23
Fev 18

Léxico: «escamudo-do-alasca»

Acabrunhante

 

      Ao almoço comi uns bons filetes de escamudo-do-alasca (Theragra chalcogramma). Dieta do Paleolítico. Escamudos há muitos, mas no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora só há um, desifenizado, o mero escamudo, Pollachius virens — «polaco tesudo», em português. Estou a brincar. E a propósito de tesudo, já repararam que a moeda oficial da Putalândia é a rosa? E que no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora acompanhante vem desacompanhado de uma das acepções mais usadas? Acabrunhante.

 

[Texto 8798]

Helder Guégués às 15:02 | comentar | favorito
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Léxico: «tercena»

Trabalhade

 

      Falei aqui uma vez da palavra tercena, ausente ainda hoje do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, e sobre as tercenas de Lisboa, acrescento agora, há livros inteiros. «Dom Affonso... a vos Pedreanes gago Alvazil de Lixbõa [...] E porque me disserom que queriam fazer hi casarias sse as hj quizerem fazer trabalhade que sse façam en tal gissa que sseiam as Ruas bem espaçosas que possam as gentes per elas andar e cavalgar ssen enbargo e que leixem grande espaço antre as casas e as taracenas».

 

[Texto 8797]

Helder Guégués às 12:40 | comentar | favorito
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Léxico: «bagacina»

Não está? Não pode ser

 

      «A Alexandrina Guerreiro colocou a máquina fotográfica num muro de pedra vulcânica e corremos para o muro em frente, o que marcava a outra margem do caminho de terra batida, num chão de bagacina e, assim, na vertigem de poucos segundos para a imobilidade feliz, esperámos abraçados, os cinco, ela, o Herlander Rui, o Pedro Pinheiro, o Joel Neto e eu, sentados com o mar em fundo» («Leva-nos à estrada do paraíso», Fernando Alves, TSF, 23.02.2018, 8h53).

      Oh, vergonha, também não está no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora! Já a conhecíamos de João de Melo: «Por mim, que nasci e cresci sob as faldas do Pico da Vara, elejo desde já a paisagem das Sete Lombas como a mais bela de uma ilha por achar: ilha do segredo, do sonho, da utopia, ilha dos caminhos que nos levam por miradouros floridos e escrupulosamente limpos, com chão de bagacina e sempre de varanda sobre o mar do Nordeste» (Açores. O Segredo das Ilhas. Alfragide: Publicações D. Quixote, 2016).

 

[Texto 8794]

Helder Guégués às 10:08 | comentar | favorito
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Léxico: «renúncia quaresmal»

Está no meu dicionário

 

      «As dioceses católicas portuguesas vão destinar as renúncias quaresmais a apoiar diversos projetos internos, recordando também as vítimas dos incêndios de 2017, e de ajuda a países de África e Médio Oriente, com destaque para o apoio aos cristãos perseguidos. [...] A renúncia quaresmal é uma prática proposta pela Igreja Católica em que os fiéis abdicam da compra de bens adquiridos habitualmente noutras épocas do ano» («Renúncias quaresmais apoiam projetos em Portugal, África, Ásia e Médio Oriente», Ecclesia/Rádio Renascença, 21.02.2018).

 

[Texto 8793]

Helder Guégués às 09:54 | comentar | favorito
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22
Fev 18

Léxico: «sonorizador»

Como homenagem

 

      «O sonoplasta da TSF Herlander Rui morreu esta quinta-feira, aos 47 anos, em Lisboa, vítima de cancro. [...] Começou a carreira como sonorizador na Rádio Nova Antena, em 1988. Colaborou com o Cenjor desde 2003, primeiro na assistência técnica e depois como formador no módulo de Captação de Som e Edição Digital em vários cursos de Rádio e Multimédia» («Morreu o sonoplasta da TSF Herlander Rui», TSF, 22.02.2018, 20h28).

      Mais um grande profissional da rádio que morre antes do tempo. Uma homenagem pelo menos indirecta é o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora registar o vocábulo sonorizador.

 

[Texto 8791]

Helder Guégués às 22:10 | comentar | favorito
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Léxico: «principense»

Nem de tal se lembram

 

  Agora os senhores doutores médicos vão ficar zangados, insatisfeiticíssimos mesmo, com o Presidente da República, que, numa visita ao Parque da Biodiversidade, na ilha do Príncipe, onde se encontrou com curandeiros principenses, aceitou umas mezinhas preparadas com plantas, uma para a hérnia e outra «para aquecer o material». O nosso problema é outro: então os pobres habitantes e os naturais da ilha do Príncipe não têm direito a gentílico? E o crioulo de base portuguesa não se chama principense? Então, senhores lexicógrafos?

