19
Set 17

«Fez fazer»

Poupem os músculos

 

      «Ser burguês não me fez fazer uma ideia irreal do mundo» (A Cor dos Dias ­— Memórias e Peregrinações, António Alçada Baptista. Queluz de Baixo: Editorial Presença, 2003, p. 52).

      Por vezes, vemos certas pessoas levantarem o sobrolho quando ouvem construções como esta. Poupem os músculos — e poupem-nos a paciência.

 

[Texto 8160]

Helder Guégués às 19:52 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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18
Set 17

Enxaquecas e inglês

Uma dor de cabeça

 

      «Uma equipa do Serviço de Cirurgia Plástica e Reconstrutiva do Centro Hospitalar São João, do Porto, anunciou ter realizado “com sucesso” um tratamento cirúrgico minimamente invasivo (endoscópio) de enxaqueca, que é “inédito em Portugal”. A intervenção em causa é realizada por meio de técnica endoscópica na região frontal e é dirigida aos chamados “trigger points”, isto é, pontos desencadeantes das crises dolorosas. A técnica consiste em “seccionar os músculos situados na região frontal do crânio (corrugador e procerus), e libertar os nervos adjacentes, nomeadamente o nervo supraorbitário e supratroclear (situados na parte superior do olho), com técnica endoscópica. A estimulação desses nervos era o factor desencadeante das cefaleias. A cirurgia é realizada através de três pequenas incisões (15 milímetros) localizadas no couro cabeludo, com anestesia geral e obriga a internamento de apenas um dia (one day surgery)”, explica o cirurgião [António Costa Ferreira]. [...] A utente submetida a esta técnica, afirmou que “há 25 anos que não estava dois meses sem tomar analgésicos e sem cefaleias”, sublinhando que esta intervenção “mudou” a sua vida» («Hospital de São João realizou cirurgia “inédita” para tratamento da enxaqueca», Rádio Renascença, 18.09.2017, 14h09).

      Farto-me de rir com estes médicos: trigger points, one day surgery... A «utente» não passava dois meses sem tomar analgésicos e sem cefaleias. Ora, eu não passava duas semanas sem tomar analgésicos e sem cefaleias. A diferença: curei-me a mim mesmo. Graças, é verdade, a um livro de um médico, um génio, Oliver Sacks. (E já viram os termos que faltam no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora? Ih, Jasus, tantos. Corrugador, supraorbitário, supratroclear.)

 

[Texto 8158]

Helder Guégués às 17:59 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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Cuando-Cubango, por exemplo

Opções

 

      «Numa análise por províncias, verifica-se que as que registaram maiores aumentos foram o Moxico (2,20%), Cunene (2,11%), Cuando-Cubango (2,03%), Namibe (2,00%) e Lunda-Sul (1,90%)» («Inflação mensal de regresso às quedas de Agosto», Ricardo David Lopes, Vanguarda, 15.09.2017, p. 32).

      É um jornal angolano — e escrevem Cuando-Cubango. Se fosse um jornal português, optariam inevitavelmente por Kuando-Kubango. Ah, porque a idiossincrasia ortográfica angolana, ah, porque o k agora também faz parte do alfabeto português, ah... Se fosse cá, também não verificavam nada — constatavam.

 

[Texto 8157]

Helder Guégués às 17:42 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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16
Set 17

Léxico: «stemfie»

Pode ser útil

 

      «O voto é feito com um lápis vermelho e cada eleitor — residente no país com mais de 18 anos — tem direito a fazer uma única cruz. Se quiser, pode tirar uma selfie (ou stemfie) na cabine de voto e mostrar nas redes sociais o boletim preenchido, desde que não viole o segredo de voto de terceiros. Porém, não pode eleger o presidente do município onde vive. Como? Já lá vamos» («Maastricht. Onde a vida corre devagar sobre duas rodas», Público, 16.09.2017, p. 13).

