19
Nov 17

«Rial/riais»

Finalmente

 

      «A Reuters escreve que um empresário já viu dezenas de milhões de riais sauditas retirados da sua conta depois de assinar o acordo, enquanto um ex-responsável político aceitou entregar quatro mil milhões de riais em acções. Segundo explicou à agência de notícias alguém próximo do processo, o Governo congelou várias contas no início da semana e deu instruções para a “expropriação de bens livres de credores”» («Milionários obrigados a entregar milhões a Riad em troca de liberdade», Sofia Lorena, Público, 18.11.2017, p. 34).

    Finalmente, até parecia que no Público nunca mais aprendiam a formar plurais como deve ser. Pois claro, rial/riais. Agora têm de ver se não se esquecem. (Mas não percebo porque não escrevem Riade.)

 

[Texto 8355]

Helder Guégués às 20:27 | comentar | favorito
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16
Nov 17

Como se fala na televisão

Ainda sem nota de imprensa

 

      Grande operação policial no Bairro da Cruz Vermelha, na Alta de Lisboa: 300 inspectores da PJ no local! Terão ido de metro? Como os outros de ontem, agora já constituídos arguidos, também estes se enganaram no prédio, e arrombaram várias portas erradas. O que se diz nestes casos? Talvez ups, não? A SIC Notícias está lá e a repórter Ana Moreira acaba de dizer que «várias casas foram buscadas»...

 

[Texto 8344]

Helder Guégués às 10:22 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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15
Nov 17

«Acto contínuo/em acto contínuo»

Nota de imprensa

 

      Esta madrugada, a PSP matou por engano uma mulher após perseguição na 2.ª Circular. Confundiram as «viaturas»? «Correcto e afirmativo.» O que se diz nestes casos? Talvez ups, não? Nas palavras da PSP: «Esta viatura, durante a fuga, tentou atropelar os polícias, que tiveram de afastar-se rapidamente para não serem atingidos e, em ato contínuo, os polícias foram obrigados a recorrer a armas de fogo. Mais à frente, a viatura voltou a desobedecer à ordem de paragem por outra equipa de polícias, tendo sido intercetada pouco tempo depois.» Em acto contínuo é locução sinónima de acto contínuo, muito mais usada. Por muito que me custe admitir, a polícia tem razão. Já quanto aos tiros e à morte — porque não confirmam mais de uma vez antes de disparar? Agradecíamos.

 

[Texto 8343]

Helder Guégués às 15:15 | comentar | ver comentários (11) | favorito
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13
Nov 17

Léxico: «fogacho»

Fogachos e delíquios

 

      «O relatório do ICNF [Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas] indica um total de 16.981 ocorrências (3.653 incêndios florestais e 13.328 fogachos), com 264.951 hectares de povoamentos e 177.467 hectares de mato ardidos. Até 31 de Outubro de 2017 há registo de 1.446 reacendimentos, menos 8% do que a média anual dos últimos 10 anos» («Mais de 442 mil hectares arderam no pior ano de sempre em Portugal», Rádio Renascença, 13.11.2017, 8h55).

      Eu até pensava que fogacho fosse uma palavra usada só na poesia, parece tão pouco científica, não é?

 

[Texto 8332]

Helder Guégués às 19:13 | comentar | favorito
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10
Nov 17

«Tirar de letra»

Ué!

 

      Afinal, ainda não estamos preparados para ir para o Brasil. Márcia Cabrita, actriz de Sai de Baixo, morreu hoje aos 53 anos. A Rádio Renascença acaba de o noticiar, e publica este excerto de um texto da actriz, que saíra numa revista: «Ao contrário do que muitos fantasiam, não tirei de letra. Não sei o porquê, mas existe uma ideia estapafúrdia de que quem está com cancro tem que, pelo menos, parecer herói.» Das duas, uma: ou o jornalista (são jornalistas que escrevem isto?) passou pela citação como cão por vinha vindimada, ou pensa que as telenovelas brasileiras, ainda que por osmose, nos deram proficiência total sobre as peculiaridades do português do Brasil. Em suma, reveja essas convicções ou esse desleixo. Tirar de letra é resolver/dominar qualquer situação com facilidade, mas só agora o sei.

 

[Texto 8319]

Helder Guégués às 15:17 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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09
Nov 17

Coisas estranhas – I

Enganadoramente nosso

 

      «Recebido com passadeira vermelha quando saiu do Air Force One em Pequim – em contraste com a visita do antecessor, Barack Obama, obrigado a sair pela porta na traseira do avião em 2016 – Trump retomou ontem o bromance (um romance entre irmãos) com o presidente Xi Jinping. Os dois encetaram as boas relações no passado mês de abril durante uma visita do líder chinês e da mulher ao resort do presidente, em Mar-a-Lago, na Florida» («Xi recebe Trump como um imperador. Hoje é dia de discutir a Coreia do Norte», Helena Tecedeiro, Diário de Notícias, 9.11.2017, p. 24).

