06
Set 17

Raças superiores

Agora é assim?

 

      «Eu sou Moritz, o Grand Danois por si comprado, no início da guerra, a um agricultor da Flandres» (Amados Cães, José Jorge Letria. Revisão de Henrique Tavares e Castro. Cruz Quebrada: Oficina do Livro, 3.ª ed., 2008, p. 75). Neste caso, a maioria dos leitores não estranhará muito, ou encolherá os ombros, já que nem sequer é português. Mas aqui? «Quem conheceu Byron pôde testemunhar a imensa dor causada pela morte do seu cão Terra Nova, amigo de todas as horas, confidente de todos os instantes» (Idem, ibidem, p. 60). Ou aqui? «A questão da posse desse Perdigueiro nunca ficou resolvida entre mim e o meu pai» (Idem, ibidem, p. 223). E por aí fora: Pastor Alemão, Caniche, Galgo Afegão, etc. Pouco faltou para glorificarem a própria merda de cão: Cocó de Cão.

 

[Texto 8132]

Helder Guégués às 10:20 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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30
Ago 17

Como se escreve nos jornais

Minusculizai

 

      «O Verão faz-se sentir com intensidade neste enclave abraçado entre a cordilheira da serra da Marofa, do vale do Côa e os socalcos do Douro, onde o Côa e o Águeda rasgam a paisagem que se desenha entre profundas escarpas graníticas. A reserva da Faia Brava vai à escarpa (faia significa escarpa) buscar o nome mas também a sua razão de ser. É que aquelas grandes rochas são um porto seguro para o grifo, o abutre-do-Egipto, a águia-de-Bonelli ou a águia-real que ali acabam por nidificar, e foram mesmo estes bichos que acabaram por animar o trabalho de conservação e de gestão sustentável desta área protegida cujos responsáveis acreditam que a preservação da natureza também depende dos cidadãos» («Reserva da Faia Brava pede apoio para manter o fogo à distância», Cristiana Faria Moreira, Público, 20.08.2017, p. 12).

      Quase, Cristiana Faria Moreira, quase: abutre-do-egipto, águia-de-bonelli. (Na Infopédia, o primeiro encontramo-lo no Dicionário da Língua Portuguesa e o segundo no Dicionário de Português-Espanhol. É impressionante!) E, ao que me parece, faial é que significa despenhadeiro, alcantil, e não faia.

 

[Texto 8110]

Helder Guégués às 06:45 | comentar | favorito
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13
Nov 16

Fases da Lua, de novo

Muito complexo...

 

      «O que é uma super-Lua? É um fenómeno que ocorre quando o nosso satélite natural está em fase de Lua Cheia e se encontra a pelo menos 90% do seu ponto mais próximo da Terra. Em Lisboa, serão 11h22 quando a Lua atingir o perigeu — o ponto da sua órbita mais perto da Terra. É que a órbita da Lua (tal como a dos planetas) é elíptica, em vez de circular, e não é sempre igual» («Prepare-se: vem aí uma super-Lua como não se via há 68 anos», Teresa Serafim, Público, 13.11.2016, p. 27).

      Muito bonito, mas já aqui vimos que as fases da Lua se grafam com minúscula, assim: lua cheia, lua nova, quarto crescente, quarto minguante.

 

[Texto 7236]

Helder Guégués às 08:17 | comentar | favorito
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28
Out 16

Do canal da Mancha ao Sara

Mal habituados

 

     «A frota de navios de guerra russos encabeçada pelo porta-aviões Almirante Kuznetsov, que ontem cruzou o canal da Mancha e segue com destino à Síria, deverá passar entre hoje e segunda-feira ao largo da costa portuguesa» («Fragata portuguesa vigia passagem de frota russa a caminho da Síria», Susana Salvador, Diário de Notícias, 22.10.2016, p. 21).

      Isso mesmo, canal da Mancha. Lembrei-me de outras paragens mais cálidas e do que ouvi pela segunda vez: deserto do Sara fica, disse-me o meu interlocutor, irreconhecível. Acham mais natural deserto do Sahara, claro. Até devem preferir, suspeito, em árabe, الصحراء الكبرى, mas envergonham-se de o pedir.

