21
Mar 17

Dupla negativa, de novo

Não vá o sapateiro, etc.

 

      «– Não, não lhe disse coisa nenhuma; foi ele que mas pediu... Afliges-te, filha?... Isto dispara em nada, Beatriz!» (O Esqueleto, Camilo Castelo Branco, 1865).

     Podia – podíamos todos – exemplificar até à exaustão com milhares e milhares de frases, literárias e do dia-a-dia. Para os sapateiros que povoam o Facebook e queiram ir além da chinela, saibam que é a chamada dupla negativa, que faz parte do ADN da língua portuguesa e dantes se aprendia na escola primária. Se isto produzir muitas interferências nas sinapses, podem substituir o pronome indefinido; em vez de «nenhum», «algum». É ignorância, e ignorância grave, que um falante da língua portuguesa não saiba isto. Faz lembrar – são disparates do mesmo jaez – a recomendação de usar «pelo visto» em vez de «pelos vistos». Tudo encontrado em livros antigos herdados e mal digeridos. Portanto, já sabem: «Quando perdes tudo, não tens pressa de ir a lado nenhum.»

 

[Texto 7589]

Helder Guégués às 12:34 | comentar | ver comentários (1) | favorito (1)
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19
Mar 17

«Tratar-se de», todos os dias

Vamos esquecer isto

 

      «Marcelo Rebelo de Sousa convidou vários chefes de Estado para participarem no centenário das Aparições de Fátima e na visita do Papa. Segundo o “Expresso”, os esforços diplomáticos já estarão a surtir efeito e, a dois meses da vinda de Francisco, cinco chefes de Estado já terão confirmado a sua presença. Tratam-se dos presidentes de São Tomé, do Paraguai, da Colômbia, de Cabo Verde e da Guiné-Bissau. Todos estes governantes são católicos, mas não deverão ter direito a audiências com o Papa – que vem a Fátima como peregrino e não em visita oficial de Estado. Francisco será recebido em Monte Real por Marcelo Rebelo de Sousa, António Costa e Ferro Rodrigues» («Fátima. Cinco chefes de Estado vêm ver o Papa», Jornal de Notícias, 19.03.2017, p. 6).

   Não está assinado, mas os jornalistas dos artigos que o ladeiam devem saber quem o escreveu. Temos de mudar a gramática, já que não aprendem.

 

[Texto 7582]

Helder Guégués às 16:25 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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16
Mar 17

«Tratar-se de»

E a gramática?

 

      «Quando Charles Smith foi filmado a dizer “o ministro é corrupto”, ele era efectivamente corrupto. E o mais provável, tendo em conta este vasto rol de suspeitas, é que não se tratassem de mera [sic] tentações ocasionais de José Sócrates, mas de um modo de vida — e, mais grave, uma forma muito eficaz de construir uma carreira política e uma sólida corte de fiéis no Portugal dos anos 80, 90 e 2000» («Sócrates e a pergunta que ninguém quer fazer», João Miguel Tavares, Público, 16.03.2017, p. 52).

      Tanta espertalhice, mas com a gramática elementar é que não atinam. João Miguel Tavares, tratar-se é um verbo defectivo e impessoal, pelo que se usa sempre na 3.ª pessoa do singular. Percebe? «Não se tratasse de meras tentações».

 

[Texto 7568]

Helder Guégués às 09:38 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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01
Mar 17

Livros RTP

Longe vá o agouro

 

      Na última semana, já ouvi pelo menos três vezes, na Antena 1, um anúncio a um livro de Italo Calvino nos Livros RTP. E com que frase sonante fazem a promoção dos livros? Com esta: «Livros que valem a pena ler.» RTP, rais ta partam! Até podem ser livros que valem a pena, mas serão livros que vale a pena ler?

 

[Texto 7518]

Helder Guégués às 18:50 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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04
Fev 17

Regência de «protestar»

Nem de propósito

 

      Que coincidência: na primeira crónica, é também a regência verbal que claudica. «Claro que demasiadas pessoas correram para os aeroportos nas últimas semanas. Mas foi apenas para protestar as restrições à imigração, prova da maldade intrínseca do novo presidente e, em boa parte, herança do anterior» («Bem-vindos, refugiados da América», Alberto Gonçalves, Observador, 4.02.2017, 00h02). No sentido de insurgir-se, manifestar-se, como no contexto, exige a preposição contra. Mas não só: «Os Yeagers colocaram a casa à venda para fugir à “devastação eleitoral” (cito) e passar os próximos 4 ou 8 anos no estrangeiro.» Isto e mais uma mão-cheia de escusadas baldas modernas, como site, media e outras miudezas. Será uma pena eminentemente swiftiana, mas o tom de lengalenga previsível vai dispensar-me de o ler até 30 de Dezembro (sim, confirmei: um sábado).

