28
Mar 17

Ainda a hipoxia

Distingamos

 

      Reporto-me sempre ao Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Em hipoxemia, remete sem mais para hipoxia: «MEDICINA diminuição do teor de oxigénio no sangue». Mas não são sinónimos puros, como se pode comprovar em vários sítios, e nomeadamente no Portal da Codificação Clínica e dos GDH: «A hipoxemia é a deficiente oxigenação do sangue (pressão parcial do oxigénio) e acompanha a agudização de várias doenças respiratórias como a DPOC e o ARDS. Distingue-se da asfixia, uma condição de deficiência grave do fornecimento de oxigénio ao corpo. A hipoxia é sinónimo de hipoxemia, embora se refira mais ao status ou resultado da hipoxemia.» Se se pode fazer uma distinção, não são sinónimos, são termos próximos, relacionados. Mais: de hipoxemia regista-se o adjectivo hipoxémico, mas falta — e é usado, como se pode comprovar facilmente — o adjectivo derivado de hipoxia, hipóxico.

 

[Texto 7636]

Helder Guégués às 09:19 | comentar | favorito
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27
Mar 17

Léxico: «borboletário»

Não pode ficar de fora

 

      «Passeámos num borboletário onde voavam centenas de borboletas e no agitadíssimo mercado que conserva o nome antigo de Ver o Peso» (Uma Aventura na Amazónia, Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada. Alfragide: Editorial Caminho, 2009).

      A propósito de fluviário, o leitor Nuno lembrou aqui a palavra borboletário, que também não está registada no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, que, contudo, acolhe, entre outras, ranário, serpentário, etc. Recentemente, li num livro em inglês butterfly building, o que pode indiciar que naquela língua não há uma palavra própria para designar borboletário.

 

[Texto 7632]

Helder Guégués às 19:53 | comentar | favorito
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Léxico: «orquidófilo»

Elas merecem

 

      Na semana passada, falámos aqui de orquidário. A de hoje está relacionada: «E outros nomes vão surgindo nesta vida de orquidófilo» («O ex-caçador que ressuscita orquídeas», Sara Dias Oliveira, Notícias Magazine, 26.03.2017, p. 41). Encontro-a em vários dicionários, mas não está no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. E quem diz orquidófilo, é claro, também diz orquidofilia.

 

[Texto 7629] 

Helder Guégués às 19:14 | comentar | favorito
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26
Mar 17

Léxico: «tufado»

Também na nossa

 

      Era uma embalagem de puffed hearts, um cereal tufado em forma de corações. Mas podia ser de puffed rice, puffed corn, puffed millet, puffed wheat... Sendo um produto português, devia estar escrito em português. Acontece que tufado não está no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, e ajudava muito que lá estivesse registado, pois é também adjectivo, e não somente particípio. Aliás, até está na Infopédia: nos dicionários de português-francês, português-italiano, português-inglês. As tais pontas soltas.

 

[Texto 7628]

Helder Guégués às 21:41 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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E a contraprima?

Esqueceram-na

 

      Ah, mais palavras que desapareceram... Há violas com diferente número de cordas, e nem sei mesmo se os especialistas se entendem, matéria de que não nos vamos agora ocupar. Certo é que, na descrição da viola, o P.e Rafael Bluteau nomeia cada uma das cinco cordas: primeira, segunda, corda prima, contraprima e bordão. As duas primeiras não contam, naturalmente, mas, das restantes, os actuais dicionários só registam prima e bordão. Desapareceu, ingloriamente, a contraprima. Sobre prima, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora diz que é «a primeira e a mais delgada corda de alguns instrumentos musicais», e sobre bordão, que é a «corda grossa que, em alguns instrumentos musicais, produz sons graves». Em francês, a prima corresponde o termo chanterelle, la «première corde, la plus fine et la plus aiguë dans un instrument à manche».

 

[Texto 7627]

Helder Guégués às 21:31 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «tempérie»

Já tivemos

 

      Por vezes, lamentamos não ter em português, ao contrário do que sucede na língua inglesa, uma palavra para designar a sucessão de momentos em que ocorrem os acontecimentos (tempo) diferente da palavra para nos referirmos às condições da atmosfera em dado momento (tempo). Pois bem, já tivemos, como também em castelhano, e quase milagrosamente ainda subsiste nos dicionários ­— é tempérie. No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «antiquado condição atmosférica tendo em conta a quantidade de calor e humidade». No Dicionário da Real Academia Espanhola, temperie: «Estado de la atmósfera, según los diversos grados de calor o frío, sequedad o humedad.»

