23
Mar 17

Tradução: «sympathy»

Não caias nesse

 

      «“Os meus pensamentos e as minhas orações, assim como a minha mais profunda simpatia, vão para todos aqueles que foram afetados pela horrível violência” do ataque, escreveu a rainha numa mensagem» («“Os meus pensamentos vão para todos os afetados pela horrível violência”», Lusa/TSF, 23.03.2017, 13h13).

      Seria simpático, sim, mas não foi simpatia que a rainha ofereceu, senhor tradutor da Lusa: «The Queen has said her “thoughts, prayers, and deepest sympathy” are with all those who have been affected by yesterday’s “awful violence”» (The Guardian, 23.03.2017, 11h37). Geralmente, sympathy é solidariedade, apoio, compreensão, e até, mas não é o caso, pêsamescondolências.

 

[Texto 7608]

Helder Guégués às 20:01 | comentar | favorito
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18
Mar 17

Como se escreve na imprensa

Vamos lá aferir isto

 

      Esta tarde, houve uma enorme explosão no Bairro de Sainte-Gilles, no centro de Bruxelas. Ao que parece, registaram-se sete feridos. E agora, que se segue? «Por razões de segurança», lê-se no Observador, «15 moradores foram evacuados e uma empresa irá auferir quais os edifícios afetados na sequência da explosão» («Explosão “enorme” em Bruxelas faz vários feridos», Ana Cristina Marques, Observador, 18.03.2017).

      Usa o verbo auferir, mas manifestamente não sabe o que a palavra significa. Com sorte, é desta que aprende. Como a notícia está em actualização, está a tempo de a corrigir. Sobre uma empresa, lê-se isto na RTL: «Une société spécialisée doit arriver pour sécuriser les bâtiments touchés.»

 

[Texto 7578]

Helder Guégués às 18:23 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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06
Mar 17

«Fêmea», pronúncia

A mão direita

 

      «A tartaruga marinha fémea, que ganhou a alcunha de “Banco”, estava a morrer de uma infeção causada pela rotura da sua carapaça ventral, causada pelos cinco quilos de peso das moedas» («Equipa médica retira 915 moedas do estômago de tartaruga», Lusa/TSF, 6.03.2017, 15h53).

      É precisamente a pronúncia que vou ouvindo cada vez mais, mas na escrita é uma estreia. Mas que abéculas! E são jornalistas... A pronúncia é com e tónico fechado, que na grafia, neste caso, é representado por acento circunflexo. Já sei que há pelo menos um «gramático» brasileiro que defende que é tudo igual. A única vingança que nos ocorre é não lhe mencionar o nome. (Decepar-lhe a mão direita, como estão aqui a sugerir-me, podia não ser a melhor opção. E se for esquerdino? E a língua?)

 

[Texto 7533]

Helder Guégués às 18:30 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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05
Mar 17

Desferir sentenças?

Falemos de loucos

 

   «Ao longo dos últimos 35 anos, arrostou com o seu “gesto de Fátima” — como costuma chamar ao atentado — e diz que fez de quase tudo para sobreviver: contabilista, advogado, agricultor, mecânico de bicicletas» («Francisco é “inimigo da Europa”, diz padre que tentou matar Papa», Natália Faria, Público, 5.03.2017, p. 10).

   Gosto de ler os artigos desta jornalista, o que não significa que concorde sempre com a forma como escreve. Por exemplo, no artigo de hoje: aquele «arrostou com» deixa-me muitas dúvidas. E nesta frase: «Durante o julgamento, repetiu que a sua intenção fora “atravessar o coração” de João Paulo II. Mas, ainda antes de desferida a sentença, mostrava-se já menos combativo, apaziguado até.» As sentenças desferem-se, quais balas? Quanto a Juan Krohn, é o parvalhão de sempre (aproveito a fórmula que um homenzinho invejoso, e claramente com uma aduela a menos, me dirigiu. Cumps.).

 

[Texto 7527]

Helder Guégués às 12:26 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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02
Mar 17

«Presidenciável», modo de usar

Aprender português na América

 

   «Trump foi mais presidenciável mas tem Washington para convencer» (Sérgio Aníbal, Público, 2.03.2017, p. 24). Mas, Sérgio Aníbal, Trump já é presidente, e presidenciável é o que reúne as condições consideradas necessárias para ser presidente. Não percebe? Uma vez que está aí em Washington, olhe à sua volta. The Economist: «Donald Trump sounds more presidential, yet stays a populist».