 

[Texto 7461]

Helder Guégués às 16:00 | comentar | ver comentários (3) | favorito

Regência de «ajudar»

Os factos como eles são

 

      Alberto Gonçalves é a nova aquisição, salvo seja, do Observador. Apresentou-se ontem aos leitores deste jornal digital, e não desilude. Ou não desilude mais, vá. Analisemos, para já, antes de chegar a primeira crónica, prometida para cada sábado, apenas uma frase. «Sonho escrever crónicas que saltitem de júbilo pelo facto de partidos estalinistas ajudarem ao governo do país.» «Saltitar pelo facto»... Está bem, está. E a regência do verbo «ajudar» estará correcta? Alberto Gonçalves pode ajudar, bitransitivamente, o Observador a ter mais leitores (ou não). Ajudar alguém a. Os partidos estalinistas, por sua vez, podem ajudar no governo do país. Ajudar em. Ou até, mais directa e transitivamente, e com resultados menos maus, podem ajudar o Governo do país. Para ajudar à missa, porém, vem Luft dizer-nos que conseguiu desencantar uma frase em que o verbo aparece assim preposicionado, e logo de Herculano: «Presume, e parece-nos que com razão, um dos nossos mais judiciosos historiadores que o conde aproveitaria para a sua passagem a armada genovesa que em 1104 ajudou Balduíno à conquista da Ptolemaida» (in História de Portugal). Também encontrei um exemplo em Eça de Queiroz e em mais meia dúzia de autores absolutamente não citáveis. Os grandes também erram e tresvariam.

 

[Texto 7460]

Helder Guégués às 10:19 | comentar | ver comentários (4) | favorito
29
Jan 17

Regência de «consistir»

Vamos ver se é desta

 

      Gramática tão esmerada, hein? Talvez seja chover no molhado, mas aqui vai: Celso Pedro Luft, no Dicionário Prático de Regência Verbal, escreve: «OBS. Também ocorre “consistir de...”, na acepção “compor-se, constar”, justamente por causa da regência desses verbos: a peça consiste em três atos = consta de três atos. Em alguns casos (tradução, reprodução de saber importado, etc.), influência do inglês: consist of. Regência não prestigiada pelos que melhor escrevem.» Melhor ainda: «Pegue-se numa folha inglesa. Telegrama que lá venha com a sintaxe “consisted of” é vertido pelos tradutores de agências portuguesas por “consistia de”. Se, pois, em Portugal sempre se disse “consistir em”, “constar de”, agora a notícia jornalística ou radiofónica impõe a sintaxe espúria — “consistir de”! A decência sintáctica anda quase sempre ausente, inclusivamente das notícias de coisas que pediriam exemplar correcção» (Vasco Botelho de Amaral, Subtilezas, Máculas e Dificuldades da Língua Portuguesa, edição da Revista de Portugal, Lisboa, 1946, pp.125-6).

 

[Texto 7442]

Helder Guégués às 11:25 | comentar | favorito
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19
Jan 17

«Em vez de/ao invés de»

Donald, o Tuiteiro

 

      «Donald Trump enganou-se ao mencionar a filha numa publicação no Twitter esta segunda-feira e acabou por fazer elogios a uma desconhecida, que em resposta lhe dirigiu palavras duras. […] “Ivanka Trump é ótima, uma mulher com caráter e classe”, dizia a publicação. O problema é que, ao invés de mencionarem a empresária Ivanka Trump – que usa a conta @IvankaTrump no Twitter – o quiroprático e o presidente dos Estados Unidos marcaram Ivanka Majic, uma britânica que usa a conta @Ivanka» («Novo erro de Trump no Twitter: confundiu a filha com outra mulher», Diário de Notícias em linha, 17.01.2017, 19h38).

      Não íamos querer saber disto, de certeza, se também o jornalista não se tivesse espalhado. Na locução prepositiva ao invés de está subjacente uma ideia de oposição, o que não se verifica no sentido do texto. A locução prepositiva adequada é uma destas duas: em vez de ou em lugar de.

 

[Texto 7419]

Helder Guégués às 15:42 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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23
Dez 16

Como se escreve por aí

Para o futuro

 

     Ontem, aos microfones da BBC4, o Príncipe Carlos alertou para o risco de um novo Holocausto. Na TSF, traduziram uma parte do discurso, e foi aqui que se deu um pequeno holocausto da gramática: «“Normalmente, no Natal pensamos no nascimento de Jesus Cristo. Creio que este ano devíamos lembrarmo-nos de como a história da Natividade se desenrola com a fuga da sagrada família para escapar a uma perseguição violenta. Também nos devemos lembrar que o profeta Maomé migrou de Meca para Medina, porque também estava à procura de liberdade para ele próprio e para os seus seguidores”, pediu Carlos» («Príncipe Carlos alerta para risco de um novo Holocausto», Bárbara Baldaia, TSF, 22.12.2016).

      Não é assim: soa mal e está errado. É assim: «Creio que este ano devíamos lembrar-nos de como a história da Natividade se desenrola com a fuga da sagrada família para escapar a uma perseguição violenta.»

 

[Texto 7348]

Helder Guégués às 11:33 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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03
Dez 16

Ortografia: «ítalo-suíço»

Até nisto erram

 

      «Este filho de mãe italiana suíça e de pai catalão foi eleito pela primeira vez por Evry, município popular a Sul de Paris, aos 23 anos, e demonstrava já as suas ambições. Dizia não querer observar “o camarim presidencial a partir da [sic] orquestra na qual esperam que eu me mantenha à espera da minha vez”. Em 2001, foi eleito presidente da câmara de Evry» («Valls, o ambicioso que quer modernizar a esquerda», Público, 3.12.2016, p. 25).

      Dizem que sabem, mas depois, afinal, não sabem. Então na formação de adjectivos pátrios o elemento ítalo- não se liga com hífen à palavra seguinte? A mãe de Manuel Valls é ítalo-suíça.

 

[Texto 7297]

Helder Guégués às 12:06 | comentar | ver comentários (8) | favorito
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