 

[Texto 8788]

 

P. S.: Gostaram do «insatisfeiticíssimos»? Influência de ter lido ao longo do dia vários textos de homenagem ao humorista gráfico espanhol Forges, um genial criador de palavras, algumas das quais (!) já poisaram no Dicionário da Real Academia Espanhola.

Helder Guégués às 17:02 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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21
Fev 18

Tradução: «shop primer»

Duas questões

 

    «A certificação aconteceu em Junho passado. A partir de uma amostra, a Lloyd’s Register concluiu que as chapas apresentavam “apenas corrosão superficial devido ao desgaste do shop primer [a protecção da superfície do aço]”» («Aço dos navios encomendados pela Venezuela vai a leilão», Pedro Crisóstomo, Público, 21.02.2018, p. 20).

    E não se podia escrever, em vez de shop primer, pese embora a explicação, «protecção anticorrosiva»? E a propósito, leio aqui e ali referências a «aço jateado», mas sem encontrar nenhuma definição. Não será «jactear», porque, ao que me parece, se trata de um tratamento com areia, logo, lançada por jacto? Há por aí algum entendido nestas matérias? Seja como for, falta este verbo nos dicionários.

 

[Texto 8785]

Helder Guégués às 22:11 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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Léxico: «encaixe financeiro»

Antes estar

 

     «É um último esforço lançado na recta final do processo de liquidação da empresa para garantir algum encaixe financeiro que permita aos ENVC amortizar empréstimos e reduzir dívida à Empordef, a holding do sector empresarial da Defesa, também ela em processo de extinção» («Aço dos navios encomendados pela Venezuela vai a leilão», Pedro Crisóstomo, Público, 21.02.2018, p. 20).

      Gostava de ver a expressão encaixe financeiro nos dicionários. Nunca se deve pecar por defeito, no que respeita a dicionarizar termos e expressões.

 

[Texto 8783]

Helder Guégués às 22:06 | comentar | favorito
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Léxico: «linha vermelha»

Está mais do que na hora

 

      «O bastonário da Ordem dos Médicos diz que deixou de acreditar no ministro da Saúde, tal como os clínicos de um modo geral. “Ultrapassou a linha vermelha, não só com os concursos” para os recém-especialistas, como “com a medicina tradicional chinesa”. “Os médicos já não acreditam no ministro da Saúde. E os médicos [representam] muito mais do que o bastonário”, afirma Miguel Guimarães à agência Lusa, considerando que a relação institucional entre a Ordem e o ministro “vai ser difícil, vai ser muito difícil”» («Médicos para ministro: “Ultrapassou a linha vermelha”», Rádio Renascença, 21.02.2018, 6h40).

    Tem origem no inglês redline, é verdade, mas há muito que nos apropriámos do conceito e traduzimos a expressão, pelo que convém ir para os dicionários. É que há falantes para os quais a Linha Vermelha é apenas um das quatro linhas do Metro de Lisboa. Apresenta vários matizes de sentido (mas também há um geral), mas, no caso do artigo, encaixa na perfeição esta definição do Collins: «a point beyond which a person or group is not prepared to negotiate».

[Texto 8777]

Helder Guégués às 10:33 | comentar | favorito
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Léxico: «carga de sinalização»

Podem estar lá todos

 

      «Uma equipa de mergulhadores-sapadores da Armada fez deflagrar numa praia próxima de São Pedro de Moel, um explosivo que deu à costa, encontrado por um grupo de alunos. O comandante do porto da Nazaré, capitão-tenente Paulo Sérgio Agostinho, disse à agência Lusa, que o engenho explosivo, uma carga de sinalização, maioritariamente constituída por fósforo, é usual na navegação, e vai ser agora identificada a sua origem, a partir do número de série registado» («Explosivo encontrado por jovens na praia detonado em segurança», Rádio Renascença, 21.02.2018, 6h19).

      Usual na navegação, sim, mas: «O comandante do porto da Nazaré disse ao Notícias ao Minuto que o engenho explosivo é uma carga de sinalização utilizada pelas Forças Armadas e que é lançada para água por helicóptero.» As melhores imagens, inclusive do explosivo, são do Correio da Manhã (aqui), com grande parte do número de série visível, pelo que podemos ser nós a investigar a origem. Na Marinha, ao que parece, há mergulhadores, mergulhadores-sapadores, sapadores-submarinos e mergulhadores-vigia, pelo que estes termos deviam estar nos dicionários, à semelhança de «sapador-bombeiro», por exemplo, único que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora acolhe.

 

[Texto 8776]

Helder Guégués às 09:11 | comentar | favorito
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