17
Jan 18

Léxico: «criovulcão»

Coisas novas

 

      «Os cientistas sugerem que duas zonas na região equatorial de Titã são depressões geológicas que podem ser resquícios de mares antigos que secaram ou de criovulcões, vulcões gelados que expelem água ou metano em vez de lava» («Maior lua de Saturno tem nível do mar tal como a Terra», Rádio Renascença, 17.01.2018, 21h34).

      Mais um neologismo, e este vejo-o pela primeira vez. Criovulcão ou vulcão gelado, porque, em vez de silicatos, expele líquido feito de materiais voláteis tais como água, amónia ou metano. Nunca dominaremos tudo, mas isso só é mau para os neofóbicos. (Bem vejo: não o encontramos no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. E atenção: a cada fobia corresponde um -fóbico, adjectivo. Quantos não faltam nos dicionários!)

 

[Texto 8597]

Helder Guégués às 22:36 | comentar | ver comentários (4) | favorito

«Hackear»?

Sobretudo na rádio

 

      Nem queria ser eu a dizê-lo, na verdade, mas agora estou a ouvi-lo cada vez mais: hackear. Eu sei, um problema. Apropriado pelos falantes de português, mas estranho à nossa língua. Bem, mas também temos — e esse ainda mais desnecessário — scanear, que a inteligência (agora sem ironia nem acinte) brasileira transformou em escanear. E então, que fazemos, como o escrevemos? Ficará irreconhecível se o escrevermos «haquear»? Sim? É que tenho notícia de que no Brasil o escrevem «raquear», o que é incomparavelmente pior. Temos é de fazer uma escolha, optar por um caminho, e os lexicógrafos não podem assobiar para o lado.

 

[Texto 8595]

Helder Guégués às 21:02 | comentar | ver comentários (13) | favorito
21
Dez 17

Léxico: «algemagem»

Já que é necessário

 

      «“Atendendo à contínua perturbação, à recusa em abandonar o local ou em acatar qualquer ordem do agente e finalmente à recusa em se identificar, foi-lhe dada voz de detenção. Uma vez que o cidadão resistiu à algemagem, tal obrigou o agente e os seus colegas que entretanto chegaram em apoio, [sic] a utilizar a força para o imobilizar, de acordo com os procedimentos definidos”, explicou a PSP» («Homem detido no Pingo Doce “estava a causar desacatos”, explica a PSP», Tatiana Costa, Sol, 21.12.2017).

      Claro que um inimputável pode ser detido, disso não restam dúvidas, mas também não deixa de ser certo que a polícia devia estar mais bem preparada para estes casos, aliás, para todos os casos, e preferir a técnica e alguma sensibilidade à simples brutalidade. Mas passemos à algemagem: é um neologismo amplamente usado pelas forças policiais, e, como está bem formado, bem pode ir para os dicionários.

 

[Texto 8496]

Helder Guégués às 13:17 | comentar | ver comentários (1) | favorito
10
Ago 17

Léxico: «biorremediação»

É bio, é bom?

 

      «Segundo os investigadores [da Universidade de Aveiro], esta é a primeira investigação a apresentar estratégias de biorremediação [um processo que utiliza organismos vivos para reduzir ou remover contaminações no ambiente] de microplásticos, daí que seja considerado o primeiro passo para resolver o problema de forma rápida e eficiente» («Fungo marítimo é solução para erradicar microplásticos dos oceanos», Joana Capucho, Diário de Notícias, 9.08.2017, p. 13).

      Cá temos mais um neologismo: biorremediação. Mas, reparo agora, dir-se-á mesmo «fungo marítimo», como se lê no título da notícia? Se se diz «organismo marinho», expressão usada no corpo da notícia, decerto que também se dirá «fungo marinho». Sinónimos, sim, mas não em todos os casos. Talvez a jornalista fosse levada a usar «marítimo» porque o nome do fungo é Zalerion maritimum.

 

[Texto 8087]

Helder Guégués às 09:38 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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21
Jul 17

Léxico: «queimódromo»

E outras que hão-de surgir

 

      «A EDP Corrida do Parque à Noite está de volta ao Parque da Cidade do Porto e a temática da edição deste ano é o universo e imaginário da saga Star Wars. A corrida e caminhada deste ano apresenta uma distância de 8 km, destinada a todas as classes etárias, e irá ter lugar no próximo sábado, dia 22 de julho, pelas 21h30, no Parque da Cidade do Porto, com partida e chegada no recinto do Queimódromo» («Corrida do Parque à Noite no sábado numa galáxia muito muito distante...», Destak, 21.07.2017, p. 2).

     Era, pois, só esperar, como disse: aqui pudemos ver pescódromo e aqui praxódromo. 

 

[Texto 8044]

Helder Guégués às 07:06 | comentar | ver comentários (5) | favorito
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11
Jul 17

Léxico: «tomossíntese»

Apontai aí

 

      «Rastreio usa o método de Tomossíntese, com recurso a imagens a três dimensões. Governo lança também o projeto-piloto do Programa Regional do Cancro do Cólon e Reto para alargar a todo o país em 2018» («Rastreio do Cancro da mama com técnica inovadora no Algarve», Maria Augusta Casaca, TSF, 11.07.2017, 15h03).

      A tomossíntese — palavra que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora ignora — é a mamografia a três dimensões (3D).

 

[Texto 8006]

Helder Guégués às 18:27 | comentar | ver comentários (1) | favorito
04
Jul 17

Léxico: «juridismo»

Então é isso

 

      «Já o ministro [Azeredo Lopes] começa, e bem, por dizer que assume a responsabilidade política (o que quer que isso seja no caso vertente) e que o roubo — a que eufemisticamente e por um conveniente “juridismo” chama “furto” — é grave» («Um governo intermitente», Paulo Rangel, Público, 4.07.2017, p. 44).

      Curioso, eu também ia jurar que foi um furto. É porque Paulo Rangel — que me parece dizer nesta frase tudo e o seu contrário — sabe mais do que o ministro e do que eu. Juridismo não conhecia.

 

[Texto 7976]

Helder Guégués às 18:43 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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22
Mai 17

Léxico: «gratô»

O pior há-de ser o nome

 

      «É semelhante a uma gelatina com polpa e chama-se ‘gratô’. Este produto alimentar eco-inovador e 100% natural foi produzido por uma equipa de estudantes de mestrado da Faculdade de Ciências de Coimbra, com a colaboração da Escola Superior Agrária de Coimbra (FCTUC)» («Investigadores de Coimbra criam ‘gratô’. Novo alimento combina fruta e algas», Rádio Renascença, 22.05.2017, 10h46).

      O Ratatui não se lembraria de um nome mais francês. Mas está bem, desde que não tenha aspecto nojento e seja saboroso. Será que se escreve «eco-inovador»?

 

[Texto 7859]

Helder Guégués às 17:03 | comentar | ver comentários (7) | favorito