28
Mar 17

Pescador lúdico

Todos pescam, mas...

 

      Com certas palavras é assim. Qual a sua profissão? Pintor. Pintor de paredes ou de quadros? De pescador, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora diz: «que ou pessoa que, por profissão ou passatempo, se dedica a apanhar na água peixe, moluscos, crustáceos, etc.». Por isso agora se fala cada vez mais em pescador lúdico: «Entre 1997 e 2016, morreram 94 pescadores lúdicos (pesca de lazer e desportiva) em falésias ou zonas rochosas» («Mais de 90 pescadores morreram em falésias nos últimos 19 anos», Rádio Renascença, 28.03.2017, 8h01).

 

[Texto 7637]

Helder Guégués às 12:15 | comentar | favorito
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27
Mar 17

Léxico: «cowork»

É o que me parece

 

      «Cowork é um termo que já faz parte do vocabulário de muitos empreendedores e empresários. Um modelo de partilha do espaço e dos recursos de um escritório, que tem vindo a crescer e que procura acompanhar, explica ao Destak Ana Redondo, Global Manager do LEAP, um centro em Lisboa que tem este tipo de oferta, as mudanças no mercado de trabalho, onde “mobilidade e flexibilidade” são palavras de ordem» («Novos conceitos de trabalho», Carla Marina Mendes, Destak, 27.03.2017, p. 13).

      É certamente muito mais usado do que outros estrangeirismos com direito de asilo nos nossos dicionários. Como o grafaria a Infopédia, que no Dicionário de Inglês-Português regista co-worker, por exemplo? 

 

[Texto 7631]

Helder Guégués às 19:25 | comentar | favorito
26
Mar 17

Léxico: «tempérie»

Já tivemos

 

      Por vezes, lamentamos não ter em português, ao contrário do que sucede na língua inglesa, uma palavra para designar a sucessão de momentos em que ocorrem os acontecimentos (tempo) diferente da palavra para nos referirmos às condições da atmosfera em dado momento (tempo). Pois bem, já tivemos, como também em castelhano, e quase milagrosamente ainda subsiste nos dicionários ­— é tempérie. No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «antiquado condição atmosférica tendo em conta a quantidade de calor e humidade». No Dicionário da Real Academia Espanhola, temperie: «Estado de la atmósfera, según los diversos grados de calor o frío, sequedad o humedad.»

 

[Texto 7626]

Helder Guégués às 21:21 | comentar | favorito
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25
Mar 17

Aborto ou feticídio?

Uma dúvida

 

      «Barcelos. Autor de massacre indiciado de 4 crimes de homicídio e 1 de aborto» (Rádio Renascença, 24.03.2017, 22h04).

      Hão-de pensar que venho increpar o uso de «massacre» em vez de «chacina» — também, mas não só. Num caso destes, podemos falar mesmo de chacina, mortandade, sem parecermos pateticamente hiperbólicos? E, sobretudo, estamos mesmo perante um crime de aborto? Ao que me parece, o nosso Código Penal só fala de duas figuras criminais que podiam estar em causa, aborto e infanticídio, mas não vejo que o crime de Barcelos se encaixe em nenhuma delas. Não faltará aqui uma terceira figura, intermédia — o feticídio? Que se pronunciem os juristas.

 

[Texto 7619]

Helder Guégués às 09:37 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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24
Mar 17

Carabineiros e Guarda Civil

Isso mesmo

 

      «Uma vida de perigos, sempre com a Guarda Fiscal à perna do lado português, e os Carabineiros, do lado espanhol. Polícia que atirava assim que via um contrabandista» («Festival do Contrabando: Quando se passava a fronteira a salto», Maria Augusta Casaca, TSF, 23.03.2017, 7h47).

      Carabineiros, muito bem. Na lógica dos que escrevem e dizem Guardia Civil, seriam os Carabineros. O Corpo de Carabineiros, criado em 1829 e integrado em 1940 na Guarda Civil, tinha como missão a vigilância das costas e fronteiras espanholas e a repressão da fraude fiscal e o contrabando.

