05
Abr 12

«Por arrasto»

Oratória franca

 

 

      «Este falar com franqueza, ou este falar livre (não é por acaso que os franceses dizem “franc parler” e os ingleses “free speech”, discurso franco ou discurso livre) era uma prática a que os antigos gregos chamavam “parrhesia”. Na Grécia antiga o conceito de parrhesia significava literalmente “falar tudo” e, por arrastamento, “falar livremente”, “falar ousadamente”, o que em certos contextos era não só necessário como inescapável» («O processo da verdade», Pedro Lomba, Público, 5.04.2012, p. 48).

      A locução é por arrasto, ou seja, como consequência. Curiosamente, é mais frequente ver-se na oralidade do que na escrita.

      «Quero que me tenhas em atenção, que me observes. Mas babado e indulgente para contigo e, por arrasto, para comigo, não desejo ver-te» (O Pequeno Mundo, Luísa Costa Gomes. Lisboa: Assírio & Alvim, 2002, p. 159).

 

[Texto 1322] 

Helder Guégués às 08:49 | comentar | ver comentários (7) | favorito
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24
Jan 12

«De cima até baixo»

E podia estar mal

 

 

   «Procuraram de cima até baixo, durante toda a tarde, e não encontraram nada» (Tesouro Mágico, Gwyneth Rees. Tradução de Paula Alves e revisão da tradução de Ana Maria Chaves. Lisboa: Edições Asa, 2.ª ed., 2011, p. 75).

   Nem tudo está mal, pois claro. A locução adverbial mais usada é de cima a baixo. Se intercalarmos «até», fica de cima até baixo ou, como também se vê, de cima até a baixo, sem elisão doa. Numa comédia traduzida por Bocage, uma personagem pergunta a outra se já varreu a escada. «De cima até baixo.»

 

[Texto 1010]

Helder Guégués às 08:22 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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15
Jul 11

«A fim de/afim»

Jogo nisso

 

 

      Hoje, no Jogo da Língua, um jovialíssimo cirurgião quis expor-se no pelourinho. «Numa democracia, é essencial manter um ambiente de liberdade de informação, a fim de exercer o nosso direito de cidadania.» Uma palavra só ou duas?

      «Não sendo um linguista, eu aposto no “afim” tudo junto. Mas parece-me que é mesmo assim, tudo junto, é. Jogo nisso.» Sim, é triste um médico não saber que, no contexto, é a locução prepositiva a fim de (com intenção ou vontade de; para) que se tem de usar. Contudo, pior é, como já tenho visto, este erro vir de professores universitários, tradutores e jornalistas.

      «A nossa especialista em língua portuguesa» lá disse que era «com duas palavrinhas», embora, a propósito de «afim», tenha confundido «idêntico» com «semelhante» e errado ao afirmar que «afim» era adjectivo.

 

[Texto 306] 

Helder Guégués às 19:00 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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