13
Nov 17

Campos de futebol como medida

Alguma coisa mudou

 

      «Mais de dois mil operacionais estiveram envolvidos no combate às chamas, que consumiram 53 mil hectares de floresta, o equivalente a cerca de 75 mil campos de futebol» («Ajuda pós-fogos. “Prontamente é o que se faz na Galiza. Em Portugal é estudos”», Rádio Renascença, 13.11.2017, 10h45).

      Ah, os famigerados campos de futebol, a medida de todas as coisas para os jornalistas portugueses. Mas esperem! Alguma coisa mudou: não faziam equivaler um campo de futebol a um hectare? Eu sei, eu sei, os campos de futebol não têm todos as mesmas dimensões. Mas insisto: o que mudou? Qual é agora o padrão?

 

[Texto 8333]

Helder Guégués às 19:15 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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09
Nov 17

Coisas estranhas – I

Enganadoramente nosso

 

      «Recebido com passadeira vermelha quando saiu do Air Force One em Pequim – em contraste com a visita do antecessor, Barack Obama, obrigado a sair pela porta na traseira do avião em 2016 – Trump retomou ontem o bromance (um romance entre irmãos) com o presidente Xi Jinping. Os dois encetaram as boas relações no passado mês de abril durante uma visita do líder chinês e da mulher ao resort do presidente, em Mar-a-Lago, na Florida» («Xi recebe Trump como um imperador. Hoje é dia de discutir a Coreia do Norte», Helena Tecedeiro, Diário de Notícias, 9.11.2017, p. 24).

      Nem sequer em itálico, Helena Tecedeiro? O pobre leitor vai pensar que é português de lei. Francamente. E a explicação está errada. Escreve Sarah Knapton no Telegraph: «The rise of the ‘bromance’ could threaten heterosexual relationships, academics have warned, after discovering that many men find their close male friendships more emotionally satisfying than relationships with women» (12.10.2017, 4h55).

 

[Texto 8314]

Helder Guégués às 18:29 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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05
Nov 17

Como se escreve nos jornais

Não se percebe

 

    «Comparando o clima no Líbano hoje ao que existiu antes do assassínio do seu pai, Rafiq Hariri, o primeiro-ministro Saad Hariri anunciou a sua demissão num discurso televisivo a partir da Arábia Saudita. “Senti que havia um plano cujo alvo era acabar com a minha vida”, declarou. [...] Hariri-filho nunca conseguiu ter um poder comparável ao do pai; o xiita Hezbollah rapidamente se tornou a força dominante» («Primeiro-ministro anuncia demissão sob ameaças de morte», Público, 5.11.2017, p. 17).

      Onde é que o jornalista alguma vez viu isto? Hariri-filho... Em lado nenhum. Aspas, hífenes, letra grelada é com eles. Para mais, no caso, nem se trata de homónimos, um é Rafiq Hariri, o outro é Saad Hariri.

 

[Texto 8293]

Helder Guégués às 16:41 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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20
Out 17

Vamos ver se percebemos

Outra vulnerabilidade

 

      «Madonna já terá conseguido comprar a sua casa em Portugal. Não em Lisboa, mas um luxuoso palacete em Sintra que estava à venda por 7,5 milhões de euros pela imobiliária Engel & Volkers, segundo a revista Nova Gente. A Quinta do Relógio, no centro da vila, tem sete quartos, sete casas de banho, três salas e um grande jardim com plantas exóticas e fontes. [...] O primeiro proprietário do espaço que daria origem à quinta foi D. Fernando Maria de Sousa Coutinho Castelo Branco e Meneses, o 15º Conde de Redondo» («A história (e 43 fotos) do palacete de luxo que Madonna pode comprar em Sintra», Marta Leite Ferreira, Observador, 9.06.2017, 12h41). Uns meses depois: «É uma casa de sonho com um preço de pesadelo: 15 milhões de euros, fora comissões. Chama-se Quinta do Relógio, foi construída em 1860 e serviu de residência ao rei D. Fernando II. Fica em Paço de Arcos, Oeiras, encostado à marginal, em cima do mar» («Madonna quer viver à borla em palacete de Paço de Arcos», Luís Ribeiro, Visão, 19.10.2017, 18h11).

