18
Set 17

Cuando-Cubango, por exemplo

Opções

 

      «Numa análise por províncias, verifica-se que as que registaram maiores aumentos foram o Moxico (2,20%), Cunene (2,11%), Cuando-Cubango (2,03%), Namibe (2,00%) e Lunda-Sul (1,90%)» («Inflação mensal de regresso às quedas de Agosto», Ricardo David Lopes, Vanguarda, 15.09.2017, p. 32).

      É um jornal angolano — e escrevem Cuando-Cubango. Se fosse um jornal português, optariam inevitavelmente por Kuando-Kubango. Ah, porque a idiossincrasia ortográfica angolana, ah, porque o k agora também faz parte do alfabeto português, ah... Se fosse cá, também não verificavam nada — constatavam.

 

[Texto 8157]

Helder Guégués às 17:42 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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14
Set 17

«Cônjuge», agora estropiada na escrita

Era previsível

 

     «Viajar com companheiro ou conjugue (31%), viajar com toda a família (30%) e tirar um curso/aprender uma nova competência (26%) são outras motivações que convencem os portugueses» («Licença sabática fora do alcance», João Moniz, Destak, 14.09.2017, p. 4).

     Era previsível: de tanto a pronunciarem mal, tinham de começar a escrevê-la mal. E que tal um ano sabático para aprender o bê-á-bá da língua?

 

[Texto 8151]

Helder Guégués às 19:47 | comentar | favorito
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22
Ago 17

Léxico: «Ísquia»

Quão diferentes

 

      «Abalo de 4.0 atingiu a ilha de Ischia. Primeiro balanço aponta para dois mortos e 39 feridos» («Sismo em Itália. Bebé resgatado com vida dos escombros», Rádio Renascença, 22.08.2017, 6h59). «Um sismo de magnitude 4 na escala de Richter abalou a ilha de Ísquia, no Golfo de Nápoles, sul de Itália, provocando a morte de duas pessoas, além de danos materiais» («Sismo na ilha de Ísquia, em Itália», TSF, 21.08.2017, 22h36).

      Talvez só se encontre a grafia Ísquia na segunda metade do século XX — Rebelo Gonçalves, por exemplo, não regista o topónimo —, mas basta pensar: o que está em harmonia com a nossa língua, Ischia ou Ísquia? Não, não não sabemos todos o mesmo. Não, não temos todos o mesmo cuidado.

 

[Texto 8102]

Helder Guégués às 08:35 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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Os «scientificos»

Fracotes

 

      «O resto eram oficiais do Exército. Alferes, tenentes e capitães. Tinham o apoio de veterinários e alguns eram eles próprios oficiais veterinários. Daí a preferência do povo por José Tanganho e pelo seu cavalo, o Favorito. Em 1925, no estertor da I República, fartos de revoluções e golpes de Estado, os portugueses não morriam de amores pelos militares e simpatizavam claramente com um civil de origem humildes que disputava o pódio com os chamados “scientíficos” que possuíam cartas militares e conhecimentos técnicos para enfrentar a prova. Aliás, entre os 39 cavaleiros, só Tanganho e mais dois eram civis» («Tanganho: o herói do povo que ganhou a Volta a Portugal a cavalo», Carlos Cipriano, Público, 14.08.2017, p. 13). Que bazófia, realmente. E, afinal, só dois «scientificos» («scientifico» não levava accento, fique sciente d’isso, Carlos Cipriano — vamos escrever como o outro maluco) chegaram ao final da prova. Quase a propósito: porque é que o Dicionário da Real Academia Espanhola não regista científico, na acepção de cientista, como substantivo?

 

[Texto 8101]

Helder Guégués às 06:45 | comentar | favorito
07
Ago 17

Léxico: «cagagésimo»

Não o corrijam, não

 

      «A nenhum de nós, fique claro, alguma vez passou pela cabeça duvidar das mirabolâncias que o Pires contava. Muito menos deixar transparecer um cagagésimo de incredulidade» (O Fim das Bichas é o Princípio das Filas, Alface. Lisboa: Fenda, 1999, p. 33).

    É incrível, mas não o encontramos no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Resultado: um dos nossos cronistas da moda (?) escreve-o à sua maneira, «cagajésimas», e o jornal, é claro, não o corrige, pois isso seria coarctar a sua liberdade criativa. Apre!

