20
Abr 17

«Incubar/encubar»

Até ao fim dos tempos

 

      Evidentemente, não é só de melhores dicionários que precisamos, mas de falantes mais competentes, sobretudo se são jornalistas: «Abraham Poincheval é o nome do artista francês que, durante três semanas, vai virar galinha. Sim, galinha. E como? Ao encubar 10 ovos com o seu próprio calor corporal até que ecludam. O artista irá ficar dentro de uma vitrina, no museu Palais de Tóquio, em Paris, e pode ser observado pelos curiosos que o visitem, conta a BBC» («O artista que vai chocar 10 ovos em Paris», Observador, 30.03.2017, 12h06).

      O artigo cita um artigo da BBC, onde se lê: «How? By incubating 10 eggs with his own body heat.» Como é que o jornalista não consulta um dicionário? Como é que, caramba, não repara na ortografia da palavra inglesa? Encubar é recolher em cuba, envasilhar; incubar é chocar ovos. São, por isso, parónimos, ou seja, palavras que se aproximam na ortografia e na pronúncia, mas com significado diferente. Será sempre necessário, até ao fim dos tempos, continuar a falar das coisas simples, básicas.

 

[Texto 7740]

Helder Guégués às 22:58 | comentar | ver comentários (5) | favorito
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27
Mar 17

Como se traduz nos jornais

Mais em benefício próprio

 

      Duas miúdas, no aeroporto de Denver, foram ontem impedidas de embarcar num voo da United Airlines porque vestiam leggings. Revolta nas «redes sociais». «Ao que tudo indica, as duas meninas estariam a viajar em beneficio [sic] de uma empresa, e esse tipo de viagens pede uma forma de vestir mais cuidada. Ainda assim, as justificações da United Airlines não convenceram a maioria e várias celebridades norte-americanas ameaçam deixar de voar com a companhia» («O caso das leggings que impediram duas meninas de voar na United Airlines», Observador, 27.03.2017, 12h11).

       Ora esta, a viajarem em benefício de uma empresa... E como é isso, o jornalista do Observador pode explicar-nos? Enquanto esperamos, vamos tentar perceber por outros meios. No Twitter, a companhia área respondeu: «The passengers this morning were United pass riders who were not in compliance with our dress code policy for company benefit travel.» Ah, company benefit travel, ou seja, é uma regalia atribuída aos trabalhadores da United Airlines, provavelmente certo número de viagens gratuitas, um passe.

 

[Texto 7630]

Helder Guégués às 19:19 | comentar | favorito
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21
Mar 17

Nem o latim escapa

Lorem ipsum

 

      Imagino o Tio Aires lá na Aldeia de Mato quando leu com toda a atenção a sua secção preferida no Público e, na legenda à imagem do artigo sobre o jogo FC Porto-V. Setúbal, deparou com isto: «Legenda Em delit am, conullum zzril illa aut alis nit adigna corting eriustrud» («Sem décima, sem liderança e sem sombra de Soares», Augusto Bernardino, Público, 20.03.2017, p. 38). Caramba, até este latim de encher, por acaso ciceroniano, Lorem ipsum dolor sit amet..., foi desvirtuado. Podia ser, sei lá, «asinus asinum fricat asinus asinum fricat asinus asinum fricat...», mas não. Confesso: o Tio Aires não lê o Público, mas sim o Correio da Manhã, que às 8 da noite, numa rotina à prova de bomba, já está a forrar a casota da Frisquette, a pêlo de arame que veio do frio (da Suíça).

 

[Texto 7593]

Helder Guégués às 19:22 | comentar | favorito
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18
Mar 17

Como se escreve na imprensa

Vamos lá aferir isto

 

      Esta tarde, houve uma enorme explosão no Bairro de Sainte-Gilles, no centro de Bruxelas. Ao que parece, registaram-se sete feridos. E agora, que se segue? «Por razões de segurança», lê-se no Observador, «15 moradores foram evacuados e uma empresa irá auferir quais os edifícios afetados na sequência da explosão» («Explosão “enorme” em Bruxelas faz vários feridos», Ana Cristina Marques, Observador, 18.03.2017).

      Usa o verbo auferir, mas manifestamente não sabe o que a palavra significa. Com sorte, é desta que aprende. Como a notícia está em actualização, está a tempo de a corrigir. Sobre uma empresa, lê-se isto na RTL: «Une société spécialisée doit arriver pour sécuriser les bâtiments touchés.»

 

[Texto 7578]

Helder Guégués às 18:23 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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05
Mar 17

Desferir sentenças?

