13
Nov 17

Léxico: «imuno-hemoterapia»

Até nisto erram

 

      «Em junho foi ainda noticiado que tinham sido constituídos arguidos três médicos da especialidade de imunohemoterapia que tiveram responsabilidades nos concursos que deram à multinacional farmacêutica Octapharma o monopólio da venda de plasma aos hospitais públicos portugueses» («Caso do plasma já tem oito arguidos», Nuno Guedes, TSF, 13.11.2017, 7h47).

      Ó Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, tem paciência, olha à tua volta: não achas que tens de acolher urgentemente a palavra imuno-hemoterapia? E já agora, mas com menos urgência, regista também transfusional, que todos os dias se usa.

 

[Texto 8334]

Helder Guégués às 19:17 | comentar | ver comentários (1) | favorito
12
Nov 17

Ortografia: «sem-fim»

Ambos com hífen

 

      «Pode começar pelo pinhal de Leiria, embora haja um sem fim de itinerários que o levarão invariavelmente ao drama, ao horror, ao desespero, à desgraça» («Que falta de sensibilidade», Paulo João Santos, Correio da Manhã, 2.11.2017, p. 2).

      Ó senhor chefe de redacção, não é apenas à engrenagem com um parafuso com rosca helicoidal que se dá o nome de sem-fim, com hífen — a uma grande quantidade seja lá do que for também se dá o nome de sem-fim, também com hífen. Gramática e emoção em partes iguais, pelo menos.

 

[Texto 8328]

Helder Guégués às 12:47 | comentar | favorito
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Ortografia: «cor-de-rosa», de novo

Serão necessárias gerações

 

      «O último filme de David Gordon Green centra-se nesta história verídica [a de Jeff Bauman, que fora ver a namorada na maratona de Boston, em 2013, e, na sequência do atentado, ficou sem as duas pernas], entre álcool e fisioterapia, deixando um final cor de rosa-romanesco» («Amor América», Joana Amaral Dias, «Domingo», Correio da Manhã, 12.11.2017, p. 40).

      Apropriadamente, a rubrica de Joana Amaral Dias chama-se «Quarto escuro», e foi isso mesmo que aconteceu: escreveu às escuras. Quantas gerações têm de passar até todos os falantes saberem que é «cor-de-rosa» que se escreve? ☒

 

[Texto 8326]

Helder Guégués às 11:48 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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09
Nov 17

Ortografia: «estratificação»

Estão enganados

 

      «Durante largos anos, a rocha de xisto rasgada com a ajuda de uma marreta e cinzel, nos “planos de estractificação e xistosidade”, serviu essencialmente para fazer os esteios das vinhas do Douro» («Vila Nova de Foz Côa exporta pedras com mais de 500 milhões de anos», Olímpia Mairos, Rádio Renascença, 9.11.2017, 12h58).

      Não é surpreendente: se muitos jornalistas confundem «extracto» com «estrato», claro que todas as derivadas e aparentadas correm o mesmo risco. E quanto a revisão, nada: escrevem, mas acham que não vale a pena alguém corrigir. Vê-se bem que estão enganados.

 

[Texto 8311]

Helder Guégués às 14:49 | comentar | favorito
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08
Nov 17

Ortografia: «Hébron»

Ou não sei nada

 

     Já li alguma coisa da Bíblia, sim, mas não me lembrava nada de Macpela. É o nome de um campo, um terreno, e de uma caverna na vizinhança (Cave of Machpelah, para a legião de anglófonos que nos segue) de Hébron, comprados por Abraão ao hitita Efrom por 400 siclos de prata. A caverna serviu de sepultura para Sara, esposa de Abraão, e pelo menos para mais cinco outras personagens: Abraão, Isaac, Rebeca, Jacob e Lia. Está tudo no Génesis. Isto está tudo muito bem, acho eu, mas porque é que na reputadíssima Bíblia dos Capuchinhos se lê Hebron e não Hébron? Não é assim? Éden, hífen, Hébron, Sídon, Sólon...

 

[Texto 8309]

Helder Guégués às 12:41 | comentar | favorito
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06
Nov 17

Sobre «empreendedorismo»

«Conforto fonético»

 

      Hoje, tínhamos dois «especialistas em Língua Portuguesa» no Jogo da Língua, da Antena 1: a que já conhecemos, «residente», e o próprio ouvinte/concorrente/passatempista (mas este estava a «trabalhar», é «auxiliar de canalizador»). Vamos lá ver, devemos dizer «empreendedorismo» ou «empreendorismo»? «Porventura podemos articular a palavra “empreendorismo”, eliminando uma das sílabas, por, enfim, conforto fonético, mas, na verdade, a palavra contém todas estas sílabas: em.pre.en.de.do.ris.mo, em.pre.en.de.do.ris.mo.» Podemos, mas não devemos. Enfim, podemos. Seja pelo «conforto fonético».