      Nem sequer em itálico, Helena Tecedeiro? O pobre leitor vai pensar que é português de lei. Francamente. E a explicação está errada. Escreve Sarah Knapton no Telegraph: «The rise of the ‘bromance’ could threaten heterosexual relationships, academics have warned, after discovering that many men find their close male friendships more emotionally satisfying than relationships with women» (12.10.2017, 4h55).

 

[Texto 8314]

Helder Guégués às 18:29 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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07
Nov 17

«Los dedos huéspedes»

Ai, Juan, Juan...

 

      Mas existe algum canto no mundo onde não haja pelo menos uma pessoa com défice cognitivo? Com uma pancada? Era noite e eu velava. Apropriadamente, ouvia na rádio COPE o programa La Noche, de Adolfo Arjona. Às tantas, passam uma mensagem de WhatsApp (Por si quieres dejar notas de audio) de um ouvinte (seria Juan?) que tem vindo a mover céu e terra para descobrir o significado da expressão «los dedos se hacen huéspedes»; em lado nenhum, «ni siquiera en la Internet», o pobre encontrara explicação. Pego no iPad e no DRAE — na mesmíssima Internet — encontro: «antojársele a alguien los dedos huéspedes», que significa «ser excesivamente receloso o suspicaz». E no dicionário de María Moliner encontramos «hacérsele a alguien los dedos huéspedes». Muito difícil...

 

[Texto 8304]

Helder Guégués às 19:32 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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06
Nov 17

Como se fala por aí

Eram dois

 

      Esta aconteceu com o nosso leitor R. A. e inclui gente competente. Alguém deitara fora uns móveis velhos com ferragens para um terreno mal ajardinado perto do prédio onde mora. Sendo uma cidade, não terá um aviso assim: «Proibido botar lixo.» No dia seguinte, dois marmanjos desmembravam os móveis e levavam algumas partes para a bagageira do carro. Apesar de tudo isto ser claríssimo — e um serviço cívico, a meu ver —, R. A. não resistiu e perguntou o que estavam a fazer. «A tirar metal para a sucata. Quem botou isto aqui é que devia ser caço.» Depois digam que só se fala assim no Brasil. Eu, que até gostava de viver uma temporada no Brasil, acho que os meus nervos não iam aguentar ouvir uma frase assim: «O cara foi pego com a mão na massa, carai!» Ou será que, mudado como estou (mudei muito de ontem para hoje), até ia achar graça? Vou pôr-me à prova.

 

[Texto 8300]

Helder Guégués às 19:25 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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01
Nov 17

«Aqui há atrasado»

Mas vamos revivescê-la

 

      «Aqui há atrasado, um amigo jurista garantia-me que se o Ministério Público o acusasse de um crime de homicídio em Bragança, havendo cem testemunhas que garantissem que à hora do crime ele estava em Vila Real de Santo António, a primeira coisa que faria era fugir do país o mais depressa possível» («O maior problema da nossa democracia», Pedro Marques Lopes, Diário de Notícias em linha, 29.10.2017, 00h07).

    Pedem-me que comente o uso da expressão aqui há atrasado. Obedeço. Começar por dizer que não a aprecio nem a usaria, não é útil a ninguém. Já garantir que está correcta, que o seu uso sempre foi circunscrito e hoje em dia quase ninguém a emprega, isso já tem utilidade. «Conta-se que um ladrão de sepulturas que aqui há atrasado violou uma campa, morreu logo ali como esganado por mãos invisíveis e à mesma hora lhe ardia a casa de moradia com mulher, filhos e netos lá dentro» (O Prenúncio das Águas, Rosa Lobato de Faria. Porto: Asa, 1999, p. 43).

 

[Texto 8285]

Helder Guégués às 15:40 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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«Observância/observação»

Observem

 

      «Houve quem defendesse o cancelamento da parada de Halloween e a observação do luto. Mas acabou por prevalecer o argumento de que isso seria fazer a vontade ao terrorismo, alterar os hábitos de vida, deixar-se intimidar» («Nova Iorque não se intimidou com maior atentado após o 11 de Setembro», José Alberto Lemos, Rádio Renascença, 1.11.2017, 8h55).

      É certo que observação e observância são sinónimos nesta acepção, mas é mais comum, para este caso, usar «observância». Tal como também dizemos «observância da lei», «observância da tradição», etc.

 

[Texto 8283]

Helder Guégués às 14:36 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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26
Out 17

«Desburocratização» complicada

Tem sete sílabas! Complicado

 

      Hoje é Dia Nacional da Desburocratização, e a Rádio Renascença, ainda antes das 8 da manhã, lembrava a data à sua maneira: foram ouvir Sandra Duarte Tavares, pois queriam «simplificar» a palavra «desburocratização», e uma «linguista» podia ajudar. Esta abundou na opinião: a palavra é «mesmo muito complicada, complicadíssima», vem («é curioso») do francês, «tem tantas sílabas, tem sete sílabas». Fizera antes algumas pesquisas e — fez-se luz! «O mais simples será usar uma paráfrase [sic]: “simplificar a burocracia”.» Fica então Dia Nacional de Simplificar a Burocracia.

 

[Texto 8268]

Helder Guégués às 08:42 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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