29
Dez 16

«Barreira simbólica»

Ou psicológica

 

      «As concentrações de dióxido de carbono na atmosfera superaram este ano a barreira simbólica de 400 partes por milhões [sic] e a tendência é para subir. No oceano Ártico, o calor conduziu ao degelo anual que se produz de forma antecipada.» É um excerto de uma notícia da SIC já do mês de Julho, mas a expressão de que vou tratar repete-se, tenho a certeza, todos os dias. Porquê «barreira simbólica»? Simbólica de quê? Por vezes, variante desta, porventura, é a «barreira psicológica». Os revisores do jornal Le Monde vieram agora também falar da barre symbolique: «Il est tout à fait possible de se passer de l’expression “passer sous la barre de, etc.”, et encore plus si elle est qualifiée de “symbolique”. Mais pour ceux qui ne peuvent s’en... passer, sachez qu’il est parfaitement inutile d’employer le pluriel: “sous la barre des 10 %”, par exemple ; “de” est bien suffisant et plus économique. Il est tellement plus simple d’écrire: “le déficit est passé sous 10 %”. Là aussi, c’est plus économique que “le déficit est passé sous [la barre symbolique des] 10 %”.» São manias sem fronteiras, está visto.

 

[Texto 7364]

Helder Guégués às 18:41 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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12
Dez 16

Como se escreve por aí

Diacho

 

      «Morreu o líder da Opus Dei», li agora mesmo no sítio da TSF. Coisas da Lusa, escarrapachadas tal qual, nem que sejam enormidades, em jornais e sítios que tais. E mais: «Javier Echevarría, morreu devido a uma insuficiência respiratória derivada de uma infeção pulmonar.» Chega, ou ainda vou ter pesadelos. Até amanhã.

 

[Texto 7320]

Helder Guégués às 23:56 | comentar | favorito
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27
Nov 16

Os «locais», de novo

Já é modismo

 

      «Em Santiago, Alípio de Freitas recebeu treino militar, de guerrilha. Durante uma folga desse treino, aproveitou para conhecer uma aldeia, perto do campo. Os locais faziam fardos de feno, com erva molhada, e Alípio alertou que os feixes, ao serem feitos com essa erva molhada, acabariam por apodrecer. Fidel estava lá, na aldeia, ouviu a explicação e dirigiu-se a Alípio. Foi aí que se conheceram pessoalmente» («Alípio de Freitas: O toque mágico, de fazer bem e amar, vai com Fidel», TSF, 26.11.2016).

    Os «locais», pois... Muito inglês. Custa a crer que os aldeões fizessem os fardos com a erva molhada. Naturalmente não seriam aldeões, mas professores castigados, não?

 

[Texto 7282] 

Helder Guégués às 20:49 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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06
Set 16

Puxar pelo pensamento...

Da nossa repórter cultural

 

      Gostava de ter ido à Festa do Livro, nos jardins do Palácio de Belém, mas estava por esses dias em Peniche (por acaso, no hotel e durante todo o tempo em que se realizou a Escola de Quadros do CDS). Teresa Nicolau, da RTP, interrompeu Pedro Mexia, consultor cultural do Presidente da República, e que também esteve na Escola de Quadros, para nos ofertar esta pérola: «... e vamos ter várias conversas. Por exemplo, a ideia também é puxar um bocadinho pelo pensamento, ou seja, colocar as pessoas a reflectir aqui nestes jardins.»

 

[Texto 7062]

 

 

Peniche.PNG

Helder Guégués às 12:00 | comentar | favorito
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07
Ago 16

Fora de controlo

Língua em fogo

 

      Eduarda Maio, no noticiário das 11 da manhã de ontem, na Antena 1: «Na freguesia de Melres e Medas, em Gondomar, a preocupação dos bombeiros, a esta hora, com um incêndio que começou ontem à tarde, e que já esteve controlado, voltou a descontrolar-se esta manhã, a preocupação, dizia eu, dos bombeiros a esta hora é a urbanização da Costeirinha, porque o fogo anda lá perto [...].»