 

[Texto 7618]

Helder Guégués às 15:16 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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23
Mar 17

Como se fala nos hipermercados

Pingo Amargo

 

      No hipermercado, caixa errada. O cliente à minha frente levava três embalagens de sumo natural de maçã e laranja, mas o preço ainda não estava registado no sistema informático. Três telefonemas depois, aparece um funcionário com um papelinho na mão: «1,49 €». «Se calhar é melhor dares ali ao coiso, para se apontar nas shelves

 

[Texto 7606]

Helder Guégués às 19:56 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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21
Mar 17

Cláusula Molière

A língua dos andaimes

 

      Em algumas regiões e municípios franceses, entrou agora em vigor a cláusula Molière, uma medida que impõe a utilização da língua francesa nos estaleiros de obras públicas ou a contratação de um tradutor, o que é apresentado como uma medida de segurança. Pela sua hipocrisia, veio dizer o primeiro-ministro francês, devia antes chamar-se cláusula Tartufo, mas é o máximo que pode fazer, pois o Governo não pode impedir a aplicação de normas regionais, a não ser que sejam declaradas inconstitucionais. Veremos o que faz a União Europeia. Seja como for, todos estão de acordo em que os trabalhadores têm, pelo menos, de entender termos técnicos em uso neste sector. E entendê-los-ão?

 

[Texto 7594]

Helder Guégués às 19:26 | comentar | favorito
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«Fulano», um terrível insulto

Acabou-se a descrispação

 

      Um grupo de quase mil, certamente respeitáveis, fulanos cidadãos não quer que o futuro aeroporto complementar de Lisboa, previsto para o Montijo, tenha o nome de Mário Soares. O documento, com mais de 9500 assinaturas, deu entrada na Assembleia da República e tem um número suficiente de assinaturas para ser discutido em plenário. «Haja respeito», termina a petição, «por mais de um milhão de portugueses que foram mais que prejudicados por esse fulano.» Claro que palavra tão complexa exigia necessariamente uma nota, que fizeram com recurso a uma simples remissão para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Felizmente não é uma palavra polissémica, ou andaríamos aqui às apalpadelas. Mas atentemos nas acepções: «1. pessoa cujo nome não se conhece ou não se quer mencionar; 2. coloquial indivíduo; sujeito». Não se trata certamente da primeira acepção, pois o nome de Mário Soares aparece várias vezes no texto da petição. Assim, se ainda há lógica, é a segunda, terrível, acepção: o Dr. Mário Soares um indívíduo, um sujeito. Terrível insulto!

 

[Texto 7592]

Helder Guégués às 19:20 | comentar | favorito

Matusalém e Sísifo

Umas bíblicas, outras não

 

      Estava aqui a ler sobre Matusalém, essa figura bíblica que, como outros patriarcas, era proposto como modelo de identificação religiosa para glorificar a idade e a longevidade e lembrei-me de ter lido no blogue Ouriquense que Miguel Sousa Tavares afirmou na SIC que o mito de Sísifo é uma história bíblica. O Eremita conta-o com mais graça: «Foi preciso Sousa Tavares dizer que o mito de Sísifo é uma história bíblica para voltar a sentir algum sangue nas guelras. Raios, Miguel, então a tua mãe, que amava a Grécia, não te explicou o mito de Sísifo, meu filistino diletante de telegenia perdida? A operação Marquês começa a erodir os pilares da nossa civilização» (para ler tudo, aqui).

 

[Texto 7590]

Helder Guégués às 19:13 | comentar | favorito
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Dupla negativa, de novo

Não vá o sapateiro, etc.

 

      «– Não, não lhe disse coisa nenhuma; foi ele que mas pediu... Afliges-te, filha?... Isto dispara em nada, Beatriz!» (O Esqueleto, Camilo Castelo Branco, 1865).

     Podia – podíamos todos – exemplificar até à exaustão com milhares e milhares de frases, literárias e do dia-a-dia. Para os sapateiros que povoam o Facebook e queiram ir além da chinela, saibam que é a chamada dupla negativa, que faz parte do ADN da língua portuguesa e dantes se aprendia na escola primária. Se isto produzir muitas interferências nas sinapses, podem substituir o pronome indefinido; em vez de «nenhum», «algum». É ignorância, e ignorância grave, que um falante da língua portuguesa não saiba isto. Faz lembrar – são disparates do mesmo jaez – a recomendação de usar «pelo visto» em vez de «pelos vistos». Tudo encontrado em livros antigos herdados e mal digeridos. Portanto, já sabem: «Quando perdes tudo, não tens pressa de ir a lado nenhum.»

 

[Texto 7589]

Helder Guégués às 12:34 | comentar | ver comentários (1) | favorito (1)
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