20
Jul 17

«Judicialista», de novo

Já são muitas

 

      «A condenação de Lula da Silva, o referendo anti-Maduro na Venezuela e a radicalização do regime turco de Taayp Erdogan foram temas em destaque no Fora da Caixa desta semana, com Pedro Santana Lopes e António Vitorino. “A onda judicialista só existe porque os sistemas estão degradados”, afirma o antigo comissário europeu António Vitorino» («“Onda judicialista só existe porque os sistemas estão degradados”», Rádio Renascença, 19.07.2017).

   Já a vimos aqui, e o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora continua a ignorá-la. Aqui vimos outra, juridismo, mal usada pelo eurodeputado Paulo Rangel (que um dia virá aqui explicar-nos o que pretendeu dizer), que aquele dicionário não regista (e faz bem, pois não se sabe o que significa exactamente), como não regista juridicismo.

 

[Texto 8042]

Helder Guégués às 13:29 | comentar | ver comentários (6) | favorito
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Síndrome do imperador

Este é bem conhecido

 

     «O juiz considerou que “os actos foram pontuais e devido a provocação por parte do menor”. O magistrado entendeu que a atitude da criança deve ser seguida por especialistas pois necessita de “correcção imediata”, uma vez que aparenta sinais de “síndrome de imperador”, isto é, resiste às ordens dos pais ou de terceiros, podendo adoptar comportamentos violentos» («Criança espanhola processa mãe por ter levado um estalo», Rádio Renascença, 20.07.2017, 7h23).

    O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, que regista cinco síndromes — das centenas que existem? —, não conhece esta que é, afinal, das mais conhecidas, pelo menos dos pais.

 

[Texto 8041]

Helder Guégués às 09:57 | comentar | ver comentários (5) | favorito
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19
Jul 17

Léxico: «biliverdina»

Não é bem isso

 

      Na Escócia, uma golden retriever pariu vários cachorrinhos, um deles verde, o que raramente acontece. A cor, que se irá desvanecendo, é-lhe dada pela biliverdina, o nome do pigmento que é resultado da oxidação da bilirrubina. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora diz-nos que é o «pigmento biliar derivado da bilirrubina, abundante nos carnívoros». Não é bem assim: encontra-se biliverdina na casca dos ovos das aves e na placenta das cadelas.

 

[Texto 8040]

Helder Guégués às 19:53 | comentar | favorito
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18
Jul 17

Léxico: «embastilhar»

Cada vez menos

 

      O marechal François de Bassompierre (1579-1646), de origem alemã, que servira com brilho Henrique IV e Luís XIII, «fut embastillé par Richelieu en 1631». Embastiller é encarcerar na Bastilha, célebre fortaleza em Paris, e, por extensão de sentido, em qualquer prisão. No caso de Bassompierre, foi mesmo na Bastilha, onde permaneceu doze anos. Alguns dicionários de língua portuguesa — mas não o da Porto Editora — registam o verbo embastilhar, com o mesmo significado.

 

[Texto 8039]

Helder Guégués às 16:54 | comentar | favorito
17
Jul 17

Léxico: «presidencialização»

Está na hora, não?

 

      Anda muita gente a falar do risco da presidencialização do sistema de governo. Alheio a tudo isto está o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, que não regista o vocábulo presidencialização.

 

[Texto 8038]

Helder Guégués às 20:13 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Léxico: «palmiê»

Francês, e não do melhor

 

      «Na Baía de Cascais já não se avista só ao longe um barco a arder. Agora, está cheia a pão e bolos frescos. É assim a nova pastelaria francesa da vila — a Paul — que abriu este sábado, 15 de julho, mais um espaço em Portugal com uma elegante vitrine carregada de boas sugestões. Croissants, parmiers, pain au chocolat ou tartelettes. Tudo bons motivos para passar por lá à primeira oportunidade» («Paul: a pastelaria francesa à conquista de Cascais», Adriano Guerreiro, NiT, 17.07.2017, 13h34).

      Devem pensar, por qualquer motivo que teimosamente me escapa, que o itálico não foi feito para a Internet. Bolaria francesa, apenas — mas todos podem ter nome português ou aportuguesado. (O quê, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não regista bolaria?!) Será que o infame palmier também resiste ao aportuguesamento? Sim, porque o escriba atrapalhou-se, era isto que queria escrever. Mas até Saramago já usou o aportuguesamento «palmiê». Andam distraídos.