 

[Texto 7521]

Helder Guégués às 08:51 | comentar | favorito
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23
Fev 17

Como se traduz e escreve na rádio

Inacreditável

 

    «Inaki Urdangarin foi condenado a uma pena de seis anos e três meses de prisão, mas o tribunal ainda não decidiu se aplica ou não medidas cautelares enquanto correm os recursos.

   O ministério público, através do delegado na inspeção tributária, disse esta sexta-feira em tribunal que o facto de Urdangarin dispor de uma escolta policial de segurança, reduz em muito o risco de fuga, mas não o elimina» («Cunhado do rei de Espanha tem de pagar 200 mil euros para evitar prisão imediata», TSF, 23.02.2017, 10h58).

    Diga-me o leitor sensato o que se aproveita disto tudo. Deus, já sabemos, ajuda os que a si mesmos se ajudam, e com São Francisco de Sales não é diferente.

 

[Texto 7502]

Helder Guégués às 13:52 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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«Voix de chèvre»

Errar em todas as línguas

 

      «[José Miguel Batista] Seguiu-o como orfeonista que Zeca também foi, e na canção de Coimbra... “O Zeca tinha uma voz relativamente pequena, mas muito bem timbrada, e com um vibrato bonito, nem muito voie de chèvre, nem muito prolongado. Era um homem que tinha muita sensibilidade, um ouvido e uma cultura, que conseguiram fazer dele, além de simples orfeonista, solista do Orfeon Académico de Coimbra”» («As pegadas de Zeca Afonso em Coimbra», Miguel Midões, TSF, 23.02.2017, 9h05).

      Mas, Miguel Midões, se estamos a falar de vozes, não é voix de chèvre que se diz em francês? Percebo: ouviu /vwa/ e nem pensou, o caminho só podia ser esse. Mas é voix de chèvre, sinónimo de voix chevrotante, ou seja, voz trémula — como a das cabras. Pode ser egofonia...

 

[Texto 7501]

Helder Guégués às 09:35 | comentar | favorito
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22
Fev 17

Como se traduz/escreve/pensa nos jornais

Pessimamente

 

      «Mais uma polémica na corrida às presidenciais francesas. Estão a ser questionados pela polícia judiciária francesa o guarda-costas e a chefe de gabinete da candidata da extrema-direita, Marine Le Pen» («Guarda-costas e a chefe de gabinete de Le Pen questionados pela polícia francesa», TSF, 22.02.2017, 10h47).

    «Questionados pela polícia»! É o grande jornalismo da actualidade. Mais vale ler em inglês: «French police have questioned Marine Le Pen’s bodyguard and chief of staff in connection with a probe into alleged misuse of European Union funds» («Marine Le Pen aides questioned in probe over alleged fake EU jobs», Sky News, 22.02.2017, 12h18).

 

[Texto 7499]

Helder Guégués às 13:04 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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18
Fev 17

Erros a toda a hora

Lampreias e dedais

 

      Acabo de ler que o dedal sai do Monopólio depois de votação na Internet. Ora esta... Mas está bem, tudo acaba, e com certeza os mais novos nem sabem o que é um dedal (thimble, para a legião de anglófonos que nos segue). Ao menos foi por votação. Pode acaso dizer-se o mesmo da saída dos revisores dos jornais? Só se foi por votação dos accionistas, que os leitores não foram ouvidos. Nem quando os corrigimos. Ainda hoje, em certo noticiário da televisão, afirmaram que a lampreia é um peixe (e ontem, vimo-lo aqui, que o teredem é um insecto), e aos reparos só respondem: «Ah, vamos tomar nota.»

 

[Texto 7490]

Helder Guégués às 17:52 | comentar | ver comentários (12) | favorito
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«Dotado ao abandono»!

Jornalismo ao abandono

 

      «Foram pintadas as paredes, reforçadas as fachadas, reunidos e restaurados os azulejos — centenas deles encontrados na Feira da Ladra. Tudo devolvido ao Pavilhão Carlos Lopes. Catorze anos depois de ter sido dotado ao abandono, o pavilhão reabre hoje, após um ano de obras de reabilitação que trouxeram de volta “a dignidade ao espaço”, encerrado desde 2013 por falta de condições de segurança. Di-lo Vítor Costa, director-geral da Associação de Turismo de Lisboa (ATL), entidade encarregada da reabilitação» («Até na Feira da Ladra havia pedaços do Pavilhão Carlos Lopes», Margarida David Cardoso, Público, 17.02.2017, p. 18).

      Já aqui tínhamos visto outra versão avariada (e o autor ficou furioso), «devotado ao abandono». Claro que «dotado ao abandono» é muito, mas muito pior.

 

[Texto 7487]

Helder Guégués às 11:46 | comentar | favorito
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