06
Set 17

Como se traduz nos jornais

Não disse nada

 

      «O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres», assegura o Observador, que ilustra a notícia com uma fotografia de Guterres que não parece Guterres (mas Madonna, a queixar-se da FedEx no Instagram, também não parece Madonna — mas uma cabeleireira desmazelada dos subúrbios), «disse esta terça-feira que as consequeências [sic] de uma guerra com a Coreia do Norte seriam “demasiado espantosas”» («Guterres diz que as consequências de uma guerra com a Coreia do Norte seriam “demasiado espantosas”», 5.09.2017, 21h49). O que o secretário-geral das Nações Unidas disse foi que «the potential consequences of military action are too horrific». Agora traduz-se horrific por «espantoso»? Espantoso! Horrível, digo.

 

[Texto 8131]

Helder Guégués às 09:31 | comentar | favorito
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05
Set 17

E a revisão que diz?

De más contas

 

      «Na Agricultura, o primeiro-ministro garantiu que “até ao final da legislatura haverá mais 90.00 hectares de regadio”, uma medida que já estava no programa do Governo. A intenção é “fazer pequenos Alquevas”» («Promessas de Costa na rentrée», Vítor Costa e David Dinis, Público, 28.08.2017, p. 2).

      Os jornalistas atrapalham-se facilmente com números e acharam que tinha de haver ali um ponto — que por acaso, só por acaso, não é o que exige a norma portuguesa, mas vírgula. Pormenores. Na Matemática para Totós, estaria aqui um aviso, uma bomba com o rastilho aceso. António Costa, apontem aí, prometeu 90 mil hectares de regadio.

 

[Texto 8124]

Helder Guégués às 09:55 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Como se escreve nos jornais

Conhecimento incerto

 

      «A solução está na ponta dos dedos. É milimétrica, do tamanho e do aspeto de uma pérola. O In Eye, dispositivo que está a ser desenvolvido no departamento de Engenharia Química da Universidade de Coimbra, promete substituir a aplicação diária de gotas para olhos, por exemplo, em doentes com glaucoma ou em recuperação de cirurgias às cataratas: em vez disso, bastará colocar o pequeno inserto junto ao olho, na pálpebra inferior, para dosear e distribuir o medicamento pelo organismo, por um longo período de tempo» («In eye, a pérola que substitui as gotas para os olhos», Rui Marques Simões, Diário de Notícias, 23.08.2017, p. 12).

      Nunca antes vi este uso do adjectivo (?) «inserto». Para mim, é mais do que incerto, é completamente duvidoso. Terá o jornalista ouvido bem? Sim, porque só pode estar a reproduzir o que ouviu, e, como tantas vezes sucede, ouvem mal.

 

[Texto 8118]

Helder Guégués às 09:28 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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07
Ago 17

«Tessela/téssera»

Se fosse apenas no Verão...

 

      «Noutra zona foram ainda descobertas peças de vidro dourado que compunham uma tessela (um conjunto decorativo), um indicador de que a cidade teve, mais tarde, uma igreja importante» («Descoberta a cidade perdida onde nasceram três apóstolos?», Rádio Renascença, 5.08.2017, 9h36). Hum..., mas no jornal que citam, o Haaretz, lê-se isto: «The excavators found walls with gilded glass tesserae for a mosaic, an indication of a wealthy and important church.» É o mesmo, téssera e tessela? Segundo o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, téssera tem três acepções: «1. pequena placa de metal ou marfim que, na antiga Roma, servia de bilhete de voto ou de entrada nos teatros; 2. nome dado aos objectos que serviam de senha, entre os antigos cristãos; 3. dado com marcas em todas as seis faces». Nenhuma se aplica, pois, ao contexto. Já de tessela diz isto: «1. pedra quadrangular para revestir pavimentos; 2. peça de mosaico». Não podia ficar por aqui a indagação. Vejamos o que se lê sobre tessera no Collins English Dictionary: «(Ceramics) a small square tile of stone, glass, etc, used in mosaics». Ainda que sejam sinónimos nesta acepção, está ausente do termo téssera no dicionário da Porto Editora, além de que no verbete de tessela a definição não é, nem de perto nem de longe, clara. Voltando à notícia da Rádio Renascença, repare-se na equívoca e, em qualquer caso, paupérrima explicação do que é: «um conjunto decorativo». Isto é preguiça, que seria desculpável se fosse apenas um fenómeno estival.

