25
Fev 17

Léxico: «bô»

Bô, bô...

 

    «O nome — bô — evoca a interjeição que se usa na fala transmontana para exprimir admiração» («A oportunidade da carne», D. M., Evasões, 24.02.2017, p. 50).

  Vamos lá ver se uma interjeição de Trás-os-Montes conquista o direito de figurar ao lado das interjeições quimbundas que os nossos dicionários entesouram.

 

[Texto 7506]

Helder Guégués às 16:07 | comentar | ver comentários (3) | favorito
30
Jan 17

Léxico: «xé»

E Angola, não é nossa?

 

      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora diz-nos que «ché» é a interjeição (acepção 2) que se usa para chamar a atenção de alguém. Neste caso, a etimologia seria o castelhano da Argentina che. E regista outro ché, também interjeição, esta de São Tomé e Príncipe, para designar espanto, cepticismo. Está bem, mas em Angola também sempre se usou — e a grafia é xé. Nisto, fio-me mais no cónego António Miranda Magalhães (1882-1938) e no Manual de Línguas Indígenas de Angola (Luanda: Imprensa Nacional de Angola, 1922), que a grafa e diz que serve para chamar.

 

[Texto 7445]

Helder Guégués às 12:07 | comentar | ver comentários (1) | favorito (1)
12
Jan 17

«Psiu/pst»

Ó faz favor!

 

      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora — que já nos deixa interjeccionar — diz, e bem, que a interjeição pst se usa como forma de chamamento e que é sinónima de psiu. É tudo verdade, mas, no verbete de «psiu», não se pode limitar a dizer que é interjeição «empregada para impor silêncio».

 

[Texto 7406]

Helder Guégués às 13:44 | comentar | ver comentários (1) | favorito
25
Dez 16

Como fala o Pai Natal

Boas Festas

 

      Vá lá, não vamos agora fingir que a dificuldade não existe: como traduzimos/transcrevemos aquela interjeição do Pai Natal? (Não vem ao caso, mas é claro que digo e escrevo Pais Natais.) Ou vamos deixá-lo a interjeccionar em inglês para sempre? É que, se temos as interjeições ó e oh, não temos ho, que é como se representa sempre aquela interjeição*. E, o que é mais interessante, como notou Véronique Dahlet, esta combinação silábica contraria o que encontramos para os termos comuns da nossa língua, em que é sempre consoante h + vogal. No entanto, em Gil Vicente tínhamos hou, interjeição para chamar: «Hou da barca!» Ao que parece, aquela interjeição inglesa — que vem do latim io — equivale mais ou menos a «ouçam». «Ouçam, é Natal!»

 

[Texto 7353]

 

* Claro que, para os borra-botas que escrevem «ha, ha, ha», «hi, hi, hi», «ho, ho, ho», é tudo igual. Não escrevo para eles.

Helder Guégués às 19:40 | comentar | ver comentários (5) | favorito
19
Abr 15

Interjeições à maluca

Português não é

 

      «Lembro-me do entusiasmo do início — “Eish, consigo jogar Age of Empires online no computador e na sala!” foi das primeiras reacções que tive, até que tentei ir para o quarto. Catástrofe» («Tenha wi-fi onde nunca teve», Diogo Lopes, «GPS»/Sábado, 16.04.2015, p. 5).

   Com que então, Diogo Lopes, «eish», hem? Isso é o quê, uma interjeição sul-africana?

 

[Texto 5770]

Helder Guégués às 09:34 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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14
Mai 14

Tradução: «doh»

Quais Simpsons

 

 

      «– Estava nos cartões de crédito que ela te roubou – daaa! [doh]» (A Questão Finkler, Howard Jacobson. Tradução de Alcinda Marinho. Porto: Porto Editora, 2011, 2.ª ed., p. 84).

      Lembram-se de, ainda no Assim Mesmo, ter falado da interjeição anglo-saxónica duh, traduzida ora por da-aa, ora por daa, ora por dahhh, ora por... duh? Pronto, temos de falar como Homer Simpson.