 

[Texto 8080]

Helder Guégués às 10:39 | comentar | ver comentários (1) | favorito
28
Jul 17

Com hífen e sem hífen

Ora vejamos

 

      Hoje à tarde falei com um médico-cirurgião geral. De trato lhano, muito terra-a-terra, e sempre de gargalhada pronta. (Costuma ser pior com semialfabetizados.) Se se escreve «médico-cirurgião», há-de escrever-se «médico-cirurgião geral», não? Contudo, não é o que habitualmente se usa. Aquele, como outros, apresenta-se como «médico especialista em Cirurgia Geral há mais de vinte anos». Há alguma diferença, caro R. A.? No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, encontramos tão-só médico-cirurgião, cirurgião-dentista e cirurgião plástico. Pois, e os outros ficam de fora? Não há também o cirurgião torácico? O cirurgião-urologista? O...

 

[Texto 8065]

Helder Guégués às 23:47 | comentar | ver comentários (5) | favorito
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Como se escreve no «Correio da Manhã»

Envolve Maserati, há despiste

 

      «A GNR deteve ontem um lusofrancês de 31 anos que conduzia um Maserati com matrículas falsas, em Ílhavo. Os militares dispararam 2 tiros de intimidação para deter o polícia suspenso em França» («Maserati com matrículas falsas», Correio da Manhã, 28.07.2017, p. 48).

      Polícias contra polícia está muito bem, e os tiros serão mais do que justificados — não me parece é que sejam de intimidação, mas de intimação. E claro que o polícia será luso-francês, o Correio da Manhã averiguou mal o caso. E um carro só tem uma matrícula, verdadeira ou falsa — as chapas é que são duas.

 

[Texto 8064]

Helder Guégués às 22:26 | comentar | favorito
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25
Jul 17

Como se escreve nos jornais

Olhem, é assim

 

      «O Discovery Channel anunciou que o mito olímpico Michael Phelps ia fazer uma corrida com um tubarão branco, mas só no final os desconsulados espectadores perceberam que se tratava de um duelo contra um tubarão... criado por computador» («Phelps contra um PC desilude», Destak, 25.07.2017, p. 8).

      Então, «consulado», «desconsulado», não é? A lógica deve ser a de que, como é um jornal gratuito, os leitores não merecem mais. O brio profissional e o amor à língua são desconsoladoras fantasias para eles.

 

[Texto 8053]

Helder Guégués às 08:21 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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14
Jul 17

«Pára-arranca»

Perceberam

 

      «Perdemos qualidade de vida com a situação atual. É muito resultante do pára-arranca dos carros e veículos pesados» («Condutores circulam a alta velocidade e causam acidentes», João Saramago, Correio da Manhã, 12.07.2017, p. 20).

      Vá lá, perceberam que, se seguissem à letra o Acordo Ortográfico de 1990, o leitor ia atrapalhar-se um pouco.

 

[Texto 8021]

Helder Guégués às 15:21 | comentar | favorito
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12
Jul 17

Ortografia: «protomodelo»

Então, comparem

 

      «Tiago Freitas é de Braga, uma arquidiocese com 551 paróquias, onde a falta de padres começa a ser um problema, mas onde já se procuram soluções. Este sacerdote dedicou a sua tese de doutoramento a estas questões. Intitula-se “Colégio de Paróquias – um proto-modelo crítico para a paróquia da Europa Ocidental em tempo de mobilidade”, obteve recentemente classificação máxima na Pontifícia Universidade Lateranse [sic], em Roma, e com ela o seu autor espera conseguir ajudar a Igreja portuguesa» («As paróquias, tal como existem, têm os dias contados?», Ângela Roque, Rádio Renascença, 10.07.2017, 15h07).

      E será que está mesmo assim no título da tese, ou foi escorreganço da jornalista? Se foi o autor, como sacerdote já viu, com certeza, várias vezes escrita a palavra «protomártir». Como é que podia escrever-se de outra maneira que não «protomodelo»? O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não a regista, e talvez, como é natural, nenhum dicionário a registe — mas atenção, no da Porto Editora falta uma data de vocábulos com este elemento de formação. Sabotagem.

 

[Texto 8012]

Helder Guégués às 13:18 | comentar | favorito