23
Fev 18

Léxico: «perícope»

Pode repetir?

 

      Ontem, Dia do Pensamento, não se esqueçam, revi um texto em que se usava a palavra perícope. Ainda que apenas tope com ela de dez em dez anos, nunca deixo de lamentar que os dicionários não a saibam definir exactamente. No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «1. parte de um texto que se destina a ser transcrita, analisada, etc. 2. passagem bíblica seleccionada para leitura, sobretudo litúrgica». A segunda acepção ainda vá que não vá, pese embora o engulho de ver ali «passagem» por «passo», «trecho», excerto», mas a primeira acepção não diz nada. Uma perícope é um trecho com início, meio e fim bem explícitos — um pouco como uma frase, que é uma unidade linguística com sentido completo; a perícope é uma unidade literária. Tanto pode ser um simples versículo (porque normalmente é a propósito da Bíblia que se usa o termo), como um capítulo inteiro. Depois de estudado, esse trecho servirá para diversos fins, entre os quais os litúrgicos. A definição de José Pedro Machado também não é um primor, registe-se.

 

[Texto 8796]

Helder Guégués às 12:38 | comentar | ver comentários (4) | favorito

Um erro e um provérbio

Empenho a meio gás

 

      Chegou-me aqui um texto em que um animalzinho dizia — sim, do tempo em que os animais falavam, ou seja, de agora — «oláaaa» a outra criaturinha. Não pode ser, disse eu, pois o acento tem de recair onde é habitual: olaaaá. «— Olaá! — gritou ele com grande esforço no intuito de se fazer entender. — Robinson também está aí?» (O Desaparecido ou Amerika, Franz Kafka. Tradução, notas e posfácio de Susana Kampff Lages. São Paulo: Editora 34, 2004, 2.ª ed., p. 178). Já nos estamos a desviar um pouco, mas o que poderá estar no original diferente de Hallo para a tradutora verter daquela maneira? «“Halloh!” rief er mit größter Anstrengung, um sich verständlich zu machen, “ist Robinson auch da?”» Großartig! Um tradutor menos atreito a matizes destes e ficava «olá». Há dias, a minha filha (como se diz em bom alemão, was ein Häkchen werden will, krümmt sich beizeiten) também me mostrou um caso em que o autor prolongava a sílaba final, mas o til não estava no sítio devido. Enfim, há gente que só toma a peito pormaiores, os pormenores ficam para os outros, menos ocupados.

 

[Texto 8795]

Helder Guégués às 11:57 | comentar | favorito
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Tradução: «background checks»

Não avançamos

 

      «Tendo em conta as propostas avançadas até agora pela Casa Branca e por alguns congressistas do Partido Republicano, conclui-se que a NRA continua sem grandes razões para se preocupar: armar e treinar professores e reforçar os chamados “background checks” são medidas apoiadas pelo lobby das armas; mexer na idade mínima para a compra de armas e na proibição de acessórios são medidas que dificilmente passam no Congresso — e, se passarem, são candidatas a serem contestadas em tribunal ano após ano» («De proposta em proposta até à decisão que não incomode a NRA», Alexandre Martins, Público, 23.02.2018, p. 26).

      Vá, leitor parvo, agora vai ver o que significa background checks, terá pensado o jornalista. E ontem, dia 22 de Fevereiro, era Dia do Pensamento. Mas não cá, claro, nos Estados Unidos. E ninguém vê estas coisas, não há um editor que corrija isto? Como raio vai o leitor saber, assim do pé para a mão, o que significa a expressão? Não; para mim, quem não sabe traduzi-la é o jornalista, quando, na verdade, é bem simples: verificação de antecedentes. Se querem exibir-se, até podem usar expressões estrangeiras, mas têm de as explicar, de as traduzir logo de seguida, sob pena de não se fazerem entender. Ou é este o objectivo?

 

[Texto 8792]

Helder Guégués às 09:30 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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22
Fev 18

Rússia, Federação da Rússia

Deixou-se ir; pensemos nós

 

      «Na noite de 22 de fevereiro de 2014, os homens mais poderosos da Rússia reuniram-se no Kremlin e decidiram a anexação da Crimeia. [...] Putin anexou formalmente a Crimeia à Federação Russa no dia 18 de março de 2014» («Crimeia», Boris Johnson, Diário de Notícias, 22.02.2018, p. 38).

      O tradutor foi atrás da língua de partida, simplesmente: «On the night of 22 February 2014, the most powerful men in Russia gathered in the Kremlin and resolved to seize Crimea from Ukraine. [...] Mr Putin formally annexed Crimea into the Russian Federation on 18 March 2014.» Sim, correntemente, Rússia; formalmente, Federação da Rússia. Mas isso depende das línguas. Uma boa forma de o ver é no nome das embaixadas em vários países: Ambassade de La Fédération de Russie en France; Embajada de la Federación de Rusia en el Reino de España; Botschaft der Russischen Föderation; Ambasciata della Federazione Russa nella Repubblica Italiana; Embaixada da Federação da Rússia na República Portuguesa.

