10
Jul 17

Espaço/espaço

Universo

 

      «Ensinar como ser um astronauta e estimular negócios inspirados no Espaço são os desafios lançados pela Escola de Astronautas e pelo Coimbra Space Summer School, que decorrem durante esta semana na cidade coimbrã. Durante quatro dias (até quinta-feira), alunos do ensino secundário podem descobrir como é a vida no Espaço. No dia 13, Mikhail Kornienko, que integrou a segunda mais longa estadia de um ser humano no Espaço, dá uma palestra» («Cosmonauta vem a Portugal aguçar o apetite sobre a vida no espaço», Destak, 10.07.2017, p. 13).

      Nem sequer está consagrado nos dicionários nem prontuários, mas, de quando em quando, vê-se a palavra, nesta acepção, grafada com maiúscula inicial. Parece-me bem, e até pode evitar equívocos, como também é útil no par Natureza/natureza, por exemplo.

 

[Texto 7997]

Helder Guégués às 08:51 | comentar | ver comentários (1) | favorito
06
Ago 16

História/história, de novo

A grande e a pequena

 

      «Churchill desmente categoricamente as teses dos historiadores marxistas que veem na história uma mera narrativa de fatores económicos abrangentes e impessoais» (O Fator Churchill, Boris Johnson. Tradução de José Mendonça da Cruz. Alfragide: Publicações D. Quixote, 2015, p. 17).

      Já tenho lamentado que, nesta acepção, não se grafe sempre com maiúscula, História, como convencionalmente se faz. No original está history, ao passo que «narrativa» está a traduzir story. Podia perfeitamente ser História/história, até porque, uns parágrafos à frente, na tradução, está isto: «Em que forjas foram forjadas a sua mente cortante e a sua vontade férrea?» (p. 18). No original, está assim: «In what smithies did they forge that razor mind and iron will?»

 

[Texto 7004]

Helder Guégués às 19:17 | comentar | favorito
28
Jan 16

Vírus de Zica

Têm de se decidir

 

      Hoje foi assim: «Confirmados cinco casos de vírus de Zika no país» (Público, 28.01.2016, p. 7). Na terça, assim: «Como o Brasil demorou para declarar o Zica uma emergência» (Kathleen Gomes, Público, 26.01.2016, p. 24).

      Escrever-se com c ou com k não é a única questão. As designações de doenças — já o lembrei muitas vezes — escrevem-se com minúscula inicial, excepto os nomes próprios que contenham. Ora, Zika é um nome próprio. Podemos, e até devemos, aportuguesá-lo, mas não deixará de ser nome próprio: Zica. Logo, vírus de Zica. Se for usada menos formalidade — como é o caso do segundo título —, pode então usar-se a minúscula, como, para o castelhano, a Fundéu recomenda. O que convém é não mudar de opinião de dois em dois dias.

 

[Texto 6571]

Helder Guégués às 20:41 | comentar | ver comentários (1) | favorito
23
Jan 16

«Continente Branco»

Coisas simples e esquecidas

 

      «Os tardígrados deste estudo, que tinham sido recolhidos em 1983, encontravam-se numa amostra de musgo obtida durante uma expedição japonesa de investigação científica na Antárctida, na Terra da Rainha Maud, um território norueguês no Leste do continente branco» («Ursinhos-de-água. Estes animais são tão incríveis que voltaram
 à vida ao fim de 30 anos congelados», Rita Ponce, Público, 23.01.2016, p. 32).

      Rita Ponce, se está em vez de Antárctida, grafa-se com maiúsculas iniciais, porque é um prosónimo: Continente Branco. (Lembre-se, a propósito, que Rebelo Gonçalves, como substantivo, só registou Antárctida, e não Antárctica, que considerava adjectivo, antárctico, antárctica.)

 

[Texto 6561]

Helder Guégués às 21:30 | comentar | favorito
07
Jan 16

«Pseudo-Apolodoro»

Chegaram hoje

 

      «Nestas páginas reuni estudinhos sobre Camões dispersos por diversas publicações, mas apenas aqueles que julguei mais capazes de interessarem alguns leitores» (Notas Camonianas, José Pedro Machado. Lisboa: Livros Horizonte, 1981, p. 7). Isto é que é modéstia, já viram bem?

      Chegaram-me hoje às mãos, estes estudinhos. Lembrei-me logo (mas imperfeitamente, pois não me lembro qual o nome em causa nem o elemento) de alguém há pouco me ter perguntado como se escrevia certo nome próprio com o elemento pseudo- ou anti-, tendo eu respondido, naturalmente, que não se aglutinava ao nome próprio e lembrado uma excepção, Anticristo. Creio que a pessoa não gostou da resposta, talvez porque nunca procuramos outras respostas que não as que julgamos já ter. Mas é assim. Agora, na página 26 destes estudinhos: «Já são três [as Greias] na Biblioteca do pseudo-Apolodoro de Atenas e no Prometeu de Ésquilo.» Mas também aparece grafado, noutras obras, com maiúscula, Pseudo-Apolodoro, o que me parece mais correcto.

 

[Texto 6528]

Helder Guégués às 22:40 | comentar | ver comentários (1) | favorito
31
Dez 15

«Internet, internet e Rede»

Trolls dentro e fora da Rede

 

      «Porém os caçadores de trolls fazem pior: apelam à limpeza da internet e apelam à criminalização de um número crescente de expressões que aparecem na Rede» («O feitiço contra o feiticeiro», Brendan O’Neill, tradução de Ana Marques, Courrier Internacional, Fevereiro de 2015, p. 60)*.

      A tendência parece ser essa: para os dois sentidos em que se usa o termo, minúscula, internet; a união das várias redes é a Rede. Eu, como já puderam ver, uso sempre maiúscula, Internet. Qualquer tentativa — como esta aqui, no Ciberdúvidas — de distinguir esbarrou sempre em contradições e preciosismos difíceis de discernir e de aplicar. Por exemplo, quando é que o usamos no sentido de protocolo? Quando é simples meio? «Logo à noite, mando-te os recibos pela internet.» E no sentido de rede mundial? «Na Internet, encontramos excelentes blogues; quando, como acontece com alguns, se transformam em livro, assalta-nos uma sensação de déjà-vu e os mais mal-agradecidos e odientos cospem na sopa.»

      Seja qual for a conclusão, impõe-se, como sempre, simplificar, não fazer o contrário.

 

[Texto 6517]

 

      * Trata-se, segundo a revista, de excertos, mas não esperava que ao trecho que eu cito correspondesse isto no original: «But the trollhunters, from misogyny-policing feminists to the papers that splash photos of trolls across their front pages to the police who arrest them in dawn raids, do something far worse than any vocab-challenged bloke with a grudge and an internet connection could ever hope to achieve. They chill and sanitise the internet, and invite the criminalisation of more and more forms of online speech.»

Helder Guégués às 12:03 | comentar | ver comentários (2) | favorito
16
Nov 15

Qual ISIS, qual EIIL, qual Daish!

Como um estado de alma

 

    Depois dos apelos, cá e lá fora, para se menorizar o bando de facínoras, o Diário de Notícias julga ter encontrado a forma de o fazer: estado islâmico. Assim, com minúsculas. Ainda hoje na capa: «França lança caça ao homem e reforça ataque ao estado islâmico». Esperemos que entre eles não haja nenhum revisor.

 

[Texto 6399]

Helder Guégués às 09:38 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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25
Set 15

Um Diabo maiúsculo

O Senhor Diabo

 

      «Ontem celebrava-se a cerimónia de encerramento dos cinco dias do hajj, quando os muçulmanos se deslocam a Jamarat, perto de Mina, para atirarem pedras a um pilar que simboliza Satanás. […] Todos os anos, a tarefa dos agentes de segurança é o de gerir a gigantesca maré humana que durante três dias tem que [sic] fazer um percurso de várias dezenas de quilómetros para visitar uma série de lugares pré-estabelecidos [sic] desde a Kaaba [sic], no centro da Grande Mesquita de Al-Haram, até Mina e seguindo até ao monte Arafat, passando no regresso pelo local de oração em Muzdalifah antes de chegar a Jamarat, para acabar apedrejando simbolicamente o diabo» («Debandada de milhões de peregrinos em Meca faz mais de 700 mortos», Público, 25.09.2015, p. 30).

      E será assim, Satanás, mas diabo? Ora, ora. Não se trata do nome, na tradição judaico-cristã, de um específico anjo rebelde a Deus? É Satanás, como é Diabo, Satã, etc. Eça de Queiroz — de quem tanto tenho falado e ouvido falar nos últimos tempos, e ainda bem — tem justamente um conto intitulado «O Senhor Diabo», e nele sempre aquela carismática figura (espero que se possa dizer isto...) aparece com o nome grafado com maiúscula.

 

[Texto 6268]

Helder Guégués às 22:12 | comentar | favorito
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14
Set 15

‘Tão a ver?

Só para eles

 

      «— A mãe esteve ali. ‘Tás a ver? E tu também!» (Marilyn à Beira-Mar, Vicente Alves do Ó. Alfragide: Oficina do Livro, 2012, p. 308).

   E para que serve isto? Ora, porque eu sei que grandes sabichões julgam que, mesmo a iniciar período, o apóstrofo obriga a usar minúscula, ‘tão a ver?

 

[Texto 6242]

Helder Guégués às 15:43 | comentar | favorito
26
Ago 15

Ortografia: «Holocausto»

Por antonomásia

 

   «Em 1966, o Memorial de Yad Yashem (em recordação do holocausto), situado em Jerusalém, presta-lhe [a Aristides de Sousa Mendes] homenagem atribuindo-lhe o título de “justo entre as nações” (é o único português que tem esse título) e é-lhe concedida a mais alta distinção: uma medalha em ouro comemorativa com a seguinte transcrição do Talmude: “Quem salva uma vida humana é como se salvasse o mundo inteiro”» (Salazar — A Cadeira do Poder, Manuel Poirier Braz. Queluz de Baixo: Editorial Presença, 2008, pp. 117-18).

     Caro Manuel Poirier Braz, holocaustos há muitos, todos os dias; Holocausto houve só um, por antonomásia, e grande, maiúsculo. Não, a culpa não pode ser só do revisor.

 

[Texto 6184]

Helder Guégués às 06:30 | comentar | favorito
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08
Ago 15

Maiúscula com gentílicos e pátrios

Assim é que está bem

 

      «O terceiro homem é um reputado jornalista de Londres, William James, que acaba de passar larga temporada acompanhando a última fase do conflito com os Zulus» (O Último Cais, Helena Marques. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 3.ª ed., 1994, p. 13). «E William James, cortesmente, explica que a guerra de guerrilha é uma forma de luta que os Europeus desconhecem e se apresenta mais destruidora e eficaz do que a batalha campal» (idem, ibidem, p. 15). «“Que irá contar o pai desta viagem? Mais histórias dos Vátuas e do Gungunhana? Ou das guerras dos Ingleses com os Bóeres e os Zulus? Será que capturaram mais traficantes de escravos?”» (idem, ibidem, pp. 21-22). «Os Madeirenses amavam o telégrafo com o mesmo sentido de sobrevivência com que amavam os navios» (idem, ibidem, p. 21).

 

[Texto 6147]

Helder Guégués às 08:27 | comentar | ver comentários (4) | favorito