12
Nov 17

Sobre «predador»

Em sentido figurado, pois

 

      «Para identificar o predador, foram essenciais os vestígios biológicos deixados nos lençóis e no pijama da vítima» («Ataca jovem na cama e força-a a fazer sexo», Nelson Rodrigues, Correio da Manhã, 2.11.2017, p. 13).

    Fará sentido usar tal termo neste contexto? Não me parece. No Correio da Manhã, muito atreito ao drama, ao horror, ao desespero, à desgraça, não fica mal, mas o certo é que se lê por aqui e por ali a palavra para designar os violadores. No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, o verbete está incompleto.

 

[Texto 8327]

Helder Guégués às 12:19 | comentar | favorito
17
Set 17

«Naturais», de novo

Mas sabia

 

      Aqui da gaveta dos retroses tirei esta frase de Alçada Baptista: «Cada cidade tinha um bocadinho reservado para os exilados doutras cidades que, com alguns naturais, bebiam amarguras e absintos, em boémias que acabavam em livros e em conspirações» (A Cor dos Dias ­— Memórias e Peregrinações, António Alçada Baptista. Queluz de Baixo: Editorial Presença, 2003, p. 103). Lá está — naturais, não, como agora se lê em traduções e na imprensa, «locais». Alçada Baptista não era um escritor dado a apuros formais, muito longe disso, mas gosto de ler algumas das suas obras. No fundo, era apenas um excelente contador de histórias — e estas até num vídeo se podem contar.

 

[Texto 8156]

Helder Guégués às 12:52 | comentar | favorito
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04
Jul 17

Tradução: «cautionary tale»

Serve para prevenir, sim, mas...

 

      Há um livro, publicado em 1907, do escritor anglo-francês Hilaire Belloc com o título Cautionary Tales for Children: Designed for the Admonition of Children between the ages of eight and fourteen years. Nele, um rapazinho, Jim, depois de desobedecer à ama, é comido por um leão. Traduzir cautionary tale, expressão que surge noutros contextos, por «conto cautelar» não me parece nada feliz, mas é como o fazem tradutores com currículo... A mim, «conto cautelar» remete-me logo para o Direito, ocorre-me logo a providência cautelar. Não seria melhor traduzir, porque é disso que se trata e neste caso as expressões são usadas e conhecidas, por história exemplar ou conto edificante?

 

[Texto 7974]

Helder Guégués às 08:49 | comentar | ver comentários (7) | favorito
16
Jun 17

Léxico: «tecnicalidade»

Há melhor

 

      «Tecnicalidades limitam candidatura a Lisboa» (João Moniz, Destak, 16.06.2017, p. 11). Ia jurar que nunca tinha lido nem ouvido esta palavra, vinda directamente do inglês: tecnicality. Está registado nos dicionários, sim, mas usar-se-á no dia-a-dia? Já tínhamos tecnicidade, que leio por aí e uso. A outra questão é: terá sido usada com propriedade naquele título? E que «tecnicalidades» são essas no caso da escolha da sede da Agência Europeia do Medicamento? Segundo o jornalista, as «fáceis ligações aéreas para os cerca de oito mil funcionários da agência, escolas para os filhos desses trabalhadores e lista de edifícios com disponibilidade imediata para a sede ser instalada mal saia de Londres foram alguns dos pontos que terão sido apontados como impeditivos de uma candidatura forte no Porto».

 

[Texto 7923]

Helder Guégués às 07:09 | comentar | ver comentários (1) | favorito
07
Mar 17

«Aportar», verbo só para alguns

Esta vida de marinheiro

 

      «É lá que a coragem vai beber 
e ela aporta dinamismo, motiva, impulsiona a lutar por aquilo em que se acredita, etc.» Os nutricionistas é que julgam precisar do verbo «aportar», mas, na realidade, só os marinheiros precisam dele. Experimentem consultar um dicionário. Esperem! Não todos, naturalmente. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, felizmente, só regista o que era de esperar: «(verbo transitivo e intransitivo) entrar em (um porto); (verbo transitivo) trazer a um porto». E chega.

 

[Texto 7538]

Helder Guégués às 11:24 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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25
Jul 16

«Portas do navio»?

Hum...

 

    «O pesqueiro ‘Olívia Ribau’, que em outubro do ano passado naufragou à entrada da Figueira da Foz, matando cinco pescadores, fez-se à barra com as portas abertas, incluindo as dos porões, o que contraria todas as normas de segurança» («Barco fez-se à barra com as portas abertas», Sérgio A. Vitorino, Correio da Manhã, 25.07.2016, p. 10).

      É só uma dúvida (mas com a força de uma certeza: temos de duvidar sempre): será que se diz mesmo assim, «portas do navio»?

 

[Texto 6974]

Helder Guégués às 23:05 | comentar | ver comentários (1) | favorito
07
Jun 16

Que tira-teimas é este?

