26
Abr 17

Léxico: «traça da cera»

Uma traça menos má

 

      «A chamada traça da cera, cujas larvas são criadas para usar como isco para a pesca, é um flagelo para as colmeias de abelhas na Europa, e foi por coincidência que uma cientista [Federica Bertocchini, do Instituto de Biomedicina e Biotecnologia de Cantábria, Espanha] que também é apicultora descobriu como podem acelerar a degradação do polietileno» («Descoberta lagarta que é capaz de devorar sacos de plástico», TSF, 24.04.2017, 17h33).

     Na definição de traça, já encontramos essa apetência de peles, tecidos, livros, etc. Mas, depois, há traças específicas: dos livros, da cera... O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não regista esta da cera, mas sim a dos livros: traça-dos-livros. (Que tem vários sinónimos, um dos quais, bicho-de-prata, foi sugerido por mim em 2014 e faz parte daquele dicionário.) Se compreendo que bicho-de-prata deva ter hífenes, não me parece o mesmo de traça dos livros nem de traça da cera. Consultamos a Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, quase infalivelmente criteriosa nestas questões, e nunca vemos hífenes nestes vocábulos.

 

[Texto 7750]

Helder Guégués às 10:33 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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11
Fev 17

«Cavalo de batalha/cavalo-de-batalha»

Pouco avisada eliminação

 

      «O tema da avaliação dos professores acabou em Portugal. Quem o diz é a ex-ministra da Educação Maria de Lurdes Rodrigues, que, precisamente, fez da avaliação de professores o seu cavalo-de-batalha» («Maria de Lurdes Rodrigues diz que a avaliação de professores acabou em Portugal», Clara Viana, Público, 11.02.2017, p. 14).

      Muito bem, é isso mesmo: cavalo-de-batalha. O problema é que os fautores do Acordo Ortográfico de 1990 o levaram sem hífenes para os vocabulários, e os dicionaristas foram inconscientemente na sua senda, destruindo de uma penada um recurso expedito e inteligente da língua, que são as duplas grafias real/aparente. Já aqui vimos um caso igual, pés de galinha/pés-de-galinha.

 

[Texto 7476]

Helder Guégués às 11:06 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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17
Nov 16

«Barca-Velha» ou «Barca Velha»?

Todos transtornados

 

      Já está aí à venda a 18.ª edição do mítico Barca Velha. A colheita é de 2008 e chega agora ao mercado. Vi uma garrafa — Barca-Velha —, e ia jurar que antes não tinha hífen. Estará lá desde o início? Não sei; o que sei é que há um livro (degustem aqui um excerto), publicado em 2012 pela Oficina do Livro, da autoria de Ana Sofia Fonseca, em que não encontramos o hífen no título: Barca Velha – Histórias de Um Vinho. Como é? Mas demos lugar à jornalista Joana França Martins, da RTP, numa reportagem sobre este vinho: «Um vinho ícone que só acontece por causa de um tratamento ícone também.» Vinho ícone... Depois não querem que os Portugueses consumam 2,8 milhões de litros de bebidas alcoólicas por dia. Pudera, se uma pessoa fica transtornada. Transtronada. Destronada. Destruída. Hic!

 

[Texto 7248]

Helder Guégués às 12:15 | comentar | ver comentários (6) | favorito
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03
Nov 16

Dia de Todos os Santos

Na dúvida — NÃO USEM

 

      «A Câmara de Albufeira vai construir um túnel destinado a desviar as águas da ribeira para o mar, procurando libertar a Baixa da cidade das inundações. A obra, estimada em 15 milhões de euros, tem por objectivo evitar situações, [sic] como as que se verificaram no Dia de Todos-os-Santos do ano passado, quando a água subiu quase ao tecto de algumas casas» («Albufeira investe 15 milhões num túnel para se defender das cheias», Idálio Revez, Público, 3.11.2016, p. 14).

      Ná, Idálio Revez, o nome da festividade dispensa generosamente os hífenes; logo, é Dia de Todos os Santos. Ah, não tem de quê.

 

[Texto 7218]

Helder Guégués às 21:21 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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16
Out 16

«Ombro-arma»

Guarda de honra

 

      «Entre Ferro Rodrigues e os elementos da guarda de honra está o tapete vermelho, aspirado e estendido para as ocasiões especiais. O tenente Ferrão, comandante da guarda de honra, faz sinal ao corneteiro, para um primeiro toque, dá ordem de sentido e de ombro-arma. Começa, depois, a ouvir-se a marcha de continência, que é de menos de um minuto» («Até os turistas param para ver a guarda de honra ao Parlamento», Maria Lopes, Público, 16.10.2016, p. 11).

      Nunca tinha visto isto escrito, ou talvez, mas então de certeza sem hífen, assim: «ombro, arma». Mas não me parece mal.

 

[Texto 7160] 

Helder Guégués às 11:51 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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03
Out 16

«Horário zero»

Ora, para quê?

 

      «Filinto Lima anui. Lembra que nos últimos anos tem existido um número crescente de professores com apenas seis horas semanais de aulas, o mínimo permitido, e até sem turmas para ensinar, os chamados “horários-zero”, algo que, adverte, “tem tendência para aumentar, sobretudo nas zonas rurais, devido à diminuição do número de alunos” que, no ano passado, se registou pela primeira vez em todos os níveis de ensino» («Mais de metade dos professores tem horário reduzido», Clara Viana, Público, 3.10.2016, p. 16).

