23
Fev 18

Tradução: «background checks»

Não avançamos

 

      «Tendo em conta as propostas avançadas até agora pela Casa Branca e por alguns congressistas do Partido Republicano, conclui-se que a NRA continua sem grandes razões para se preocupar: armar e treinar professores e reforçar os chamados “background checks” são medidas apoiadas pelo lobby das armas; mexer na idade mínima para a compra de armas e na proibição de acessórios são medidas que dificilmente passam no Congresso — e, se passarem, são candidatas a serem contestadas em tribunal ano após ano» («De proposta em proposta até à decisão que não incomode a NRA», Alexandre Martins, Público, 23.02.2018, p. 26).

      Vá, leitor parvo, agora vai ver o que significa background checks, terá pensado o jornalista. E ontem, dia 22 de Fevereiro, era Dia do Pensamento. Mas não cá, claro, nos Estados Unidos. E ninguém vê estas coisas, não há um editor que corrija isto? Como raio vai o leitor saber, assim do pé para a mão, o que significa a expressão? Não; para mim, quem não sabe traduzi-la é o jornalista, quando, na verdade, é bem simples: verificação de antecedentes. Se querem exibir-se, até podem usar expressões estrangeiras, mas têm de as explicar, de as traduzir logo de seguida, sob pena de não se fazerem entender. Ou é este o objectivo?

 

[Texto 8792]

Helder Guégués às 09:30 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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22
Fev 18

Como se escreve em alguns jornais

E é tão simples

 

      «A chegada de turistas estrangeiros a Portugal no ano passado representou um ganho de 15.153 milhões de euros para as contas do país. De acordo com o Banco de Portugal, que ontem divulgou as contas que já incluem os dados de Dezembro, esse valor representa uma subida de 19,5% face a 2016, o que corresponde a mais 2472 milhões de euros» («Turismo. Novo recorde já tem um valor: 15.153 milhões de euros», Público, 22.02.2018, p. 19).

      Tenham lá paciência, mas isto assim não se percebe. Aprendam: «No ano passado, os gastos dos estrangeiros que visitaram Portugal ultrapassaram, pela primeira vez, a fasquia dos 15,1 mil milhões de euros» («Turistas deixaram em Portugal 41,5 milhões por dia», Ana Margarida Pinheiro, Diário de Notícias, 22.02.2018, p. 17).

 

[Texto 8789]

Helder Guégués às 19:43 | comentar | favorito
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27
Jan 18

Vestais e vegetais

Boa amostra

 

      «O discurso era inflamado e digno de um qualquer orador na pólis grega, mas por entre os presentes havia menos versados nos pensamentos da antiguidade clássica. Vai daí, durante alguns minutos houve uma confusão generalizada em todos os textos da comunicação social que chamavam “vegetais” ao que na verdade eram “vestais”. Sérgio Sousa Pinto intervinha nas jornadas parlamentares do PS, criticando os projectos do próprio partido sobre transparência dos políticos e alertava para o risco de no futuro haver “uma classe sacerdotal, de vestais, não no sentido biológico, mas da antiguidade clássica”. Os títulos dispararam, as piadas surgiram e só uma hora depois o equívoco foi desfeito» («A palavra: vestais», Público, 27.01.2018, p. 11).

      Desfeito, mas não inteira nem definitivamente: na Internet ainda há resquícios dessa enormidade, equiparável ao «bramindo o estandarte» de Pedro Lomba. É uma boa amostra da preparação de muitos dos nossos jornalistas. Já que aqui estamos, aproveite-se e diga-se ao que relata esta triste história que a designação do período histórico compreendido entre os alvores dos tempos históricos e a queda do Império Romano do Ocidente se grafa com maiúsculas, Antiguidade Clássica.

 

[Texto 8624]

Helder Guégués às 14:34 | comentar | favorito
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23
Jan 18

Ah, o Knesset...

Para encher colunas

 

      «A embaixada dos Estados Unidos em Israel mudará de Telavive para Jerusalém antes do final de 2019, anunciou Mike Pence, vice-presidente dos EUA, num discurso ontem no Knesset (Parlamento israelita). “Jerusalém é a capital de Israel e o presidente Trump ordenou [essa mudança]”, disse» («EUA mudam a embaixada antes do final de 2019», Público, 23.01.2018, p. 26).

      Salvo pior opinião, isto, que já é uma tradição jornalística, não faz sentido nenhum. Só acontece, felizmente, com o nome de três ou quatro parlamentos (Duma, Dieta, Majlis), mas não deixa de ser mau por isso. O termo significa «assembleia» em hebraico. Então, cada vez que se falasse de um parlamento estrangeiro, tinha de se ir ver como se diz na respectiva língua? Islândia? Alþingi. Butão? Tshogdu. Tailândia? Ratthasapha. Não, parece-me que há formas mais criativas de ocupar espaço.

