15
Abr 17

«O Santana»

Ou amigalhaços

 

    «Treze anos depois, Sampaio explicou melhor: ‘fartei-me do Santana’, disse ele, com aquela elegância de tratamento (‘o’ Santana) que é o melhor auto-retrato de Sampaio» («História negra», João Pereira Coutinho, Correio da Manhã, 19.03.2017, p. 52).

    Pois, mas não falta quem defenda esta forma de tratamento, e então é «o Camões» para aqui, «o Camões» para ali, «o Marcelo» para aqui, «o Marcelo» para ali, como se se tratasse de irmãos mais novos. Em casa, muito bem; mas quando chegam às editoras e acham isto normal?

 

[Texto 7721]

Helder Guégués às 19:02 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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11
Abr 17

Assim se vê a força das palavras

Lá vai

 

      Por vezes, mudar o k para c não resolve nada: até piora tudo. O próximo SUV da Hyundai vai ter em Portugal o nome Kauai, mas no resto do mundo será Hyundai Kona. Enfim, se ficarmos mal é pelo veículo em si, porque Kauai e Kona são, respectivamente, uma ilha e uma região do Havai, ou seja, é mais ou menos igual ao litro.

 

[Texto 7701]

Helder Guégués às 22:21 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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«Quarteirão de sardinhas»

Ou de laranjas

 

      «Não se preocupe. O pior que lhe pode acontecer é ter de pagar um pouco mais por quarteirão porque a escassez do peixe faz disparar o preço. E deve também fazer disparar a consciência» («170 gramas por dia. Portugueses são os maiores consumidores europeus de peixe», André Rodrigues, Rádio Renascença, 11.04.2017).

      Li algures, creio que numa gramática, que quarteirão só se usa para contar sardinhas, mas não é assim. A infalível Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira afiança-nos que é para sardinhas e para laranjas.

 

[Texto 7700]

Helder Guégués às 21:49 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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07
Abr 17

Léxico: «lambrusco»

Cá está, frisante

 

      «Sessenta rapazes da escola hoteleira Nazareno de Carpi cozinharam para ele e mais 320 convidados tortellini, lombo de porco no forno com batatas salteadas e tortelli al savòr, a compota local de mosto de uva e fruta; tudo acompanhado por vinho lambrusco rosé da Cantina di Carpi e Sorbara, etiqueta “Piazza Martiri”» («Francisco entre a gente mais forte que o terramoto», Serena Arbizzi, O Meu Papa, ed. n.º 2, 7.04.2017, p. 12).

      Apenas o encontramos no Dicionário de Italiano-Português da Porto Editora, mas não é raro vê-lo em textos em língua portuguesa, e até não assinalado como estrangeirismo, o que me parece bem. É o vinho italiano, branco, tinto ou rosé, frisante, produzido sobretudo em Módena e na Emília-Romanha, que sofre uma segunda fermentação na garrafa. Torta, tortelli, tortelloni, tortellini... O Dicionário de Italiano-Português da Porto não regista tortelli; tortelli al savòr «è una specie di marmellata, tipica della provincia di Modena, preparata senza zucchero con frutta mista e ortaggi cotti nel mosto».

 

[Texto 7687]

Helder Guégués às 18:03 | comentar | ver comentários (1) | favorito
06
Abr 17

Léxico: «sagrado»

Mais curto e claro

 

     «O primeiro encontro de Francisco [em Milão], contudo, é com os bispos lombardos, que o saúdam no sagrado» («Primeiro encoraja os religiosos, depois reza na praça», Enrico Casarini, O Meu Papa, ed. n.º 1, 31.03.2017, p. 10).

    É sem surpresa que a encontramos cada vez menos nas nossas sociedades descristianizadas. Está, porém, no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, mas a definição precisa de um retoque: «terreno benzido de adro ou cemitério». Dizer-se simplesmente «adro» não chega, pois adros há muitos, e nem todos são de igreja. Tem, por isso, de ser adro de igreja. E não tem de se dizer que é o terreno benzido, pois por definição o adro de uma igreja é um local sagrado. Quanto a cemitério, não tem esta palavra como sinónimo campo-santo?

