16
Jan 18

A nor-nordeste de Arraiolos

Jornalismo desnorteado

 

      «Um primeiro comunicado informava que “pelas 11h51 (hora local) foi registado nas estações da Rede Sísmica do Continente, um sismo de magnitude 4.9 (Richter) e cujo epicentro se localizou a cerca de 8 km a Norte-Nordeste de Arraiolos”» («Sismo de 4,9 gera pânico em Évora. “Nunca senti uma coisa como esta”», Rosário Silva, Rádio Renascença, 15.01.2018, 11h59).

      Foi mesmo isto que se podia ler no comunicado do Instituto Português do Mar e Atmosfera? Bem, talvez seja verdade. Seja como for, as redacções deviam curar-se do psitacismo de que sofrem há anos e deixar de se limitar a copiarem o que diz a Lusa. Qualquer jornalista tem de saber que a única pontuação que se pode empregar na numeração é a vírgula, para separar a parte inteira da parte decimal. Logo, 4,9. Por outro lado, os pontos cardeais, colaterais e subcolaterais grafam-se com minúscula inicial. Logo, norte-nordeste. Por último, nos pontos subcolaterais, o habitual é reduzir o primeiro termo. Logo, nor-nordeste. Só não aprendem se não quiserem.

 

[Texto 8585]

Helder Guégués às 08:47 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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06
Set 17

Raças superiores

Agora é assim?

 

      «Eu sou Moritz, o Grand Danois por si comprado, no início da guerra, a um agricultor da Flandres» (Amados Cães, José Jorge Letria. Revisão de Henrique Tavares e Castro. Cruz Quebrada: Oficina do Livro, 3.ª ed., 2008, p. 75). Neste caso, a maioria dos leitores não estranhará muito, ou encolherá os ombros, já que nem sequer é português. Mas aqui? «Quem conheceu Byron pôde testemunhar a imensa dor causada pela morte do seu cão Terra Nova, amigo de todas as horas, confidente de todos os instantes» (Idem, ibidem, p. 60). Ou aqui? «A questão da posse desse Perdigueiro nunca ficou resolvida entre mim e o meu pai» (Idem, ibidem, p. 223). E por aí fora: Pastor Alemão, Caniche, Galgo Afegão, etc. Pouco faltou para glorificarem a própria merda de cão: Cocó de Cão.

 

[Texto 8132]

Helder Guégués às 10:20 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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30
Ago 17

Como se escreve nos jornais

Minusculizai

 

      «O Verão faz-se sentir com intensidade neste enclave abraçado entre a cordilheira da serra da Marofa, do vale do Côa e os socalcos do Douro, onde o Côa e o Águeda rasgam a paisagem que se desenha entre profundas escarpas graníticas. A reserva da Faia Brava vai à escarpa (faia significa escarpa) buscar o nome mas também a sua razão de ser. É que aquelas grandes rochas são um porto seguro para o grifo, o abutre-do-Egipto, a águia-de-Bonelli ou a águia-real que ali acabam por nidificar, e foram mesmo estes bichos que acabaram por animar o trabalho de conservação e de gestão sustentável desta área protegida cujos responsáveis acreditam que a preservação da natureza também depende dos cidadãos» («Reserva da Faia Brava pede apoio para manter o fogo à distância», Cristiana Faria Moreira, Público, 20.08.2017, p. 12).

      Quase, Cristiana Faria Moreira, quase: abutre-do-egipto, águia-de-bonelli. (Na Infopédia, o primeiro encontramo-lo no Dicionário da Língua Portuguesa e o segundo no Dicionário de Português-Espanhol. É impressionante!) E, ao que me parece, faial é que significa despenhadeiro, alcantil, e não faia.

 

[Texto 8110]

Helder Guégués às 06:45 | comentar | favorito
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13
Nov 16

Fases da Lua, de novo

Muito complexo...

 

      «O que é uma super-Lua? É um fenómeno que ocorre quando o nosso satélite natural está em fase de Lua Cheia e se encontra a pelo menos 90% do seu ponto mais próximo da Terra. Em Lisboa, serão 11h22 quando a Lua atingir o perigeu — o ponto da sua órbita mais perto da Terra. É que a órbita da Lua (tal como a dos planetas) é elíptica, em vez de circular, e não é sempre igual» («Prepare-se: vem aí uma super-Lua como não se via há 68 anos», Teresa Serafim, Público, 13.11.2016, p. 27).

