21
Mar 17

«Fulano», um terrível insulto

Acabou-se a descrispação

 

      Um grupo de quase mil, certamente respeitáveis, fulanos cidadãos não quer que o futuro aeroporto complementar de Lisboa, previsto para o Montijo, tenha o nome de Mário Soares. O documento, com mais de 9500 assinaturas, deu entrada na Assembleia da República e tem um número suficiente de assinaturas para ser discutido em plenário. «Haja respeito», termina a petição, «por mais de um milhão de portugueses que foram mais que prejudicados por esse fulano.» Claro que palavra tão complexa exigia necessariamente uma nota, que fizeram com recurso a uma simples remissão para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Felizmente não é uma palavra polissémica, ou andaríamos aqui às apalpadelas. Mas atentemos nas acepções: «1. pessoa cujo nome não se conhece ou não se quer mencionar; 2. coloquial indivíduo; sujeito». Não se trata certamente da primeira acepção, pois o nome de Mário Soares aparece várias vezes no texto da petição. Assim, se ainda há lógica, é a segunda, terrível, acepção: o Dr. Mário Soares um indívíduo, um sujeito. Terrível insulto!

 

[Texto 7592]

Helder Guégués às 19:20 | comentar | favorito
25
Fev 17

«Brasaria»?

Sobre brasas

 

      «Mas é de transmontanos que falamos, sendo um deles um dos dois sócios desta brasaria — o brigantino Fábio Rodrigues, que levou avante o negócio com Vera Macedo» («A oportunidade da carne», D. M., Evasões, 24.02.2017, p. 50).

      Não estou a ver a utilidade desta macaqueação. Temos palavras para designar um estabelecimento deste tipo, não é preciso semelhante rebaixamento.

 

[Texto 7507]

Helder Guégués às 16:10 | comentar | ver comentários (1) | favorito
30
Nov 16

«Concurso vazio»

Desertos e vazios

 

    «A existência de “problemas com as assinaturas digitais” nas propostas submetidas a 15 de Novembro pela EDP, Prio e Mobilectric, levou a Mobi.e a propor a exclusão de todas elas, para declarar o concurso vazio, explicou Alexandre Videira [presidente da Mobi.e]» («Mobi.e obrigada a repetir concurso para carregadores de veículos eléctricos», Ana Brito, Público, 30.11.2016, p. 19).

   Aqui vimos a expressão concurso deserto, conceito diferente. Isto trouxe-me à mente outra expressão, fruto (quando não furto) da mente esforçada dos nossos burocratas, que é «procedimento concursal».

 

[Texto 7292]

Helder Guégués às 09:43 | comentar | favorito
15
Nov 16

Faz-nos falta «cúltico»?

Vejo-o pela primeira vez

 

      Adjectivo relativo a culto. Não, não se trata de desafio cruzadístico. No original estava o termo inglês cultlike, que o tradutor verteu por «cúltico», o que eu nunca antes vira.

 

[Texto 7241]

Helder Guégués às 20:32 | comentar | ver comentários (5) | favorito
04
Nov 16

«Revenir»?

Voltar atrás

 

   E por coisas que nunca antes víramos, e, em alguns casos, preferíamos nunca ver, no portal da Comissão Nacional de Promoção dos Direitos e Protecção das Crianças e Jovens — deixem-me descansar, o nome tirou-me o fôlego —, sobre as Comissões de Protecção de Crianças e Jovens (CPCJ) diz-se que «como instituições oficiais não judiciárias com autonomia funcional que visam promover os direitos da criança e do jovem e revenir ou pôr termo a situações susceptíveis de afectar a sua segurança, saúde, formação, educação ou desenvolvimento integral». «Revenir»?! Mas isso não é francês?

 

[Texto 7221]

Helder Guégués às 15:07 | comentar | ver comentários (4) | favorito
08
Out 16

«Andorrenho»?

Alguém conhecia?

 

      «Em vez de colocar um homem a servir de tampão às saídas do adversário, Portugal optava por condicionar o jogo andorrenho antes de a bola chegar a sair da área contrária, com André Gomes e Moutinho a bloquearem todo o sistema nervoso central do inimigo» («Furacão Cristiano arrasa no regresso do campeão europeu», Augusto Bernardino, Público, 8.10.2016, p. 46).

