aleluia!

 

      «Junto às grades, a família de Conceição e Rafael Graça esperava expectante por Francisco, o pai nitidamente convencido de que iria conseguir passar Luisinha, de meses, para o colo do Papa. […] Mais membros da família, crescidos e pequeninos, acompanhavam os Graças junto à grade. Um grupo de peregrinas mais velhas ajudavam a manter a ordem» («“Piccolo bambini”, disse o segurança, e o Papa abençoou a bebé Luisinha», Matilde Torres Pereira, Rádio Renascença, 13.05.2017, 13h20).

      Não devia ser notícia, mas é: eis uma jornalista que sabe português. Parabéns, Matilde Torres Pereira, é isso mesmo. No fundo, basta não ser linguista nem parvo para acertar nisto.

 

[Texto 7824]

Helder Guégués às 15:53 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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