      Gostava de perceber por que razão a jornalista, e não é, infelizmente, a única, une com hífen estas palavras.

 

[Texto 7134]

Helder Guégués às 21:47 | comentar | favorito
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17
Set 16

Ortografia: «vale-tudo»

Não vale, não

 

      «Era o momento do vale tudo para dar resposta aos pedidos, com prazos muito apertados, e João valia-se de um trunfo em formato de comprimido que lhe dava superpoderes» («Doping para maratonas no escritório», Raquel Lito, Sábado, 14.09.2016, p. 35).

      Tal como atrás era tudo-nada, aqui é vale-tudo. A Sábado desta semana perdeu alguns hífenes. Outro exemplo: «A Sábado apurou que Sócrates e o defensor Pedro Delille tentaram até que o advogado João Costa Andrade, um dos filhos do penalista Costa Andrade recém escolhido para presidir ao Tribunal Constitucional, apresentasse também uma queixa formal contra o juiz Carlos Alexandre» («O cerco de Sócrates», António José Vilela, Sábado, 14.09.2016, p. 43).

 

[Texto 7098]

Helder Guégués às 20:11 | comentar | favorito
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28
Jun 16

«Quase» prefixo?

Assim não, senhores

 

      «Por outras palavras, um conjunto de superestrelas, avaliado em 477 milhões de euros, perdeu com uma equipa de quase-anónimos, avaliada em 45 milhões (dados do sítio Transfermarkt)» («Adeus[,] Inglaterra: a epopeia da Islândia tem um novo capítulo», Rui Marques Simões, Diário de Notícias, 28.06.2016, p. 46).

      Reconheço: no Acordo Ortográfico de 1990 nada encontramos sobre os elementos de composição não- e quase-, como também nada encontramos sobre a questão no Acordo Ortográfico de 1945. Nem tudo se podia prever, bem sabemos, mas não deixa de ser mais um erro na elaboração das novas regras ortográficas. Assim, a tentação para dizer que, se não está proibido, então é permitido é muito grande, mas, na verdade, a minha interpretação é a de que o espírito do acordo vai nesse sentido. Foi também o que fez, para estabelecer uma linha de coerência do texto como um todo, a Comissão de Lexicologia e Lexicografia da Associação Brasileira de Letras (ABL) na 5.ª edição do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa. O pior é que, ao mesmo tempo que se interpreta o texto do AO90 desta maneira, acolherem-se — por lapso? — formas em que aparece o hífen. Não pode ser. Se com o elemento quase- não há muitas ocorrências, com o elemento não- são infindáveis, e as trapalhadas são muitas.

 

[Texto 6910]

Helder Guégués às 20:56 | comentar | favorito
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19
Mar 16

A própria caixa ou a pessoa que usa óculos?

Temos de saber

 

    «Outro exemplo, eu já não sou caixa-de-óculos, mas a qualquer momento posso voltar a ser, basta arranjar uma conjuntivite ou uma alergia qualquer às lentes» (Texas. Uma Aventura no Faroeste, Ana Saldanha. Alfragide: Editorial Caminho, 2013, p. 31).

    A autora segue o Acordo Ortográfico de 1990 — pelo menos de vez em quando. Mas faz bem: não temos outros casos — lembro apenas pé de galinha/pé-de-galinha, que vimos aqui — em que estamos perante dois sentidos, um denotativo e outro conotativo? É igual. Eu até acho que não se devia desaproveitar a ocasião para usar o apóstrofo, caixa-d’óculos, mas nem os Brasileiros, que usam mais o apóstrofo do que nós, o fazem. Querem dizer o mesmo e usar o hífen? Quatro-olhos.

 

[Texto 6696]

Helder Guégués às 22:09 | comentar | favorito
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08
Fev 16

«Má educação» ou «má-educação»?

≈ Incivilidade

 

      «É a própria personagem quem manifesta a consciência da diferença: “As minhas lembranças começam em Benfica e dantes, quando ouvia falar de locais conhecidos delas onde eu nunca estivera, assaltava-me a impressão de entrar numa sala de cinema em que o filme se desenrolava já, obrigando-me a perguntar o que sucedera antes da minha chegada a fim de tentar entender a intriga e as personagens que pareciam representar apenas para os outros, como se a má educação do meu atraso as ofendesse” (p. 258)» (As Mulheres na Ficção de António Lobo Antunes, Ana Paula Arnaut. Alfragide: Texto Editores, 2012, p. 57).

      O livro de António Lobo Antunes que é aqui citado é A Ordem Natural das Coisas. Se acreditarmos que o excerto está bem transcrito — e eu acredito piamente, mas alguém o confirme —, temos que aquela «má educação» foi vista e revista, ponderada e reponderada várias vezes. Porque é uma edição ne varietur... Ora, parece que no Brasil tendem a escrever má-educação e em Portugal (não conheço dicionário que a acolha grafada com hífen), má educação. Se estabelecermos analogia com o sinónimo má-criação, por exemplo, chegaria ao termo com hífen. Mas devemos fazê-lo? Ainda há muito por onde simplificar.

 

[Texto 6604]

Helder Guégués às 16:06 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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