      Se forem para os Países Baixos, é útil saberem que ao auto-retrato com o boletim de voto na cabina de voto se dá o nome de stemfie.

 

[Texto 8155]

Helder Guégués às 19:25 | comentar | favorito
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15
Set 17

Até na França

Unidade à força

 

      Um tribunal de Quimper, na Bretanha, recusou que a um bebé de Finisterra fosse dado o apelido Fañch, em tudo conforme com a ortografia tradicional bretã. Motivo? O til, pois claro: vai contra a unidade nacional francesa. Que juízes de vistas largas...

 

[Texto 8152]

Helder Guégués às 21:39 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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13
Set 17

Como se escreve e pensa por aí

Equívocos e parvoíces

 

      «Na apresentação do iPhone 8, também com câmara melhorada, ficámos a saber que um protótipo andou por terras lusas. Uma das fotos exibidas tinha uma modelo de costas com vestido laranja, virada para a ponte 25 de abril (em grande plano) com o Cristo Rei ao fundo» («O novo iPhone é a cara do dono», António Pinto Rodrigues, TSF, 12.09.2017, 21h34). «A Apple aperfeiçoou as suas câmaras para tirar melhores fotos e usou Lisboa para o mostrar. A tecnológica de Cupertino veio a Lisboa tirar fotos à Ponte 25 de Abril e ainda teve tempo para uma brincadeira: “This is not San Francisco” (isto não é São Francisco, em português), disse-se em palco, enquanto se mostrava uma foto de Lisboa» («Há novos iPhones. Dois oitos e um X marcam a novidade (e Lisboa serve para mostrar a câmara)», Rádio Renascença, 12.09.2017, 17h52).

 

[Texto 8147]

Helder Guégués às 11:22 | comentar | favorito
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«Na dianteira»

Vai com calma

 

      «Este tipo de relógios está longe de se ter massificado. O mercado dos relógios inteligentes é muito pequeno quando comparado com o dos telemóveis, mas é um sector que está em crescimento e onde a Apple tem uma dianteira confortável» («O novo iPhone X tem mais ecrã, menos botões e reconhece o dono», João Pedro Pereira, Público, 13.09.2017, p. 20).

    Isto diz-se assim? Ora, não me parece. Eu diria «a Apple está confortavelmente na dianteira». A língua é moldável, plástica, sim, é verdade, mas não podemos estraçalhá-la assim sem mais.

 

[Texto 8146]

Helder Guégués às 10:56 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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08
Set 17

Símbolo m/m

A pergunta

 

      Raramente se vê o símbolo m/m, de milímetro. No entanto, na revisão de um livro sobre a Guerra Colonial, para o calibre dos morteiros, é sempre assim que está. A pergunta, que não vejo respondida em lado algum, é se está correcto desta maneira, se é variante de mm.

 

[Texto 8139]

Helder Guégués às 12:50 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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07
Set 17

Ele também sabia

Weglassens

 

   Escreve o homem do bigode: «Ich spreche einfacher, unmittelbarer – aber dies macht mir weit mehr Mühe der Vorbereitung, wobei ich Gelegenheit habe, die Kunst des Weglassens zu üben.» Refere-se aos seus seminários «O que significa pensar?», nos quais exercitou a arte da omissão, de cortar.

 

[Texto 8138]

Helder Guégués às 20:15 | comentar | favorito
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Para dar o tom

Cala-te, melher

 

      E a propósito dos laivos de pronúncia lá da terra, anteontem Herman José comentou a fotografia de Madonna: «Essas raízes estão uma desgraça, melher.» Ora, isto lê-se até em traduções, por exemplo, para imitar deturpações no original: «Perguntem a quem quiserem, a sôra Porter é uma melher respeitável» (Anjos Rebeldes, Libba Bray. Tradução de Susana Serrão. Alfragide: Edições Asa II, 2014). «You ask anybody and they’ll tell you, Missus Po’er’s a respec’able toiype.»

 

[Texto 8133]

Helder Guégués às 08:48 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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