24
Jun 17

Como se escreve nos jornais

Dolorosamente chamuscados

 

   Venceu o 89.º Concurso de Quadras do Jornal de Notícias, e reza assim: «Nesta noite tão tripeira,/Um mistério aconteceu:/Tu, pulavas a fogueira,/Quem se queimava, era eu...» O JN também não deixa de sair chamuscado ao publicar tal qual a quadra, assinada com o pseudónimo Dorido. O jornal não tem revisor? Não sei como não se envergonham — e logo na capa.

 

[Texto 7943]

Helder Guégués às 15:59 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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30
Mai 17

Como se escreve por aí

Uma pouca-vergonha

 

      A minha filha, com 10 anos!, veio mostrar-me esta frase de um livro que começou a ler esta tarde: «— Muito bem, Marta troca com o Ivo. Vamos lá Lobos que temos de terminar esta jangada rapidamente! — incentiva Miguel» (Os Lobos na Descida do Rio, José Carlos Completo e Mónica Cortesão Gonçalves. Lisboa: Grafitexto, 2014, p. 20).

      Então uma criança de 10 anos sabe ver que está errado e os autores não sabem nem viram nada? Folheei o livro rapidamente, para não ficar doente, e posso dizer que, só em vírgulas absolutamente obrigatórias como esta, a isolar o vocativo, faltam centenas. Como estará o resto? Pergunto, mas não quero saber. É claro que já a aconselhei a não ler o livro.

 

[Texto 7885]

Helder Guégués às 22:20 | comentar | ver comentários (1) | favorito
09
Mai 17

Pontuação

Entretanto, na Alemanha

 

    «Einige Kommata, deren Fehlen den Leser eher hätte irritieren können, wurden zusätzlich eingefügt.» Ah, estes sabem o que nos irrita. Já boa parte dos jornalistas acha que não vale a pena corrigir os desconchavos das pessoas que ouvem e entrevistam. Eu só não sei é como não se envergonham.

 

[Texto 7814]

Helder Guégués às 21:27 | comentar | favorito
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30
Jan 17

Como escrevem alguns jornalistas

Pergunte por aí

 

      «A antiga comissária do Plano Nacional de Leitura defende que o livro “O nosso reino” de Valter Hugo Mãe nunca deveria ter sido recomendado aos alunos do 3º ciclo. […] O jornal Expresso revelou este sábado que livro “O nosso reino” tem frases como “E a tua tia sabes de que tem cara, de puta, sabes o que é, uma mulher tão porca que fode com todos os homens e mesmo que tenha racha para foder deixa que lhe ponha a pila no cu”» («Isabel Alçada: “Nunca aceitei na sala de aula esse tipo de linguagem”», Ana Sofia Freitas, TSF, 30.01.2017, 16h20).

      Avaliar uma obra apenas por uma frase é que me parece condenável. Mais valia não a terem escolhido. Mas agora repare, Ana Sofia Freitas, na última frase do seu artigo: «O jornal adianta que os pais dos estudantes do Liceu Pedro Nunes, que frequentam o 8º ano, se queixaram do conteúdo do livro.» O que escreveu significa que TODOS os alunos da Escola Secundária Pedro Nunes frequentam o 8.º ano. Agora não tenho paciência para lhe explicar porquê — excepto que não sabe pontuar —, mas pergunte por aí.

 

[Texto 7446]

Helder Guégués às 20:53 | comentar | favorito
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05
Jun 16

A falta que faz a revisão

Era só reler

 

      «Uma quebra de serviço a abrir o segundo set, anunciavam um fim rápido, mas três duplas-faltas permitiram o contra-break» («A herdeira espanhola», Pedro Keul, Público, 5.06.2016, p. 54).

      Alguma coisa correu mal, Pedro Keul. Não apenas não pode haver uma vírgula antes do verbo («anunciavam»), como não há concordância. «Uma quebra de serviço a abrir o segundo set anunciava, etc.» Esperemos que o próximo director do jornal se compenetre da falta que faz uma secção de revisão no jornal.

 

[Texto 6859]

Helder Guégués às 10:42 | comentar | favorito
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16
Jan 16

Português (a)celerado

Adeus, Miguel Barbosa

 

    «Com a disputa da penúltima etapa do Dakar pilotos e equipas despediram-se também do enorme bivouac que, ao longo de quinze dias, acolheu toda a caravana. A assistência, toda a parte mecânica e logística da prova funciona lá. É no bivouac que são servidas as refeições em horários específicos. É também no bivouac onde é feito todos os dias o briefing onde são dadas 
as indicações para o dia que se segue» («Adeus bivouac», Miguel Barbosa, Público, 16.01.2016, p. 49).

   «Você não faz noção, Miguel Barbosa», diria de novo Pilar Sacramento. Então, se quer mesmo usar a palavra, que seja aportuguesada, bivaque. Bem, os Espanhóis adaptaram-na para vivac. Adeus, Miguel Barbosa, estude também a pontuação com o vocativo.

 

[Texto 6547]

Helder Guégués às 22:02 | comentar | ver comentários (2) | favorito
02
Jan 16

«Cujo» e pontuação

Em 2016, não faça isto

 

  «Os doentes, cujas células não fabricam uma proteína chamada “distrofina”, sofrem uma degenerescência muscular progressiva que acaba por os confinar a uma cadeira de rodas por volta dos 10 anos e os condena a uma morte prematura, em geral antes dos 30 anos, devido muitas vezes a insuficiência cardíaca» («Nova técnica de edição genética pode permitir tratar distrofia muscular», Ana Gerschenfeld, Público, 2.01.2016, p. 26).

    Aqui está mais um mito das classes letradas e semiletradas portuguesas: o de que «cujo» é sempre antecedido de vírgula. Depende, não é? Se for uma oração relativa restritiva, como no artigo do Público, não leva. Um jornalista tem de saber isto.

 

[Texto 6519]

Helder Guégués às 16:51 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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26
Nov 15

Legenda do dia

Escrita não revista

 

   Legenda de uma imagem na edição de hoje do Público: «Howard Eynon adolescente, montado numa mota qual“Easy Rider” solitário e actualmente». Só com uma dose generosa de Captagon é que o leitor perde o medo de ler uma frase com esta pontuação.

 

[Texto 6427]

Helder Guégués às 19:36 | comentar | favorito
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10
Out 15

O vocativo e a pontuação

Não perdoamos

 

      «Foi revelada a carta que a namorada do ator Jim Carrey deixou antes de morrer. Na mensagem, Cathriona White pede desculpa ao companheiro: “Amo-te Jim, por favor perdoa-me... Não faço parte deste mundo”, escreveu» («Carta de suicídio revelada. “Amo-te Jim, por favor perdoa-me”», Correio da Manhã, 9.10.2015, p. 45).

      Já esta pontuação é deste mundo — ou da parte do mundo que não sabe pontuar. Ao escriba do Correio da Manhã: «Jim, I love you. Please forgive me. I’m not for this world.»

 

[Texto 6306]

Helder Guégués às 10:36 | comentar | favorito
21
Set 15

Orações participiais e pontuação

O ponto fraco

 

      «Saídos da sala de jantar davam metade de um abraço porque entretanto o criado começara a vestir-lhe o sobretudo e tinha o outro braço preso na manga; vestido o sobretudo, o criado pegava no cabaz de romãs que a Escolástica mandava para a Senhora do amigo do Avô e começava a dirigi-lo, a uma certa distância e com todo o cuidado, para a porta da saída; é nesta altura que ele traz finalmente à baila o motivo da visita, uns cavalos baios que tem debaixo de olho e sobre os quais precisa da opinião do Avô; mas, estando de partida, com uma luva calçada e o chapéu na cabeça, avança que hão-de falar numa próxima oportunidade; o Avô adverte que não percebe nada de cavalos, ao que o amigo lhe responde que é mesmo por isso que precisa da opinião dele, que as dos peritos já ele ouviu; o Avô lembra-se então de que anda há uns seis meses para lhe mostrar umas gravuras com cavalos recebidas de um coleccionador; leva-o para o escritório, ele despe o sobretudo, o criado fica de pé atrás dele com o sobretudo nos braços e aguenta o cabaz das romãs até concluir, por intuição e experiência, que a conversa pode demorar. Isto de saber de antemão quanto tempo vai durar uma conversa é coisa para um capítulo inteiro» (Cláudio e Constantino, Luísa Costa Gomes. Revisão de Clara Boléo. Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2014, p. 11).

   Para que cito uma frase tão longa, quando a podia transcrever truncada? Pois para demonstrar como a revisora se perdeu ali algures — aliás, perdeu-se duas vezes, pelo menos, prova e contraprova. (Num livro de António Lobo Antunes, seriam sete vezes.) E, no entanto, a frase, ou não tivesse sido escrita por Luísa Costa Gomes, é perfeita — excepto na falta da tal vírgula. Graças ao ponto-e-vírgula, podia prolongar-se até ao infinito. Usa-se a vírgula para separar orações gerundiais e participiais: «Saídos da sala de jantar, davam metade de um abraço, etc.» Simples, agora. Está tudo — com outros exemplos, porque não faltam — no meu Manual de Revisão, em breve no prelo.

 

[Texto 6261]

Helder Guégués às 00:10 | comentar | ver comentários (10) | favorito