 

[Texto 8297]

Helder Guégués às 14:57 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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03
Nov 17

Ortografia: «chuva molha-tolos»

Bem boa

 

      «Como é que se escreve», pergunta-me a minha filha, «“chuva molha-tolos”?» Oh, filha, ainda bem que me perguntas a mim e não ao Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, que se esqueceu, embora — pontas soltas — no Dicionário de Português-Francês já a possamos encontrar.

 

[Texto 8290]

Helder Guégués às 17:15 | comentar | ver comentários (5) | favorito
30
Out 17

Ortografia: «rétro»

Retro!

 

      «Estudos académicos mais recentes demonstram que há um grande apetite por parte dos jovens consumidores pelo retro. E as marcas perceberam rapidamente que poderiam explorar esse lado nostálgico» («O frigorífico da avó é fixe», Paulo Pinto, Rádio Renascença, 30.10.2017).

      Garanto-lhe, Paulo Pinto, que é rétro que se escreve. A palavra tem acento e é francesa, logo, grafa-se em itálico ou entre aspas. Não lhe custará muito corrigir, é o que nos parece.

 

[Texto 8278]

Helder Guégués às 18:48 | comentar | favorito
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29
Out 17

Ortografia: «marca de água»

Memofante Forte

 

      Notas de zero euros... O capitalismo reinventa-se a cada instante. «Uma nota de zero euros para colecionadores e turistas com imagens típicas de Portugal entrou este mês em circulação e até final do ano será impressa uma edição alusiva ao centenário das aparições de Fátima. [...] As ‘notas souvenir’ possuem as mesmas características de uma nota de euro verdadeira, como a marca de água, holograma, registo transparente, sistema de segurança e um número de série. É considerada a última moda entre as lembranças adquiridas pelos turistas nos países que visitam e está já entre as lembranças mais vendidas. [...] A ideia foi lançada em 2015 por Richard Faille em França, tendo nesse ano sido lançadas 100 notas de diferentes locais, e já se estendeu à Alemanha, Áustria, Bélgica, Suíça, Países Baixos e Espanha» («Portugal passa a ter notas de zero euros para colecionadores e turistas», Rádio Renascença, 29.10.2017, 12h53). De quando em quando, a Rádio Renascença esquece-se de desaplicar o Acordo Ortográfico de 1990. E, neste caso, eu nunca desaproveitaria o ensejo de usar um apóstrofo, que também está em extinção: «marca-d’água». Ah, está bem, essa é a grafia brasileira. Que diz o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora? Grafa marca de água. Houve um dia, contudo, em que se esqueceu de tomar a pílula de Memofante e, no Dicionário de Francês-Português, no verbete «filigrane», grafou marca d’água. Esperemos que a legalidade seja reposta.

 

[Texto 8276]

Helder Guégués às 17:45 | comentar | ver comentários (1) | favorito
25
Out 17

«Adictivo», pois claro

Aqui não há somas

 

      «“São pessoas com 50, 60 ou mesmo 70 anos que, por causa das dificuldades relacionadas com a ida para o desemprego, porque as microempresas que os empregavam fecharam às centenas, recaíram nos consumos. Alguns tinham casas, famílias constituídas e compromissos que deixaram de poder cumprir e, com a baixa tolerância à frustração que os caracteriza, voltaram aos consumos injectáveis”, contextualiza João Goulão, o director do Serviço de Intervenção nos Comportamentos Adictivos e Dependências (SICAD) e um dos anfitriões da Lisbon Addictions 2017 — a segunda conferência europeia sobre os comportamentos adictivos que começou ontem e que até amanhã reúne em Lisboa 1200 especialistas na matéria, provenientes de 70 países» («Salas de “chuto” e kits anti-overdose serão os próximos passos», Natália Faria, Público, 25.10.2017, p. 15).

      Faz Natália Faria muito bem em corrigir: não é «aditivo», mas «adictivo». Felizmente, o Departamento de Dicionários da Porto Editora aceitou, já lá vão mais de dois anos, a minha sugestão, pois também grafava «aditivo».

 

[Texto 8262]

Helder Guégués às 20:44 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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28
Set 17

Como se escreve por aí

Que no domingo vão andar à mocada

 

      A Motor 24 vem hoje falar das consequências de deixarmos o carro fora da garagem. Ah, são tantas. Por exemplo: «Riscos e moças: se calhar é dos perigos mais habituais.» Não quero alarvejar, mas, francamente, tomara-me a mim uma moça a valer no carro. Eu sei, eu sei: depende. As leitoras do Linguagista — mas haverá excepções, e não estamos aqui para julgar ninguém — hão-de preferir um valente moço. Já as catalãs decerto preferirão um belo mosso d’esquadra. Cada terra com seu uso, cada roca com seu fuso.

 

[Texto 8174]

Helder Guégués às 20:40 | comentar | favorito
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