Falemos de loucos

 

   «Ao longo dos últimos 35 anos, arrostou com o seu “gesto de Fátima” — como costuma chamar ao atentado — e diz que fez de quase tudo para sobreviver: contabilista, advogado, agricultor, mecânico de bicicletas» («Francisco é “inimigo da Europa”, diz padre que tentou matar Papa», Natália Faria, Público, 5.03.2017, p. 10).

   Gosto de ler os artigos desta jornalista, o que não significa que concorde sempre com a forma como escreve. Por exemplo, no artigo de hoje: aquele «arrostou com» deixa-me muitas dúvidas. E nesta frase: «Durante o julgamento, repetiu que a sua intenção fora “atravessar o coração” de João Paulo II. Mas, ainda antes de desferida a sentença, mostrava-se já menos combativo, apaziguado até.» As sentenças desferem-se, quais balas? Quanto a Juan Krohn, é o parvalhão de sempre (aproveito a fórmula que um homenzinho invejoso, e claramente com uma aduela a menos, me dirigiu. Cumps.).

 

[Texto 7527]

Helder Guégués às 12:26 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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02
Mar 17

«Presidenciável», modo de usar

Aprender português na América

 

   «Trump foi mais presidenciável mas tem Washington para convencer» (Sérgio Aníbal, Público, 2.03.2017, p. 24). Mas, Sérgio Aníbal, Trump já é presidente, e presidenciável é o que reúne as condições consideradas necessárias para ser presidente. Não percebe? Uma vez que está aí em Washington, olhe à sua volta. The Economist: «Donald Trump sounds more presidential, yet stays a populist».

 

[Texto 7521]

Helder Guégués às 08:51 | comentar | favorito
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18
Fev 17

Como se escreve nos jornais

Estranhas ocorrências

 

      «De acordo com uma fonte da GNR, o alerta para o crime foi dado por volta das 20:15h desta sexta-feira e do incidente resultaram duas vitimas [sic], uma mortal e outra ferida. O estado de ambas ainda não é conhecido» («Famalicão. Homem mata mulher e tenta suicidar-se», Sol, 17.02.2017).

      O jornalista também ignorava o estado da GNR, que já se encontrava no local (logo depois do jornalista?).

 

[Texto 7486]

Helder Guégués às 09:33 | comentar | favorito
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06
Fev 17

Quando as nossas palavras não chegam

Em bom português

 

    «A Merriam-Webster pode servir como uma espécie de legenda discreta ou uma piada em registo deadpan da actualidade» («Quando até o dicionário se vira (subtilmente) contra Donald Trump», Joana Amaral Cardoso, Público, 6.02.2017, p. 22).

    Outro triste caso — decerto que o Eremita concorda — em que a jornalista usa escusadamente uma palavra estrangeira. Para quê? Não será, como já aqui se tem diagnosticado, mera cagança? Pobres leitores...

 

[Texto 7468]

Helder Guégués às 21:29 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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02
Fev 17

Como se escreve nos jornais

SELF compounds use a hyphen

 

      «Carimbá-lo como uma simples abjecção é uma posição muito confortável, muito comodista e muito estúpida. Se alguma coisa Trump nos ensinou a todos, europeus e cidadãos informados sempre cheios de selfrighteouseness, é que há um novo mundo a abrir-se, profundamente reactivo à globalização, e que de alguma estranha maneira um magnata americano com um discurso primário conseguiu captar o espírito do tempo, ao ponto de conquistar a Casa Branca» («Donald Trump e Adolf Hitler», João Miguel Tavares, Público, 2.02.2017, p. 48).

      Não percebo porque é que, num contexto como este, se usa uma palavra inglesa — ainda para mais mal grafada —, quando a tradução é algo tão simples como «arrogância», «sobranceria». Não percebo. Será porque está a referir-se a um norte-americano? Mas ao mencionar Hitler não desatou a escrever em alemão, nem em mandarim quando o assunto é a China.

 

[Texto 7456]

Helder Guégués às 09:33 | comentar | ver comentários (9) | favorito
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01
Fev 17

Estatísticas variáveis

Tantos?

 

      «A versão em espanhol (idioma que tem mais de 50 milhões de falantes nos Estados Unidos e 700 milhões em todo o mundo), desapareceu da página oficial da Casa Branca pouco depois de Donald Trump tomar posse como Presidente dos Estados Unidos, a 20 de janeiro» («Casa Branca reativa conta do Twitter em espanhol», TSF, 1.02.2017, 16h30).

      Tantos? Num mundo tão diverso, há sempre, pelo menos, meia dúzia de fontes que registam números diferentes sobre a mesma realidade. Nem os Espanhóis são tão exagerados.

 

[Texto 7453]

Helder Guégués às 22:59 | comentar | favorito
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