23
Fev 18

Um erro e um provérbio

Empenho a meio gás

 

      Chegou-me aqui um texto em que um animalzinho dizia — sim, do tempo em que os animais falavam, ou seja, de agora — «oláaaa» a outra criaturinha. Não pode ser, disse eu, pois o acento tem de recair onde é habitual: olaaaá. «— Olaá! — gritou ele com grande esforço no intuito de se fazer entender. — Robinson também está aí?» (O Desaparecido ou Amerika, Franz Kafka. Tradução, notas e posfácio de Susana Kampff Lages. São Paulo: Editora 34, 2004, 2.ª ed., p. 178). Já nos estamos a desviar um pouco, mas o que poderá estar no original diferente de Hallo para a tradutora verter daquela maneira? «“Halloh!” rief er mit größter Anstrengung, um sich verständlich zu machen, “ist Robinson auch da?”» Großartig! Um tradutor menos atreito a matizes destes e ficava «olá». Há dias, a minha filha (como se diz em bom alemão, was ein Häkchen werden will, krümmt sich beizeiten) também me mostrou um caso em que o autor prolongava a sílaba final, mas o til não estava no sítio devido. Enfim, há gente que só toma a peito pormaiores, os pormenores ficam para os outros, menos ocupados.

 

[Texto 8795]

Helder Guégués às 11:57 | comentar | favorito
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Léxico: «renúncia quaresmal»

Está no meu dicionário

 

      «As dioceses católicas portuguesas vão destinar as renúncias quaresmais a apoiar diversos projetos internos, recordando também as vítimas dos incêndios de 2017, e de ajuda a países de África e Médio Oriente, com destaque para o apoio aos cristãos perseguidos. [...] A renúncia quaresmal é uma prática proposta pela Igreja Católica em que os fiéis abdicam da compra de bens adquiridos habitualmente noutras épocas do ano» («Renúncias quaresmais apoiam projetos em Portugal, África, Ásia e Médio Oriente», Ecclesia/Rádio Renascença, 21.02.2018).

 

[Texto 8793]

Helder Guégués às 09:54 | comentar | favorito
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21
Fev 18

Agora vamos ter o Polocausto

Será o fim da macacada

 

      «Polónia quer museu para documentar o “Polocausto”» (Público, 21.02.2018, p. 25). Compreende-se, querem contrariar a ideia dos Israelitas (não, leitores brasileiros, não distinguimos entre «israelita» e «israelense», e, logo, nunca confundimos) de que só houve vítimas entre os judeus. Bem, mas isto pode vir a confundir ainda mais os miolos de alguns portugueses, e concretamente de alguns professores universitários, que já não distinguem entre holocausto e Holocausto. Agora, com um Polocausto, imagine-se. Nie mówię po polsku, mas sei que em polaco é «Muzeum Polokaustu».

[Texto 8786]

Helder Guégués às 22:34 | comentar | favorito

Outro «parquear»

Mais alienígena, portanto

 

      «À venda no leilão vão estar 4400 toneladas de chapas e perfis parqueados em Viana, junto aos armazéns dos estaleiros, cujos terrenos e infra-estruturas foram subconcessionados à West Sea, do grupo Martifer, em 2013 (a operação da empresa em Viana começaria em Maio de 2014)» («Aço dos navios encomendados pela Venezuela vai a leilão», Pedro Crisóstomo, Público, 21.02.2018, p. 20).

      Parquear vem do inglês, e, assim, também esta acepção («Leave (something) in a convenient place until required», in Oxford Living Dictionaries), que não está em nenhum dos dicionários que consultei e jamais tinha antes encontrado.

 

[Texto 8784] 

Helder Guégués às 22:08 | comentar | favorito
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A magna questão da Saúde

Senhor Dr. médico

 

      «O bastonário da Ordem dos Médicos, Miguel Guimarães, defende que a palavra “médico” deve fazer parte da identificação dos profissionais do setor. “Independentemente de usarem o título académico, que é o ‘doutor’, têm que usar o seu título profissional. É uma matéria que eu vou discutir internamente”, anunciou Miguel Guimarães, na Renascença. [...] Apesar de também ter uma carga de ironia, como reconhece, exigência prende-se com a criação de uma licenciatura para a chamada medicina tradicional chinesa, que já mereceu a oposição da Ordem. “É um bocado de ironia e um bocado de proposta. Nos EUA, os médicos são tratados por MD: ‘medical doctor’. Esta expressão aqui não se poderia adotar, mas a verdade é que hoje os licenciados são muitos, são cada vez mais – como se vê, criam-se licenciaturas de uma forma absolutamente espantosa – de maneira que os médicos, para serem devidamente identificados no seu local de trabalho, nomeadamente devem ser tratados por médicos também”, sustenta» («“Senhor Dr. médico”. Bastonário não quer confusões com outras formações académicas», Rádio Renascença, 21.02.2018, 11h45).

       Salta à vista que é a medida mais importante no domínio da Saúde, porventura até a única via para salvar o SNS. «Senhor Dr. médico» não vai pegar; tentem medical doctor.