      O gentílico de Andorra mais usado é, quase de certeza, andorrano, seguido de andorrense e andorriano. Nunca antes tinha lido ou ouvido «andorrenho», que, aliás, não vejo registado em nenhum dicionário.

 

 

[Texto 7146]

Helder Guégués às 15:34 | comentar | ver comentários (4) | favorito
04
Out 16

Como se fala na televisão

Não MAAT a língua

 

     Ainda no mesmo Jornal da Tarde, na RTP1, Pedro Gadanho, o director do novíssimo MAAT, Museu de Arte, Arquitectura e Tecnologia, afirmou, com muita hesitação, é certo, que o edifício foi concebido para «promocionar o maior usufruto possível» da zona. Não consegui ouvir mais nada, como devem compreender. Depois admiram-se de que o consumo de ansiolíticos triplicasse em Portugal nos últimos anos.

 

[Texto 7139]

Helder Guégués às 20:27 | comentar | ver comentários (1) | favorito

Como se fala na televisão

Antes surdo

 

    A correspondente da RTP em Bruxelas, a jornalista Fernanda Gabriel, revelou hoje, no Jornal da Tarde, que os governos «serão audicionados no Parlamento Europeu» sobre a questão dos fundos comunitários. Falou ainda de certa «reunião que reúne» não sei quê e ainda de outra «presidida pelo presidente». Não consegui ouvir mais nada, como devem compreender. Depois admiram-se de que o consumo de ansiolíticos triplicasse em Portugal nos últimos anos.

 

[Texto 7138]

Helder Guégués às 15:09 | comentar | favorito
13
Set 16

Ainda a «presidenta»

Seja um brasileiro

 

   «Presidenta inocenta?» Enxerguem-se! Mas vejam o que um brasileiro (certamente não típico) diz da forma como Dilma se exprime (porque da inclassificável indumentária nada direi): «Na terça-feira, à tarde, Dilma discursava para o Senado e para as câmaras de televisão. Quem estava em casa via, em primeiro plano, a rotunda ainda presidente (vestida com o que parecia a capa de um sofá) a lamuriar-se (numa língua vagamente semelhante ao português) da sua má sorte na vida» («Impeachment e cocaína», Edson Athayde, Dinheiro Vivo, 3.09.2016).

 

[Texto 7080]

Helder Guégués às 00:06 | comentar | ver comentários (1) | favorito
12
Set 16

Para o currículo perfeito?

Do perfeito selenita

 

      «Alerta. Remova estas 27 coisas do seu currículo» (Luís Stoffel, Dinheiro Vivo, 8.08.2016). Alguns dos conselhos parecem ter como destinatários marcianos ou selenitas, mas o jornalista é que sabe para quem escreve. O 22.º («Fontes de letra antiquadas): «Não use fontes [sic] tipo [sic] Times New Roman ou Serif, porque são [sic] ultrapassadas e fora de moda. Use uma fonte padrão, sans-serif ou Arial. Deve estar ciente do tamanho da fonte e o seu objetivo deve ser torná-la agradável e elegante, mas também fácil de ler.» «Ultrapassadas ou fora de moda»? Diria mais: ultrapassadas, fora de moda, antiquadas ou desactualizadas. Caro Luís Stoffel, se disser «sem serifa», não lhe caem os parentes na lama e presta um melhor serviço à língua. O meu tipo de letra preferido era Garamond, mas começaram a copiar-me e agora só uso Times New Roman.

 

[Texto 7078]

Helder Guégués às 22:53 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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11
Set 16

Uma espécie de português

O pavor inocente

 

      «Digam o que disserem, o momento dramático da destituição da dona Dilma aconteceu quando um senador do PT falou na “presidenta inocenta”. As palavras não me saíram da cabeça. Em primeiro lugar, porque nenhuma delas existe em português decenta, perdão, decente. Em segundo lugar, porque a bem da clareza deve colocar-se a hipótese de a senhora ter de facto sido vítima de uma conspiração manhosa» («A presidenta inocenta», Alberto Gonçalves, Diário de Notícias, 4.09.2016, p. 10).

      Muito, mas muito bem. Mas dir-se-á isto em português decente?: «Convém que uma pessoa se pergunte: e se os defensores da dona Dilma têm razão? E depois convém que uma pessoa se responda: não, não têm» (idem, ibidem).

 

[Texto 7075]

Helder Guégués às 23:17 | comentar | ver comentários (6) | favorito
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