01
Jul 16

Regência nominal

Não sabem reger(-se)

 

      «Nenhum deles deixaria, se as suas cronologias fossem diferentes, de aplaudir as intervenções de Miss De Havilland nos tempos conturbados da reeleição de Roosevelt: indefetível apoiante dos Democratas, foi também uma feroz combatente ao que considerava serem a propaganda e as infiltrações comunistas. Última ironia: nesse momento de avanço público, o seu grande apoio foi um ator mediano – sejamos simpáticos – chamado Ronald Reagan» («Olivia de Havilland, 100 anos. A que o vento não levou», João Gobern, Diário de Notícias, 1.07.2016, p. 40).

      Não é essa a regência nominal, mas sim combatente de; logo, Olivia De Havilland «foi também uma feroz combatente do que considerava, etc.».

 

[Texto 6928]

Helder Guégués às 23:59 | comentar | ver comentários (3) | favorito
06
Jun 16

Regência nominal: «aptidão para»

Será confusão

 

      «Até aqui, tudo bem. Mas Bethany [Hamilton], de 26 anos, não tem um braço e é, na verdade, um caso incrível de força de vontade e superação. Nasceu no Havai, sempre teve aptidão pelo surf e, aos oito anos, já competia» («Sobreviveu a tubarão e supera-se no surf», Pedro Queiroz da Costa, Público, 5.06.2016, p. 59).

      Quanto a regências nominais estamos mal, não é, Pedro Queiroz da Costa? Aptidão para ou aptidão a. Não será confusão com apetência por? «Mas prometo rechear esta perda (se de perda merece o nome) com uma resposta altamente prolixa, a ver se tu, farto e completamente enfastiado com a minha verborreia, vais deixando de ter apetência pelo que é nosso» (Carta a Bartolomeu de Quevedo, André de Resende. Lisboa: Instituto Nacional de Investigação Científica, 1988, p. 67).

 

[Texto 6861]

Helder Guégués às 00:01 | comentar | ver comentários (4) | favorito
09
Abr 15

«Parecido a/parecido com»

Uma turma de repetentes?

 

      Só ontem me disseram: no programa Pontapés na Gramática, na Antena 3, Sandra Duarte Tavares, a 5 de Novembro passado, afirmou: «A explicação é breve, concisa, objectiva, como nós gostamos aqui no nosso Pontapés na Gramática, e diz assim: o adjectivo parecido rege, ou seja, é acompanhado da preposição com e não da preposição a. O adjectivo que gosta da preposição a é o adjectivo semelhante. “X é semelhante a x”, “x é parecido com y”. E por causa do semelhante, por contaminação do semelhante há tendência para dizermos “parecido a”. Não se esqueçam, queridos ouvintes, de que o adjectivo parecido pede, é acompanhado da preposição com.» Joana Dias ainda voltou a perguntar-lhe se não se podia mesmo usar a construção parecido a. «De todo. Não, não, não. De todo. É um erro sintáctico.»

   Pena é que esta lição não tenha efeitos retroactivos. Veja aqui os alunos que aproveitariam dela:

 

  • «Por esta causa Henrique Harfio, Varão iluminado, e um dos Doutores mysticos, e espirituaes da primeira classe, tratando dos actos anagogicos do amor Divino, ou jaculatorias abrazadas, adverte que pode este exercicio ser puramente natural, e por elle adquirir-se hum amor muy parecido ao Divino, porém que realmente o não seja; antes que pôde com elle a Alma andar em estado de condenação» (Luz e Calor, P.e Manuel Bernardes).
  • «Com um S. Ignacio, com uma imagem da mais heroica virtude: com uma imagem da mais consummada perfeição: com uma imagem da mais prodigiosa santidade: em fim, com um santo, não similhante e parecido a um só santo, senão similhante e parecido a todos: Et vos similes hominibus» (Sermão de Santo Inácio, P.António Vieira).
  • «O pleito com o Núncio é muito parecido ao nosso, e uns e outros parece navegamos para Inglaterra» (Cartas, P.e António Vieira).
  • «Não há acção mais parecida às de Cristo» (Cartas, P.e António Vieira).
  • «Rato, nome de hum peixe parecido ao rato» (Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, Francisco Solano Constâncio).
  • «Sahe de huma planta purpura rubente,/Sangue dimana, parecido ao nosso,/Para os que usão talhar os Cáspios Mares» (Obras Poéticas, Bocage).
  • «A outra mão segurava o carapuço, agudo na ponta, e largo na bocca, parecido ao funil, quasi pyramidal, de que a imaginação vesga de um poetastro toucou a serombatica fronte do sabio Abacadabro» (A Mocidade de D. João V, Rebelo da Silva).
  • «Madrépora, s f. t. d’Hist. Nat. Corpo marinho parecido a ramos de arbustos, semelhantes á pedra, em cujos vãos habitam polipos» (Dicionário da Língua Portuguesa, António de Morais Silva).
  • «Symbiota, m. espécie de ácaro, parecido ao psoropta» (Novo Dicionário da Língua Portuguesa, P.e Cândido de Figueiredo).