 

[Texto 8082]

Helder Guégués às 13:45 | comentar | favorito
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25
Jul 17

Actos inúteis

Dose diária não recomendada

 

     «A ASUS anunciou recentemente um novo e ambicioso desafio: o de reciclar 20% do seu lixo eletrónico global (e-waste) até 2025» («Reciclar um quinto do lixo eletrónico», Destak, 25.07.2017, p. 11).

      Ora cá temos a nossa dose diária de inglês desnecessário. Senhores jornalistas, que relevância tem o leitor ficar a saber que «lixo electrónico» se diz em inglês «e-waste»?

 

[Texto 8054]

Helder Guégués às 08:29 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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23
Jul 17

Rigor jornalístico

E violência musical

 

      Todos pudemos ver Paco Bandeira, mais perto da loucura dos 80 do que da ternura dos 40, a cilindrar 50 mil discos compactos. Cilindrar, sim, pois passava-lhes por cima com um cilindro Ingersoll Rand DD23. No Diário de Notícias, contudo, viram outro veículo: «Contra a pirataria. Contra as estações de rádio que não passam música portuguesa. Foi sob este mote que o conhecido músico Paco Bandeira se apresentou em cima de uma empilhadora, pronto a destruir 50 mil exemplares de discos.» Como nos podemos fiar no que importa, no complexo, se falham tão redondamente em aspectos tão comezinhos?

 

[Texto 8050]

Helder Guégués às 18:25 | comentar | ver comentários (5) | favorito
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22
Jul 17

Como se escreve nos jornais

Mesmo morto

 

      Ainda pior: «Chester Bennington, vocalista dos Linkin Park de 41 anos, colocou ontem termo à própria vida. As autoridades encontraram o músico enforcado numa residência particular em Los Angeles» («Vocalista dos Linkin Park suicida-se», Destak, 21.07.2017, p. 6).

      O óbito do verbo «pôr» já foi declarado há muito, mas convém sempre ir dando uma olhadela. Só uma pergunta: como é que um revisor deixa passar uma merda destas?

 

[Texto 8046]

Helder Guégués às 11:04 | comentar | ver comentários (6) | favorito
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20
Jul 17

Como se escreve por aí

Para ↑ e para

 

      Na RR: «O “frontman” do grupo californiano foi encontrado sem vida na sua casa de Palos Verdes, em Los Angeles. Tinha 41 anos e deixa seis filhos» («Morreu Chester Bennington, vocalista dos Linkin Park», Rádio Renascença, 20.07.2017, 19h19). Na TSF: «Chester Bennington, vocalista dos Linkin Park, foi encontrado morto esta quinta-feira, avança o TMZ. Segundo a publicação, que cita fontes policiais, o cantor terá cometido suicídio» («Vocalista dos Linkin Park encontrado morto. Chester Bennington tinha 41 anos», TSF, 20.07.2017, 19h32).

 

[Texto 8043]

Helder Guégués às 20:39 | comentar | favorito (1)
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17
Jul 17

E o sujeito é...?

Isto é pior

 

      «Com 17,8% do buzz [sic] social do ano, correspondente a 378 mil menções, o setor automóvel foi aquele que mais vezes foi referenciado ao longo de 2016. […] Para isso, a empresa baseou-se nas mais de 2 milhões de menções às marcas que compõem o seu painel fixo monitorizado (denominado Barómetro de Marcas)» («Automóveis dominam as redes sociais», Destak, 17.07.2017, p. 4).

    Eles sabem lá o que é ou qual é o sujeito! E isto propinado aos milhares, deve deixar alguma mossa nos já escassíssimos conhecimentos linguísticos da população.

 

[Texto 8032]

Helder Guégués às 12:03 | comentar | favorito
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Como se escreve nos jornais

Essa é boa

 

      «A produção de banana na Região Autónoma da Madeira deverá atingir este ano as 22 toneladas, sendo que 85% se destina [sic] à exportação para o mercado nacional» (Destak, 17.07.2017, p. 5).

      Exportação para o mercado nacional... Bem, parece que temos de alargar o sentido de «exportar», não? Isso, ou contratar um bom revisor.

 

[Texto 8031]

Helder Guégués às 09:28 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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