28
Mar 17

Ainda a hipoxia

Distingamos

 

      Reporto-me sempre ao Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Em hipoxemia, remete sem mais para hipoxia: «MEDICINA diminuição do teor de oxigénio no sangue». Mas não são sinónimos puros, como se pode comprovar em vários sítios, e nomeadamente no Portal da Codificação Clínica e dos GDH: «A hipoxemia é a deficiente oxigenação do sangue (pressão parcial do oxigénio) e acompanha a agudização de várias doenças respiratórias como a DPOC e o ARDS. Distingue-se da asfixia, uma condição de deficiência grave do fornecimento de oxigénio ao corpo. A hipoxia é sinónimo de hipoxemia, embora se refira mais ao status ou resultado da hipoxemia.» Se se pode fazer uma distinção, não são sinónimos, são termos próximos, relacionados. Mais: de hipoxemia regista-se o adjectivo hipoxémico, mas falta — e é usado, como se pode comprovar facilmente — o adjectivo derivado de hipoxia, hipóxico.

 

[Texto 7636]

Helder Guégués às 09:19 | comentar | favorito
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Léxico: «hipoxia»

Não é no sangue

 

      «Mas a morte dos corais não é exclusiva da Grande Barreira de Coral. Na semana passada, a revista Proceedings of the National Academy of Sciences [PNAS] publicou um estudo que mostra como a má qualidade da água pode degradar as zonas costeiras e originar níveis de oxigénio muito baixos (hipoxia), provocando assim “zonas mortas” e, por arrasto, os corais são afectados. A poluição (por águas de esgotos ou agrícolas) e o aquecimento global são as causas apontadas. […] Na costa portuguesa, onde os corais estão em águas temperadas, há três lugares com hipoxia assinalados no estudo de Andrew Altieri: a ria de Aveiro, o rio Mondego e a ria Formosa, segundo disse o investigador» («Corais. Estão a morrer e a culpa é nossa», Teresa Serafim, Público, 28.03.2017, p. 29).

      É claro que não se trata da única acepção registada no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «MEDICINA diminuição do teor de oxigénio no sangue». E mesmo quanto a esta acepção, os dicionários de língua inglesa falam de oxigénio nos tecidos, não no sangue (embora esteja directamente relacionado, naturalmente). No artigo, a acepção é um pouco diferente, e encontramo-la, por exemplo, nos Oxford Dictionaries: «Oxygen deficiency in a biotic environment.»

 

[Texto 7635]

Helder Guégués às 08:44 | comentar | favorito
27
Mar 17

Léxico: «backdoor»

Outros tempos

 

      «As agências de segurança governamentais têm como principal objetivo a segurança da população do seu país. Com o aumento de ferramentas mais seguras para comunicações escritas, orais ou visuais, alguns governos, uns de forma clara, outros de forma mais obscura, obrigam a criação de acessos alternativos à informação. A ideia por detrás destas imposições é que exista uma backdoor que, em caso de um atentado à segurança nacional, seja possível que se ceda as conversas de um cidadão específico a pedido da agência governamental» («Espionagem online e privacidade», Pedro Tarrinho, Público, 19.04.2015, p. 54).

      É o excerto de um texto de 2015, mas cada vez ouço e leio mais a palavra backdoor, nos últimos dias relacionada com o atentado de Londres e o acesso ao WhatsApp que, em certas circunstâncias, o Governo britânico quer ter. Este textinho só serve para lembrar que está na hora de os dicionários bilingues darem conta destas acepções. Para o Dicionário de Inglês-Português da Porto Editora, backdoor ainda só tem acepções da era pré-tecnológica: «porta das traseiras; porta de serviço». Talvez desta última acepção se pudesse forjar uma nova, atinente ao que estamos a tratar, mas melhor será, porventura, dizer que se trata de um programa informático concebido para permitir o acesso secreto e remoto a um dispositivo informático. Aceitam-se, contudo, outras sugestões.

 

[Texto 7634]

Helder Guégués às 22:42 | comentar | favorito

Léxico: «borboletário»

Não pode ficar de fora

 

      «Passeámos num borboletário onde voavam centenas de borboletas e no agitadíssimo mercado que conserva o nome antigo de Ver o Peso» (Uma Aventura na Amazónia, Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada. Alfragide: Editorial Caminho, 2009).

      A propósito de fluviário, o leitor Nuno lembrou aqui a palavra borboletário, que também não está registada no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, que, contudo, acolhe, entre outras, ranário, serpentário, etc. Recentemente, li num livro em inglês butterfly building, o que pode indiciar que naquela língua não há uma palavra própria para designar borboletário.

 

[Texto 7632]

Helder Guégués às 19:53 | comentar | favorito
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Léxico: «cowork»

É o que me parece

 

      «Cowork é um termo que já faz parte do vocabulário de muitos empreendedores e empresários. Um modelo de partilha do espaço e dos recursos de um escritório, que tem vindo a crescer e que procura acompanhar, explica ao Destak Ana Redondo, Global Manager do LEAP, um centro em Lisboa que tem este tipo de oferta, as mudanças no mercado de trabalho, onde “mobilidade e flexibilidade” são palavras de ordem» («Novos conceitos de trabalho», Carla Marina Mendes, Destak, 27.03.2017, p. 13).

      É certamente muito mais usado do que outros estrangeirismos com direito de asilo nos nossos dicionários. Como o grafaria a Infopédia, que no Dicionário de Inglês-Português regista co-worker, por exemplo? 

