14
Mar 17

Castas de uvas

Mais trabalho

 

      «Ali são atendidos os produtores – cerca de meio milhar por ano – que levam plantas certificadas. A estação possui vasta coleção de castas, mas está em curso um trabalho valioso: A recuperação de castas antigas. Nomes curiosos como caínho branco, esgana cão e cascal ou, no caso das tintas, sessão, labrusco, alvarinhão e dossal podem voltar a ter relevância» («No Minho há um jacuzzi para as videiras», António Catarino, TSF, 14.03.2017, 9h07).

      Já estavam a acertar demasiado, é o que me parece. Os nomes das castas é Cainho Branco, Esgana-Cão, ou Cascal, Sousão, Labrusco, Alvarelhão e Doçal. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora só não regista a primeira, mas também lhe falta uniformidade no tratamento dos verbetes relativos às castas de uvas, assim como a indicação da região em que cada uma é cultivada, o que seria muito útil.

 

[Texto 7558]

Helder Guégués às 11:20 | comentar | ver comentários (2) | favorito
06
Mar 17

Ortografia: «contra-safra»

A hora do neerlandês

 

    «O ministro explicou que a produção de azeitona se caracteriza tradicionalmente por anos de safra e contra safra (após um ano de elevada produção segue-se invariavelmente uma menor colheita), sendo esta a realidade com a qual os operadores e os agricultores estão habituados a lidar» («Ministro avisa: Azeite pode ficar mais caro após quebra da azeitona», Rádio Renascença, 6.03.2017, 9h44).

      Lá continuam eles com estes elementos pendurados no ar: é «contra-safra». Safra, contra-safra e entressafra, como já aqui tínhamos visto. Pela Infopédia, o leitor fica a saber que entressafra é o «periode tussen twee oogsten». Ou seja, está mais do que na hora de todo o português decente aprender neerlandês. Tot ziens!

 

[Texto 7531]

Helder Guégués às 09:59 | comentar | ver comentários (2) | favorito
02
Mar 17

Então que seja «drive-through»

Inglês|Português

 

      «Na igreja de St. Patrick em Glenamaddy, no condado de Galway na Irlanda celebra-se a Quarta-Feira de cinzas [sic] de forma... diferente. Quando os católicos e os protestantes normalmente recebem as cinzas na sua testa em forma de cruz de Cristo no interior da igreja, os membros desta decidiram fazer isso ao compor um drive-thru visto que muitas pessoas tinham pressa para se deslocarem para os seus empregos e ocupações» («Igreja irlandesa abre um ‘drive-thru’», Francisco Correia, Motor 24, 2.03.2017, 18h48).

    Não sei porque se há-de usar a corruptela drive-thru em vez de drive-through. Mas o sacerdote da Igreja de St. Patrick tem muito mais juízo, e não usou nenhuma das duas, nem nada que se pareça: «If you are unable to attend Mass you can come here, receive your Ashes without having to leave your car.» Dito isto, também não percebo porque não se encontra no Dicionário de Inglês-Português da Porto Editora.

 

[Texto 7523]

Helder Guégués às 23:11 | comentar | ver comentários (3) | favorito
27
Fev 17

Óscares e afins

Fevereiro, Óscares

 

     «Durante quase cinquenta anos, o fotógrafo William Christenberry regressou ao Alabama para fotografar os prédios rurais, igrejas e cafés à beira da estrada do Condado de Hale, onde, em criança, passava o verão nas terras dos seus avôs. O oscarizado realizador Alexander Payne nasceu, como Kurt, em Omaha» (Click! Como Funciona a Criatividade, Julie Burstein. Tradução de António Teixeira dos Santos. Alfragide: Estrela Polar, 2011).

      Oscarizado — o que pressupõe o verbo oscarizar. Podem ir, porque não?, para os dicionários, que não nos envergonharão. E, já agora, oscarizável. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora só regista — mas já não é mau, e devia ser seguido por todos — Óscar/Óscares. Não vejo, pois, necessidade de usar, como alguns ainda fazem, o termo Oscars. (Reparem: «passava o verão nas terras dos seus avôs». É, lembrar-se-ão daqui, como também passámos a escrever.)

 

[Texto 7514]

Helder Guégués às 11:14 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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26
Fev 17

«Mal gálico»

Desperdício

 

      «Olvidósele a Virgilio declararnos quién fue el primero que tuvo catarro en el mundo, y el primero que tomó las unciones para curarse del morbo gálico, y yo lo declaro al pie de la letra...» Estou a reler o D. Quixote e, precisamente neste ponto, vejo mais uma vez como os dicionários deixam de fora palavras e expressões que deviam acolher. A sífilis é, provavelmente, a doença com mais designações e os dicionários não as registam. Esta, mal gálico, é das mais comuns, e só nos dicionários brasileiros a encontramos, mas grafada de uma forma que me deixa muitas dúvidas: «mal-gálico». Está assim também no VOLP da Academia Brasileira de Letras, onde também encontramos «mal-americano», «mal-escocês», «mal-germânico», «mal-napolitano», etc. Faz algum sentido estar assim grafada? Não me parece.

 

[Texto 7508]

Helder Guégués às 10:53 | comentar | ver comentários (4) | favorito
24
Fev 17

«Coati» ou «quati»? Nenhuma?!

Em Espanha é que sabem

 

      «Foram fiscalizados 168 estabelecimentos comerciais, sobretudo “pet shops”, e também feiras, abrangendo um total de 4311 animais. Além do chimpanzé, foram apreendidas 63 aves, na sua maioria papagaios e araras, quatro suricatas, um coati e 12 cobras» («Chimpanzé entre 81 animais apreendidos em operação da GNR», Nuno Silva, Jornal de Notícias, 24.02.2017, p. 18).

      Consultamos o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora e... «Brasil ZOOLOGIA ver quati». Vamos ver: «Brasil ZOOLOGIA mamífero carnívoro, de focinho longo e aguçado, de cheiro desagradável». Mau... então como escrevemos nós? O Aulete só regista «quati», mas já li que mais correcta seria a ortografia «coati». O Dicionário da Real Academia Espanhola acolhe as grafias coatí (Espanha) e cuatí (Argentina e Colômbia).

 

[Texto 7504]

Helder Guégués às 20:30 | comentar | ver comentários (1) | favorito
18
Fev 17

Léxico: «zamaque»

Para mim, já é

 

      No ano passado, a Associação Empresarial Ourém-Fátima, em parceria com o Santuário de Fátima e a Imprensa Nacional-Casa da Moeda, lançou um terço comemorativo do centenário das aparições de Fátima. Por todo o lado leio que é composto «por contas em vidro soprado, produzidas artesanalmente na Marinha Grande, passador e crucifixo em zamak com acabamento de cobre e prata e corrente e arame em latão prateado». Para isto é que precisamos da colaboração dos lexicógrafos: já sabemos que vem do alemão Zink-Aluminium-Magnesium-Kupfer, mas nós estamos em Portugal. Seja zamaque.

 

[Texto 7489]

Helder Guégués às 17:38 | comentar | ver comentários (2) | favorito

Diagnóstico: contracção, e grave

Batem grave, gravemente

 

      Só prò caso de ser preciso, prò caso de não saberem — se fizermos a contracção, o acento é grave. Já se sabe o que acontece a quem anda à chuva...

 

[Texto 7488]

Helder Guégués às 12:06 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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11
Fev 17

Gralhas de ferro

Gralhas.JPG

 Para estas gralhas, nem a tão traumática esferográfica vermelha serve. Reparem que estas tampas foram feitas na Fábrica Visão, em Santa Maria da Feira.

Helder Guégués às 17:42 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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08
Fev 17

Colaborador ou trabalhador?

Não são sinónimos

 

      Trabalhador ou colaborador? Como sempre, as posições estão bem demarcadas, há mesmo dois lados: o patronal e o sindical. O uso do termo «colaborador» retira peso à relação laboral, defendem os sindicatos; são sinónimos, afirmam os patrões. «A ideia é desfeita pela linguista Maria Antónia Coutinho, professora da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas. “Não há palavras iguais. Mesmo as palavras que chamamos sinónimos não são sinónimos, são antes para-sinónimos, quase sinónimos. Quando há duas palavras que têm a mesma função, uma tende a desaparecer”, afirma a docente, acrescentando que, apesar de não ter feito um estudo sobre estas duas palavras, isoladamente e sem o contexto social, cultural e político não podem ser analisadas» («Sou colaborador ou sou trabalhador? A guerra das palavras entre sindicatos e patrões», João Carlos Malta, Rádio Renascença, 8.02.2017, 9h06).

      Também não me parece que sejam sinónimos, não. A meu ver, o uso (crescente?) do termo «colaborador» neste contexto é apenas, na maioria dos casos, uma forma habilidosa de as entidades empregadoras descrisparem as relações, dando uns visos de igualdade que, de facto, não existe. Já quanto a não existirem sinónimos, não concordo. Bem sei que há autores que o defendem, como R. Galisson e D. Coste, que, no Dicionário de Didáctica das Línguas (Coimbra: Almedina, 1983, pp. 546-47), escrevem: «Chamam-se parassinónimos os termos a que se pode atribuir o mesmo sentido mas cujas distribuições não são exactamente equivalentes. Parassinónimo distingue-se assim de sinónimo, designação aplicada a termos que têm o mesmo sentido e a mesma distribuição (emprego), isto é, comutáveis em todos os contextos e todas as situações. Como não se encontram sinónimos perfeitos, seria melhor falar apenas em parassinónimos ou em sinónimos no discurso.» E, a propósito, João Carlos Malta, a ortografia é esta, parassinónimo, porque com o elemento de origem grega para- não se usa nunca o hífen; se o segundo elemento começa por r ou s, há reduplicação do s ou do r: pararritmia, parassinónimo.

 

[Texto 7470]

Helder Guégués às 11:08 | comentar | ver comentários (7) | favorito (3)
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