 

[Texto 5739]

Helder Guégués às 08:03 | comentar | ver comentários (2) | favorito
11
Mar 14

Afervorar o amor ao estudo

Um morto e um vivo

 

 

      «O PCP é como os filmes da Disney, não precisamos sequer de ir ao cinema para saber qual é o final. Desde que vivemos em democracia, tivemos três Governos socialistas: Mário Soares, António Guterres e José Sócrates. Dispenso-me de recordar o grande amor de Cunhal por Soares. Já sobre o Governo Guterres, dizia Carlos Carvalhas que ele era “cúmplice da política de direita”» («Pulseira electrónica até 2035», João Miguel Tavares, Público, 11.03.2014, p. 52).

   João Miguel Tavares queria escrever «amor de Cunhal a Soares», mas esqueceu-se da regência nominal adequada. Agora (tem de ser) um morto. Ora vejamos... Pode ser Camilo, no Amor de Perdição: «Isto afervorou-lhe para mais o amor ao estudo.» Oxalá.

 

[Texto 4208]

Helder Guégués às 22:07 | comentar | ver comentários (1) | favorito
10
Fev 14

«Protecção à Criança»?

Falemos de preposições

 

 

      «O gabinete da equipa de Proteção à Criança era apertado e atravancado e cheirava a leite, porque Alex e Una tinham o hábito de despejar as borras das chávenas de café no vaso de uma iúca de aspeto deprimido pousado a um canto» (Uma Morte Súbita, J. K. Rowling. Tradução de Alberto Gomes, Manuel Alberto Vieira, Marta Fernandes e Helena Sobral. Queluz de Baixo: Editorial Presença, 2013, p. 87).

      «Child Protection», em inglês. Nós temos, por exemplo, o Instituto de Apoio à Criança, mas ainda hoje de manhã passei, em Cascais, pela Comissão de Protecção da Criança. Apoio à; protecção da. A iúca, não a ornamental, mas a comestível, vimo-la aqui.

      «The Child Protection team’s room was cramped and cluttered, and it smelt of spoilt milk, because Alex and Una had a habit of emptying the dregs of their coffee cups into the pot of a depressed-looking yucca plant in the corner.»

 

 [Texto 4018]

Helder Guégués às 17:12 | comentar | favorito
29
Jan 14

Regência de «repúdio»

E se lesse um pouco?

 

 

      «Repúdio pelo diferente», escreve aqui o autor, que rejeitou a minha emenda. Está errado. «Desta incompatibilidade nasce o desentendimento com o advogado, o crescente isolamento final e, concomitantemente, com o total repúdio do mundo dos outros e dos valores que eles encarnam, uma progressiva e profunda identificação consigo mesmo» (A Felicidade em Albert Camus, Marcello Duarte Mathias. Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2013, 3.ª ed., p. 193).

 

  [Texto 3942]

Helder Guégués às 11:34 | comentar | ver comentários (10) | favorito
20
Jan 14

«Apetite de aventura»

Urbanamente

 

 

      «– Refiro-me aos esforços ansiosos e descombinados para transcender a nossa mesquinha condição, àquele desafio constante do verdadeiro espanhol ao bom senso, à própria morte... Refiro-me à saudade de acção impetuosa que fermenta nos anos de apatia em que a Espanha periodicamente se revolve. Tudo isso me agrada: o espírito pouco prático, o orgulho do pobre; o apetite de aventura, de vida arrojada e palpitante... Mas desculpe, Mari-Paz, estou a castigá-la com um verdadeiro discurso...» (Obras Completas, Vol. 1, Urbano Tavares Rodrigues. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2009, p. 215).