    O incêndio «esteve controlado, voltou a descontrolar-se»... Pobre língua, pobres ouvintes.

 

[Texto 7006]

Helder Guégués às 07:59 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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20
Abr 16

Je suis brésilien

Quem te viu

 

      «Juízes que vão decidir sobre Lula viraram vedetas de TV». O leitor culto acha logo que é um título da estimável Folha de Caiapônia. Mas não. É do Diário de Notícias.

 

[Texto 6757]

Helder Guégués às 23:07 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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06
Mar 16

Verbo «pôr», depois dos últimos estertores

Quem diria!

 

      O P.e Tolentino Mendonça é consabidamente um dos mais estimáveis poetas portugueses contemporâneos, mas também crava pregos no caixão do verbo pôr que até nos faz doer a alma. «Dou dois exemplos, culturalmente distintos, mas suficientemente incisivos para nos colocar a pensar» («O céu e o inferno», «Revista E»/Expresso, 5.03.2016, p. 90).

 

[Texto 6668]

Helder Guégués às 16:50 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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06
Dez 15

A maldição do «colocar»

Não saímos desta

 

      «Toda esta discussão em volta dos acontecimentos recentes e a ligação feita aos movimentos migratórios devem assustar-nos e colocar-nos alerta para os que irão utilizar estes massacres como argumento das suas ideias de xenofobia e intolerância» («Paris, e agora?», Manuela Niza Ribeiro, Público, 6.12.2015, p. 48).

   Pois não, não é jornalista, mas sim professora universitária e presidente do Sinsef, Sindicato dos Funcionários do SEF, o que prova que a maldição é mais universal do que se pode crer. Quem é que, com um conhecimento menos que perfunctório da língua, escreve assim? No caso, «colocar» não usurpou o lugar de direito do verbo «pôr»: podia simplesmente escrever-se «devem assustar-nos e alertar-nos». Nada mais.

 

[Texto 6456]

Helder Guégués às 08:59 | comentar | favorito
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17
Nov 15

E você, conta ou contabiliza?

Contabilistas frustrados

 

    «Infelizmente, não podemos ainda fechar a contabilidade dos eventuais desaparecidos, mortos, porque sabemos que há vários corpos por identificar» (José Cesário, secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, noticiário das 18h00, Antena 1, 16.11.2015).

      Não é nada de novo, mas, desde os atentados de sexta-feira, é a toda a hora: não contam os mortos e os feridos — contabilizam-nos. Talvez faça sentido para o secretário de Estado, licenciado em Administração e Gestão Escolar. Mais um modismo atoleimado.

 

[Texto 6402] 

Helder Guégués às 09:41 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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29
Out 15

Colocações culinárias

É uma maldição

 

      «Açorda madeirense – Açorda feita a partir de pão migado, ou em pequenos pedaços, e milho cozido. Rega-se com azeite e coloca-se alhos esmagados, tomilho e pimenta da terra; de seguida, escalda-se com água a ferver, na qual se escalfaram ovos para acompanhar. À parte, serve-se batata-doce cozida ou assada com casca.» É uma das entradas do novíssimo Dicionário Prático de Cozinha Portuguesa, de Virgílio Nogueiro Gomes 
(Marcador Editora/Presença, 2015, p. 20). Vamos lá ver: a quem é que não ocorre logo, de uma penada, meia dúzia de verbos melhores, mais expressivos, em vez daquele «coloca-se»? Se procurarmos, encontramos casos piores, como é logo este da página 21: «Adobe – Termo transmontano para colocar carnes em temperos antes de se fazerem enchidos. Também se diz adoba.» Que significa isto exactamente? É claro que nunca numa recensão diriam fosse o que fosse sobre estas questões. Noutros casos, a opção é discutível. Por exemplo, porquê registar «Ameixas d’Elvas DOP» desta forma? E esperemos que a grafia «açerola» (p. 18) não seja convicção do revisor nem vingue.

 

[Texto 6365]

Helder Guégués às 15:47 | comentar | favorito
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