 

[Texto 8036]

Helder Guégués às 19:03 | comentar | ver comentários (1) | favorito

Léxico: «crenco»

Esquecem meia bicicleta

 

      Ontem fui ao aniversário do Quico, na Margem Sul. Ah, vocês não conhecem... Mas quico: o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora ainda não registou um aportuguesamento como este que é usado há muito (falámos aqui dele). Devem preferir que se escreva e diga kick ou kick-starter. Outro aportuguesamento usado todos os dias e que aquele dicionário também não regista: crenco. Estão a ver do que se trata? É cada uma das peças que se vai encaixar no pedaleiro e a que se fixam os pedais, nas bicicletas. Adivinharam: vem do inglês crank. E, contudo, regista cranque, do mesmo étimo, «eixo mecânico em forma de cotovelo».

 

[Texto 8033]

Helder Guégués às 12:35 | comentar | ver comentários (5) | favorito
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16
Jul 17

Acepção: «dezena»

Pouco católico

 

      «Maria do Castelo explica que o projecto é de cariz comunitário, uma vez que as “irmãs ensinaram os Amigos do Mosteiro a fazer Dezenas e nós, agora, ensinamos as pessoas”. Essas Dezenas são, posteriormente, colocadas em pequenos sacos juntamente com uma pagela adequada a cada Mistério do Terço» («Monjas de Belém. A obra que cresce no silêncio da natureza», Rosário Silva, Rádio Renascença, 14.07.2017, 11h44).

      Dezena, pois, mas não perguntem o que é ao Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. É claro que não se escreve com maiúscula inicial. Os jornalistas até são meninos para escreverem «deus» e «Dezena». Para não ir mais longe: no título do artigo está «natureza» com minúscula, quando é tradição e boa prática grafá-lo, nesta acepção, com maiúscula.

 

[Texto 8030]

Helder Guégués às 11:31 | comentar | ver comentários (1) | favorito
15
Jul 17

Acepção: «exoesqueleto»

Já foi

 

      «Os dois primeiros exoesqueletos produzidos em Portugal foram apresentados no Centro de Reabilitação do Norte, em Valadares, Vila Nova de Gaia, para recolher contributos dos profissionais daquela área» («Primeiros exoesqueletos portugueses apresentados no Centro de Reabilitação do Norte», Rádio Renascença, 14.07.2017, 18h25).

      Exoesqueleto (ou exosqueleto) há muito que já não é somente aquilo que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora e outros dicionários dizem.

 

[Texto 8027]

Helder Guégués às 09:32 | comentar | ver comentários (1) | favorito
14
Jul 17

«Baseball/beisebol/basebol»!?

Chegam duas, ou até uma

 

      Sim, concordo: faz muita impressão escrever-se icebergue, um semiaportuguesamento, e ler-se /ajsəˈbɛrɡ(ə)/. Para isso, contudo, há remédio: escrever aicebergue, que se lê da mesma maneira, /ajsəˈbɛrɡ(ə)/. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista ainda uma terceira (!) forma, iceberg, o termo inglês. Semelhantemente, também faz impressão escrever-se basebol e ler-se /bɐjzəˈbɔɫ/; mais uma vez, para isso há remédio: escrever beisebol. E novamente o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista ainda uma terceira (!) forma, baseball, o termo inglês. Salvo melhor opinião, as formas em inglês não fazem sentido nenhum neste dicionário. Alguém procura nele, por exemplo, «football»? Mas há aqui diferenças: em «beisebol» remete para «basebol», mas em «aicebergue» não remete para «icebergue». A meu ver, uma vez que já não são o que eram, as remissões têm de ser sempre mútuas; um dicionário bom também diria sempre qual a forma preferencial. Esse seria um dicionário para os nossos dias.

 

[Texto 8026]

Helder Guégués às 18:38 | comentar | favorito

Léxico: «progesterónico»

Dizer tudo

 

      «Os hospitais portugueses autorizados para a realização de abortos adquiriram nos últimos dez anos 134.564 comprimidos de mifepristona, conhecida como “pílula abortiva”, desde que a interrupção da gravidez até às dez semanas foi despenalizada» («Dez anos de despenalização do aborto. Hospitais compraram 130 mil pílulas abortivas», Rádio Renascença, 14.07.2017, 10h15).

     Só vamos encontrar mifepristona no Dicionário de Termos Médicos da Porto Editora («Fármaco antigestacional, administrado por via oral, exclusivamente em meio hospitalar, que tem uma ação antiprogesterónica»), o que pode não ser o mais acertado, pois o leitor comum vai procurá-lo apenas no Dicionário da Língua Portuguesa. Seja como for, as dificuldades não acabam aí: neste dicionário não encontrará progesterónico nem, embora menos útil, antiprogesterónico. E mais: eu acrescentaria, porque o dicionário não é para farmacêuticos, que o fármaco é vulgarmente conhecido como pílula abortiva.

 

[Texto 8025]

Helder Guégués às 18:06 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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