30
Jan 17

Como escrevem alguns jornalistas

Pergunte por aí

 

      «A antiga comissária do Plano Nacional de Leitura defende que o livro “O nosso reino” de Valter Hugo Mãe nunca deveria ter sido recomendado aos alunos do 3º ciclo. […] O jornal Expresso revelou este sábado que livro “O nosso reino” tem frases como “E a tua tia sabes de que tem cara, de puta, sabes o que é, uma mulher tão porca que fode com todos os homens e mesmo que tenha racha para foder deixa que lhe ponha a pila no cu”» («Isabel Alçada: “Nunca aceitei na sala de aula esse tipo de linguagem”», Ana Sofia Freitas, TSF, 30.01.2017, 16h20).

      Avaliar uma obra apenas por uma frase é que me parece condenável. Mais valia não a terem escolhido. Mas agora repare, Ana Sofia Freitas, na última frase do seu artigo: «O jornal adianta que os pais dos estudantes do Liceu Pedro Nunes, que frequentam o 8º ano, se queixaram do conteúdo do livro.» O que escreveu significa que TODOS os alunos da Escola Secundária Pedro Nunes frequentam o 8.º ano. Agora não tenho paciência para lhe explicar porquê — excepto que não sabe pontuar —, mas pergunte por aí.

 

[Texto 7446]

Helder Guégués às 20:53 | comentar | favorito
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05
Jun 16

A falta que faz a revisão

Era só reler

 

      «Uma quebra de serviço a abrir o segundo set, anunciavam um fim rápido, mas três duplas-faltas permitiram o contra-break» («A herdeira espanhola», Pedro Keul, Público, 5.06.2016, p. 54).

      Alguma coisa correu mal, Pedro Keul. Não apenas não pode haver uma vírgula antes do verbo («anunciavam»), como não há concordância. «Uma quebra de serviço a abrir o segundo set anunciava, etc.» Esperemos que o próximo director do jornal se compenetre da falta que faz uma secção de revisão no jornal.

 

[Texto 6859]

Helder Guégués às 10:42 | comentar | favorito
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16
Jan 16

Português (a)celerado

Adeus, Miguel Barbosa

 

    «Com a disputa da penúltima etapa do Dakar pilotos e equipas despediram-se também do enorme bivouac que, ao longo de quinze dias, acolheu toda a caravana. A assistência, toda a parte mecânica e logística da prova funciona lá. É no bivouac que são servidas as refeições em horários específicos. É também no bivouac onde é feito todos os dias o briefing onde são dadas 
as indicações para o dia que se segue» («Adeus bivouac», Miguel Barbosa, Público, 16.01.2016, p. 49).

   «Você não faz noção, Miguel Barbosa», diria de novo Pilar Sacramento. Então, se quer mesmo usar a palavra, que seja aportuguesada, bivaque. Bem, os Espanhóis adaptaram-na para vivac. Adeus, Miguel Barbosa, estude também a pontuação com o vocativo.

 

[Texto 6547]

Helder Guégués às 22:02 | comentar | ver comentários (2) | favorito
02
Jan 16

«Cujo» e pontuação

Em 2016, não faça isto

 

  «Os doentes, cujas células não fabricam uma proteína chamada “distrofina”, sofrem uma degenerescência muscular progressiva que acaba por os confinar a uma cadeira de rodas por volta dos 10 anos e os condena a uma morte prematura, em geral antes dos 30 anos, devido muitas vezes a insuficiência cardíaca» («Nova técnica de edição genética pode permitir tratar distrofia muscular», Ana Gerschenfeld, Público, 2.01.2016, p. 26).

    Aqui está mais um mito das classes letradas e semiletradas portuguesas: o de que «cujo» é sempre antecedido de vírgula. Depende, não é? Se for uma oração relativa restritiva, como no artigo do Público, não leva. Um jornalista tem de saber isto.

 

[Texto 6519]

Helder Guégués às 16:51 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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26
Nov 15

Legenda do dia

Escrita não revista

 

   Legenda de uma imagem na edição de hoje do Público: «Howard Eynon adolescente, montado numa mota qual“Easy Rider” solitário e actualmente». Só com uma dose generosa de Captagon é que o leitor perde o medo de ler uma frase com esta pontuação.