 

[Texto 8790]

Helder Guégués às 21:18 | comentar | favorito
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Como se escreve em alguns jornais

E é tão simples

 

      «A chegada de turistas estrangeiros a Portugal no ano passado representou um ganho de 15.153 milhões de euros para as contas do país. De acordo com o Banco de Portugal, que ontem divulgou as contas que já incluem os dados de Dezembro, esse valor representa uma subida de 19,5% face a 2016, o que corresponde a mais 2472 milhões de euros» («Turismo. Novo recorde já tem um valor: 15.153 milhões de euros», Público, 22.02.2018, p. 19).

      Tenham lá paciência, mas isto assim não se percebe. Aprendam: «No ano passado, os gastos dos estrangeiros que visitaram Portugal ultrapassaram, pela primeira vez, a fasquia dos 15,1 mil milhões de euros» («Turistas deixaram em Portugal 41,5 milhões por dia», Ana Margarida Pinheiro, Diário de Notícias, 22.02.2018, p. 17).

 

[Texto 8789]

Helder Guégués às 19:43 | comentar | favorito
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21
Fev 18

Outro «parquear»

Mais alienígena, portanto

 

      «À venda no leilão vão estar 4400 toneladas de chapas e perfis parqueados em Viana, junto aos armazéns dos estaleiros, cujos terrenos e infra-estruturas foram subconcessionados à West Sea, do grupo Martifer, em 2013 (a operação da empresa em Viana começaria em Maio de 2014)» («Aço dos navios encomendados pela Venezuela vai a leilão», Pedro Crisóstomo, Público, 21.02.2018, p. 20).

      Parquear vem do inglês, e, assim, também esta acepção («Leave (something) in a convenient place until required», in Oxford Living Dictionaries), que não está em nenhum dos dicionários que consultei e jamais tinha antes encontrado.

 

[Texto 8784] 

Helder Guégués às 22:08 | comentar | favorito
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«Onde» e «aonde», a confusão

Persiste

 

      «“Não é nenhuma beatinha nem nenhuma santinha”, exclama-me a abadessa do convento aonde reside, no alto de Coimbra» (Nascido no Estado Novo, Fernando Dacosta. Lisboa: Círculo de Leitores, 2002, pp. 191-92).

      Não, não. Temos onde, aonde e donde, três advérbios. Estes últimos dois implicam movimento, para onde e de onde, respectivamente. Ora, «residir» indica permanência, quietação, não movimento. Difícil?

 

[Texto 8781]

Helder Guégués às 20:07 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Cascais (ainda) é vila

Por enquanto

 

      Nada pior do que um jornalista desinformado: «A própria vila de Cascais, hoje cidade, viu serem-lhe colados rótulos estigmatizadores» (Nascido no Estado Novo, Fernando Dacosta. Lisboa: Círculo de Leitores, 2002, pp. 183-84). No dia 7 de Junho, cumprir-se-ão 654 anos desde que Cascais é vila. Vila, Fernando Dacosta. Mesmo hoje, dezasseis anos depois da edição do seu livro, é assim. Não é a primeira vez, eu bem sei, que lembro aqui isto, mas tem de ser, enquanto errarem, tenho de corrigir.

 

[Texto 8780]

Helder Guégués às 17:55 | comentar | favorito
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Léxico: «sulfito»

Um pouco mais

 

      «O mau estado da carne picada pode ter consequências muito graves na saúde. Náuseas, dificuldades respiratórias, dores de cabeça são alguns dos problemas mais conhecidos. “O consumidor tem de ser mais informado na altura da compra. Tem de saber o que está a comprar”, explica a engenheira da DECO, Dulce Ricardo. “É importante ter isto em atenção, os sulfitos são um produto altamente alérgico para algumas pessoas e o consumo pode estar a pô-las em perigo”. A DECO e o Governo chamaram a atenção para o problema, mas Dulce Ricardo afirma que quem compra a carne tem de ser mais responsável» («Já se pode comer carne picada?», Beatriz Morais Martins, TSF, 21.02.2018, 9h10).

      A engenheira da DECO não disse, felizmente, que «os sulfitos são um produto altamente alérgico». Aqui, Beatriz Morais Martins, altamente infiel é a transcrição do que os entrevistados disseram. É alergénio. Quanto a sulfito, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora diz-nos que é o «sal ou éster do ácido sulfuroso». Talvez seja pouco. Lê-se nos Oxford Dictionaries: «A salt of sulphurous acid, containing the anion SO₃²⁻.»

 

[Texto 8778]

Helder Guégués às 11:10 | comentar | favorito
20
Fev 18

«Fazer lóbi»?

Não me parece bem

 

      «Durão fez lóbi pela Goldman Sachs, mas Bruxelas garante que “regras foram cumpridas”» (Vasco Gandra, Rádio Renascença, 20.02.2018, 14h43). Isto está correcto, «fazer lóbi»? O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, que parece incentivar o uso de palavras estrangeiras ao remeter de lóbi para lobby, define assim o termo: «1. grupo de pressão; 2. POLÍTICA grupo dos que frequentam as antecâmaras dos parlamentos com o objectivo de influenciar os deputados no sentido de votarem de acordo com os seus interesses». Curiosamente, o recente projecto de lei do PS sobre a matéria (aqui) fala em «mediação na representação de interesses», e apenas emprega uma vez, e na exposição de motivos, que não no articulado, um termo relacionado, no caso, «lobista». Nada mau.

 

[Texto 8772]

Helder Guégués às 15:46 | comentar | ver comentários (1) | favorito