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Jul 17

Uma palavra enganadora...

Tirocinante inepto

 

      Ontem, sugeriram-me — e o meu interlocutor ainda só bebera três imperiais — que devia inaugurar no blogue uma rubrica intitulada «WTF» (?!), reservada para grandes asneiradas. A primeira asneirada seria dar-lhe esse título, mas a ideia é boa, se bem que não seja nova por aqui. Bem, seja como for, se já tivesse essa rubrica, hoje seria ocupada com uma pergunta que, na sala de espera de um consultório, uma pessoa que lia O Padrinho, de Mario Puzo, fazia a outra pessoa que a acompanhava: «Tirocínio, tirocínio... É uma prova de tiro, não é?» Não assisti ao desfecho, porque era a minha vez.

 

[Texto 8037]

Helder Guégués às 19:23 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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Jul 17

Um político (demasiado) próximo

Não só afecto, igualdade

 

      Agora sim, chegou a igualdade: um político que insiste que o tratemos por tu. A juntar às vinte novas estações do Metropolitano que promete, é capaz de dar muitos votos, não? Infelizmente, como não gosto de tutear estranhos nem ser tuteado por estranhos e além disso Teresa Leal Coelho afirmou que «quando tomar posse como presidente da Câmara Municipal de Lisboa» (ou seja, é como se já estivesse eleita) vai fazer não sei o quê, lamento, Assunção, mas daqui não leva(s) nada. E vejo, com desgosto, que te esqueceste, perdão, se esqueceu da vírgula antes do vocativo. Assim não, Assunção.

 

[Texto 8024]

 

Cristas.jpg

Foto: Mário Cruz/Lusa

Helder Guégués às 16:42 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Jul 17

Por mim, gim

Modas

 

      «Faleceu a 18 de Janeiro de 1984, com apenas 48 anos de idade, vítima de uma cirrose (era um bebedor inveterado de gim), foi sepultado no cemitério do Alto de São João e deixou grande parte dos seus bens ao Partido [sic] a que tinha sido fiel toda a vida» (José Carlos Ary dos Santos, Paulo Marques. Lisboa: Parceira A. M. Pereira, 2008, p. 42).

      Gim, muito bem. Mas agora a moda é o gin. Não, na verdade, este já era, este Verão a bebida da moda é o vinho do Porto branco com água tónica, P&T, diz o Independent.

 

[Texto 8018]

Helder Guégués às 22:17 | comentar | ver comentários (1) | favorito

Infinitivo impessoal como complemento nominal

Ou preciso de um optometrista?

 

      «Tudo vai depender, como vimos hoje de manhã, da força da norma-padrão em impor suas formas de uso da língua. Por enquanto fica difícil prever de quem será a vitória final» (A Língua de Eulália: Novela Sociolingüística, Marcos Bagno. São Paulo: Editora Contexto, 15.ª ed., 2006, p. 180).

   Sim, eu sei que o autor é doutor em Filologia e em Língua Portuguesa (vénia e segue a pergunta): quando o infinitivo impessoal serve de complemento nominal a adjectivos, não é sempre precedido da preposição «de»? No caso, «fica difícil de prever». Estou a ver bem?

 

[Texto 8016]

Helder Guégués às 20:53 | comentar | ver comentários (6) | favorito
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«Ex-», uso e abuso

Pensem

 

   «Quantas vidas tem o (ex-)líder do Estado Islâmico?» (Carolina Branco, Observador, 11.07.2017, 21h34). O uso que muitos jornalistas fazem do prefixo ex- é de morrer a rir. Estes podiam estudar melhor a língua, já que não têm de estudar dossiês (de novo a tal que «tem resistido ao aportuguesamento»!). Suponha-se (já bati três vezes na madeira da secretária, fiquem descansados, e ainda vou ler no Dicionário de Superstições de Orlando Neves que mais posso fazer) que o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, no regresso da visita de Estado ao México morria num acidente de aviação. Nesse caso, os jornalistas também escreveriam «morreu o ex-Presidente da República»? Vá lá, raciocinem um pouco.

 

[Texto 8011]

Helder Guégués às 08:14 | comentar | favorito
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Jul 17

«Bombardeiros de água»?

