06
Mar 17

«Fêmea», pronúncia

A mão direita

 

      «A tartaruga marinha fémea, que ganhou a alcunha de “Banco”, estava a morrer de uma infeção causada pela rotura da sua carapaça ventral, causada pelos cinco quilos de peso das moedas» («Equipa médica retira 915 moedas do estômago de tartaruga», Lusa/TSF, 6.03.2017, 15h53).

      É precisamente a pronúncia que vou ouvindo cada vez mais, mas na escrita é uma estreia. Mas que abéculas! E são jornalistas... A pronúncia é com e tónico fechado, que na grafia, neste caso, é representado por acento circunflexo. Já sei que há pelo menos um «gramático» brasileiro que defende que é tudo igual. A única vingança que nos ocorre é não lhe mencionar o nome. (Decepar-lhe a mão direita, como estão aqui a sugerir-me, podia não ser a melhor opção. E se for esquerdino? E a língua?)

 

[Texto 7533]

Helder Guégués às 18:30 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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16
Dez 16

Pronúncia: «Esopo»

Ou sou eu que não percebo

 

      Na Agenda Cultural de ontem, na RTP2, a propósito da peça Pedro e o Lobo, em cena no Theatro Circo de Braga, falavam de Esopo, e pronunciaram assim a palavra: /Êsopo/. Então aquele e inicial não vale i, como noutros vocábulos? Pior, vi no Youtube, é muitos brasileiros, de autores a editores, pronunciarem-na como se fosse proparoxítona. Coisa esdrúxula!

 

[Texto 7329]

Helder Guégués às 09:24 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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19
Nov 16

«Fregiano» e «quiniano»

Filósofos e adjectivos

 

      «O sufixo -ano», pergunta-me um leitor habitual do Linguagista, «no caso do filósofo Gottlob Frege (1848-1925), dá “freguiano” ou “fregueano”? ou será “fregiano” ou “fregeano” (pronunciando-se |g| e não |j|? E quanto ao filósofo Willard van O. Quine (1908-2000), dá “quiniano” ou “quineano”? E pronuncia-se |cuai|?»

     O adjectivo relativo a Frege é fregiano; o relativo a Quine, quiniano. Quanto à pronúncia, tem de haver um compromisso. Como pronunciamos «freudiano» ou «gaullista»? Está aqui a resposta.

 

[Texto 7254]

Helder Guégués às 09:58 | comentar | favorito
16
Abr 16

Uma F8 portuguesa

É o fado

 

   «Esta semana, na conferência anual F8 (cujo nome, em inglês, se lê “fate”, ou seja, destino), Zuckerberg apresentou planos para mudar o relacionamento das empresas com clientes e para ligar cada vez mais partes do mundo à Internet» («A figura. Mark Zuckerberg», João Pedro Pereira, Público, 16.04.2016, p. 21).

    Pois com certeza, mas, passim, aqui e ali, lê-se que a pronúncia é eff eight. Conclusão? Lê-se das duas maneiras — mais uma, e a que devemos preferir: efe oito.

 

[Texto 6749]

Helder Guégués às 11:05 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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02
Dez 15

Pronúncia: «lingueirão»

Quando corrigir é errar

 

      Anteontem, o jornalista Paulo Salvador estava no programa Prova Oral, da Antena 3, para falar do seu livro, Mesa Nacional (Oficina do Livro, 2015). Quando Fernando Alvim falou de lingueirão — e pronunciou bem a palavra, /gu-ei/ —, Paulo Salvador «corrigiu» logo, pronunciando /gej/, ou seja, não proferindo o u. Só pode ser confusão com outras variantes, como longueirão e langueirão, em que o u, de facto, se não pronuncia. Neste caso, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista a pronúncia correcta, e não teriam desculpa se o não fizessem, pois Rebelo Gonçalves é claro: «lingueirão (ü), s. m.». Nunca eu ouvi pronunciar o vocábulo de outra forma. O Portal da Língua Portuguesa, do ILTEC, não regista a pronúncia correcta, mas, como se lê que é a «Pronúncia indicativa (em teste)», não podemos senão esperar que irão corrigir mal saibam que está errado. A não ser que se pronuncie assim na Avenida Elias Garcia.

 

[Texto 6442] 

Helder Guégués às 08:16 | comentar | ver comentários (2) | favorito
30
Nov 15

Pronúncia: «Windhoek»

Africânder não é

 

      «Entre comprimentos e abraços e as boas-vindas do presidente Donald Tusk, este foi um Conselho Europeu tranquilo para António Costa» («Primeiro-ministro estreou-se num Conselho Europeu», António Esteves Martins, Telejornal, RTP1, 29.11.2015).

   Exactamente, são parónimas: têm grafia diferente, mas pronúncia muito parecida — não igual. Quando quero dizer «cumprimento», é «cumprimento» que digo; quando quero dizer «comprimento», é «comprimento» que digo. Dizermos que são parónimas não é nenhum convite a confundirmos tudo. A propósito de pronúncia: hoje, no noticiário das 7 da tarde na Antena 3, uma jornalista pronunciou o nome da capital da Namíbia assim: «Vindoeque». No tempo da Internet, é imperdoável. Em português? Escreva e pronuncie Vinduque. Ora, não tem de quê.