 

[Texto 8613]

Helder Guégués às 10:23 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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14
Jan 18

Léxico: «iatista»

Deixe-se disso

 

      No artigo do Público em que se fala do desincrustante biológico, a jornalista usou o termo iatista com a protecção sanitária das aspas. Enfim, uma pecha de muitos jornalistas e tradutores, que os editores não vêem. Deixe-se disso, Lurdes Ferreira. Iatista está no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, onde também encontramos iatismo, que é — este sim — brasileirismo.

 

[Texto 8578]

Helder Guégués às 15:54 | comentar | favorito
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09
Jan 18

Como se escreve e pensa por aí

É assim

 

      «“Este julgamento está condenado ao insucesso”, antevê o advogado Dantas Rodrigues, explicando que o acordo de cooperação judiciária assinado entre os dois países dificulta os intentos do MP, uma vez que não prevê a extradição senão com a concordância do extraditado. Por outro lado, assinala o mesmo jurista, segundo aquele diploma bilateral, o direito de não comparência faz com que ninguém esteja obrigado a deslocar-se ao outro país no âmbito de um processo penal sem ser de livre vontade» («Governo oculta há cinco semanas parecer sobre Manuel Vicente», Ana Henriques, Público, 9.01.2018, p. 4).

      Não surpreende que as relações entre os dois Estados estejam como estão, com acordos assim. Gostava de ler esse acordo de cooperação judiciária para comprovar que ninguém é obrigado a deslocar-se ao outro país no âmbito sem ser de livre vontade... Que escolha de palavras tão infeliz.

 

[Texto 8556]

Helder Guégués às 10:58 | comentar | favorito
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03
Jan 18

O nosso jornalismo

Pobres leitores

 

      A Raríssimas já tem nova direcção. Para já, os jornalistas, e, com eles, nós, não sabem se se chama Margarida Laig ou Laygue. E porque não sabem? Ora, porque se esqueceram de ser jornalistas. Gostava de os ver nos Estados Unidos, ou até mesmo no Brasil, com nomes provenientes do mundo inteiro. Pobres leitores.

 

[Texto 8538]

Helder Guégués às 14:24 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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26
Dez 17

«Passa-palavra/passa-a-palavra»

Não invente

 

      «Depois, o passar-palavra fez o resto» («Aqui os estrangeiros só lamentam uma coisa: “Isso mesmo, o frio”», Samuel Silva, Público, 26.12.2017, p. 10).

      Samuel Silva, garanto-lhe que não precisa de inventar nada: os vocábulos passa-palavra e passa-a-palavra já existem e estão dicionarizados. Agora, basta vencer a preguiça e consultar o dicionário sempre que se mostrar necessário.

 

[Texto 8510]

Helder Guégués às 11:40 | comentar | favorito
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13
Dez 17

Como se escreve nos jornais

Ou neste, concretamente

 

      Vejam este título do Correio da Manhã de ontem: «IURD exporta crianças com aval do Estado». É como se estivessem a referir-se a melões ou a pastéis de nata. Exportar crianças... Querem pior? Está bem: «Edi tem apenas 17 anos, mas já está em prisão preventiva pelo homicídio de Nuno Cardoso, o segurança da discoteca Barrio Latino executado com um tiro na cabeça, na sexta-feira» («Preventiva para jovem homicida de segurança», João Carlos Rodrigues, p. 48). Executado...

 

[Texto 8468]

Helder Guégués às 11:23 | comentar | ver comentários (5) | favorito
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13
Nov 17

Campos de futebol como medida

Alguma coisa mudou

 

      «Mais de dois mil operacionais estiveram envolvidos no combate às chamas, que consumiram 53 mil hectares de floresta, o equivalente a cerca de 75 mil campos de futebol» («Ajuda pós-fogos. “Prontamente é o que se faz na Galiza. Em Portugal é estudos”», Rádio Renascença, 13.11.2017, 10h45).

      Ah, os famigerados campos de futebol, a medida de todas as coisas para os jornalistas portugueses. Mas esperem! Alguma coisa mudou: não faziam equivaler um campo de futebol a um hectare? Eu sei, eu sei, os campos de futebol não têm todos as mesmas dimensões. Mas insisto: o que mudou? Qual é agora o padrão?

 

[Texto 8333]

Helder Guégués às 19:15 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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