20
Abr 17

«Incubar/encubar»

Até ao fim dos tempos

 

      Evidentemente, não é só de melhores dicionários que precisamos, mas de falantes mais competentes, sobretudo se são jornalistas: «Abraham Poincheval é o nome do artista francês que, durante três semanas, vai virar galinha. Sim, galinha. E como? Ao encubar 10 ovos com o seu próprio calor corporal até que ecludam. O artista irá ficar dentro de uma vitrina, no museu Palais de Tóquio, em Paris, e pode ser observado pelos curiosos que o visitem, conta a BBC» («O artista que vai chocar 10 ovos em Paris», Observador, 30.03.2017, 12h06).

      O artigo cita um artigo da BBC, onde se lê: «How? By incubating 10 eggs with his own body heat.» Como é que o jornalista não consulta um dicionário? Como é que, caramba, não repara na ortografia da palavra inglesa? Encubar é recolher em cuba, envasilhar; incubar é chocar ovos. São, por isso, parónimos, ou seja, palavras que se aproximam na ortografia e na pronúncia, mas com significado diferente. Será sempre necessário, até ao fim dos tempos, continuar a falar das coisas simples, básicas.

 

[Texto 7740]

Helder Guégués às 22:58 | comentar | ver comentários (5) | favorito
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15
Abr 17

Como se fala na televisão

E se traduz

 

      Numa passagem rápida por vários canais televisivos, li isto na CMTV: «Pacote suspeito lançou alerta junto à Casa Branca». É assim que dizemos, «pacote»? Para já, via-se que era um saco ou mochila de cor preta, mas, se queriam ser menos específicos — como fizeram vários meios de comunicação social estrangeiros —, diziam, sei lá, «volume, objecto». Mas, claro, nos tais canais lia-se «suspicious package»... Já não vi nem ouvi mais, mas não me admirava nada que acrescentassem que a «icónica» Avenida Pensilvânia fora evacuada.

 

[Texto 7723]

Helder Guégués às 20:22 | comentar | favorito
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«O Santana»

Ou amigalhaços

 

    «Treze anos depois, Sampaio explicou melhor: ‘fartei-me do Santana’, disse ele, com aquela elegância de tratamento (‘o’ Santana) que é o melhor auto-retrato de Sampaio» («História negra», João Pereira Coutinho, Correio da Manhã, 19.03.2017, p. 52).

    Pois, mas não falta quem defenda esta forma de tratamento, e então é «o Camões» para aqui, «o Camões» para ali, «o Marcelo» para aqui, «o Marcelo» para ali, como se se tratasse de irmãos mais novos. Em casa, muito bem; mas quando chegam às editoras e acham isto normal?

 

[Texto 7721]

Helder Guégués às 19:02 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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14
Abr 17

Léxico: «bojarda/bujarda»

Bojarda do dia

 

      Não vamos esperar pela «nossa especialista em língua portuguesa»: vamos mesmo nós lembrar àquela abécula que bujarda é uma coisa bem diferente de bojarda. Esta, a bojarda, é qualquer disparate ou calinada das grandes; peta; chuto violento; bujarda é um martelo com duas cabeças, usado no acabamento de cantaria. O que me espanta é que ele, armado em parvo e em olisipógrafo (ócios de funcionário público, suspeito), de certeza que já leu a expressão «pedra bujardada» (cá está mais um verbo, bujardar, ignorado pelo Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora), mas, pelos vistos, foi conhecimento tão efémero como manteiga em focinho de cão. Não se incomodem, ele vem cá ler.

 

[Texto 7716]

Helder Guégués às 16:48 | comentar | favorito
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06
Abr 17

Léxico: «anilhagem»

Como calha

 

      «Vai haver anilhagem de pássaros, passeios pela Ria, arte urbana, subidas em balões de ar quente e é uma iniciativa no âmbito do BioRia, da câmara de Estarreja» («ObservaRia: de binóculos, atentos aos pássaros, mas também aos mosquitos», Rui Tukayana, TSF, 6.04.2017, 18h29).

    É anilhagem de aves (como também se lê no programa, aqui), mas para o jornalista é tudo igual. Da troca de maiúsculas por minúsculas, e vice-versa, é melhor nem falar. Anilhagem, palavra que ouço há décadas, não está no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora.

 

[Texto 7684]

Helder Guégués às 21:06 | comentar | ver comentários (2) | favorito

«À discrição»

Cá em baixo vê-se no dicionário

 

      «Ao lanche, há [na Casa das Penhas Douradas, Manteigas] bolo à fatia, café, chá e licores, tudo à descrição» («Lá de cima vê-se o mundo», Sara Belo Luís, Visão, 16.02.2017, p. 124).

      Alguns queriam que eu andasse sempre a dizer o mesmo, mas não pode ser, não é? Já me repito demasiado. Nem me podem amarrar a compromissos, nem fazer exigências, devem saber. Quando me apetece, muito bem. Como agora. Então, Sara Belo Luís, a expressão não é à discrição, isto é, à vontade, sem restrições? Tenho a certeza de que algum amigo seu passará por aqui e lhe irá dizer. Se for mesmo amigo.