      Muito bonito, mas já aqui vimos que as fases da Lua se grafam com minúscula, assim: lua cheia, lua nova, quarto crescente, quarto minguante.

 

[Texto 7236]

Helder Guégués às 08:17 | comentar | favorito
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28
Out 16

Do canal da Mancha ao Sara

Mal habituados

 

     «A frota de navios de guerra russos encabeçada pelo porta-aviões Almirante Kuznetsov, que ontem cruzou o canal da Mancha e segue com destino à Síria, deverá passar entre hoje e segunda-feira ao largo da costa portuguesa» («Fragata portuguesa vigia passagem de frota russa a caminho da Síria», Susana Salvador, Diário de Notícias, 22.10.2016, p. 21).

      Isso mesmo, canal da Mancha. Lembrei-me de outras paragens mais cálidas e do que ouvi pela segunda vez: deserto do Sara fica, disse-me o meu interlocutor, irreconhecível. Acham mais natural deserto do Sahara, claro. Até devem preferir, suspeito, em árabe, الصحراء الكبرى, mas envergonham-se de o pedir.

 

[Texto 7203]

Helder Guégués às 21:52 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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28
Jan 16

Vírus de Zica

Têm de se decidir

 

      Hoje foi assim: «Confirmados cinco casos de vírus de Zika no país» (Público, 28.01.2016, p. 7). Na terça, assim: «Como o Brasil demorou para declarar o Zica uma emergência» (Kathleen Gomes, Público, 26.01.2016, p. 24).

      Escrever-se com c ou com k não é a única questão. As designações de doenças — já o lembrei muitas vezes — escrevem-se com minúscula inicial, excepto os nomes próprios que contenham. Ora, Zika é um nome próprio. Podemos, e até devemos, aportuguesá-lo, mas não deixará de ser nome próprio: Zica. Logo, vírus de Zica. Se for usada menos formalidade — como é o caso do segundo título —, pode então usar-se a minúscula, como, para o castelhano, a Fundéu recomenda. O que convém é não mudar de opinião de dois em dois dias.

 

[Texto 6571]

Helder Guégués às 20:41 | comentar | ver comentários (1) | favorito
15
Jan 16

Ortografia dos trópicos...

Não são topónimos

 

    «Além disso, o furacão Alex é ainda raro devido ao local onde começou a formar-se: numa região subtropical. “Este furação tem uma origem subtropical, o que é raríssimo”, sublinhou o meteorologista. “Geralmente, os furacões formam-se entre o Trópico de Câncer e o Trópico de Capricórnio. Para se formar um furacão, são necessárias águas superficiais muito quentes, acima dos 22 a 23 graus [Celsius].”» («Alex é o quarto furacão que chega aos Açores no século XXI», Rita Ponce, Público, 14.01.2016, p. 24).

      Não, não: o nome das linhas imaginárias é grafado com minúsculas iniciais. Logo, trópico de Câncer, trópico de Capricórnio. Como equador, até com a vantagem de o distinguir do país com o mesmo nome.

 

[Texto 6544]

Helder Guégués às 10:40 | comentar | favorito
09
Jan 16

«Era espacial»

Não merece

 

   «Chamavam-lhe o costureiro da Era Espacial, pelas colecções de cortes limpos, formas simplificadas e blocos de cor que evocavam esse ideal da exploração do espaço, mas também, nos seus 60 de glória, o enfant terrible da alta-costura parisiense» («Morreu André Courrèges, o futurista da moda», Joana Amaral Cardoso, Público, 9.01.2016, p. 37).

    É certo que o livro de estilo do Público recomenda a maiúscula em eras, épocas ou séculos, mas o exemplo que dá, Idade Média, mostra bem que não se aplica a casos como era industrial, era nuclear, era espacial, etc., porque não são épocas históricas.

 

[Texto 6532]

Helder Guégués às 21:42 | comentar | favorito
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