      Em conclusão, Madonna quer é uma Quinta do Relógio, ligada a um qualquer D. Fernando, conde ou rei, e é-lhe indiferente que custe 7,5 milhões de euros ou 15 milhões de euros, porque não tenciona pagar nem um cêntimo. Entretanto, temos de esperar que os jornalistas descubram mais Quintas do Relógio. Ah, sim, há mais conclusões, mas deixo-as para o leitor perspicaz.

 

[Texto 8243]

Helder Guégués às 08:48 | comentar | favorito
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«Doença celíaca»

Pense bem

 

      «Também é recomendada uma avaliação prudente e personalizada daqueles [candidatos a seminaristas] que “são afetados por celíaca ou dos que sofrem de alcoolismo”» («Vaticano quer evitar padres gays e pedófilos», Sónia Trigueirão, Correio do Manhã, 16.10.2017, p. 16).

      Cita bem a jornalista (só é pena não encontrar uma palavra portuguesa para gay, não é?), pois é o que se lê na nova Ratio fundamentalis institutionis sacerdotalis, actualizada — em Dezembro de 2016, mas só agora os jornalistas deram por isso — quase cinquenta anos depois. Bem vejo que o erro é dos serviços de tradução do Vaticano. Pena é que a jornalista não conheça melhor a sua língua. É certo que em castelhano se diz celiaquía (como também se diz enfermedad celíaca), e em francês cœliaquie, e em italiano celiachia — mas em português é doença celíaca, assim como em inglês é celiac disease. Não citava textualmente, tirava as aspas e escrevia de forma correcta — e o leitor, que até pagou o jornal, agradecia.

[Texto 8240]

Helder Guégués às 08:37 | comentar | favorito
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10
Out 17

O mundo ao contrário

Observem bem

 

      Hoje, logo de manhã, li que o produtor Harvey Weinstein, acusado de assédio e chantagem sexual, fora despedido da sua própria empresa. Realmente, Hollywood é muito peculiar. Tal como a imprensa portuguesa: «E se há quem assuma que sempre houve rumores quanto ao comportamento do produtor, outras (e outros) garantem que não fazia [sic] ideia do que se passava. É o caso de Meryl Streep, vencedora de três Óscares, apelidou as mulheres que falaram contra Weinstein de “heróis”» («Escândalo sexual em Hollywood. Atrizes unem-se contra Harvey Weinstein», Rita Porto, Observador, 10.10.2017, 16h19).

      Claro que sim, Rita Porto, e se Meryl Streep falasse de homens de certeza que lhes chamaria heroínas. Concorde.

 

[Texto 8209]

Helder Guégués às 19:55 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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06
Set 17

Como se traduz nos jornais

Não disse nada

 

      «O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres», assegura o Observador, que ilustra a notícia com uma fotografia de Guterres que não parece Guterres (mas Madonna, a queixar-se da FedEx no Instagram, também não parece Madonna — mas uma cabeleireira desmazelada dos subúrbios), «disse esta terça-feira que as consequeências [sic] de uma guerra com a Coreia do Norte seriam “demasiado espantosas”» («Guterres diz que as consequências de uma guerra com a Coreia do Norte seriam “demasiado espantosas”», 5.09.2017, 21h49). O que o secretário-geral das Nações Unidas disse foi que «the potential consequences of military action are too horrific». Agora traduz-se horrific por «espantoso»? Espantoso! Horrível, digo.

 

[Texto 8131]

Helder Guégués às 09:31 | comentar | favorito
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05
Set 17

E a revisão que diz?

De más contas

 

      «Na Agricultura, o primeiro-ministro garantiu que “até ao final da legislatura haverá mais 90.00 hectares de regadio”, uma medida que já estava no programa do Governo. A intenção é “fazer pequenos Alquevas”» («Promessas de Costa na rentrée», Vítor Costa e David Dinis, Público, 28.08.2017, p. 2).