 

[Texto 7626]

Helder Guégués às 21:21 | comentar | favorito
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25
Mar 17

Léxico: «mono-, bi-, tri- e tetracilíndrico»

Só «monocilíndrico»?

 

      A última vez que li a palavra tricilíndrico foi... hoje: «E é por isso que a SIVA aposta no motor tricilíndrico 1.0 de 110cv estreado no Polo, tendo criado para o Golf um subnível Trendline Pack, visando clientes particulares, que, já com um certo nível de equipamento, tem um preço de campanha de 22.900€ (preço-base, 24.529€), sendo o Golf mais acessível» («Volkswagen Golf 2017. Mais equipamento e aposta na gasolina», João Palma, «Fugas»/Público, 25.03.2017, p. 29). Sim, agora vejo-a de quando em quando. Devia, por isso, ir para os dicionários? Não sei, mas acho um pouco estranho que no Dicionário de Italiano-Português da Porto Editora a bicilindro façam corresponder apenas «de dois cilindros», porque podiam perfeitamente traduzir por bicilíndrico, que li pela última vez também no Público, a 25 de Janeiro, a propósito da espantosa BMW nineT Scrambler. Os argumentos decisivos para dicionarizar estes adjectivos são, então, usarem-se e aquele dicionário registar já monocilíndrico. Faltam, pois, bicilíndrico, tricilíndrico e tetracilíndrico.

 

[Texto 7625]

Helder Guégués às 22:11 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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Tradução: «pharmacien chimiste»

Ainda é assim?

 

      O pai era «pharmacien chimiste et travaillait dans la recherche». Acho que em português nunca tinha visto. Sim, farmacêutico-químico — como a Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira o grafa: «O curso universitário da Faculdade de Farmácia dá o título de farmacêutico-químico e os graus de licenciado e doutor em Farmácia» (vol. X, p. 946). Mas isto era na década de 50.

 

[Texto 7623]

Helder Guégués às 17:46 | comentar | favorito
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Léxico: «desomorfina»

A pior de todas

 

      «É coordenada por investigadores portugueses a única equipa que já desenvolveu métodos laboratoriais para analisar a “krokodil” e detectar a sua presença no sangue e na urina. Esta droga, altamente destrutiva, tem como principal componente psicoactivo o opióide semi-sintético desomorfina. Foi detectada há uma década na Rússia. […] Os efeitos aditivos [sic] e tóxicos da droga — conhecida por “krokodil” por causa da aparência escamosa e esverdeada que provoca na pele dos consumidores depois de administrada por via intravenosa — “são muito graves e imediatos após a primeira toma, como a descoloração da pele e o aparecimento de úlceras, necrose e flebites e, no limite, podem levar à amputação dos membros”» («Já há um método para analisar e detectar a perigosa “krokodil”», Susana Pinheiro, Público, 25.03.2017, p. 23).

      Inventada, sintetizada, em 1932, nos Estados Unidos, o nome deste derivado da morfina — e dez vezes mais potente do que a morfina — já está capaz de ir para os dicionários.

 

[Texto 7620]

Helder Guégués às 11:06 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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24
Mar 17

Léxico: «crédito malparado»

Mas não sabem

 

      «Ainda recentemente, em declarações ao PÚBLICO, António Esteves, ex-Goldman Sachs, que apresentou uma proposta informal ao Banco de Portugal e ao Ministério das Finanças para comprar o crédito malparado no balanço dos bancos, estimou em dois mil milhões os empréstimos em moratória (cujo reembolso ou pagamento de juros decorre fora dos prazos, em dívida a mais de 90 dias), conhecidos por non performing loans (NPL, na sigla em inglês), no balanço do banco Montepio» («Valor do Montepio na Mutualista dificulta entrada de parceiros», Cristina Ferreira, Público, 21.03.2017, p. 16).

      De caminho, até ficamos a saber como se diz em inglês (olá, legião). O pior é que não está nos dicionários gerais da língua, e não será ousadia prever que a esmagadora maioria dos leitores de jornais não fazem a mínima ideia do seu significado.

  

[Texto 7617]

Helder Guégués às 14:12 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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