26
Abr 17

Léxico: «narigueira»

Milhares as esquecidas

 

      Creio que os elmos tinham narigueira, e os dicionários brasileiros também acolhem a palavra, que, no caso, designa um adorno de penas que atravessa o septo nasal, usado pelos índios. Cá, todavia, os dicionários ignoram a palavra. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista apenas o adjectivo narigueiro, «relativo a nariz». E, no entanto, a palavra é usada, e com mais frequência do que se possa pensar, para designar a peça, de borracha ou napa, dos capacetes que serve para diminuir o embaciamento da viseira. Assim como queixeira, a parte do capacete que protege o queixo, também não está nos dicionários. Mais uma vez, só o adjectivo queixeiro, «designativo do dente do siso». Para os dicionários, é como se o mundo não mudasse.

 

[Texto 7751]

Helder Guégués às 10:51 | comentar | favorito
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Léxico: «traça da cera»

Uma traça menos má

 

      «A chamada traça da cera, cujas larvas são criadas para usar como isco para a pesca, é um flagelo para as colmeias de abelhas na Europa, e foi por coincidência que uma cientista [Federica Bertocchini, do Instituto de Biomedicina e Biotecnologia de Cantábria, Espanha] que também é apicultora descobriu como podem acelerar a degradação do polietileno» («Descoberta lagarta que é capaz de devorar sacos de plástico», TSF, 24.04.2017, 17h33).

      Na definição de traça, já encontramos essa apetência por peles, tecidos, livros, etc. Mas, depois, há traças específicas: dos livros, da cera... O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não regista esta da cera, mas sim a dos livros: traça-dos-livros. (Que tem vários sinónimos, um dos quais, bicho-de-prata, foi sugerido por mim em 2014 e faz parte daquele dicionário.) Se compreendo que bicho-de-prata deva ter hífenes, não me parece o mesmo de traça dos livros nem de traça da cera. Consultamos a Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, quase infalivelmente criteriosa nestas questões, e nunca vemos hífenes nestes vocábulos.

 

[Texto 7750]

Helder Guégués às 10:33 | comentar | favorito
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25
Abr 17

Léxico: «musealização»

Mais um passo

 

      «Está também prevista a execução de camarins, redes de iluminação, telecomunicações, hidráulicas, sistema de AVAC (aquecimento, ventilação e ar condicionado), melhoria da eficiência energética e ambiental, bem como musealização e promoção da estrutura arqueológica» («Chaves. Maiores termas romanas da Península Ibérica abrem em 2018», Olímpia Mairos, Rádio Renascença, 24.04.2017, 14h42).

   Se já regista o verbo musealizar, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora tem de dar o passo seguinte, que é acolher o substantivo musealização. Também seria útil registar o acrónimo AVAC.

 

[Texto 7749]

Helder Guégués às 13:33 | comentar | favorito
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24
Abr 17

Léxico: «verme da Guiné»

Falta o melhor

 

      A Organização Mundial da Saúde anunciou recentemente avanços sem precedentes na luta contra dezoito doenças tropicais neglicenciadas, entre elas a dengue, verme da Guiné e doença do sono. Infecção pelo verme da Guiné... pois é... Nos dicionários, nada. Ou melhor, só sinónimos, quando, porventura, será aquela a designação mais usada entre nós. No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, dois: dracunculose e dracontíase; no Dicionário de Termos Médicos, outro, dracunculíase. Falta, pois, registá-los a todos no Dicionário da Língua Portuguesa, acrescentar a designação em epígrafe, fazer remissões mútuas em todos os sinónimos e uniformizar a definição.

 

[Texto 7748]

Helder Guégués às 10:47 | comentar | favorito
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Léxico: «variador»

Em nenhum

 

      A transmissão das motos automáticas é composta por três elementos principais: variador, embraiagem e correia. O variador, em si mesmo, que fica no eixo da cambota, é composto de várias peças. Os motores de indução também têm variador de velocidade, que, como o nome indica, é um dispositivo usado para regular a velocidade, isto porque um motor de indução de corrente alternada é um motor de velocidade constante. Com o variador, obtém-se uma considerável poupança de energia. Ora, variador não está nos dicionários. Em nenhum, não apenas no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora.

 

[Texto 7747]

Helder Guégués às 10:35 | comentar | favorito
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23
Abr 17

Léxico: «asférico» e «ângulo morto»

Só no francês?