 

[Texto 7203]

Helder Guégués às 21:52 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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28
Jan 16

Vírus de Zica

Têm de se decidir

 

      Hoje foi assim: «Confirmados cinco casos de vírus de Zika no país» (Público, 28.01.2016, p. 7). Na terça, assim: «Como o Brasil demorou para declarar o Zica uma emergência» (Kathleen Gomes, Público, 26.01.2016, p. 24).

      Escrever-se com c ou com k não é a única questão. As designações de doenças — já o lembrei muitas vezes — escrevem-se com minúscula inicial, excepto os nomes próprios que contenham. Ora, Zika é um nome próprio. Podemos, e até devemos, aportuguesá-lo, mas não deixará de ser nome próprio: Zica. Logo, vírus de Zica. Se for usada menos formalidade — como é o caso do segundo título —, pode então usar-se a minúscula, como, para o castelhano, a Fundéu recomenda. O que convém é não mudar de opinião de dois em dois dias.

 

[Texto 6571]

Helder Guégués às 20:41 | comentar | ver comentários (1) | favorito
15
Jan 16

Ortografia dos trópicos...

Não são topónimos

 

    «Além disso, o furacão Alex é ainda raro devido ao local onde começou a formar-se: numa região subtropical. “Este furação tem uma origem subtropical, o que é raríssimo”, sublinhou o meteorologista. “Geralmente, os furacões formam-se entre o Trópico de Câncer e o Trópico de Capricórnio. Para se formar um furacão, são necessárias águas superficiais muito quentes, acima dos 22 a 23 graus [Celsius].”» («Alex é o quarto furacão que chega aos Açores no século XXI», Rita Ponce, Público, 14.01.2016, p. 24).

      Não, não: o nome das linhas imaginárias é grafado com minúsculas iniciais. Logo, trópico de Câncer, trópico de Capricórnio. Como equador, até com a vantagem de o distinguir do país com o mesmo nome.

 

[Texto 6544]

Helder Guégués às 10:40 | comentar | favorito
09
Jan 16

«Era espacial»

Não merece

 

   «Chamavam-lhe o costureiro da Era Espacial, pelas colecções de cortes limpos, formas simplificadas e blocos de cor que evocavam esse ideal da exploração do espaço, mas também, nos seus 60 de glória, o enfant terrible da alta-costura parisiense» («Morreu André Courrèges, o futurista da moda», Joana Amaral Cardoso, Público, 9.01.2016, p. 37).

    É certo que o livro de estilo do Público recomenda a maiúscula em eras, épocas ou séculos, mas o exemplo que dá, Idade Média, mostra bem que não se aplica a casos como era industrial, era nuclear, era espacial, etc., porque não são épocas históricas.

 

[Texto 6532]

Helder Guégués às 21:42 | comentar | favorito
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31
Dez 15

«Internet, internet e Rede»

Trolls dentro e fora da Rede

 

      «Porém os caçadores de trolls fazem pior: apelam à limpeza da internet e apelam à criminalização de um número crescente de expressões que aparecem na Rede» («O feitiço contra o feiticeiro», Brendan O’Neill, tradução de Ana Marques, Courrier Internacional, Fevereiro de 2015, p. 60)*.

      A tendência parece ser essa: para os dois sentidos em que se usa o termo, minúscula, internet; a união das várias redes é a Rede. Eu, como já puderam ver, uso sempre maiúscula, Internet. Qualquer tentativa — como esta aqui, no Ciberdúvidas — de distinguir esbarrou sempre em contradições e preciosismos difíceis de discernir e de aplicar. Por exemplo, quando é que o usamos no sentido de protocolo? Quando é simples meio? «Logo à noite, mando-te os recibos pela internet.» E no sentido de rede mundial? «Na Internet, encontramos excelentes blogues; quando, como acontece com alguns, se transformam em livro, assalta-nos uma sensação de déjà-vu e os mais mal-agradecidos e odientos cospem na sopa.»

      Seja qual for a conclusão, impõe-se, como sempre, simplificar, não fazer o contrário.

 

[Texto 6517]

 

      * Trata-se, segundo a revista, de excertos, mas não esperava que ao trecho que eu cito correspondesse isto no original: «But the trollhunters, from misogyny-policing feminists to the papers that splash photos of trolls across their front pages to the police who arrest them in dawn raids, do something far worse than any vocab-challenged bloke with a grudge and an internet connection could ever hope to achieve. They chill and sanitise the internet, and invite the criminalisation of more and more forms of online speech.»

