26
Dez 17

Inventar nomes para os filhos

Ora esta

 

      O prestimoso Correio da Manhã já veio revelar o nome das gémeas de Luciana Abreu, nascidas no passado sábado: Lamour e Lavie. O cidadão comum tem por vezes dificuldade em dar nomes comuns aos filhos. Eu próprio passei pela experiência na conservatória da Fontes Pereira de Melo. Em relação ao nome das filhas que teve com Djaló, Lyannii Viiktórya e Lyonce Viiktórya, a justificação absurda que li foi a de que, como o pai era estrangeiro, as filhas podiam ter estes nomes. Nomes inventados pelos pais? Agora ambos os pais são portugueses (esperemos que ser guia turístico não sirva desta vez de justificação). Dantes, cheguei a dar conta disso aqui, havia, ao que me lembro, duas listas de nomes próprios: uma de nomes admitidos e outra de nomes não admitidos. (Claro que basta uma: a primeira.) Desconheço a periodicidade com que era actualizada, mas imagino que fosse quando o rei fazia anos. Agora, há uma só lista, actualizada, ao que li, de três em três meses. Só para terem uma ideia, o primeiro nome feminino que nela consta é Aabirah e o primeiro nome masculino é Aabaj. Como os nomes estão todos misturados, desde Txissolas a Vanessas, o cidadão fica com a ideia de que pode atribuir qualquer destes nomes aos filhos. Não é assim. Surpresa: na lista não constam Lamour nem Lavie. Em suma, para o Estado, uns são filhos e outros enteados. C’est la vie (não Lavie). Há momentos, e este é um deles, em que me envergonho de ser português.

 

[Texto 8516]

Helder Guégués às 20:11 | comentar | ver comentários (2) | favorito
03
Dez 17

Como se escreve no Facebook

E nas escolas

 

      No exame de História, um aluno dissertou sabiamente sobre o «Tratado de Traduzilhas»; no Facebook, Pedro Marques Lopes escreveu que, no Observador, «a opinião faz parte de um projeto para mudar o centro-direita português e é apenas planfetária». Não soa nada mal, convenhamos: se precisarem de uma palavra para designar uma realidade nova (um lepidóptero que descubram, por exemplo), não se acanhem.

 

[Texto 8429]

Helder Guégués às 12:51 | comentar | ver comentários (2) | favorito
22
Set 17

Lá longe, nenhures

Nâmbia?!

 

      O contributo de Donald Trump para o anedotário mundial não pára de aumentar. O último é a invenção de um país africano chamado... Nâmbia. Deve ser um belo país para andar aos gambozinos.

 

[Texto 8165]

Helder Guégués às 19:29 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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14
Ago 17

Como falam os políticos

Ao lado

 

      Estão presos uns meses, ou até apenas detidos umas horas, às vezes levam somente umas quantas bastonadas — e ficam logo especialistas em Direito. Assim: «Provavelmente o senhor juiz [Nuno Cardoso], perante essa relação de amizade, talvez tivesse sido bom ter-se declarado incompatível» (Isaltino Morais, a propósito da rejeição da sua candidatura por irregularidades na apresentação das listas de candidatos). Ter-se declarado incompatível... O Dr. Isaltino Morais queria dizer que o magistrado devia ter pedido escusa do processo. De facto, ao tribunal não basta ser imparcial, é preciso parecê-lo.

 

[Texto 8092]

Helder Guégués às 08:35 | comentar | ver comentários (2) | favorito
01
Ago 17

«Endoândrico»?

Ora, ora

 

      «Garantir que convivem entre si, que partilham os hábitos e gostos e, quem sabe, à boa maneira aristocrática, promover o tráfego endogâmico e endoândrico. A minha luta quixotesca a favor da abolição dos títulos de licenciatura — sobrevivência ostensiva da nobreza de toga — afinal entronca também aqui» («Matrículas, escola pública e a nossa sociedade aristocrática», Paulo Rangel, Público, 1.08.2017, p. 44).

   Ora, ora, e não andará Paulo Rangel a inventar palavras desnecessárias? Endoândrico, caramba... Não foi pior do que aqui. Decerto, bem sei que, por vezes, somos forçados a criar palavras, por não encontrarmos a adequada, mas será o caso?

 

[Texto 8070]

Helder Guégués às 23:18 | comentar | ver comentários (3) | favorito
14
Mai 17

Tradução: «quinquennat»

Não inventem

 

      No Jornal da Tarde, na RTP1, a propósito da tomada de posse de Emmanuel Macron, falaram do «quinquenato» (2012-2017) de François Hollande. Pois é, só que em português diz-se quinquénio; quinquennat é francês.

 

[Texto 7832]

Helder Guégués às 14:07 | comentar | ver comentários (2) | favorito
15
Abr 17

«Insurgente», de novo

Já que o pedes

 

      Mas, como é Natal quando um homem quiser, ainda digo: ó abécula, que nem nome tens, não sei o que mais avulta em ti, se a ignorância, se a desonestidade. Não podes vir agora com o salvatério, que só serve para te enganares a ti mesmo, de que «insurgente» é um anglicismo semântico, porque isso apenas os outros vocábulos que referiste são: inteligência por serviços secretos; decepção por engano; revisitar por considerar por outra perspectiva, etc. (Quanto a disruptivo, há aí trapalhada tua, pois afirmas que corresponde a interrupção, quebra, corte, rompimento; um adjectivo por um substantivo?) Não emendes uma bojarda com uma desonestidade.

      Também causa espanto que a abécula, que usa uma grafia pessoal, inventada, ora menos, ora mais destrambelhada, tem dias e horas, ostente no blogue um «selo» contra o Acordo Ortográfico de 1990 (que a Ilcao devia repudiar). Abécula: seja «conformação» ou seja lá o que for, só pode ser «mal-amanhada», não «mal amanhada», isto tendo em conta que o usaste num texto com ortografia quase decente, tirando um ou outro surto psicótico.

 

[Texto 7719]

Helder Guégués às 09:01 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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21
Mar 17

«Fulano», um terrível insulto

Acabou-se a descrispação

 

      Um grupo de quase mil, certamente respeitáveis, fulanos cidadãos não quer que o futuro aeroporto complementar de Lisboa, previsto para o Montijo, tenha o nome de Mário Soares. O documento, com mais de 9500 assinaturas, deu entrada na Assembleia da República e tem um número suficiente de assinaturas para ser discutido em plenário. «Haja respeito», termina a petição, «por mais de um milhão de portugueses que foram mais que prejudicados por esse fulano.» Claro que palavra tão complexa exigia necessariamente uma nota, que fizeram com recurso a uma simples remissão para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Felizmente não é uma palavra polissémica, ou andaríamos aqui às apalpadelas. Mas atentemos nas acepções: «1. pessoa cujo nome não se conhece ou não se quer mencionar; 2. coloquial indivíduo; sujeito». Não se trata certamente da primeira acepção, pois o nome de Mário Soares aparece várias vezes no texto da petição. Assim, se ainda há lógica, é a segunda, terrível, acepção: o Dr. Mário Soares um indívíduo, um sujeito. Terrível insulto!

 

[Texto 7592]

Helder Guégués às 19:20 | comentar | favorito