 

[Texto 7685]

Helder Guégués às 22:33 | comentar | favorito

«À discrição»

Cá em baixo vê-se no dicionário

 

      «Ao lanche, há [na Casa das Penhas Douradas, Manteigas] bolo à fatia, café, chá e licores, tudo à descrição» («Lá de cima vê-se o mundo», Sara Belo Luís, Visão, 16.02.2017, p. 124).

      Alguns queriam que eu andasse sempre a dizer o mesmo, mas não pode ser, não é? Já me repito demasiado. Nem me podem amarrar a compromissos, nem fazer exigências, devem saber. Quando me apetece, muito bem. Como agora. Então, Sara Belo Luís, a expressão não é à discrição, isto é, à vontade, sem restrições? Tenho a certeza de que algum amigo seu passará por aqui e lhe irá dizer. Se for mesmo amigo.

 

[Texto 7683]

Helder Guégués às 20:32 | comentar | favorito
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Devorava dicionários

De fugir

 

      «A biógrafa [Maria Antónia Oliveira] de Alexandre O’Neill contou, na Manhã TSF, que o poeta colecionava palavras, devorava dicionários, e fazia listas» («Tudo girava à volta das palavras, no mundo de O’Neill», Nuno Domingues, TSF, 6.04.2017, 10h36).

      Alexandre O’Neill ia compreender a minha presente monomania. Mas alguém o tem de fazer, não é assim? Os mais judiciosos chamam-lhe serviço público, e eu não digo que não. Com a Internet cheia de trolls, que escrevem, ainda por cima, num idiolecto louco, não vai havendo onde repousar os olhos.

 

[Texto 7680]

Helder Guégués às 19:55 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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03
Abr 17

Tradução: «news literacy»

Espantoso

 

   «“O anúncio de hoje envia uma forte mensagem de que a alfabetização mediática é importante. Não podemos melhorar apenas a produção de notícias. Necessitamos de nos melhorar a nós próprios, ser melhores e mais ativos como utilizadores, consumidores e criadores de meios”, declarou [Dan Gillmor, professor na Universidade Estadual do Arizona]» («Nasceu a “Integridade das Notícias”», Lusa/TSF, 3.04.2017, 21h42). E no original: «Today’s announcement sends a strong signal that news literacy matters. We can’t upgrade only just the supply of news. We need to upgrade ourselves, to become better, more active media users as consumers and creators.» Quem diria que iam traduzir assim? Muito bem, perdoamos-lhes já alguns dos erros do passado. Sobre o futuro ninguém se pode pronunciar.

 

[Texto 7667]

Helder Guégués às 23:17 | comentar | favorito
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Léxico: «irradiação»

Onde está o Sol?

 

      «O castigo foi retirado da lei desportiva, mas perante o caso, João Paulo Rebelo entende que faz sentido voltar a discutir a irradiação» («Secretário de Estado do Desporto: Regresso da irradiação merece ser discutido», Cristina Lai Men e Miguel Videira, TSF, 3.04.2017, 11h16).

      Ao que parece, os nossos amigos Brasileiros nem sequer sabem o que isto quer dizer. E nós (ou talvez apenas eu e Pacheco Pereira) precisamos sempre de ir ao dicionário verificar.

 

[Texto 7664]

Helder Guégués às 20:57 | comentar | favorito
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01
Abr 17

«Corista/coralista»

Pernas e anjos

 

      Nesta viagem que o Papa Francisco fez a Milão, estavam no Estádio Meazza, em San Ciro, leio na revista O Meu Papa, «9.000 coristas presentes na celebração da missa» (p. 21). Não, mais uma vez, não está errado (excepto o ponto em 9000), são coisas minhas: não posso ler ou ouvir a palavra «corista» que não imagine logo uma fila de pernas lúbricas a dançarem o cancã. Já se ouço ou leio a palavra «coralista», são imagens celestiais que me ocorrem, até um ou outro anjinho adejando em meu redor. Há por aí mais alguém assim?

 

[Texto 7660]

Helder Guégués às 22:00 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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