24
Mar 17

O verbo «assistir», regência

Erro pouco poético

 

      Chegou ontem, e na linha do assunto vinha isto: «CCB | comemora o Dia Mundial da Poesia já este sábado, dia 25 de Março e as bilheteiras para os Dias da Música abrem no dia 23, sexta-feira. Apresse-se antes que esgotem os concertos que mais gostaria de assistir!» Não têm uma gramaticazinha lá no Centro Cultural de Belém?

 

[Texto 7609]

Helder Guégués às 11:32 | comentar | ver comentários (2) | favorito
04
Fev 17

Regência de «protestar»

Nem de propósito

 

      Que coincidência: na primeira crónica, é também a regência verbal que claudica. «Claro que demasiadas pessoas correram para os aeroportos nas últimas semanas. Mas foi apenas para protestar as restrições à imigração, prova da maldade intrínseca do novo presidente e, em boa parte, herança do anterior» («Bem-vindos, refugiados da América», Alberto Gonçalves, Observador, 4.02.2017, 00h02). No sentido de insurgir-se, manifestar-se, como no contexto, exige a preposição contra. Mas não só: «Os Yeagers colocaram a casa à venda para fugir à “devastação eleitoral” (cito) e passar os próximos 4 ou 8 anos no estrangeiro.» Isto e mais uma mão-cheia de escusadas baldas modernas, como site, media e outras miudezas. Será uma pena eminentemente swiftiana, mas o tom de lengalenga previsível vai dispensar-me de o ler até 30 de Dezembro (sim, confirmei: um sábado).

 

[Texto 7461]

Helder Guégués às 16:00 | comentar | ver comentários (3) | favorito

Regência de «ajudar»

Os factos como eles são

 

      Alberto Gonçalves é a nova aquisição, salvo seja, do Observador. Apresentou-se ontem aos leitores deste jornal digital, e não desilude. Ou não desilude mais, vá. Analisemos, para já, antes de chegar a primeira crónica, prometida para cada sábado, apenas uma frase. «Sonho escrever crónicas que saltitem de júbilo pelo facto de partidos estalinistas ajudarem ao governo do país.» «Saltitar pelo facto»... Está bem, está. E a regência do verbo «ajudar» estará correcta? Alberto Gonçalves pode ajudar, bitransitivamente, o Observador a ter mais leitores (ou não). Ajudar alguém a. Os partidos estalinistas, por sua vez, podem ajudar no governo do país. Ajudar em. Ou até, mais directa e transitivamente, e com resultados menos maus, podem ajudar o Governo do país. Para ajudar à missa, porém, vem Luft dizer-nos que conseguiu desencantar uma frase em que o verbo aparece assim preposicionado, e logo de Herculano: «Presume, e parece-nos que com razão, um dos nossos mais judiciosos historiadores que o conde aproveitaria para a sua passagem a armada genovesa que em 1104 ajudou Balduíno à conquista da Ptolemaida» (in História de Portugal). Também encontrei um exemplo em Eça de Queiroz e em mais meia dúzia de autores absolutamente não citáveis. Os grandes também erram e tresvariam.

 

[Texto 7460]

Helder Guégués às 10:19 | comentar | ver comentários (4) | favorito
21
Dez 15

Regência de «consentir»

Dupla regência

 

      «[A Europa] Consentiu em ser apenas o eco precioso de expressões alheias, esquecido de que não é possível manter uma identidade singular por procuração» (Diário, Vols. XII a XVI, Miguel Torga. Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2011, 5.ª ed., p. 74).

      Como pode ver, J. M., o verbo «consentir» admite duas construções: «consentir algo» e «consentir em».

 

[Texto 6494]

Helder Guégués às 17:15 | comentar | favorito
07
Jul 15

Regência do verbo «impedir»

Esta é nova

 

      «Tratava-se de mato cerrado e, graças à grande perícia daqueles cinco pilotos, fazíamos um voo raso, o que impedia de sermos localizados» (Até ao Fim — a Última Operação, António Vasconcelos Raposo. Lisboa: Sextante Editora, 2011, p. 15).

      Se houver aí alguém que não estranhe esta regência, levante o dedo (ou a G3). Eu seria, naturalmente, levado a escrever e a dizer «o que impedia que fôssemos localizados».

 

[Texto 6027]

Helder Guégués às 10:20 | comentar | ver comentários (1) | favorito
06
Jul 15

Regência verbal: «aportar»

Bravo estrago

 

      «Mais de cinco séculos depois de os navegadores portugueses Diogo Cão (1485) e Bartolomeu Dias (1487) terem aportado em Walvis Bay, naquela que é hoje a principal cidade portuária do país, Namíbia e Portugal querem voltar a descobrir-se» («Empresas do Norte são exemplo que Namíbia quer aproveitar», Sérgio Pires, Diário de Notícias, 4.07.2015, p. 19).