Duelo democrata

 

      «Hillary Clinton e Bernie Sanders travam hoje um duelo que poderá ser decisivo para se saber qual o candidato do Partido Democrata às eleições presidenciais de 8 de novembro. Vota-se na Califórnia, Montana, Nova Jérsia, Novo México, Dakota do Norte e Dakota do Sul. Uma recontagem de delegados efetuada pela Associated Press diz, porém, que Hillary já garantiu os delegados suficientes» («Tira-teimas democrata nos EUA», Expresso Diário, n.º 590, 7.06.2016).

      Será tira-teimas o termo mais adequado? A acepção mais próxima seria «argumento decisivo», mas não me parece. O que me parece é que prova de fogo exprime melhor a ideia. «Prova de fogo democrata nos EUA». Ou, porque a ideia de combate está subjacente, assim: «Duelo democrata nos EUA».

 

[Texto 6868]

Helder Guégués às 21:55 | comentar | favorito
07
Mai 16

Promessas e malogros

Rentes de Carvalho, uma promessa?

 

      Lembram-se do «malogrado jornalista» que morrera pacificamente na sua cama aos 91 anos? Hoje temos algo semelhante: «Hoje com 86 anos, Rentes de Carvalho
 é uma das sólidas promessas da literatura nacional, a que continua a dedicar o seu cuidado: O Meças foi publicado este ano e é uma história de memórias descobertas num tempo marcado pela violência. É sempre na narrativa do quotidiano, das agruras, de esperanças, do cruzamento de vários mundos, que Rentes de Carvalho melhor se destaca na escrita meticulosa e contida» («Rentes de Carvalho e a rebeldia», Francisco Louçã, Público, 7.04.2016, p. 55).

 

[Texto 6796]

Helder Guégués às 22:23 | comentar | ver comentários (2) | favorito
23
Fev 16

«Missa ecuménica»?

E não há sinónimos?

 

      «Marcelo Rebelo de Sousa vai participar numa missa ecuménica na Mesquita de Lisboa na tarde de 9 de Março, dia em que toma posse como Presidente da República, sabe o PÚBLICO. A iniciativa, inédita em Portugal, está a ser organizada para assinalar a sua posse e tem como objectivo chamar a atenção para a necessidade de entendimento entre religiões e culturas» («Marcelo participa em missa ecuménica na Mesquita de Lisboa no dia da posse», São José Almeida, Público, 23.02.2016, p. 6).

      Se é ecuménica, talvez não seja missa, não é? É, pelo menos, uma visão cristianocêntrica, o que acaba por contradizer o ecumenismo. Vejamos o que, sobre esta questão, se lê no livro de estilo do Público: «Também é imprópria a expressão “dizer missa”. A missa (ou eucaristia) é rezada ou celebrada. “Missa” designa a principal liturgia católica; nas outras igrejas ou religiões, deve falar-se de liturgia, culto, oração ou outra expressão mais específica.» «Imprópria», a expressão «dizer missa»? Estão enganados.

 

[Texto 6641]

Helder Guégués às 20:54 | comentar | favorito
06
Fev 16

Tribunal de júri

Será que coadjuvam mesmo?

 

      «O advogado insiste: o seu cliente “não é um monstro”. Se é ou não culpado, serão os juízes a decidir — coadjuvados por um professor de Inglês, um optometrista, uma estudante e um licenciado em Gestão, que são os jurados seleccionados, após um pedido do arguido para ter um tribunal de júri» («Defesa alega que pai acusado de matar filho com facada “teve um blackout” nessa tarde», Ana Henriques, Público, 5.02.2016, p. 11).

      Não tenho bem a certeza de que «coadjuvados» seja a palavra certa, atendendo à forma como o tribunal de júri está organizado entre nós. Aguardemos a opinião dos especialistas em Direito.

 

[Texto 6601]

Helder Guégués às 11:55 | comentar | favorito
28
Dez 15

Que maquinarias estas

Cientificamente

 

   Ana Gerschenfeld entrevista hoje, no Público, o cientista norte-americano, de ascendência portuguesa, Craig Mello, Prémio Nobel da Medicina em 2006. «Recebeu», pergunta-lhe a jornalista, «o Nobel pela descoberta do mecanismo de “ARN de interferência”. Pode explicar do que se trata?» A resposta é extensa, mas só nos interessa a primeira parte: «As células vivem na idade da informação há milhares de milhões de anos. Portanto, precisam de ter maneira de pesquisar informação e para isso desenvolveram uma série de maquinarias muito parecidas com o Google, que nós utilizamos para fazer pesquisas na Web» («Craig Mello. “Há muito boa ciência por fazer que não apresenta qualquer problema ético”», Público, 28.12.2015, p. 30). 

      Não sabemos que língua usou o entrevistado, mas é muito provável que fosse inglês. Ora, aquelas «maquinarias» só têm explicação, a meu ver, se foi tradução — e má tradução — do inglês machineries. Não será antes «mecanismos», e talvez até «processos»?

 

[Texto 6508]

Helder Guégués às 21:38 | comentar | ver comentários (1) | favorito