27
Jun 17

O processo dos Távoras

O azar dos Távoras

 

      No programa Visita Guiada, Paula Moura Pinheiro, agora com o cabelo mais domado, para alívio dos nossos nervos, levou-nos ao Museu Nacional dos Coches (MNC), instalado em novo edifício. «Foi num carro destes», disse, apontando para uma carruagem, «que o rei D. José sofreu [em 3 de Setembro de 1758] o atentado que viria depois a servir de argumento para o processo dos Távora.» Lamentável, tanto mais que, no caso, habitualmente até se vê o apelido pluralizado — como todos o devem ser. Aqui há uns anos, passou na RTP uma minissérie, da autoria de Francisco Moita Flores, com o título O Processo dos Távoras. E também não faltam obras com o mesmo título. A meu ver, até devia dicionarizar-se a expressão azar dos Távoras.

 

[Texto 7952]

Helder Guégués às 10:37 | comentar | favorito
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07
Jun 17

Mais Clooneys

Talvez da cesariana

 

     No jornal Destak: «Nasceram ontem os gémeos Ella e Alexander, primeiros filhos do ator George Clooney e da sua mulher, Amal» («Clooneys», p. 10). Clooneys, viram? Muito bem. Na Rádio Renascença, esta ingenuidade: «“Esta manhã [de dia 6], Amal e George deram as boas-vindas a Ella e Alexander Clooney. Ella, Alexander e Amal estão bem de saúde e felizes. George está sedado e deverá recuperar dentro de dias”, refere um comunicado do porta-voz do casal» («Gémeos de George e Amal Clooney já nasceram», 7h57). Reli a notícia, para me assegurar de que não saltara nenhum parágrafo em que se explicasse o que tinha acontecido ao actor. Nada. Na edição digital do Diário de Notícias: «Stan Rosenfield, o publicista do casal, questionado sobre a reação de George Clooney, não resistiu e até fez uma piada: “O George está sedado e deve recuperar nos próximos dias”, ironizou.» Estão a ver os perigos da ironia? Pobre jornalista, pobres leitores...

 

[Texto 7902]

Helder Guégués às 09:33 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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13
Mai 17

Os Graças em Fátima

Aleluia!

 

      «Junto às grades, a família de Conceição e Rafael Graça esperava expectante por Francisco, o pai nitidamente convencido de que iria conseguir passar Luisinha, de meses, para o colo do Papa. […] Mais membros da família, crescidos e pequeninos, acompanhavam os Graças junto à grade. Um grupo de peregrinas mais velhas ajudavam a manter a ordem» («“Piccolo bambini”, disse o segurança, e o Papa abençoou a bebé Luisinha», Matilde Torres Pereira, Rádio Renascença, 13.05.2017, 13h20).

      Não devia ser notícia, mas é: eis uma jornalista que sabe português. Parabéns, Matilde Torres Pereira, é isso mesmo. No fundo, basta não ser linguista nem parvo para acertar nisto.

 

[Texto 7824]

Helder Guégués às 15:53 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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24
Fev 17

«Hostel» já é um pouco mais nosso

Podia ser pior

 

      «Enfrentam despejos para dar lugar a hostéis» (Paulo Lourenço, Jornal de Notícias, 24.02.2017, p. 25).

      Já aqui vimos que importámos a palavra quando não precisávamos, pois temos hostal. No entanto, a boa notícia é que já foi totalmente integrado na nossa língua, o que é atestado pelo plural regular. É por isso em vão que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora assinala, com realce, que se trata de palavra estrangeira.

 

[Texto 7505]

Helder Guégués às 20:47 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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23
Jan 17

Os pequenos nadas

Que fazem a língua

 

      O volume 8 da colecção «A casa de quem faz as casas», do Público, está hoje anunciado assim no jornal, página 35: «Vol. 8: João Mendes Ribeiro: Uma Casa Feita de Pequenos Nada». Contado, ninguém acredita. Então agora já não há concordância? Então, se for caso disso, e seja qual for a classe gramatical de um vocábulo, não pluraliza? Isto está mesmo muito mal. Aprendam: «Vasco instala-se numa pensão, vazio pelas saudades da filha que adora, mas dando uma importância, admite que exagerada, aos pequenos nadas» (Amor 5, Paixão 3, Manuel Arouca. Lisboa: Texto Editora, 2003, p. 114).

 

[Texto 7426]

Helder Guégués às 09:18 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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05
Jan 17

Com que então, os «rohingya»... [5.01.2017]

Da Birmânia, os Ruaingás

 

      «Uma comissão que investiga a violência no Myanmar (antiga Birmânia), no estado Rakhine, negou que as forças de segurança tenham abusado dos rohingya, dias depois de ter surgido um vídeo que mostra a polícia a bater em civis daquela minoria muçulmana» («Comissão nega abusos contra minoria muçulmana em Myanmar», Diário de Notícias, 4.01.2017, 7h51).

