14
Jul 17

«Pára-arranca»

Perceberam

 

      «Perdemos qualidade de vida com a situação atual. É muito resultante do pára-arranca dos carros e veículos pesados» («Condutores circulam a alta velocidade e causam acidentes», João Saramago, Correio da Manhã, 12.07.2017, p. 20).

      Vá lá, perceberam que, se seguissem à letra o Acordo Ortográfico de 1990, o leitor ia atrapalhar-se um pouco.

 

[Texto 8021]

Helder Guégués às 15:21 | comentar | favorito
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12
Jul 17

Ortografia: «protomodelo»

Então, comparem

 

      «Tiago Freitas é de Braga, uma arquidiocese com 551 paróquias, onde a falta de padres começa a ser um problema, mas onde já se procuram soluções. Este sacerdote dedicou a sua tese de doutoramento a estas questões. Intitula-se “Colégio de Paróquias – um proto-modelo crítico para a paróquia da Europa Ocidental em tempo de mobilidade”, obteve recentemente classificação máxima na Pontifícia Universidade Lateranse [sic], em Roma, e com ela o seu autor espera conseguir ajudar a Igreja portuguesa» («As paróquias, tal como existem, têm os dias contados?», Ângela Roque, Rádio Renascença, 10.07.2017, 15h07).

      E será que está mesmo assim no título da tese, ou foi escorreganço da jornalista? Se foi o autor, como sacerdote já viu, com certeza, várias vezes escrita a palavra «protomártir». Como é que podia escrever-se de outra maneira que não «protomodelo»? O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não a regista, e talvez, como é natural, nenhum dicionário a registe — mas atenção, no da Porto Editora falta uma data de vocábulos com este elemento de formação. Sabotagem.

 

[Texto 8012]

Helder Guégués às 13:18 | comentar | favorito
11
Jul 17

Léxico: «lança-granadas-foguete»

Eles é que (desta vez) sabem

 

      Ora vejamos: «Os lança-granadas foguete furtados na base de Tancos “provavelmente não poderão ser utlizados [sic] com eficácia”, revela o Chefe de Estado Maior General das Forças Armadas (CEMGFA), Pina Monteiro» («Algum material de guerra furtado em Tancos “provavelmente não poderá ser utilizado com eficácia”», Rádio Renascença, 11.07.2017, 20h07).

      Não pode escrever-se assim. Será antes lança-granadas-foguete, por vezes referido pela sigla LGF. E um lança-granadas-foguete não é o mesmo que uma bazuca? Parece que sim: «Os lança-granadas-foguete (vulgo bazuca), de que existiam modelos de 6 cm e de 8,9 cm, foram extensivamente empregues [sic], mau-grado só disporem de munições anticarros (Heat), consequentemente de pouca eficácia antipessoal, o que era compensado pelo forte efeito neutralizante da sua potente granada» (Guerra Colonial, Aniceto Afonso e Carlos de Matos Gomes. Lisboa: Editorial Notícias, 2000, p. 362). Mais uma coisinha: não é Estado-Maior-General, com hífenes, portanto, que se escreve? O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, que não regista lança-granadas-foguete, grafa-o de forma diferente na lista de siglas e abreviaturas: «Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas». Na Internet, porém, encontramos a página do Estado-Maior-General das Forças Armadas, que é precisamente a forma como eu grafo esta palavra composta.

 

[Texto 8008]

Helder Guégués às 21:03 | comentar | ver comentários (2) | favorito
10
Jul 17

Espaço/espaço

Universo

 

      «Ensinar como ser um astronauta e estimular negócios inspirados no Espaço são os desafios lançados pela Escola de Astronautas e pelo Coimbra Space Summer School, que decorrem durante esta semana na cidade coimbrã. Durante quatro dias (até quinta-feira), alunos do ensino secundário podem descobrir como é a vida no Espaço. No dia 13, Mikhail Kornienko, que integrou a segunda mais longa estadia de um ser humano no Espaço, dá uma palestra» («Cosmonauta vem a Portugal aguçar o apetite sobre a vida no espaço», Destak, 10.07.2017, p. 13).

      Nem sequer está consagrado nos dicionários nem prontuários, mas, de quando em quando, vê-se a palavra, nesta acepção, grafada com maiúscula inicial. Parece-me bem, e até pode evitar equívocos, como também é útil no par Natureza/natureza, por exemplo.

 

[Texto 7997]

Helder Guégués às 08:51 | comentar | ver comentários (1) | favorito
14
Jun 17

Não era preciso um acordo ortográfico

É simples

 

    O Diário de Notícias tem um diretor adjunto, Paulo Tavares; Armando Esteves Pereira, por sua vez, é diretor-adjunto do Correio da Manhã. Não precisávamos de um acordo ortográfico que viesse lançar-nos ainda em maiores confusões, mas foi isso que uns quantos iluminados, autorizados por políticos, fizeram. Agora só têm de esperar que morram todos os opositores.

 

 

[Texto 7921]

Helder Guégués às 20:32 | comentar | ver comentários (5) | favorito
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08
Jun 17

Representação da oralidade

‘Tou, sim? É o Zé Mário?

 

      Em declarações ao jornal Observador, José Mário Costa afirma que «‘tá-se bem» é da gíria. Talvez seja da gíria, mas a expressão, não o verbo, que é o único aspecto que pode estar em causa. Para representar a oralidade, ‘tá-se é correctíssimo. O co-fundador do Ciberdúvidas que pergunte, por exemplo, a Malaca Casteleiro, que em gramáticas de que é autor escreve, a propósito da garantia de intercompreensão, «(Es)tá (sim)» e «(Es)tou (sim)». Porque será que aquele obreiro do Acordo Ortográfico de 1990 aduziu estes exemplos? Naquele artigo, diz-se também, mas suponho que é inteiramente da lavra atrevida do jornalista, e está igualmente incorrecto, que para dar a entender que aquela grafia está errada se deve recorrer à pontuação. Que pontuação? Bem, isto serve apenas para matizar as afirmações, para ver as questões de outra perspectiva, não, que fique claro, para sancionar o uso, em todos os contextos e registos, daquela grafia.

 

[Texto 7910]

Helder Guégués às 15:00 | comentar | favorito
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03
Jun 17

Ortografia: «delação»

Impressionante!

 

      Disseram-me que a historiadora Irene Flunser Pimentel publicou ontem no Facebook um texto intitulado «Contra a delacção premiada – a bufaria que rende». Quem está contra o Acordo Ortográfico de 1990 também presta este mau serviço à língua.

 

[Texto 7891]

Helder Guégués às 11:21 | comentar | ver comentários (6) | favorito
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29
Mai 17

Léxico: «superior-geral»

Todos os meses

 

      «Também o superior-geral da ordem, o belga René Stockman, criticou a decisão que foi tomada pela direcção que administra os hospitais e que inclui leigos. Stockman disse ao “Catholic News Service” que chamou a atenção de Roma para a situação e que o secretário de Estado do Vaticano, o cardeal Pietro Parolin, estava a investigar pessoalmente o assunto» («Bispos da Bélgica contra eutanásia em hospitais católicos», Rádio Renascença, 29.05.2017, 11h47).

      É assim que eu também escrevo a palavra (e faço-o todos os meses), que só encontro no VOLP da Academia Brasileira de Letras. Vendo bem, também está no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, mas apenas na definição (outra incompreensível ponta solta neste dicionário) do adjectivo generalício: «relativo ao superior-geral de uma ordem religiosa».

 

[Texto 7880] 

Helder Guégués às 21:40 | comentar | ver comentários (1) | favorito
16
Mai 17

Palavras terminadas em -inho

Ora essa!

 

      Bonito livro, sim senhor, mas: «— Se calhar o tio está apaixonado. Olha para este Pózinhos de per lim pim pim para ela gostar de mim» (A Bruxa Cartuxa no Castelo das 5 Torres, Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada. Alfragide: Editorial Caminho, 2016, p. 24).

      Duas escritoras, professoras... Então não sabem (não ensinam?) que nenhuma palavra terminada em -inho leva acento? Onde está a sílaba tónica? Isto também faz mal às criancinhas; talvez não tanto como o Shin Chan, mas faz mal. Vão chegar ao pós-doc e ainda estão a escrever assim.

 

[Texto 7835]

Helder Guégués às 08:56 | comentar | ver comentários (12) | favorito
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08
Mai 17

«Corpo-a-corpo/corpo a corpo»

O murro na mesa

 

      E então a Alice escreveu que «era divertido aquele quase corpo-a-corpo entre táxis, autocarros e livros». Nisto, aparece o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, dá um murro na mesa e diz que não. Não?! É que regista apenas «corpo a corpo», tanto no dicionário com o AO90 como no dicionário sem o AO90. Não pode ser: há muito que corpo-a-corpo, substantivo, se escreve desta forma; a locução adverbial, por sua vez, escreve-se sem hífenes, pois claro, corpo a corpo. E mais (e melhor): com o Acordo Ortográfico de 1990, nada mudou. Não podia mudar, ou amputava a língua.

 

[Texto 7808]

Helder Guégués às 15:41 | comentar | ver comentários (5) | favorito
01
Mai 17

Como se escreve nos jornais

Poluição linguística

 

      Talvez fosse boa ideia comprar uma máscara antipoluição com carvão activado (que os dicionários desconhecem...) para andar de moto na cidade, não? E a propósito de antipoluição: «É um facto que o programa da extrema-direita, no seu anti-capitalismo, anti-europeísmo e anti-liberalismo, é o sonho húmido do Bloco» («Bicos calados», João Pereira Coutinho, Correia da Manhã, 28.04.2017, p. 48). Corrigirem isto nos jornais é que ‘tás quieto. Parte como chega; os leitores, esses grandes asnos, não merecem mais. E, contudo, qualquer mísero dicionário ou prontuário lhes diria que se escreve anticapitalismo, antieuropeísmo, antiliberalismo.

 

[Texto 7770]

Helder Guégués às 12:34 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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