 

[Texto 4570]

Helder Guégués às 20:49 | comentar | favorito
11
Abr 14

Tradução: «humph»

Continuemos a ouvir

 

 

      «Reprimi uma risada; nunca tinha ouvido ninguém exclamar “humph!” na vida real. Era uma palavra que só lera em livros de histórias enquanto tentava melhorar o meu inglês» (Uma Casa de Família, Natasha Solomons. Tradução de Elsa T.  S. Vieira. Alfragide: Edições Asa II, 2013, p. 77).

      «Used to express slightly scornful doubt or dissatisfaction», sim, mas em inglês. Este, a par de outros mais graves, é um dos aspectos mais descurados nas traduções, e, já o tenho afirmado, nos dicionários. O humph inglês tem correspondência no nosso hum proferido de certa maneira — num tom ligeiramente desdenhoso. Decerto que não há aí ninguém incapaz de o perceber e usar. Subsistiria, bem vejo, um problema: a personagem afirma que só lera a palavra em livros de histórias, o que não seria, na tradução, verosímil com a nossa interjeição «hum». Ora, em traduções feitas no Brasil, já vi várias vezes aquele humph transformar-se em hunf. É uma solução, que pode, até, vir a ter consagração lexicográfica, pois não há um catálogo fechado de interjeições.

 

[Texto 4369]

Helder Guégués às 21:33 | comentar | favorito
16
Mar 14

Tradução: «eh»

Não é o mesmo

 

 

      «– Ah! – O cavalheiro forte riu e piscou um olho. – Não quer admiti-lo, eh?» (O Estrangulador de Cater Street, Anne Perry. Tradução de Mário Dias Correia. Alfragide: Edições Asa II, 2013, p. 40). No original: «“Ah,” the stout man grinned and winked. “Not wanting to admit it, eh?”»

    As interjeições, que de vezes aqui o tenho dito!, são um dos pontos fracos dos tradutores. Mesmo, como é o caso, dos excelentes. «Eh» em inglês, pois que em português não exprime o mesmo. Podia ser: «Não quer admiti-lo, é isso?» Ou assim: «Não quer admiti-lo, hã?»

 

[Texto 4230]

Helder Guégués às 23:12 | comentar | favorito
18
Jan 14

Interjeições, de novo

Nunca ouvi, e não sou surdo

 

 

    «Uma severa irritação começou a despontar-lhe na orla da mente. Um “tsk” quase se lhe escapou dos lábios» (Morte na Aldeia, Caroline Graham. Tradução de Mário Dias Correia. Alfragide: Asa II, 2013, p. 13).

      Não se escapou da boca da personagem, mas escapou, ufana, das teclas do tradutor. Infelizmente. Só era necessário ver que sentimento exprime a interjeição — desaprovação ou irritação, dizem os dicionários — e, de seguida, encontrar uma, das várias que temos, usada entre nós.

 

  [Texto 3876]

Helder Guégués às 20:15 | comentar | ver comentários (2) | favorito
19
Ago 13

«Eh»

Ainda se sabia bradar e exclamar

 

 

      «– Eh, – bradou Brian, logo que o avistou, e acenando com a mão enquanto com a outra continuou atirando para o lume ramos partidos e galhos mais secos. – Conseguiste trazer tudo?» (Acampamento no Bosque, David Severn. Tradução de José da Natividade Gaspar. Lisboa: Livraria Clássica Editora, 1949, p. 120).

 

  [Texto 3198]

Helder Guégués às 08:45 | comentar | favorito
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18
Jan 12

«Ugh/blharc/uh»

Repulsa

 

 

      «— Blharc! — exclamou a Joana. — Está nojenta! Devia mesmo ser de um mendigo. Aposto que até ele a achou velha demais e a deitou fora. Tenho a certeza de que não é uma pista» (Uma Aventura dos Sete, Enid Blyton. Tradução de Susana Ferreira e Bárbara Soares. Revisão de Silvina de Sousa. Lisboa: Oficina do Livro, 2011, p. 45).

      Ouve-se por aí, sem dúvida. Contudo, talvez a interjeição que exprime repugnância mais usada seja... uh! Carla Viana, no Ciberdúvidas, porém, foi de «ugh» que se lembrou numa enumeração de interjeições que exprimem repulsa ou desaprovação. No Assim Mesmo, comentou Bic Laranja: «Ouço pff! ou (p)fu! para repulsa. E hâ!»

 

[Texto 980] 

Helder Guégués às 22:53 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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