26
Abr 17

Léxico: «narigueira»

Milhares as esquecidas

 

      Creio que os elmos tinham narigueira, e os dicionários brasileiros também acolhem a palavra, que, no caso, designa um adorno de penas que atravessa o septo nasal, usado pelos índios. Cá, todavia, os dicionários ignoram a palavra. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista apenas o adjectivo narigueiro, «relativo a nariz». E, no entanto, a palavra é usada, e com mais frequência do que se possa pensar, para designar a peça, de borracha ou napa, dos capacetes que serve para diminuir o embaciamento da viseira. Assim como queixeira, a parte do capacete que protege o queixo, também não está nos dicionários. Mais uma vez, só o adjectivo queixeiro, «designativo do dente do siso». Para os dicionários, é como se o mundo não mudasse.

 

[Texto 7751]

Helder Guégués às 10:51 | comentar | favorito
Etiquetas: ,
25
Abr 17

Léxico: «musealização»

Mais um passo

 

      «Está também prevista a execução de camarins, redes de iluminação, telecomunicações, hidráulicas, sistema de AVAC (aquecimento, ventilação e ar condicionado), melhoria da eficiência energética e ambiental, bem como musealização e promoção da estrutura arqueológica» («Chaves. Maiores termas romanas da Península Ibérica abrem em 2018», Olímpia Mairos, Rádio Renascença, 24.04.2017, 14h42).

   Se já regista o verbo musealizar, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora tem de dar o passo seguinte, que é acolher o substantivo musealização. Também seria útil registar o acrónimo AVAC.

 

[Texto 7749]

Helder Guégués às 13:33 | comentar | favorito
Etiquetas: ,
24
Abr 17

Léxico: «verme da Guiné»

Falta o melhor

 

      A Organização Mundial da Saúde anunciou recentemente avanços sem precedentes na luta contra dezoito doenças tropicais neglicenciadas, entre elas a dengue, verme da Guiné e doença do sono. Infecção pelo verme da Guiné... pois é... Nos dicionários, nada. Ou melhor, só sinónimos, quando, porventura, será aquela a designação mais usada entre nós. No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, dois: dracunculose e dracontíase; no Dicionário de Termos Médicos, outro, dracunculíase. Falta, pois, registá-los a todos no Dicionário da Língua Portuguesa, acrescentar a designação em epígrafe, fazer remissões mútuas em todos os sinónimos e uniformizar a definição.

 

[Texto 7748]

Helder Guégués às 10:47 | comentar | favorito
Etiquetas: ,

Léxico: «variador»

Em nenhum

 

      A transmissão das motos automáticas é composta por três elementos principais: variador, embraiagem e correia. O variador, em si mesmo, que fica no eixo da cambota, é composto de várias peças. Os motores de indução também têm variador de velocidade, que, como o nome indica, é um dispositivo usado para regular a velocidade, isto porque um motor de indução de corrente alternada é um motor de velocidade constante. Com o variador, obtém-se uma considerável poupança de energia. Ora, variador não está nos dicionários. Em nenhum, não apenas no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora.

 

[Texto 7747]

Helder Guégués às 10:35 | comentar | favorito
Etiquetas: ,
23
Abr 17

Léxico: «asférico» e «ângulo morto»

Só no francês?

 

      Desisti da Piaggio MP3 500 LT. Pelo que li, a assistência pós-venda pode ser um pesadelo. E da Quadro3, que experimentei ontem, não gostei tanto quanto esperava, mas há-de ser porque a moto experimentada já foi maltratada por todos os jornalistas que escrevem sobre estes veículos. E, claro, assistência nem vê-la, também. Que resta? Dizem bem da assistência de tudo o que vem do Oriente, mas a minha escolha não vai para aí. BMW C Evolution. Vejo que tem, como opção, espelhos asféricos, que anulam quase completamente o ângulo morto. Claro que uma moto do preço desta devia ter, isso sim, assistente de ângulo morto. Pois bem, asférico só no Dicionário de Francês-Português da Porto Editora (asphérique: asférico), e ângulo morto é locução ignorada dos dicionários.

 

[Texto 7746]

Helder Guégués às 21:55 | comentar | favorito
Etiquetas: ,

Léxico: «dessalinizador»

Desalinhados

 

      «Manolo Vidal, porta-voz da Naviera Armas, empresa proprietária do ferry, afirmou que “uma perda de eletricidade” repentina causou o acidente, quando o barco estava a deixar Puerta de la Luz, na ilha da Grande Canária, na sexta-feira à noite. […] Em relação ao derrame de combustível, este está a escassos quilómetros da principal empresa dessalinadora que abastece de água potável a capital» («Ferry embate num porto das ilhas Canárias e causa 13 feridos», Lusa/TSF, 22.01.2017, 20h28).