 

[Texto 7683]

Helder Guégués às 20:32 | comentar | favorito
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Léxico: «capa de asperges», «pardo»

Da falta de cuidado

 

      «Palmira Falcão, artesã de Sendim, Miranda do Douro, há muito que se dedica à elaboração dos trajes tradicionais confeccionados em pardo, burel e linho, assentes na cultura tradicional do Planalto Mirandês, território que abrange os concelhos de Miranda do Douro, Mogadouro e Vimioso, no distrito Bragança. […] Segundo o investigador António Rodrigues Mourinho, a capa de honras mirandesa tem origem na região espanhola de Leão e “remontará aos séculos IX ou X, tendo origem na ‘capa de chiba’ que, traduzido do espanhol para português, quer dizer ‘capa de cabra’”. […] Há também quem defenda que a capa de honras mirandesa poderá ter surgido da capa pluvial de Arperjes, usada nos mosteiros das Terras de Leão (Espanha). […] A capa de honras é uma peça com grande valor etnográfico. Implica um trabalho minucioso por parte do artesão, devido à sua grande complexidade, e é confeccionada com lã de ovelha, depois de fiada, urdida, tecida e pisoada (burel)» («“O homem sempre a usou e a mulher sempre a quis usar”. O que é?», Olímpia Mairos, Rádio Renascença, 6.04.2017, 15h48).

      Será mesmo «capa de chiba»? Não sei; eu só encontro capa de chivo. E a «capa pluvial de Arperjes»? Capa pluvial não escapará a nenhum leitor. Mas Asperjes? O leitor vai pensar que se trata de uma localidade de Leão. Trapalhada, confusão, ignorância. Trata-se da capa de asperges, também chamada simplesmente pluvial, de uso litúrgico. Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, é a «capa que o sacerdote veste para fazer esta aspersão; pluvial». Morno. Vá, quente. A capa de asperges ou pluvial é o paramento litúrgico usado pelo bispo ou sacerdote em acções litúrgicas solenes, fora da missa: sacramentos, bênçãos, exéquias, procissões, etc. De pardo, aquele dicionário diz-nos que é um regionalismo para burel de cor parda. É. Era o nome que o burel tinha em terras de além-Tua.

 

[Texto 7682]

Helder Guégués às 20:06 | comentar | favorito
01
Abr 17

Tradução: «magistrato di sorveglianza»

O espírito, não a letra

 

      «Ali estão Gloria Manzelli, diretora da estrutura [Prisão de San Vittore], a sua vice Teresa Mazzotta, o provedor Luigi Pagano, o comandante Manuele Federico, o capelão Marco Recalcati e a presidente dos juízes de vigilância Giovanna Di Rosa» («“Sinto-me em casa: obrigado pelo acolhimento”», Matteo Valsecchi, O Meu Papa, ed. n.º 1, 31.03.2017, p. 14).

      Sejamos claros: em português, «juízes de vigilância» não significa nada. Nada. E porquê? Porque não se traduzem somente palavras, traduzem-se conceitos, tem de se procurar uma correspondência entre duas realidades diferentes, que, no caso, é juiz de execução de penas. Em alternativa, mas apenas quando não existir correspondência, até se pode traduzir literalmente, no caso, «juiz de vigilância», do italiano magistrato di sorveglianza, mas impõe-se obrigatoriamente uma nota explicativa.

 

[Texto 7655]

Helder Guégués às 19:07 | comentar | favorito
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23
Mar 17

Tradução: «sympathy»

Não caias nesse

 

      «“Os meus pensamentos e as minhas orações, assim como a minha mais profunda simpatia, vão para todos aqueles que foram afetados pela horrível violência” do ataque, escreveu a rainha numa mensagem» («“Os meus pensamentos vão para todos os afetados pela horrível violência”», Lusa/TSF, 23.03.2017, 13h13).

      Seria simpático, sim, mas não foi simpatia que a rainha ofereceu, senhor tradutor da Lusa: «The Queen has said her “thoughts, prayers, and deepest sympathy” are with all those who have been affected by yesterday’s “awful violence”» (The Guardian, 23.03.2017, 11h37). Geralmente, sympathy é solidariedade, apoio, compreensão, e até, mas não é o caso, pêsamescondolências.

 

[Texto 7608]

Helder Guégués às 20:01 | comentar | favorito
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18
Mar 17

Como se escreve na imprensa

Vamos lá aferir isto

 

      Esta tarde, houve uma enorme explosão no Bairro de Sainte-Gilles, no centro de Bruxelas. Ao que parece, registaram-se sete feridos. E agora, que se segue? «Por razões de segurança», lê-se no Observador, «15 moradores foram evacuados e uma empresa irá auferir quais os edifícios afetados na sequência da explosão» («Explosão “enorme” em Bruxelas faz vários feridos», Ana Cristina Marques, Observador, 18.03.2017).

      Usa o verbo auferir, mas manifestamente não sabe o que a palavra significa. Com sorte, é desta que aprende. Como a notícia está em actualização, está a tempo de a corrigir. Sobre uma empresa, lê-se isto na RTL: «Une société spécialisée doit arriver pour sécuriser les bâtiments touchés.»

 

[Texto 7578]

Helder Guégués às 18:23 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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