 

[Texto 6439]

Helder Guégués às 20:44 | comentar | favorito
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22
Nov 15

Pronúncia: «laxismo»

Como quiserem

 

    Disse «laxismo»? O Dicionário Houaiss (2003) não regista a pronúncia desta palavra. Contudo, como só indica aquelas (como «laxifloro» e «laxifólio») em que o x se pronuncia cs, deduz-se que para «laxismo» recomenda que se profira como ch. Para mim, foi sempre assim. O mesmo, mas de forma explícita, para o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa, que lamentavelmente não regista — por distracção da classe de Ciências? — nenhum vocábulo com o elemento laxi-. No Vocabulário Ortográfico Atualizado da Língua Portuguesa, também da Academia das Ciências de Lisboa (INCM, 2012), é ch. Também o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista esta pronúncia. Já Rebelo Gonçalves, no Vocabulário da Língua Portuguesa, inacreditavelmente, não regista a palavra (nem «laxista» ou «laxístico»), mas para o composto de laxi- indica que se lê àks. Para José Pedro Machado, no Grande Dicionário da Língua Portuguesa, é cs. Gonçalves Viana indica, mas para «laxiorismo», que desapareceu dos dicionários mais recentes (mas já era pouco usado quando Fr. Domingos Vieira publicou o seu Thesouro), a pronúncia cs. Há, naturalmente, outros dicionários, consultem-nos; uma conclusão, porém, já se pode tirar: nem os especialistas sabem!

 

[Texto 6417]

Helder Guégués às 21:53 | comentar | ver comentários (3) | favorito
10
Nov 15

Pronúncia: «ratificação»

Menos gritaria

 

      Pelo menos nesta parte do Colóquio «Ortografia e Bom Senso», ontem e hoje na Academia das Ciências de Lisboa, estive presente: o embaixador Carlos Fernandes explicou porque é inconstitucional o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990, e ilegal a célebre Resolução do Conselho de Ministros n.º 8/2011, que (e porque) manda que se aplique a nova ortografia no Governo e em todos os serviços e organismos com tutela governamental, e no ensino. João de Araújo Correia, se fosse vivo e estivesse presente*, é que não ia gostar nada de ouvir o Sr. embaixador pronunciar a palavra — e quantas vezes! — «ratificação». O r, em início de sílaba, é forte, decerto, porque está em posição de ataque — mas, neste vocábulo em concreto, o belicismo acaba aí. Vou usar, até como homenagem à instituição, que tão bem nos acolheu, a transcrição (corrigida no que é possível, porque é uma estranha mescla de transcrição fonética com ortoépia) do Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa para o demonstrar. A transcrição do vocábulo rato é «rátu»; de ratificação, «ʀɐtifikɐsˈɐ̃w»; de raticida, «rɐtisídɐ». Dúvidas?

 

[Texto 6385]

 

 

* Ou visse no YouTube, porque já foi publicada uma intervenção, a de Ivo Miguel Barroso, «Consoantes “mudas” e facultatividades nas reformas ortográficas, em Portugal e no Brasil».

Helder Guégués às 23:59 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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29
Out 15

E a metafonia?

Os destroços da pronúncia

 

      José Manuel Rosendo é o enviado especial da Antena 1 à Síria. Nos noticiários de hoje: «O percurso ao longo do Curdistão Sírio é através de uma estrada muito maltratada preenchida por postos de controlo das várias milícias e também da Polícia curda, postos de controlo improvisados com destroços de guerra colocados na estrada para obrigarem os carros a parar.» Nos três casos, saiu assim: «pôstos», «pôstos», «destrôços». Será convicção.

      Eu é que podia ser mudo, não falo com quase ninguém. Um repórter tem de saber falar. Se escrevermos e falarmos como nos der na telha, não nos vamos entender. «Postos» e «destroços» são plurais metafónicos, José Manuel Rosendo. Algumas palavras, quando são pluralizadas, além de receberem a respectiva desinência, mudam o timbre da vogal tónica, que passa de fechada a aberta. É o caso destes dois: «póstos» e «destróços».

 

[Texto 6364]

Helder Guégués às 15:19 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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21
Out 15

Pronúncia: «deixis/dêixis»

Deixem a dêixis

 

      Saber que há professores de Português que pronunciam deixis (ou «dêixis», aportuguesado) como se aquele x valesse ch deixa-me ainda com menos fé na humanidade. E valerá a pena perdermos tempo a lembrar, aconselhar, ensinar que se pronuncia como «tóxico»? Com certeza que não, pois também não sabem pronunciar o vocábulo «tóxico». Isto já não é de Homo sapiens, mas de Homo demens.

 

[Texto 6344]

Helder Guégués às 22:25 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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