      Os jornalistas atrapalham-se facilmente com números e acharam que tinha de haver ali um ponto — que por acaso, só por acaso, não é o que exige a norma portuguesa, mas vírgula. Pormenores. Na Matemática para Totós, estaria aqui um aviso, uma bomba com o rastilho aceso. António Costa, apontem aí, prometeu 90 mil hectares de regadio.

 

[Texto 8124]

Helder Guégués às 09:55 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Como se escreve nos jornais

Conhecimento incerto

 

      «A solução está na ponta dos dedos. É milimétrica, do tamanho e do aspeto de uma pérola. O In Eye, dispositivo que está a ser desenvolvido no departamento de Engenharia Química da Universidade de Coimbra, promete substituir a aplicação diária de gotas para olhos, por exemplo, em doentes com glaucoma ou em recuperação de cirurgias às cataratas: em vez disso, bastará colocar o pequeno inserto junto ao olho, na pálpebra inferior, para dosear e distribuir o medicamento pelo organismo, por um longo período de tempo» («In eye, a pérola que substitui as gotas para os olhos», Rui Marques Simões, Diário de Notícias, 23.08.2017, p. 12).

      Nunca antes vi este uso do adjectivo (?) «inserto». Para mim, é mais do que incerto, é completamente duvidoso. Terá o jornalista ouvido bem? Sim, porque só pode estar a reproduzir o que ouviu, e, como tantas vezes sucede, ouvem mal.

 

[Texto 8118]

Helder Guégués às 09:28 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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07
Ago 17

«Tessela/téssera»

Se fosse apenas no Verão...

 

      «Noutra zona foram ainda descobertas peças de vidro dourado que compunham uma tessela (um conjunto decorativo), um indicador de que a cidade teve, mais tarde, uma igreja importante» («Descoberta a cidade perdida onde nasceram três apóstolos?», Rádio Renascença, 5.08.2017, 9h36). Hum..., mas no jornal que citam, o Haaretz, lê-se isto: «The excavators found walls with gilded glass tesserae for a mosaic, an indication of a wealthy and important church.» É o mesmo, téssera e tessela? Segundo o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, téssera tem três acepções: «1. pequena placa de metal ou marfim que, na antiga Roma, servia de bilhete de voto ou de entrada nos teatros; 2. nome dado aos objectos que serviam de senha, entre os antigos cristãos; 3. dado com marcas em todas as seis faces». Nenhuma se aplica, pois, ao contexto. Já de tessela diz isto: «1. pedra quadrangular para revestir pavimentos; 2. peça de mosaico». Não podia ficar por aqui a indagação. Vejamos o que se lê sobre tessera no Collins English Dictionary: «(Ceramics) a small square tile of stone, glass, etc, used in mosaics». Ainda que sejam sinónimos nesta acepção, está ausente do termo téssera no dicionário da Porto Editora, além de que no verbete de tessela a definição não é, nem de perto nem de longe, clara. Voltando à notícia da Rádio Renascença, repare-se na equívoca e, em qualquer caso, paupérrima explicação do que é: «um conjunto decorativo». Isto é preguiça, que seria desculpável se fosse apenas um fenómeno estival.

 

[Texto 8082]

Helder Guégués às 13:45 | comentar | favorito
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25
Jul 17

Actos inúteis

Dose diária não recomendada

 

     «A ASUS anunciou recentemente um novo e ambicioso desafio: o de reciclar 20% do seu lixo eletrónico global (e-waste) até 2025» («Reciclar um quinto do lixo eletrónico», Destak, 25.07.2017, p. 11).

      Ora cá temos a nossa dose diária de inglês desnecessário. Senhores jornalistas, que relevância tem o leitor ficar a saber que «lixo electrónico» se diz em inglês «e-waste»?

 

[Texto 8054]

Helder Guégués às 08:29 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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