20
Nov 17

Como se escreve por aí

Problemas com os verbos?

 

      Morreu, ontem à noite, o assassino Charles Manson. É notícia em todos os meios. Na Rádio Renascença, dizem isto e ainda acrescentam que Manson, em 2012, pedira liberdade antecipada, mas terminam o artigo com uma revelação perturbante: «Foi-lhe negada a liberdade antecipada e perante a lei em vigor, só poderá recorrer da decisão e fazer novo apelo em 2027.» Não acham que têm de adequar os tempos verbais aos factos narrados?

 

[Texto 8358]

Helder Guégués às 09:52 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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19
Nov 17

«Extirpar/estripar»

Arrancar o mal pela raiz

 

      Em Angola, a limpeza — ou simulacro de limpeza, quem sabe? — mal começou. Agora foi detido o director nacional do Tesouro por suspeita de desvio de verbas. Segundo o Observador, que não muda nem sequer uma sílaba do que escreveu a Lusa, João Lourenço afirmou na tomada de posse: «A corrupção e a impunidade têm um impacto negativo direto na capacidade do Estado e dos seus agentes executarem qualquer programa de governação. Exorto por isso todo o nosso povo a trabalhar em conjunto para estripar esse mal que ameaça seriamente os alicerces da nossa sociedade» («Detido diretor nacional do Tesouro angolano por suspeita de desvio de verbas», Observador, 18.11.2017, 12h23).

      Agora querem apenas estripar o mal... Está bem, está. Talvez até lhe ponham apenas uma banda gástrica, para o mal comer menos recursos que pertencem ao povo angolano. Entretanto, alguns leitores chamaram a atenção para o erro, mas nada aconteceu. Gente importante e muito ocupada. É impressionante!

 

[Texto 8354]

Helder Guégués às 10:49 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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17
Nov 17

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Alguma coisa nova (e má)

 

      «No misterioso Black Rabbit Rose, de Hollywood, pode visitar o lounge, onde são servidos cocktails com algum espetáculo à mistura. O Bullet Catch é feito a partir de rum e café e servido com um floreio de fogo» («Experiencie o melhor do luxo em Los Angeles», João Moniz, Destak, 17.11.2017, p. 17).

      Sabe Deus o que João Moniz quis dizer com «floreio de fogo». Lá está o avariado «feito a partir de». Homem, é «feito com» e acabou-se. Floreio de fogo... De certeza que algum português já esteve naquele misterioso Black Rabbit Rose. Talvez Manuel S. Fonseca, editor da Guerra e Paz, quem sabe. Ah, mas esperem: não quererá o jornalista dizer que a bebida é flambeada? Pois, só que «flambeio» apenas existe como forma verbal, não podemos dizer «servido com um flambeio», que ele poderia ter confundido com «floreio». Leio aqui: «For a unique and decadent after-dinner drink, ask for the Bullet Catch, a dark and potent concoction of freshly brewed coffee, cigar smoke rum, coconut cream, cinnamon and a flaming shot of Green Chartreuse.»

 

[Texto 8350]

Helder Guégués às 10:04 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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12
Nov 17

Ortografia: «factual»

Vê-se

 

      «Importa ainda realçar que o arguido disse ao menor para falar nas sessões de julgamento — dá as tuas opiniões — ao contrário do que a mãe lhe disse — diz a verdade toda. (...) permite aferir que o menor tem dificuldade em distinguir verdade fatual de opinião» («Condenado», Tânia Laranjo, Correio da Manhã, 5.11.2017, p. 27).

      Não sei se o «fatual» é dos juízes ou da jornalista — na verdade, é igual, em qualquer dos casos há uma incontestável obrigação de escrever correctamente. Se há tanta gentinha que julga que, com o Acordo Ortográfico de 1990, se passou a escrever «fato» em vez de «facto», é claro que tinham de pensar o mesmo de «factual». É triste e bem revelador do grau de proficiência que se tem da língua materna. Sabem, sabem, mas depois vê-se que não sabem nada.

 

[Texto 8329]

Helder Guégués às 16:02 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Ortografia: «sem-fim»

Ambos com hífen

 

      «Pode começar pelo pinhal de Leiria, embora haja um sem fim de itinerários que o levarão invariavelmente ao drama, ao horror, ao desespero, à desgraça» («Que falta de sensibilidade», Paulo João Santos, Correio da Manhã, 2.11.2017, p. 2).

      Ó senhor chefe de redacção, não é apenas à engrenagem com um parafuso com rosca helicoidal que se dá o nome de sem-fim, com hífen — a uma grande quantidade seja lá do que for também se dá o nome de sem-fim, também com hífen. Gramática e emoção em partes iguais, pelo menos.

 

[Texto 8328]

Helder Guégués às 12:47 | comentar | favorito
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Ortografia: «cor-de-rosa», de novo

Serão necessárias gerações

 

      «O último filme de David Gordon Green centra-se nesta história verídica [a de Jeff Bauman, que fora ver a namorada na maratona de Boston, em 2013, e, na sequência do atentado, ficou sem as duas pernas], entre álcool e fisioterapia, deixando um final cor de rosa-romanesco» («Amor América», Joana Amaral Dias, «Domingo», Correio da Manhã, 12.11.2017, p. 40).

