24
Fev 17

«Hostel» já é um pouco mais nosso

Podia ser pior

 

      «Enfrentam despejos para dar lugar a hostéis» (Paulo Lourenço, Jornal de Notícias, 24.02.2017, p. 25).

      Já aqui vimos que importámos a palavra quando não precisávamos, pois temos hostal. No entanto, a boa notícia é que já foi totalmente integrado na nossa língua, o que é atestado pelo plural regular. É por isso em vão que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora assinala, com realce, que se trata de palavra estrangeira.

 

[Texto 7505]

Helder Guégués às 20:47 | comentar | ver comentários (4) | favorito
Etiquetas: ,
23
Jan 17

Os pequenos nadas

Que fazem a língua

 

      O volume 8 da colecção «A casa de quem faz as casas», do Público, está hoje anunciado assim no jornal, página 35: «Vol. 8: João Mendes Ribeiro: Uma Casa Feita de Pequenos Nada». Contado, ninguém acredita. Então agora já não há concordância? Então, se for caso disso, e seja qual for a classe gramatical de um vocábulo, não pluraliza? Isto está mesmo muito mal. Aprendam: «Vasco instala-se numa pensão, vazio pelas saudades da filha que adora, mas dando uma importância, admite que exagerada, aos pequenos nadas» (Amor 5, Paixão 3, Manuel Arouca. Lisboa: Texto Editora, 2003, p. 114).

 

[Texto 7426]

Helder Guégués às 09:18 | comentar | ver comentários (1) | favorito
Etiquetas: ,
05
Jan 17

Com que então, os «rohingya»... [5.01.2017]

Da Birmânia, os Ruaingás

 

      «Uma comissão que investiga a violência no Myanmar (antiga Birmânia), no estado Rakhine, negou que as forças de segurança tenham abusado dos rohingya, dias depois de ter surgido um vídeo que mostra a polícia a bater em civis daquela minoria muçulmana» («Comissão nega abusos contra minoria muçulmana em Myanmar», Diário de Notícias, 4.01.2017, 7h51).

      Pelo menos o plural, senhores jornalistas da Lusa! Pelo menos. Na Fundéu já trataram da questão, e a conclusão a que chegaram foi que, como este povo tem uma língua própria escrita com caracteres latinos e grafam a palavra como ruaingá, esta é outra forma, a par de, para o castelhano, rohinyá. E terminam: «Se recuerda finalmente que el nombre del país es Birmania, mejor que Myanmar, y que el estado donde se asientan se puede romanizar, según la pronunciación original birmana, como Rakáin (mejor que Rakhine y Rajine).»

 

[Texto 7374]

Helder Guégués às 00:28 | comentar | favorito
Etiquetas: ,
27
Dez 16

Os Hereros, os Namas e a TSF

Disfuncional

 

      «As vitimas [sic] foram os povos Herero e Nama. Ao todo morreram cerca de 70 mil pessoas: 80% dos hereros e 50% dos Nama. A Alemanha já reconheceu o genocídio mas está atualmente a conversar com as autoridades da Namíbia e representantes dos Herero e dos Nama sobre um pedido de desculpa oficial. Foi esse o momento decidido pelo museu do holocausto [sic] em Paris para dar conhecimento do que aconteceu em África no inicio [sic] do século XX» («O primeiro genocidio [sic] do século XX foi em África», Margarida Serra, TSF, 27.12.2016, 18h15).

      É na rádio, ninguém vê os erros, não é assim? Era: antes de as rádios estarem também na Internet. Agora, convém terem um pouco mais de cuidado. Sobretudo não publicarem rascunhos, como é o caso. Aprendam: «O uso de trocar as mulheres encontra-se em outros povos bantos. Praticam-no sobretudo os Hereros de Angola e do Sudoeste Africano e os Nhanecas e Humbes da referida província portuguesa, talvez por influência daqueles» (Conto e Costumes Macondes, M. Viegas Guerreiro. Lisboa: Junta de Investigações do Ultramar, 1965, p. 16) «Conta-se que o costume existiu nos Hotentotes Namas do Sudoeste Africano» (idem, ibidem, p. 17).

 

[Texto 7360]

Helder Guégués às 19:55 | comentar | ver comentários (2) | favorito
Etiquetas: ,
20
Dez 16

Plural de «artesão»

Pois é

 

      «“A madeira dos plátanos usada pelos artesões nos violinos, mas não nos violoncelos, mostra um padrão de oxidação por calor atípico da madeira natural, mas que já tinha sido relatado em madeira que tinha apodrecido devido a fungos”, explica um resumo da PNAS [Proceedings of the National Academy of Sciences]» («Afinal, qual é o mistério da sonoridade dos Stradivarius?», Teresa Serafim, Público, 20.12.2016, p. 23).