 

      Desisti da Piaggio MP3 500 LT. Pelo que li, a assistência pós-venda pode ser um pesadelo. E da Quadro3, que experimentei ontem, não gostei tanto quanto esperava, mas há-de ser porque a moto experimentada já foi maltratada por todos os jornalistas que escrevem sobre estes veículos. E, claro, assistência nem vê-la, também. Que resta? Dizem bem da assistência de tudo o que vem do Oriente, mas a minha escolha não vai para aí. BMW C Evolution. Vejo que tem, como opção, espelhos asféricos, que anulam quase completamente o ângulo morto. Claro que uma moto do preço desta devia ter, isso sim, assistente de ângulo morto. Pois bem, asférico só no Dicionário de Francês-Português da Porto Editora (asphérique: asférico), e ângulo morto é locução ignorada dos dicionários.

 

[Texto 7746]

Helder Guégués às 21:55 | comentar | favorito
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Léxico: «dessalinizador»

Desalinhados

 

      «Manolo Vidal, porta-voz da Naviera Armas, empresa proprietária do ferry, afirmou que “uma perda de eletricidade” repentina causou o acidente, quando o barco estava a deixar Puerta de la Luz, na ilha da Grande Canária, na sexta-feira à noite. […] Em relação ao derrame de combustível, este está a escassos quilómetros da principal empresa dessalinadora que abastece de água potável a capital» («Ferry embate num porto das ilhas Canárias e causa 13 feridos», Lusa/TSF, 22.01.2017, 20h28).

    É o que se lê em vários jornais — e porquê? Ora, porque em castelhano é desaladora, e os jornalistas não pensam duas vezes. Nem uma, aliás. O verbo não é dessalinar, mas dessalinizar, logo é dessalinizadora. Há muitas décadas que há dessalinizadores (substantivo) e estações dessalinizadoras (adjectivo) em Portugal e no mundo, convinha que todos os dicionários, e nomeadamente o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, os registassem.

 

[Texto 7745]

Helder Guégués às 10:19 | comentar | favorito
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22
Abr 17

Léxico: «dirofilariose»

Doença do verme do coração

 

      «A husky encontrava-se infectada por uma doença parasitária, uma dirofilariose ou “verme do coração”, em que larvas transmitidas por mosquitos se acabam por alojar nas artérias pulmonares e no coração. Trata-se de uma patologia que exige repouso e cuidados» («Condenado a pena suspensa por enterrar cadela viva», Ana Henriques, Público, 22.04.2017, p. 17).

      Não deixa de ser estranho não a encontrarmos no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, porque, afinal, é uma doença parasitária grave que, além de cães e gatos, também atinge o ser humano. A etimologia diz tudo: é uma filariose (filaríase), isto é, uma doença provocada por filárias, e é diro, adjectivo antigo, do latim dīrus, que significa terrível, desumano, cruel.

 

[Texto 7744]

Helder Guégués às 14:50 | comentar | favorito
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21
Abr 17

Léxico: «casa de recuo»

Já falamos como eles

 

   «Entre os arguidos, com idades entre os 18 e 77 anos, havia responsáveis pela aquisição da droga, o transporte, armazenamento – sobretudo em casas de recuo – preparação, embalagem, distribuição e venda» («Usavam os netos para entregar droga. Mais de 60 pessoas condenadas», Rádio Renascença, 23.01.2017, 14h42).

      Há muito que não ouvia esta expressão. Dizem que é da gíria policial — que os juízes já tiveram de aprender, pois claro, pois encontro-a até em acórdãos. Nos últimos tempos, refere-se quase sempre ao local de armazenamento dos estupefacientes comercializados pelos arguidos. Já a vi usada para traduzir a expressão em língua inglesa safe house.

 

[Texto 7743]

Helder Guégués às 20:46 | comentar | favorito
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Léxico: «alauita»

Usada, mas ignorada

 

      «Para Moscovo, Assad não é o mais importante, fundamental é reassumir-se como potência e preencher um vazio que os EUA começaram a abrir, como a União Soviética tinha preenchido no seu auge. Para o Irão, é mais difícil deixar cair o ditador sírio, mas o que conta mesmo é manter os alauitas (xiitas como os iranianos) no poder» («Assad sobreviveu a Obama e o novo mundo assenta-lhe bem», Sofia Lorena, Público, 23.01.2017, p. 21).

      Não o encontramos no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, isto quando está em muitos outros, e, naturalmente, nos dicionários de outras línguas. Atenção às duas acepções. E quem regista alauita, é claro, tem de registar alauismo.

 

[Texto 7742]

Helder Guégués às 12:08 | comentar | favorito
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