 

  [Texto 3893]

Helder Guégués às 17:22 | comentar | ver comentários (2) | favorito
10
Jan 14

Regência de «amor»

E assim deve continuar a ser

 

 

    «Impõe-se aos governos uma política nacional; e em face dela aos governados impõe-se também uma atitude, um sentimento nacional ­— com a disposição de trabalhar pela Nação, o apreço, o amor do que é português» (Discursos, volume primeiro, 1928-1934, Oliveira Salazar. Coimbra: Coimbra Editora, 1961, 5.ª ed., p. 35).

      A propósito da regência de «ódio», comentou Montexto: «Não só ódio, mas qualquer sentimento. A substituição das regências lidimamente portuguesas em tais conjunturas – de, a, com, para com – veio do lugar do costume. Que de vezes aqui citei o § 206 da Sintaxe! Nem há-de ser esta a última.» Com todos os sentimentos, naturalmente que sim. Hoje apenas quero exemplificar com outro sentimento.   

 

  [Texto 3829] 

Helder Guégués às 09:31 | comentar | ver comentários (11) | favorito
10
Ago 13

«Amor a...»

Sintaxe histórica

 

 

      «Ainda naquele dia [Urbano Tavares Rodrigues] falou também do amor por Ana Maria, a actual mulher. E de um ou outro amuo com Cunhal, da desilusão com o actual estado do país, do desprezo aos políticos, da noção de que esta esquerda pode pouco. Cruzou o presente com o passado» («O homem que via os deuses ao lado», Isabel Lucas, Público, 10.08.2013, p. 3).

      Bom e mau em duas curtíssimas frases, e tudo, estranhamente, sobre a mesma questão: regências, e a mesma regência, aliás, sobre disposições de ânimo. O § 206 (p. 158, ou 157 na 2.ª ed.) da Sintaxe Histórica Portuguesa, de Epifânio da Silva Dias, aqui ao lado, diz tudo.

 

  [Texto 3165]

Helder Guégués às 08:44 | comentar | ver comentários (16) | favorito
02
Jul 12

«Responsável deste crime»

Novas do Brasil

 

 

      Chegou-me do Brasil o segundo volume do Regime de Verbos de José Stringari (Niterói: Escolas Profissionais Salesianas, 1937). Sobre o verbo responsabilizar (ver aqui), escreve na página 97: «Dizemos também responsabilizar alguém de alguma coisa: “Firme no proposito de não recordar o passado, de não queixar-se de ingratidões recebidas, de não responsabilizá-lo da sua desgraça” (Camilo: Um Homem de Brios, 178, 3.ª ed.).» Fui confirmar na 2.ª edição, a que tenho mais à mão: «— É, se a minha amiga entrar n’este melindroso acto, segura de si, e firme no proposito de não recordar o passado, de não queixar-se de ingratidões recebidas, de não responsabilisal-o da sua desgraça» (Um Homem de Brios, Camilo Castelo Branco. Porto: em Casa de Cruz Coutinho, 1862, 2.ª ed., p. 200).

 

 [Texto 1753] 

Helder Guégués às 14:59 | comentar | ver comentários (2) | favorito
01
Jul 12

Regência de «inspirado»

Quando há escolha

 

 

      «Por estes dias, estreou-se em Telavive um espectáculo de dança inspirado pelo Diário e pela vida de Anne Frank. O facto, aparentemente trivial, torna-se notícia quando se sabe que o espectáculo começou por ser concebido na Venezuela para exibição local e foi proibido por ordem de Hugo Chávez, que “sugeriu” aos coreógrafos a troca do tema pelo do “sofrimento palestiniano”» («A segunda morte de Anne Frank», Alberto Gonçalves, Diário de Notícias, 1.07.2012, p. 55).

      As regências verbais e nominais já aqui causaram alguma polémica. Quando há várias regências, o uso de uma em particular, mesmo que pouco habitual, apenas decorre do bom gosto. Como é o caso: eu não teria escrito «inspirado pelo», mas «inspirado no». Mas diz-se, consoante o contexto e o que se pretende significar, inspirado de, em, para e por.


 [Texto 1751]

Helder Guégués às 09:45 | comentar | ver comentários (1) | favorito