    É o que se lê em vários jornais — e porquê? Ora, porque em castelhano é desaladora, e os jornalistas não pensam duas vezes. Nem uma, aliás. O verbo não é dessalinar, mas dessalinizar, logo é dessalinizadora. Há muitas décadas que há dessalinizadores (substantivo) e estações dessalinizadoras (adjectivo) em Portugal e no mundo, convinha que todos os dicionários, e nomeadamente o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, os registassem.

 

[Texto 7745]

Helder Guégués às 10:19 | comentar | favorito
Etiquetas: ,
22
Abr 17

Léxico: «dirofilariose»

Doença do verme do coração

 

      «A husky encontrava-se infectada por uma doença parasitária, uma dirofilariose ou “verme do coração”, em que larvas transmitidas por mosquitos se acabam por alojar nas artérias pulmonares e no coração. Trata-se de uma patologia que exige repouso e cuidados» («Condenado a pena suspensa por enterrar cadela viva», Ana Henriques, Público, 22.04.2017, p. 17).

      Não deixa de ser estranho não a encontrarmos no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, porque, afinal, é uma doença parasitária grave que, além de cães e gatos, também atinge o ser humano. A etimologia diz tudo: é uma filariose (filaríase), isto é, uma doença provocada por filárias, e é diro, adjectivo antigo, do latim dīrus, que significa terrível, desumano, cruel.

 

[Texto 7744]

Helder Guégués às 14:50 | comentar | favorito
Etiquetas: ,
21
Abr 17

Léxico: «alauita»

Usada, mas ignorada

 

      «Para Moscovo, Assad não é o mais importante, fundamental é reassumir-se como potência e preencher um vazio que os EUA começaram a abrir, como a União Soviética tinha preenchido no seu auge. Para o Irão, é mais difícil deixar cair o ditador sírio, mas o que conta mesmo é manter os alauitas (xiitas como os iranianos) no poder» («Assad sobreviveu a Obama e o novo mundo assenta-lhe bem», Sofia Lorena, Público, 23.01.2017, p. 21).

      Não o encontramos no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, isto quando está em muitos outros, e, naturalmente, nos dicionários de outras línguas. Atenção às duas acepções. E quem regista alauita, é claro, tem de registar alauismo.

 

[Texto 7742]

Helder Guégués às 12:08 | comentar | favorito
Etiquetas: ,
20
Abr 17

Léxico: «descompasso ecológico»

Antes que seja tarde

 

      E a propósito de alterações climáticas e políticas de desenvolvimento sustentável: ontem ouvi por duas vezes a expressão descompasso ecológico. É o nome que se dá ao uso de recursos a velocidade superior à capacidade de regeneração e à criação de resíduos como CO2 a velocidade superior à capacidade de absorção, o que leva ao esgotamento de recursos. Quanto mais depressa for para os dicionários, menos provável — e menos legítimo — será os traidores da língua usarem a expressão inglesa ecological overshoot.

 

[Texto 7741]

Helder Guégués às 23:35 | comentar | ver comentários (1) | favorito

Léxico: «chocalheira-intermédia»

Toca a bulir

 

      Ah, os nomes comuns das plantas nos nossos dicionários... A mulher de Heidegger mandou Zittergras para Hannah Arendt... Que querida! Bem, mas o Zittergras desapareceu. É o nosso — e está nos dicionários — bole-bole, ou bule-bule. Só que também é conhecido por outros nomes comuns (o científico é Briza media), dos quais o mais curioso é chocalheira-intermédia, ausente dos dicionários. Ora esta! Aliás, também se lhe dá o nome de brisa, e muito bem, pois à mínima brisa toda ela treme. (Expressivo também em inglês, quaking grass.) Agora reparem: o mesmo para outros, mas o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não tem chocalheira-intermédia nem brisa, isto quando o Dicionário de Inglês-Português regista «brisa» nesta acepção. Isto carece de algum estudo aturado ou de algum referendo para ser consagrado nos dicionários, como alguns gostariam? Não fazem nem deixariam fazer, se tivessem poder para tal.

 

[Texto 7739]

Helder Guégués às 19:33 | comentar | ver comentários (1) | favorito
Etiquetas: ,