 

[Texto 6427]

Helder Guégués às 19:36 | comentar | favorito
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10
Out 15

O vocativo e a pontuação

Não perdoamos

 

      «Foi revelada a carta que a namorada do ator Jim Carrey deixou antes de morrer. Na mensagem, Cathriona White pede desculpa ao companheiro: “Amo-te Jim, por favor perdoa-me... Não faço parte deste mundo”, escreveu» («Carta de suicídio revelada. “Amo-te Jim, por favor perdoa-me”», Correio da Manhã, 9.10.2015, p. 45).

      Já esta pontuação é deste mundo — ou da parte do mundo que não sabe pontuar. Ao escriba do Correio da Manhã: «Jim, I love you. Please forgive me. I’m not for this world.»

 

[Texto 6306]

Helder Guégués às 10:36 | comentar | favorito
21
Set 15

Orações participiais e pontuação

O ponto fraco

 

      «Saídos da sala de jantar davam metade de um abraço porque entretanto o criado começara a vestir-lhe o sobretudo e tinha o outro braço preso na manga; vestido o sobretudo, o criado pegava no cabaz de romãs que a Escolástica mandava para a Senhora do amigo do Avô e começava a dirigi-lo, a uma certa distância e com todo o cuidado, para a porta da saída; é nesta altura que ele traz finalmente à baila o motivo da visita, uns cavalos baios que tem debaixo de olho e sobre os quais precisa da opinião do Avô; mas, estando de partida, com uma luva calçada e o chapéu na cabeça, avança que hão-de falar numa próxima oportunidade; o Avô adverte que não percebe nada de cavalos, ao que o amigo lhe responde que é mesmo por isso que precisa da opinião dele, que as dos peritos já ele ouviu; o Avô lembra-se então de que anda há uns seis meses para lhe mostrar umas gravuras com cavalos recebidas de um coleccionador; leva-o para o escritório, ele despe o sobretudo, o criado fica de pé atrás dele com o sobretudo nos braços e aguenta o cabaz das romãs até concluir, por intuição e experiência, que a conversa pode demorar. Isto de saber de antemão quanto tempo vai durar uma conversa é coisa para um capítulo inteiro» (Cláudio e Constantino, Luísa Costa Gomes. Revisão de Clara Boléo. Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2014, p. 11).

   Para que cito uma frase tão longa, quando a podia transcrever truncada? Pois para demonstrar como a revisora se perdeu ali algures — aliás, perdeu-se duas vezes, pelo menos, prova e contraprova. (Num livro de António Lobo Antunes, seriam sete vezes.) E, no entanto, a frase, ou não tivesse sido escrita por Luísa Costa Gomes, é perfeita — excepto na falta da tal vírgula. Graças ao ponto-e-vírgula, podia prolongar-se até ao infinito. Usa-se a vírgula para separar orações gerundiais e participiais: «Saídos da sala de jantar, davam metade de um abraço, etc.» Simples, agora. Está tudo — com outros exemplos, porque não faltam — no meu Manual de Revisão, em breve no prelo.

 

[Texto 6261]

Helder Guégués às 00:10 | comentar | ver comentários (10) | favorito
14
Set 15

Objecto pleonástico

Mas não leva

 

    «– Modéstia aparte, tenho uma boa mão para a cozinha», disse a cozinheira. Talvez, mas o autor não distingue «à parte» de «aparte». Por isso o texto está no estaleiro, na revisão. E as telenovelas, por exemplo? Claro que, sinal do idiolecto de cabeleireira arrivista, a personagem Pilar Sacramento da telenovela A Única Mulher pode dizer em todos os episódios que este e aquele não «fazem noção». Pior mesmo, contudo — e em quantas cabecinhas não ficará! —, é a personagem Neuza soltar um sonoro «haverão» no sentido de «existirão». Se até os jornais prescindem de revisores, quanto mais as televisões. Palavras, leva-as o vento, não é?*

 

[Texto 6243]

 

 

   * E não assim: «Palavras leva-as o vento, sabe-se» (Contra a Corrente, Manuel Alegre. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1997, p. 15). Culpa da revisora, excepto se fez a emenda e o poeta a recusou. É o chamado objecto pleonástico, que obriga à vírgula.