      Pelo menos o plural, senhores jornalistas da Lusa! Pelo menos. Na Fundéu já trataram da questão, e a conclusão a que chegaram foi que, como este povo tem uma língua própria escrita com caracteres latinos e grafam a palavra como ruaingá, esta é outra forma, a par de, para o castelhano, rohinyá. E terminam: «Se recuerda finalmente que el nombre del país es Birmania, mejor que Myanmar, y que el estado donde se asientan se puede romanizar, según la pronunciación original birmana, como Rakáin (mejor que Rakhine y Rajine).»

 

[Texto 7374]

Helder Guégués às 00:28 | comentar | favorito
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27
Dez 16

Os Hereros, os Namas e a TSF

Disfuncional

 

      «As vitimas [sic] foram os povos Herero e Nama. Ao todo morreram cerca de 70 mil pessoas: 80% dos hereros e 50% dos Nama. A Alemanha já reconheceu o genocídio mas está atualmente a conversar com as autoridades da Namíbia e representantes dos Herero e dos Nama sobre um pedido de desculpa oficial. Foi esse o momento decidido pelo museu do holocausto [sic] em Paris para dar conhecimento do que aconteceu em África no inicio [sic] do século XX» («O primeiro genocidio [sic] do século XX foi em África», Margarida Serra, TSF, 27.12.2016, 18h15).

      É na rádio, ninguém vê os erros, não é assim? Era: antes de as rádios estarem também na Internet. Agora, convém terem um pouco mais de cuidado. Sobretudo não publicarem rascunhos, como é o caso. Aprendam: «O uso de trocar as mulheres encontra-se em outros povos bantos. Praticam-no sobretudo os Hereros de Angola e do Sudoeste Africano e os Nhanecas e Humbes da referida província portuguesa, talvez por influência daqueles» (Conto e Costumes Macondes, M. Viegas Guerreiro. Lisboa: Junta de Investigações do Ultramar, 1965, p. 16) «Conta-se que o costume existiu nos Hotentotes Namas do Sudoeste Africano» (idem, ibidem, p. 17).

 

[Texto 7360]

Helder Guégués às 19:55 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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20
Dez 16

Plural de «artesão»

Pois é

 

      «“A madeira dos plátanos usada pelos artesões nos violinos, mas não nos violoncelos, mostra um padrão de oxidação por calor atípico da madeira natural, mas que já tinha sido relatado em madeira que tinha apodrecido devido a fungos”, explica um resumo da PNAS [Proceedings of the National Academy of Sciences]» («Afinal, qual é o mistério da sonoridade dos Stradivarius?», Teresa Serafim, Público, 20.12.2016, p. 23).

      Resumo traduzido, podemos supor, pela jornalista. Pois bem, no caso, o plural «artesões» está errado. Se, no contexto, significasse o adorno arquitectónico, estaria correcto; já quando designa o artífice, o plural é «artesãos». Esperemos que a correcção chegue aos olhos ou aos ouvidos de Teresa Serafim.

 

[Texto 7340]

Helder Guégués às 15:19 | comentar | favorito
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23
Nov 16

«Real/reais/réis»

Realmente

 

   O plural de «fiel», já vimos, causa, sobretudo depois do AO90, muitas interferências nos neurónios de alguns dos nossos concidadãos, logo por azar na cabeça daqueles que escrevem. Vou agora vendo que há outra que sofre os mesmos tratos: réis. Sabem (?) que o singular é real, desconhecem que um dos plurais é reais, desvirtuam o outro plural não lhe apondo o necessário acento agudo, réis, o que é grave. Vai-se a ver, são doutorandos e quejandos.

 

[Texto 7273]

Helder Guégués às 20:14 | comentar | favorito
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20
Nov 16

Os Brocas

Não nos esqueça

 

      «Broca era a alcunha do avô, que se perpetuaria na descendência; Camilo chegou a projectar um enredo romanesco com o título Os Brocas» (Camilo Castelo Branco: Roteiro Dramático dum Profissional das Letras, Alexandre Cabral. Lisboa: Edições Terra Livre, 1980, p. 60).

      De vez em quando, é bom voltar a estas questões, porque estão sempre a chegar adventícios — além das raposas velhas que confundem um pouco as coisas — que podem não saber. Cá está: os Brocas, e não — oh horror! — os Broca.

 

[Texto 7256]

Helder Guégués às 11:14 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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