 

[Texto 7631]

Helder Guégués às 19:25 | comentar | favorito

Léxico: «orquidófilo»

Elas merecem

 

      Na semana passada, falámos aqui de orquidário. A de hoje está relacionada: «E outros nomes vão surgindo nesta vida de orquidófilo» («O ex-caçador que ressuscita orquídeas», Sara Dias Oliveira, Notícias Magazine, 26.03.2017, p. 41). Encontro-a em vários dicionários, mas não está no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. E quem diz orquidófilo, é claro, também diz orquidofilia.

 

[Texto 7629] 

Helder Guégués às 19:14 | comentar | favorito
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26
Mar 17

Léxico: «tufado»

Também na nossa

 

      Era uma embalagem de puffed hearts, um cereal tufado em forma de corações. Mas podia ser de puffed rice, puffed corn, puffed millet, puffed wheat... Sendo um produto português, devia estar escrito em português. Acontece que tufado não está no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, e ajudava muito que lá estivesse registado, pois é também adjectivo, e não somente particípio. Aliás, até está na Infopédia: nos dicionários de português-francês, português-italiano, português-inglês. As tais pontas soltas.

 

[Texto 7628]

Helder Guégués às 21:41 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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E a contraprima?

Esqueceram-na

 

      Ah, mais palavras que desapareceram... Há violas com diferente número de cordas, e nem sei mesmo se os especialistas se entendem, matéria de que não nos vamos agora ocupar. Certo é que, na descrição da viola, o P.e Rafael Bluteau nomeia cada uma das cinco cordas: primeira, segunda, corda prima, contraprima e bordão. As duas primeiras não contam, naturalmente, mas, das restantes, os actuais dicionários só registam prima e bordão. Desapareceu, ingloriamente, a contraprima. Sobre prima, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora diz que é «a primeira e a mais delgada corda de alguns instrumentos musicais», e sobre bordão, que é a «corda grossa que, em alguns instrumentos musicais, produz sons graves». Em francês, a prima corresponde o termo chanterelle, la «première corde, la plus fine et la plus aiguë dans un instrument à manche».

 

[Texto 7627]

Helder Guégués às 21:31 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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25
Mar 17

Léxico: «mono-, bi-, tri- e tetracilíndrico»

Só «monocilíndrico»?

 

      A última vez que li a palavra tricilíndrico foi... hoje: «E é por isso que a SIVA aposta no motor tricilíndrico 1.0 de 110cv estreado no Polo, tendo criado para o Golf um subnível Trendline Pack, visando clientes particulares, que, já com um certo nível de equipamento, tem um preço de campanha de 22.900€ (preço-base, 24.529€), sendo o Golf mais acessível» («Volkswagen Golf 2017. Mais equipamento e aposta na gasolina», João Palma, «Fugas»/Público, 25.03.2017, p. 29). Sim, agora vejo-a de quando em quando. Devia, por isso, ir para os dicionários? Não sei, mas acho um pouco estranho que no Dicionário de Italiano-Português da Porto Editora a bicilindro façam corresponder apenas «de dois cilindros», porque podiam perfeitamente traduzir por bicilíndrico, que li pela última vez também no Público, a 25 de Janeiro, a propósito da espantosa BMW nineT Scrambler. Os argumentos decisivos para dicionarizar estes adjectivos são, então, usarem-se e aquele dicionário registar já monocilíndrico. Faltam, pois, bicilíndrico, tricilíndrico e tetracilíndrico.

 

[Texto 7625]

Helder Guégués às 22:11 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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Léxico: «estatina»

Deusas e doenças

 

      E a propósito de farmacêuticos: na semana passada, uma pessoa que estava a ler um jornal inglês perto de mim perguntou-me o que eram statins. Disse-lhe que em português se diz estatinas e, do que eu sabia, o que fazem. Honestamente, creio ter dito mais do que fazem os dicionários, e não acabara de ler a Terapêutica Dermatológica de Stephen E. Wolverton. «QUÍMICA fármaco usado para controlar os níveis de colesterol», lê-se no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Não apenas se diz, actualmente, que o mais provável é que a capacidade das estatinas para baixar a inflamação é que traz benefícios e não a capacidade de baixarem o colesterol, como se conhecem os seus efeitos benéficos sobre o sistema imunitário, o sistema nervoso central e os ossos. Ou seja, pode dizer-se muito mais sobre as estatinas. Sobre o seu uso exagerado na prevenção primária, os muitos efeitos secundários e riscos, um dicionário geral da língua não tem de falar.

    O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora apresenta ainda, neste verbete, outro problema: a etimologia. Indica que provém «Do latim Statina, “divindade”». Isso só é verdade para a primeira acepção: 1. MITOLOGIA divindade invocada na Antiguidade romana quando as crianças davam os primeiros passos». Estatina vem de mevastatin, o nome que o bioquímico japonês Akira Endō deu a esta primeira estatina, e depois -statin passou a sufixo de todas as estatinas. O que já é verdade é que o nome da deusa romana está ligado à raiz indo-europeia stā-, «estar, manter-se de pé», o mesmo acontecendo com o sufixo -statin. Quem souber mais, fale agora ou cale-se para sempre.

 

[Texto 7624]

Helder Guégués às 18:58 | comentar | ver comentários (1) | favorito