Especialista, procura-se

 

      «Os incêndios obrigaram à retirada de cerca de 10.000 pessoas no Canadá e de 8.000 nos Estados Unidos, após uma vaga de calor na costa oeste do continente, com milhares de bombeiros a combater dezenas de fogos florestais. Nos Estados Unidos, mais de 5.500 bombeiros combatem vários incêndios ativos de norte a sul da Califórnia, com a ajuda de helicópteros bombardeiros de água, tendo três dos fogos considerados como contidos [sic]» («Dezenas de fogos florestais na América do norte [sic]», TSF, 10.07.2017, 21h29).

      Menos mal, já aprenderam que não se diz «evacuação de pessoas». Mas dir-se-á mesmo «helicópteros bombardeiros de água»? Sim, eu sabia que há não apenas aviões bombardeiros, mas também helicópteros bombardeiros — mas bombardeiros de água? Que algum especialista nos acuda aqui.

 

[Texto 8007]

Helder Guégués às 19:18 | comentar | favorito
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Como falam os políticos

Os demissionários e os outros

 

     «Nunca tive conhecimento que [sic] ia ser constituído como arguido» (secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, Rocha Andrade, perante a comissão parlamentar de Orçamento, Finanças e Modernização Administrativa). É assim que se deve dizer, «constituído como arguido»? Claro que não, mas, se estudam os dossiês (olha, cá está a tal que «tem resistido ao aportuguesamento»!), não sobra tempo para estudar a língua.

 

[Texto 8005]

Helder Guégués às 16:32 | comentar | favorito
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Dativo de interesse

E agora?

 

      «E agora, menino, lava-me essa cara, veste-me roupa lavada e toca a trabalhar!» (Ondas sobre a Areia, Fausto Lopo de Carvalho. Lisboa: Sociedade de Expansão Cultural, 1960, p. 220).

      Uso muito esta construção, que deixa a minha filha a rir a bandeiras despregadas, e garanto que nunca é qualquer coisa semelhante a «limpa-me essas trombas!», não. Agora, talvez até já nem faça parte das gramáticas, sei lá. Dantes, dava-se-lhe o nome, que aprendi em Latim, de dativo de interesse (dativus commodi et incommodi). Repare-se que, e por muito estranho que pareça, aquele me não tem função sintáctica.

 

[Texto 8004]

Helder Guégués às 16:12 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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Empréstimos e aportuguesamento

Depende, não é?

 

      «É de notar que não existe um critério ou conjunto de critérios que permitam prever se uma palavra estrangeira vai sofrer adaptação ou não. Dossier, por exemplo, tem resistido ao aportuguesamento (dossiê), enquanto o ateliê tem mais adeptos (de atelier)» (Gramática Descomplicada, Sandra Duarte Tavares e Sara Almeida Leite. Lisboa: Planeta, 2015, p. 93).

      A experiência de cada falante é, por natureza, diversa, mas a minha, contudo, e no que respeita a esta questão, é precisamente a contrária: usa-se mais e há mais tempo o aportuguesamento «dossiê».

 

[Texto 8002]

Helder Guégués às 15:48 | comentar | ver comentários (1) | favorito
10
Jul 17

Viva o brasilês!

Chegámos

 

      Um dos apartamentos aqui do prédio foi vendido a um brasileiro endinheirado. Há minutos, a minha campainha soou, veemente. Fui atender. «Oh, desculpa: toquei errado.» Se fosse português, ou nem me responderia, ou levaria o quádruplo do tempo para se explicar.

 

 [Texto 8000!]

Helder Guégués às 21:46 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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09
Jul 17

A senhora capitã

É insistir

 

      «Ao DN, a capitã Megan Couto ­– cujos avós eram de São Miguel, nos Açores ­– disse que a sua função, enquanto segunda figura hierárquica do seu regimento, é a de assegurar o comando “apenas caso o major fique doente ou não tenha possibilidade de liderar [sic] a companhia”» («Primeira mulher a comandar a guarda da rainha Isabel II é neta de açorianos», Emanuel Nunes, Diário de Notícias, 2.07.2017, p. 41).

      Vão lá para o Colégio Militar, por exemplo, falar assim. Mas está bem, pouco a pouco entrará nos hábitos, tal como árbitra, que vimos recentemente.

 

[Texto 7995]

Helder Guégués às 14:19 | comentar | favorito
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