Helder Guégués às 21:56 | comentar | favorito
17
Jul 15

A gramática do insulto

De fidalgo a fideputa

 

      «“Tira a minha mulher da equação ou vou-te aos cornos”, dizia um dos sms enviados pelo marido de Maria Luís Albuquerque ao antigo colega. “Tu não sabes quem eu sou. Metes a minha mulher ao barulho e podes ter a certeza que vais parar ao hospital”, podia ler-se noutro. Mas não ficou por aqui. “Vai para o caralho cabrão” e “Vai para o caralho seu merdas” são outras das injúrias que deram origem ao processo aberto pelo Departamento de Investigação e Acção Penal, depois de o jornalista Filipe Alves ter apresentado queixa. “Reafirmo, tu e o teu director são uns cabrões fdp”, escreveu também António Albuquerque, que neste momento não presta declarações sobre o assunto. O mesmo sucede com a sua advogada, Carla Alves Ferreira» («Marido da ministra das Finanças arguido por ameaçar jornalista», Ana Henriques, Público, 17.07.2015, p. 8).

      Não é um homem inteligente, essa a primeira conclusão. Segunda: não podia ser condenado apenas por aquele «fdp»*. Terceira: não domina a pontuação e, logo, a gramática. Falta a vírgula antes dos vocativos: «Vai para o caralho, cabrão.» «Vai para o caralho, seu merdas.» E, Ana Henriques, pode dizer-nos porque escreve sms e não SMS?

 

[Texto 6061]

 

* Diz-se filho (ou filha) de (ou da e duma) puta. Como já outros viram, há muito (e outros agora não querem ver), a ausência ou o aparecimento dos artigos a, uma denotam graduação da intensidade ofensiva. Em Gil Vicente, «fideputa», que se formou como «fidalgo».

 

Helder Guégués às 08:20 | comentar | ver comentários (3) | favorito
14
Jun 15

O aposto e a pontuação

Gramática no Gambrinus

 

      «O Papa Francisco vê a terra [sic] dividida e subdividida, à beira
 de catástrofes localizadas, mas perigosas. O islão continua
 numa guerra civil, que dia a
dia se alarga e que as potências cuidadosamente ignoram. A África começa a ser penetrada pelo jihadismo mais feroz e as tribos do Afeganistão, do Iémen ou da Líbia estão muito longe de constituir nações. Putin pensa em anexar a Ucrânia. A Europa impotente e fragmentada assiste sem reagir» («O Papa e a guerra», Vasco Pulido Valente, Público, 14.06.2015, p. 56).

    Neste tipo de aposto, que pode ser suprimido sem prejuízo do significado geral da frase («A Europa assiste sem reagir»), é necessário usar vírgulas. «A Europa, impotente e fragmentada, assiste sem reagir.» Ou: «Impotente e fragmentada, a Europa assiste sem reagir.» Ou: «A Europa assiste sem reagir, impotente e fragmentada.» E, se o transformássemos numa oração relativa explicativa, continuava a ser aposto e a precisar de vírgulas: «A Europa, que está impotente e fragmentada, assiste sem reagir.» O aposto explicativo (o mesmo sucede com as orações parentéticas, como esta) é sempre pronunciado como um bloco prosódico independente, marcado pela entoação. Gostava, por isso, de ouvir Vasco Pulido Valente ler esta sua crónica. Podíamos combinar para o Gambrinus, mas não hoje, que estou na casa da Guia.

 

[Texto 5974]

Helder Guégués às 10:20 | comentar | ver comentários (3) | favorito
27
Mar 15

Ponto de ironia

Podia dar jeito, sim

 

     Sabiam que em grego clássico não existia o sinal de exclamação? E, no entanto, foi por influência da língua grega que se foram introduzindo, a pouco a pouco, os sinais de pontuação nas línguas europeias. E do ponto de ironia, já tinham ouvido falar? Foi inventado por Alcanter de Brahm, no século XIX, e ficava no fim da frase, assim: Cavaco Silva é muito loquaz؟ Para quem não percebe à primeira...

 

[Texto 5691]

Helder Guégués às 19:08 | comentar | ver comentários (4) | favorito