16
Mai 17

Palavras terminadas em -inho

Ora essa!

 

      Bonito livro, sim senhor, mas: «— Se calhar o tio está apaixonado. Olha para este Pózinhos de per lim pim pim para ela gostar de mim» (A Bruxa Cartuxa no Castelo das 5 Torres, Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada. Alfragide: Editorial Caminho, 2016, p. 24).

      Duas escritoras, professoras... Então não sabem (não ensinam?) que nenhuma palavra terminada em -inho leva acento? Onde está a sílaba tónica? Isto também faz mal às criancinhas; talvez não tanto como o Shin Chan, mas faz mal. Vão chegar ao pós-doc e ainda estão a escrever assim.

 

[Texto 7835]

Helder Guégués às 08:56 | comentar | ver comentários (12) | favorito
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08
Mai 17

«Corpo-a-corpo/corpo a corpo»

O murro na mesa

 

      E então a Alice escreveu que «era divertido aquele quase corpo-a-corpo entre táxis, autocarros e livros». Nisto, aparece o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, dá um murro na mesa e diz que não. Não?! É que regista apenas «corpo a corpo», tanto no dicionário com o AO90 como no dicionário sem o AO90. Não pode ser: há muito que corpo-a-corpo, substantivo, se escreve desta forma; a locução adverbial, por sua vez, escreve-se sem hífenes, pois claro, corpo a corpo. E mais (e melhor): com o Acordo Ortográfico de 1990, nada mudou. Não podia mudar, ou amputava a língua.

 

[Texto 7808]

Helder Guégués às 15:41 | comentar | ver comentários (5) | favorito
01
Mai 17

Como se escreve nos jornais

Poluição linguística

 

      Talvez fosse boa ideia comprar uma máscara antipoluição com carvão activado (que os dicionários desconhecem...) para andar de moto na cidade, não? E a propósito de antipoluição: «É um facto que o programa da extrema-direita, no seu anti-capitalismo, anti-europeísmo e anti-liberalismo, é o sonho húmido do Bloco» («Bicos calados», João Pereira Coutinho, Correia da Manhã, 28.04.2017, p. 48). Corrigirem isto nos jornais é que ‘tás quieto. Parte como chega; os leitores, esses grandes asnos, não merecem mais. E, contudo, qualquer mísero dicionário ou prontuário lhes diria que se escreve anticapitalismo, antieuropeísmo, antiliberalismo.

 

[Texto 7770]

Helder Guégués às 12:34 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Ortografia: «retrorreflector»

Está nos dicionários

 

      «Usar sempre, quer de dia quer de noite, coletes retro-reflectores, não andar sozinho(a) durante a noite e tomar especiais cuidados ao atravessar as vias são outros conselhos da GNR» («Fátima. GNR pede a peregrinos que preencham questionário», Rádio Renascença, 30.04.2017, 21h25).

      Pois, mas não: é retrorreflector que se escreve. O prefixo retro-, que indica movimento para trás, segundo o Acordo Ortográfico de 1945, nunca se escreve com hífen, havendo duplicação do r e do s quando o elemento que se lhe segue começa por estas letras.

 

[Texto 7768]

Helder Guégués às 11:11 | comentar | favorito
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09
Abr 17

Léxico: «gasada»

Não siga esta gente

 

      «Uma ‘gazada’ antes de desligar o motor: Há quem advogue que é importante dar uma última aceleradela antes de desligar o carro. Errado! Os carros modernos entendem isso como uma forma de injetar mais combustível na mistura de combustão, além de que o combustível não utilizado fica por ‘queimar’ no interior dos cilindros» («Poupe combustível: Não siga estes mitos!», Motor 24, 9.04.2017, 13h18).

      Não está nos dicionários, mas anda na boca e na escrita de alguns. Mas, ai estes jornalistas!, é gasada que se escreve, pois vem de gás. Há muito que se deixou de escrever gaz. Agora só ignorantes e doidos é que escrevem gaz, annos, interêsse, photographia e outras que tais. Talvez queiram demonstrar, estes últimos, qualquer coisa, mas não se percebe o quê.

 

[Texto 7694]

Helder Guégués às 17:34 | comentar | favorito
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08
Abr 17

Léxico: «imprimadura»

Tudo técnico

 

      «O relatório explica que a datação do século XVI é consentânea com “o uso generalizado do pigmento azul de esmalte” e de um tipo de preparação sobre a qual é executada a obra, chamada “imprimadura corada”. “É uma camada muito fina que se coloca por cima da preparação do suporte [madeira] e que depois recebe a pintura propriamente dita”, explica José Alberto. […] Segundo o relatório sumário do estudo técnico e material, foram realizados vários exames — como fotografia de fluorescência de ultravioleta, reflectografia de infravermelhos, radiografia e espectrometria de fluorescência de raios X — e recolhidas seis micro-amostras da camada pictórica» («António Filipe Pimentel: “Relatório prova que a pintura é autêntica”», Isabel Salema, Público, 8.04.2017, p. 40).