 

[Texto 8782] 

Helder Guégués às 20:15 | comentar | ver comentários (3) | favorito

Léxico: «recesso»

É a palavra do dia

 

      «Ao PÚBLICO a comunista Ana Mesquita diz que o PCP recomenda o recesso, porque, depois de terminado o prazo de transição, o acordo não foi comummente aceite e aplicado por todos os países — o que era uma das exigências centrais de 1990» («PCP pede recesso do acordo ortográfico e estudo para novo», Maria Lopes, Público, 21.02.2018, p. 31).

      De recesso, nesta acepção jurídica, diz-nos o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora que é a «situação em que uma das partes se retira de um contrato, convenção, tratado, etc.». Não sei porque se diz que é a «situação», quando é o direito, o direito de saída voluntária. Estará previsto no Acordo Ortográfico de 1990? Alguém que veja, por favor. Se não estiver, poderá ainda, e no limite, como ensina Jorge Miranda (Curso de Direito Internacional Público. Parede: Princípia Editora, 3.ª ed., 2006, p. 239), usar-se a cláusula rebus sic stantibus. Mas deixemos isso para os juristas.

 

[Texto 8779]

Helder Guégués às 14:26 | comentar | ver comentários (1) | favorito
19
Fev 18

Tradução: «equerry»

Sou todo ouvidos

 

      «The Queen has picked the first black man to hold the role of equerry, one of the most important positions in the royal household» («Queen picks the first black equerry: Ghanaian-born officer will be the most visible man by Her Majesty’s side as Prince Philip’s retirement looms», Alice Evans, Mail, 9.07.2017, 22h00).

      Uma coisa é saber o que significa, outra, bem diferente, é encontrar a melhor tradução. Equerry é então um funcionário da Casa Real britânica. Estão aqui a sugerir-me que se traduza por «assessor», mas não me convence. Traduzimo-lo por «alto funcionário»? «Assistente»? Veja-se aqui: «Ainda que ele fosse um “royal equerry” [ajudante de ordens da família real], Townsend não era visto como marido adequado para a princesa porque era divorciado, e o Palácio de Buckingham o transferiu para Bruxelas» («Noivado de Harry mostra que família real deixou escândalos no passado», Michael Holden, Folha de S. Paulo, 27.11.2017, 11h47). E aqui: «La reina Isabel II eligió por primera vez a un hombre negro como “equerry”, una suerte de escudero o asistente privado, con una posición muy importante dentro del protocolo de la casa real y muy cercano a ella» («Primera vez en la historia: Isabel II eligió un asistente privado negro», Clarín, 9.07.2017, 11h47). Também equacionei «ajudante-de-campo», mas com algumas dúvidas. E a propósito, não me parece que esteja correcta a definição deste termo no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «oficial-às-ordens de um general».

 

[Texto 8765]

Helder Guégués às 18:50 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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13
Fev 18

Sugestões do Word

É desligá-lo

 

       De uma coisa tem o Word a certeza: não se escreve «um animal cavernícola». Sugere «uma animal cavernícola», ou «um animal cavernícolo».

 

[Texto 8737]

Helder Guégués às 21:29 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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«Cãozarrão», uma anomalia?

E agora?

 

      «Papá, isto está bem? “– O pai da Joeanne mais parece um cãozarrão de olhos tristes e sem casa do que uma raposa – opinou a Nora. – Mesmo que tenha deixado a Joeanne para trás, eu sinto pena dele» (O Mistério da Rulote Vermelha, Julie Campbell. Tradução de Susana Ferreira e Bárbara Soares. Alfragide: Leya, 2014, p. 80).» E agora, que respondo à miúda? Que os linguistas não aceitam este aumentativo, mas que os falantes o usam? Que os lexicógrafos não o acolhem, mas aparece no Dicionário Terminológico, na sequência «cão/cãozinho/cãozarrão»? Que todos somos aconselhados a não o usarmos, mas que o encontramos em Mário Cláudio, Ramalho Ortigão, Campos Júnior, Manuel Mendes, Judith Navarro, Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada, Isabel Ramos? Que recém-licenciados de Línguas e Literaturas o rejeitam, mas Elviro Rocha Gomes o aceita?

 

[Texto 8733]

Helder Guégués às 11:02 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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11
Fev 18

«Apadrinhar/amadrinhar»

Crucificados nas aspas

 

      «A maratonista olímpica Rosa Mota está este fim-de-semana em Folgosinho para “amadrinhar” iniciativas de reflorestação e o Free Trail Solidário Renascer Folgosinho que decorre este domingo, com o objetivo [sic] de devolver a paisagem verde, àquela aldeia» («Folgosinho vai ter um castanheiro “Rosa Mota”», Liliana Carona, Rádio Renascença, 11.02.2018, 10h40).

      Quem percebe como pensam estes jornalistas? Liliana Carona, temos duas palavras: apadrinhar, que significa ser padrinho, patrocinar, e amadrinhar, que significa servir de madrinha a, patrocinar. Sendo assim, para que usa as aspas, pode saber-se?

 

[Texto 8725]

Helder Guégués às 16:19 | comentar | favorito
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