      Apropriadamente, a rubrica de Joana Amaral Dias chama-se «Quarto escuro», e foi isso mesmo que aconteceu: escreveu às escuras. Quantas gerações têm de passar até todos os falantes saberem que é «cor-de-rosa» que se escreve? ☒

 

[Texto 8326]

Helder Guégués às 11:48 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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11
Nov 17

Como se traduz nas rádios

É o sabe

 

      «Na matança, levada a cabo por um homem de 26 anos, morreram 27 pessoas, incluindo a filha do pastor, todos os professores da escola dominical e grande parte do coro» («Igreja que foi palco de massacre no Texas vai ser demolida», Rádio Renascença, 9.11.2017, 15h44). É simples: o jornalista (são jornalistas que escrevem isto?) que pergunte à senhora sua mãe se sabe o que é escola dominical.

 

[Texto 8321]

Helder Guégués às 14:47 | comentar | favorito
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10
Nov 17

«Tirar de letra»

Ué!

 

      Afinal, ainda não estamos preparados para ir para o Brasil. Márcia Cabrita, actriz de Sai de Baixo, morreu hoje aos 53 anos. A Rádio Renascença acaba de o noticiar, e publica este excerto de um texto da actriz, que saíra numa revista: «Ao contrário do que muitos fantasiam, não tirei de letra. Não sei o porquê, mas existe uma ideia estapafúrdia de que quem está com cancro tem que, pelo menos, parecer herói.» Das duas, uma: ou o jornalista (são jornalistas que escrevem isto?) passou pela citação como cão por vinha vindimada, ou pensa que as telenovelas brasileiras, ainda que por osmose, nos deram proficiência total sobre as peculiaridades do português do Brasil. Em suma, reveja essas convicções ou esse desleixo. Tirar de letra é resolver/dominar qualquer situação com facilidade, mas só agora o sei.

 

[Texto 8319]

Helder Guégués às 15:17 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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«Caudados», de novo

Modestamente

 

      Revisitemos a fita do tempo, como se diz agora: sugeri que o termo Caudados fosse incluído no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, e ele lá está, é verdade. Limitei-me, depois, a anunciá-lo no blogue, num simples comentário. Mas agora, pensando bem... «ZOOLOGIA ordem de batráquios que têm o corpo relativamente alongado e cauda que permanece no estado adulto do animal; urodelos». Não sou biólogo (espero que não se note muito), mas não me parece que os Caudados sejam batráquios. Há por aí algum biólogo semiocioso? Os Caudados ou Urodelos, a que pertencem, como vimos, os tritões e as salamandras, constituem uma das três ordens da classe dos Anfíbios, classe a que também pertencem a ordem dos Anuros (ou Batráquios), e, por fim, a dos Ápodes. Se não for assim, agradecia antecipadamente que alguém tivesse a paciência — e a misericórdia — de me corrigir.

 

[Texto 8318]

Helder Guégués às 12:18 | comentar | favorito
09
Nov 17

Ortografia: «estratificação»

Estão enganados

 

      «Durante largos anos, a rocha de xisto rasgada com a ajuda de uma marreta e cinzel, nos “planos de estractificação e xistosidade”, serviu essencialmente para fazer os esteios das vinhas do Douro» («Vila Nova de Foz Côa exporta pedras com mais de 500 milhões de anos», Olímpia Mairos, Rádio Renascença, 9.11.2017, 12h58).

      Não é surpreendente: se muitos jornalistas confundem «extracto» com «estrato», claro que todas as derivadas e aparentadas correm o mesmo risco. E quanto a revisão, nada: escrevem, mas acham que não vale a pena alguém corrigir. Vê-se bem que estão enganados.

 

[Texto 8311]

Helder Guégués às 14:49 | comentar | favorito
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05
Nov 17

Como se escreve nos jornais

Não se percebe

 

    «Comparando o clima no Líbano hoje ao que existiu antes do assassínio do seu pai, Rafiq Hariri, o primeiro-ministro Saad Hariri anunciou a sua demissão num discurso televisivo a partir da Arábia Saudita. “Senti que havia um plano cujo alvo era acabar com a minha vida”, declarou. [...] Hariri-filho nunca conseguiu ter um poder comparável ao do pai; o xiita Hezbollah rapidamente se tornou a força dominante» («Primeiro-ministro anuncia demissão sob ameaças de morte», Público, 5.11.2017, p. 17).

      Onde é que o jornalista alguma vez viu isto? Hariri-filho... Em lado nenhum. Aspas, hífenes, letra grelada é com eles. Para mais, no caso, nem se trata de homónimos, um é Rafiq Hariri, o outro é Saad Hariri.

 

[Texto 8293]

Helder Guégués às 16:41 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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