      Imprimadura não tem nada de especial, e encontramo-lo em quase todos os dicionários. É, digamos, a aplicação de uma espécie de primário. Já quanto à reflectografia de infravermelhos, não a encontramos nos dicionários, e não creio que a definição de reflectografia que está em quase em todos os dicionários ajude a perceber o conceito. E escreve-se microamostra, como microalga, por exemplo, fica agora a jornalista a saber.

 

[Texto 7691]

Helder Guégués às 19:48 | comentar | ver comentários (1) | favorito
01
Abr 17

Ortografia: «panóptico»

Avô e neto

 

      «A construção da prisão de Sant Vittore começou em 1872 e ficou concluída sete anos depois, durante o Reino de Itália de Umberto I. O projeto foi realizado numa zona então da periferia pelo engenheiro Francesco Lucca, que seguiu o modelo do chamado “pan-ótico” (uma prisão ideal imaginada em 1791 pelo filósofo e jurista inglês Jeremy Bentham)» («A história de San Vittore, a prisão construída em estrela», O Meu Papa, ed. n.º 1, 31.03.2017, p. 15).

      Ainda nem há uma hora, passei pela Avenida Rei Humberto II de Itália, aqui em Cascais. Está bem que o neto viveu em Cascais vários anos, mas o avô não pode perder o h só porque não teve igual sorte. Já vimos que temos a tradição de traduzir o nome dos monarcas estrangeiros, senhor tradutor da revista O Meu Papa. Avô e neto são Humberto. Já «pan-ótico» revela ou falta de cuidado ou uma triste compreensão das regras do Acordo Ortográfico de 1990. Pendo para esta última hipótese, até porque neste artigo vamos encontrar duas vezes «boas vindas».

 

[Texto 7656]

Helder Guégués às 19:53 | comentar | favorito
31
Mar 17

«Ângelus», de novo

Também falamos português

 

      «Para o Angelus de domingo é melhor chegar a São Pedro por volta das 11h00» («Chegue uma hora antes para apanhar os lugares melhores», O Meu Papa, ed. n.º 1, 31.03.2017, p. 63). Não escreva assim, Clara Raimundo. Primeiro, não é preciso letra grelada, depois, em português a palavra também existe, ângelus. Veja na página da Ecclesia.

 

[Texto 7651]

Helder Guégués às 15:12 | comentar | favorito
14
Mar 17

Castas de uvas

Mais trabalho

 

      «Ali são atendidos os produtores – cerca de meio milhar por ano – que levam plantas certificadas. A estação possui vasta coleção de castas, mas está em curso um trabalho valioso: A recuperação de castas antigas. Nomes curiosos como caínho branco, esgana cão e cascal ou, no caso das tintas, sessão, labrusco, alvarinhão e dossal podem voltar a ter relevância» («No Minho há um jacuzzi para as videiras», António Catarino, TSF, 14.03.2017, 9h07).

      Já estavam a acertar demasiado, é o que me parece. Os nomes das castas é Cainho Branco, Esgana-Cão, ou Cascal, Sousão, Labrusco, Alvarelhão e Doçal. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora só não regista a primeira, mas também lhe falta uniformidade no tratamento dos verbetes relativos às castas de uvas, assim como a indicação da região em que cada uma é cultivada, o que seria muito útil.

 

[Texto 7558]

Helder Guégués às 11:20 | comentar | ver comentários (2) | favorito
06
Mar 17

Ortografia: «contra-safra»

A hora do neerlandês

 

    «O ministro explicou que a produção de azeitona se caracteriza tradicionalmente por anos de safra e contra safra (após um ano de elevada produção segue-se invariavelmente uma menor colheita), sendo esta a realidade com a qual os operadores e os agricultores estão habituados a lidar» («Ministro avisa: Azeite pode ficar mais caro após quebra da azeitona», Rádio Renascença, 6.03.2017, 9h44).

      Lá continuam eles com estes elementos pendurados no ar: é «contra-safra». Safra, contra-safra e entressafra, como já aqui tínhamos visto. Pela Infopédia, o leitor fica a saber que entressafra é o «periode tussen twee oogsten». Ou seja, está mais do que na hora de todo o português decente aprender neerlandês. Tot ziens!

 

[Texto 7531]

Helder Guégués às 09:59 | comentar | ver comentários (2) | favorito