Helder Guégués às 12:03 | comentar | ver comentários (2) | favorito
07
Dez 15

Sobre Península Ibérica

E outras penínsulas

 

      «Iémen — e Áden em particular — é há muito terreno fértil para a Al-Qaeda na Península Arábica, considerado o braço mais perigoso da rede terrorista fundada por Osama bin Laden, pelas suas capacidades militares e a eficácia demonstrada para planear atentados a nível internacional. Nos últimos anos, drones americanos têm atacado incessantemente o grupo, com o aval de Hadi (e do Governo saudita), mas o conflito com os huthis, a ingerência saudita e a pobreza são ingredientes que continuam a contribuir para a implantação do jihadismo» («Atentado reivindicado pelo Estado Islâmico mata governador de Áden», Ana Fonseca Pereira, Público, 7.12.2015, p. 20).

      Era também o meu entendimento até recentemente, mas não pode ser. Se grafar Península Ibérica é uma excepção (assim como Presidente da República e País, quando referidos aos nossos, por exemplo), é claro que não se pode, incongruentemente, estender a excepção, ou vamos torná-la regra. Há outras excepções, decerto, mas não passam disso mesmo. Quanto ao nome das penínsulas, era este também o uso em castelhano, mas com a reforma (palavra que os que participaram nela recusam, talvez pela mesma razão que leva a preferir «doença oncológica» a «cancro») de 2010, passou a estatuir-se que, quando o nome específico de uma península é um adjectivo que alude a um topónimo, se escreve com minúscula: península ibérica, península itálica, península arábiga, mas península Valiente. Lógica tem, falta agora ver como serão, numa década ou duas, os usos.

      O caso de Península Ibérica é até o mais curioso, pois hoje em dia nem sequer já usamos — nós e os falantes de castelhano — o topónimo de que deriva, Ibéria. (Vi-o há pouco, repetidamente, numa tradução do inglês, mas por manifesta imperícia da tradutora.) O que pode causar ainda mais estranheza. Com outros não é o mesmo: para península itálica temos Itália; para península arábica temos Arábia; para península balcânica temos Balcãs, etc. Outra excepção para nós: Ilhas Britânicas. Ora, também deixámos de usar Britânia. A excepção pode assentar aqui, no desuso do topónimo de que derivou o adjectivo.

 

[Texto 6460]

Helder Guégués às 07:06 | comentar | ver comentários (14) | favorito
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27
Nov 15

De norte a sul

Nem em 300 anos

 

      «A polícia arromba portas do Norte ao Sul do país em busca de radicais. Aproveita as liberdades que lhes dá o estado de emergência. Mas muitos queixam-se de islamofobia e de deriva securitária» («França: depois do terror, a deriva securitária», Félix Ribeiro, Público, 27.11.2015, p. 22).

      Até demorou mais a fazer mal, mas depois desculpam-se com a falta de tempo. É de norte a sul, de leste a oeste. É assim quando os pontos cardeais designam direcções ou limites geográficos. Nada mudou com o Acordo Ortográfico de 1990.

 

[Texto 6430]

Helder Guégués às 09:01 | comentar | ver comentários (1) | favorito
16
Out 15

Há muitas bíblias

Bíblias profanas

 

      «O português David Santos, um engenheiro de computadores de nome artístico Noiserv, chegou à lista de eleitos de uma das bíblias da música alternativa europeia. A revista francesa Les Inrockuptibles incluiu um tema de Noiserv na sua lista de canções recomendadas para a rentrée musical» («Noiserv? Recomendado!», Sábado, 15.10.2015, p. 22).

   Se pensam que vou implicar com a «rentrée» (mas já que falo nisso...), estão bem enganados. É apenas para lembrar que, naquele sentido de obra fundamental numa determinada disciplina ou área, é com minúscula, bíblia. Há muita gente que não sabe isto. (Agora aproveitem e visitem o sítio de Noiserv. Passem o cursor por cima da casa. Espantoso!)

 

[Texto 6325]

Helder Guégués às 22:21 | comentar | favorito
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