      Resumo traduzido, podemos supor, pela jornalista. Pois bem, no caso, o plural «artesões» está errado. Se, no contexto, significasse o adorno arquitectónico, estaria correcto; já quando designa o artífice, o plural é «artesãos». Esperemos que a correcção chegue aos olhos ou aos ouvidos de Teresa Serafim.

 

[Texto 7340]

Helder Guégués às 15:19 | comentar | favorito
Etiquetas: ,
23
Nov 16

«Real/reais/réis»

Realmente

 

   O plural de «fiel», já vimos, causa, sobretudo depois do AO90, muitas interferências nos neurónios de alguns dos nossos concidadãos, logo por azar na cabeça daqueles que escrevem. Vou agora vendo que há outra que sofre os mesmos tratos: réis. Sabem (?) que o singular é real, desconhecem que um dos plurais é reais, desvirtuam o outro plural não lhe apondo o necessário acento agudo, réis, o que é grave. Vai-se a ver, são doutorandos e quejandos.

 

[Texto 7273]

Helder Guégués às 20:14 | comentar | favorito
Etiquetas: ,
20
Nov 16

Os Brocas

Não nos esqueça

 

      «Broca era a alcunha do avô, que se perpetuaria na descendência; Camilo chegou a projectar um enredo romanesco com o título Os Brocas» (Camilo Castelo Branco: Roteiro Dramático dum Profissional das Letras, Alexandre Cabral. Lisboa: Edições Terra Livre, 1980, p. 60).

      De vez em quando, é bom voltar a estas questões, porque estão sempre a chegar adventícios — além das raposas velhas que confundem um pouco as coisas — que podem não saber. Cá está: os Brocas, e não — oh horror! — os Broca.

 

[Texto 7256]

Helder Guégués às 11:14 | comentar | ver comentários (1) | favorito
Etiquetas: ,
11
Nov 16

Léxico: «cânone»

A regra, a medida

 

      Não está o Código de Direito Canónico ordenado em cânones, comparáveis aos artigos dos textos legislativos civis? Ora, salvo erro, não encontramos essa acepção em todos os dicionários. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, por exemplo, não a regista. Já o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa regista: «Regra ou preceito que diz respeito à fé ou à disciplina religiosa.» Como temos aqui variantes, cânone e cânon, aproveite-se para dizer que muitos (ou todos?) dicionários dão como plural de ambas «cânones» — mas será mesmo assim? Será mesmo uma excepção à regra da formação do plural pelo acrescentamento de s nos substantivos terminados em vogal, ditongo oral e n?

 

[Texto 7233]

Helder Guégués às 22:18 | comentar | ver comentários (2) | favorito
Etiquetas: ,
24
Out 16

«Cabra-montês/cabras-monteses»

Não façam isso

 

      «O PAN, partido com assento parlamentar, também tece os seus comentários na sua página oficial de Facebook, alertando que devem ser tomadas medidas para que a cabra-montês não se torne espécie cinegética. No entanto, nenhum dos comentários (e comentadores) se refere ao facto de que hoje temos as cabras-monteses de regresso ao Gerês» («As cabras do Gerês», Caça & Cães de Caça, Novembro de 2016, p. 5).

      Agora não, mas há uns anos estava sempre a ver, sobretudo em traduções, a forma «cabra-montesa». Parvalhices de mentes perversas que querem endireitar a sombra de uma vara torta. Não procurem lógica na língua; é assim porque sempre foi assim, resquício da invariabilidade de alguns vocábulos. Mudar agora para quê, para a cabra-montês não se ofender?

 

[Texto 7185]

Helder Guégués às 23:06 | comentar | favorito
Etiquetas: ,
19
Set 16

«Fórum/fóruns; foro/foros»

Estou com a malta

 

      «Um dia destes acordei e tudo tinha levado sumiço. As Notes, primeiro, e depois todo o meu Gmail. Todo. Tudo. Peritos foram convocados para me salvarem. Fez delete? Não. Foi ver o trash? Fui. Manobras foram praticadas de recuperação. Fora de horas, fui ver os chats, os fora (fóruns, diz a malta), fui aos sites» («Fujam, vem aí o update», Clara Ferreira Alves, «E»/Expresso, 17.09.2016).

      E diz a malta muito bem, Clara Ferreira Alves, porque dizer «ver os fora fora de horas» ia deixar o nosso interlocutor desconfiado da nossa inteireza mental. E, na escrita, tudo junto e sem itálico, é melhor pensar numa alternativa. Para Rebelo Gonçalves, essa alternativa era foro/foros. Isto é que é português — tal como fórum/fóruns, que só pode causar arrepios a latinistas retirados do mundo.

 

[Texto 7104]

Helder Guégués às 21:07 | comentar | ver comentários (1) | favorito
Etiquetas: ,