16
Jan 17

Léxico: «neve furaqueira»

Ou neve ladroa

 

      «Já para Bernardete Choupina [da aldeia de Gimonde, Bragança] as neves da infância não lhe trazem grandes recordações. “Lembra-me, era eu uma moça, veio assim uma neve que lhe chamavam a furaqueira que entrava pelas casas. Não tinham forro e a neve caía em cima das camas. Tínhamos que nos levantar e sacudi-la (risos)”» («Botijas, lume e cobertores são os aliados dos transmontanos para combater o frio», TSF, 16.01.2017, 13h06).

      É isso mesmo: «Furaqueira (neve) — neve muito miúda, seca e puxada a vento, que se introduz nas casas. Também chamada “neve ladroa”» (O Diabo Veio ao Enterro: Contas do Nordeste, A. M. Pires Cabral. Lisboa: Nova Nórdica, 1985, p. 101).

      É pena é os dicionários não incluírem mais regionalismos, o que é, de alguma maneira, uma forma de os legitimar, além de fixar a sua ortografia.

 

[Texto 7412]

Helder Guégués às 17:26 | comentar | ver comentários (2) | favorito
14
Jul 11

«Menente»

Agradecíamos

 

 

      Há por aí algum micalense? Um são-miguelense também serve... Escreve hoje José Medeiros Ferreira no blogue Córtex Frontal: «A pré-época futebolística normalmente deixa-me indiferente. Mas a insistência com que os resultados do SLB na Suiça [sic] são explicados pelos erros da defesa deixa-me “menente”, como se diz em S. Miguel. Bastava ter visto parte dos jogos com o Servette e o Dijon para se perceber que o problema residiu no facto da equipa ter perdido a bola a meio-campo. E sem meio campo [sic] não há defesa nem ataque...» («Preocupações de um benfiquista»).

      Não será o caso, mas, muitas vezes, o problema com os regionalismos é a sua grafia, que, não estando fixada, é variada e caprichosa. Alguém sabe o que significa «menente»?

  

[Texto 302]

Helder Guégués às 12:37 | comentar | ver comentários (8) | favorito
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16
Mai 11

Léxico: «lastra»

Considerações mansas

 

      Ainda não há no Facebook um grupo de defesa dos regionalismos? Fica a ideia — até porque há lá coisas bem mais ridículas e inúteis.

      Tenho aqui à minha frente um texto em que aparece o regionalismo «lastra». Já conheciam? Não é muito provável. «A fila era ainda longuíssima, e já só se podia passar por um corredor a sete ou oito metros de distância do altar sob o qual o tinham colocado, assinalado com uma simples lastra de mármore branco com o seu nome escrito.» Não é de agora que os regionalismos são olhados de soslaio. Já Asinius Pollio, que pelo nome não se perca, governador da Gália Cisalpina, criticou os regionalismos de Patavium (actual Pádua) usados por Tito Lívio na sua obra. Não percebeu patavina, decerto. Substituiria o regionalismo se não figurasse nos dicionários mais comuns. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista que se trata de regionalismo. O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa acrescenta que é regionalismo transmontano, e o mesmo regista o Dicionário Houaiss. Em dicionários mais antigos, curiosamente, não aparece em todos.

      E qual será a etimologia do vocábulo? Desconhecida, parece, mas talvez do espanhol lastra («Piedra más bien grande, naturalmente lisa, plana y de poco grueso», lê-se no DRAE), e este do italiano. Não estará, assim, relacionado com o vocábulo «lastro», com étimo francês. «Lastra» também é a lâmina de pasta argilosa que se converte em telha, acepção que poucos dicionários acolhem. E a propósito: foram os Romanos que nos ensinaram a fazer telhas de meia-cana (obrigadinho!). Punham os escravos a fazê-las a partir de lastras, usando a coxa como molde. Saíam, já podem calcular, muito diferentes, o que terá dado origem à expressão «feito em cima do joelho».

    «Se eles pegão em Homero, e ali mesmo em cima do joelho o traduzem, e achão defeitos na tradução de Pope!» (Considerações Mansas sobre o Quarto Tomo das Obras Métricas de Manoel Bocage Acrescentadas com a Vida do Mesmo, José Agostinho de Macedo. Lisboa: Impressão Régia, 1813, p. 21).

 

[Texto 12]

 

 

Helder Guégués às 13:31 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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