09
Abr 17

Léxico: «gasada»

Não siga esta gente

 

      «Uma ‘gazada’ antes de desligar o motor: Há quem advogue que é importante dar uma última aceleradela antes de desligar o carro. Errado! Os carros modernos entendem isso como uma forma de injetar mais combustível na mistura de combustão, além de que o combustível não utilizado fica por ‘queimar’ no interior dos cilindros» («Poupe combustível: Não siga estes mitos!», Motor 24, 9.04.2017, 13h18).

      Não está nos dicionários, mas anda na boca e na escrita de alguns. Mas, ai estes jornalistas!, é gasada que se escreve, pois vem de gás. Há muito que se deixou de escrever gaz. Agora só ignorantes e doidos é que escrevem gaz, annos, interêsse, photographia e outras que tais. Talvez queiram demonstrar, estes últimos, qualquer coisa, mas não se percebe o quê.

 

[Texto 7694]

Helder Guégués às 17:34 | comentar | favorito
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08
Abr 17

Léxico: «imprimadura»

Tudo técnico

 

      «O relatório explica que a datação do século XVI é consentânea com “o uso generalizado do pigmento azul de esmalte” e de um tipo de preparação sobre a qual é executada a obra, chamada “imprimadura corada”. “É uma camada muito fina que se coloca por cima da preparação do suporte [madeira] e que depois recebe a pintura propriamente dita”, explica José Alberto. […] Segundo o relatório sumário do estudo técnico e material, foram realizados vários exames — como fotografia de fluorescência de ultravioleta, reflectografia de infravermelhos, radiografia e espectrometria de fluorescência de raios X — e recolhidas seis micro-amostras da camada pictórica» («António Filipe Pimentel: “Relatório prova que a pintura é autêntica”», Isabel Salema, Público, 8.04.2017, p. 40).

      Imprimadura não tem nada de especial, e encontramo-lo em quase todos os dicionários. É, digamos, a aplicação de uma espécie de primário. Já quanto à reflectografia de infravermelhos, não a encontramos nos dicionários, e não creio que a definição de reflectografia que está em quase em todos os dicionários ajude a perceber o conceito. E escreve-se microamostra, como microalga, por exemplo, fica agora a jornalista a saber.

 

[Texto 7691]

Helder Guégués às 19:48 | comentar | ver comentários (1) | favorito
01
Abr 17

Ortografia: «panóptico»

Avô e neto

 

      «A construção da prisão de Sant Vittore começou em 1872 e ficou concluída sete anos depois, durante o Reino de Itália de Umberto I. O projeto foi realizado numa zona então da periferia pelo engenheiro Francesco Lucca, que seguiu o modelo do chamado “pan-ótico” (uma prisão ideal imaginada em 1791 pelo filósofo e jurista inglês Jeremy Bentham)» («A história de San Vittore, a prisão construída em estrela», O Meu Papa, ed. n.º 1, 31.03.2017, p. 15).

      Ainda nem há uma hora, passei pela Avenida Rei Humberto II de Itália, aqui em Cascais. Está bem que o neto viveu em Cascais vários anos, mas o avô não pode perder o h só porque não teve igual sorte. Já vimos que temos a tradição de traduzir o nome dos monarcas estrangeiros, senhor tradutor da revista O Meu Papa. Avô e neto são Humberto. Já «pan-ótico» revela ou falta de cuidado ou uma triste compreensão das regras do Acordo Ortográfico de 1990. Pendo para esta última hipótese, até porque neste artigo vamos encontrar duas vezes «boas vindas».

 

[Texto 7656]

Helder Guégués às 19:53 | comentar | favorito
31
Mar 17

«Ângelus», de novo

Também falamos português

 

      «Para o Angelus de domingo é melhor chegar a São Pedro por volta das 11h00» («Chegue uma hora antes para apanhar os lugares melhores», O Meu Papa, ed. n.º 1, 31.03.2017, p. 63). Não escreva assim, Clara Raimundo. Primeiro, não é preciso letra grelada, depois, em português a palavra também existe, ângelus. Veja na página da Ecclesia.

 

[Texto 7651]

Helder Guégués às 15:12 | comentar | favorito
14
Mar 17

Castas de uvas

Mais trabalho

 

      «Ali são atendidos os produtores – cerca de meio milhar por ano – que levam plantas certificadas. A estação possui vasta coleção de castas, mas está em curso um trabalho valioso: A recuperação de castas antigas. Nomes curiosos como caínho branco, esgana cão e cascal ou, no caso das tintas, sessão, labrusco, alvarinhão e dossal podem voltar a ter relevância» («No Minho há um jacuzzi para as videiras», António Catarino, TSF, 14.03.2017, 9h07).

      Já estavam a acertar demasiado, é o que me parece. Os nomes das castas é Cainho Branco, Esgana-Cão, ou Cascal, Sousão, Labrusco, Alvarelhão e Doçal. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora só não regista a primeira, mas também lhe falta uniformidade no tratamento dos verbetes relativos às castas de uvas, assim como a indicação da região em que cada uma é cultivada, o que seria muito útil.

 

[Texto 7558]

Helder Guégués às 11:20 | comentar | ver comentários (2) | favorito
06
Mar 17

Ortografia: «contra-safra»

A hora do neerlandês

 

    «O ministro explicou que a produção de azeitona se caracteriza tradicionalmente por anos de safra e contra safra (após um ano de elevada produção segue-se invariavelmente uma menor colheita), sendo esta a realidade com a qual os operadores e os agricultores estão habituados a lidar» («Ministro avisa: Azeite pode ficar mais caro após quebra da azeitona», Rádio Renascença, 6.03.2017, 9h44).

      Lá continuam eles com estes elementos pendurados no ar: é «contra-safra». Safra, contra-safra e entressafra, como já aqui tínhamos visto. Pela Infopédia, o leitor fica a saber que entressafra é o «periode tussen twee oogsten». Ou seja, está mais do que na hora de todo o português decente aprender neerlandês. Tot ziens!

 

[Texto 7531]

Helder Guégués às 09:59 | comentar | ver comentários (2) | favorito
02
Mar 17

Então que seja «drive-through»

Inglês|Português

 

      «Na igreja de St. Patrick em Glenamaddy, no condado de Galway na Irlanda celebra-se a Quarta-Feira de cinzas [sic] de forma... diferente. Quando os católicos e os protestantes normalmente recebem as cinzas na sua testa em forma de cruz de Cristo no interior da igreja, os membros desta decidiram fazer isso ao compor um drive-thru visto que muitas pessoas tinham pressa para se deslocarem para os seus empregos e ocupações» («Igreja irlandesa abre um ‘drive-thru’», Francisco Correia, Motor 24, 2.03.2017, 18h48).

    Não sei porque se há-de usar a corruptela drive-thru em vez de drive-through. Mas o sacerdote da Igreja de St. Patrick tem muito mais juízo, e não usou nenhuma das duas, nem nada que se pareça: «If you are unable to attend Mass you can come here, receive your Ashes without having to leave your car.» Dito isto, também não percebo porque não se encontra no Dicionário de Inglês-Português da Porto Editora.

 

[Texto 7523]

Helder Guégués às 23:11 | comentar | ver comentários (3) | favorito
27
Fev 17

Óscares e afins

Fevereiro, Óscares

 

     «Durante quase cinquenta anos, o fotógrafo William Christenberry regressou ao Alabama para fotografar os prédios rurais, igrejas e cafés à beira da estrada do Condado de Hale, onde, em criança, passava o verão nas terras dos seus avôs. O oscarizado realizador Alexander Payne nasceu, como Kurt, em Omaha» (Click! Como Funciona a Criatividade, Julie Burstein. Tradução de António Teixeira dos Santos. Alfragide: Estrela Polar, 2011).

      Oscarizado — o que pressupõe o verbo oscarizar. Podem ir, porque não?, para os dicionários, que não nos envergonharão. E, já agora, oscarizável. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora só regista — mas já não é mau, e devia ser seguido por todos — Óscar/Óscares. Não vejo, pois, necessidade de usar, como alguns ainda fazem, o termo Oscars. (Reparem: «passava o verão nas terras dos seus avôs». É, lembrar-se-ão daqui, como também passámos a escrever.)

 

[Texto 7514]

Helder Guégués às 11:14 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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26
Fev 17

«Mal gálico»

Desperdício

 

      «Olvidósele a Virgilio declararnos quién fue el primero que tuvo catarro en el mundo, y el primero que tomó las unciones para curarse del morbo gálico, y yo lo declaro al pie de la letra...» Estou a reler o D. Quixote e, precisamente neste ponto, vejo mais uma vez como os dicionários deixam de fora palavras e expressões que deviam acolher. A sífilis é, provavelmente, a doença com mais designações e os dicionários não as registam. Esta, mal gálico, é das mais comuns, e só nos dicionários brasileiros a encontramos, mas grafada de uma forma que me deixa muitas dúvidas: «mal-gálico». Está assim também no VOLP da Academia Brasileira de Letras, onde também encontramos «mal-americano», «mal-escocês», «mal-germânico», «mal-napolitano», etc. Faz algum sentido estar assim grafada? Não me parece.

 

[Texto 7508]

Helder Guégués às 10:53 | comentar | ver comentários (4) | favorito