   Sérgio Pires: «terem aportado a Walvis Bay». A regência deste verbo é dupla: aportar e aportar a. «Àquela ilha aportámos que tomou/O nome do guerreiro Santiago,/Santo que os Espanhóis tanto ajudou/fazerem nos Mouros bravo estrago» (Os Lusíadas, Canto V, 9). «Passaram-se quase dois anos desde que empreendi esta tarefa, trazer até mim o que me fora dado viver em terras de França, mais propriamente em Paris, há quase vinte anos, já que aí aportei em sessenta e nove e estamos agora em noventa» (Palingenesia ou o Estado e o Processo do Romance, Silva Carvalho. Lisboa: Fenda, 1999, p. 234).

 

[Texto 6022]

Helder Guégués às 16:38 | comentar | ver comentários (2) | favorito
03
Jul 15

Regência do verbo «preferir»

Preferia cortar um braço

 

      «O facto de Tsipras já ter dado a entender que se demitiria se vencesse o “sim”, e 
de o ministro das Finanças, Yanis Varoufakis, ter assegurado que faria o mesmo de um modo directo (“Preferia cortar um braço do que aceitar um mau acordo”, disse), fazem com que esta pergunta tenha outra consequência: quem vota “sim” sabe que deverá estar
 a reeleger Samaras para primeiro-ministro em eleições que seriam marcadas dentro de 30 dias» («Na batalha do “oxi” e do “nai” joga-se o futuro da Grécia», Maria João Guimarães, Público, 3.07.2015, p. 2).

   Esta também é uma batalha perdida, pois se até jornalistas, que deviam ter mais consciência linguística, escrevem desta maneira, no dia-a-dia é o descalabro. O verbo preferir exige dois complementos, um sem preposição e o outro com a preposição a: «Preferia cortar um braço a aceitar um mau acordo.»

 

[Texto 6016]

Helder Guégués às 09:27 | comentar | ver comentários (7) | favorito
19
Mai 15

Regência do verbo «ansiar»

Menos dura que os bastões de aço

 

   «“Anseio que se apurem as responsabilidades criminais e disciplinares. Os polícias que agiram da forma que agiram em Guimarães não têm categoria para servir a PSP. E o apuramento de responsabilidades disciplinares pode levar ao seu afastamento da corporação”, antecipa [juiz Rui Rangel]. Para Rui Rangel, o vídeo do espancamento não deixa margem para dúvidas: o que sucedeu foi “um manifesto abuso de poder que não honra a polícia nem o Estado de direito”» («Centenas de mensagens de indignação nas redes sociais», Ana Henriques, Público, 19.05.2015, p. 40).

    No sentido de «desejar ardentemente», Sr. Juiz, o verbo ansiar pede complemento indirecto com a preposição por. Dura grammatica sed grammatica.

 

[Texto 5860]

Helder Guégués às 10:56 | comentar | favorito
15
Abr 15

Regência do verbo «gostar»

Já era

 

      «Mobilizaram esforços, criaram petições e entregaram uma carta à Administração Central do Sistema de Saúde com milhares de assinaturas, já que um valor a menos pode ser o suficiente para que qualquer um destes jovens fique o resto da vida a trabalhar numa especialidade que não goste» («Finalistas de Medicina rejeitam mudança de bibliografia para exames», Andreia Filipa Novo, Jornal da Tarde, RTP1, 14.04.2015).

    O verbo gostar pede a preposição de. Dantes sabia-se isto; agora, gramática e Portugueses falam línguas diferentes. Reparem que se trata de uma jornalista, não de um cantoneiro de limpeza.

 

[Texto 5760]

Helder Guégués às 14:30 | comentar | ver comentários (1) | favorito
01
Abr 15

Regência verbal: «propor-se»

É só cortar

 

    «O gestor», recomenda o autor, «deve definir objectivos precisos e propor-se a alcançá-los.» Francisco Fernandes, no Dicionário de Verbos e Regimes (São Paulo: Editora Globo, 36. ed.ª, 1989, p. 481), lembra que a «forma propor-se a fazer alguma coisa é condenada por muitos puristas, que mandam que se escreva propor-se fazer alguma coisa (infinito não preposicionado)». Aqui é que se aplica com toda a propriedade o aforismo de Torga e de Drummond de Andrade: escrever é cortar palavras.

 

[Texto 5707]

Helder Guégués às 12:59 | comentar | ver comentários (3) | favorito
19
Fev 15

Regência do verbo «comparar»

Por vezes soa melhor

 

      Hoje uma pessoa disse-me que aprendeu que o verbo «comparar» tem duas regências. É verdade. Comparar com e comparar a. A primeira é mais antiga e a segunda surgiu mais para evitar aquele com-com, comparar com. Aprender, e aprender sempre. Winston Churchill, uma das mais admiráveis personalidades do século XX, também dizia que estava sempre pronto a aprender, apesar de não gostar do papel de aluno.

 

[Texto 5584]

Helder Guégués às 20:48 | comentar | favorito
Etiquetas: