19
Jan 12

Sobre «bufete»

Por pouco

 

 

      «El bufete del abogado Mario Pascual Vives», lia-se na edição de ontem do El País, «que defiende a Urdangarin, ha declinado confirmar si hoy está previsto algún encuentro entre el letrado y el duque.»

      Nesta acepção, é galicismo que não chegou a este extremo da Península Ibérica. Uf, foi por pouco. Chegámos, todavia, muito perto, pois uma das acepções de «bufete», em português, é secretária antiga; papeleira. Ao que parece — e ao contrário da maioria dos galicismos, que, ou foram adoptados nos séculos XIII e XIV ou no século XVIII e depois –, começou a ser usado em castelhano no século XVI. De mesa de escribir con cajones passou, já se percebe por que processo, a designar o estudio o despacho de un abogado e mesmo a própria clientela del abogado.

 

[Texto 983]

Helder Guégués às 10:41 | comentar | ver comentários (5) | favorito
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18
Jul 11

Sobre «tácito»

Vogar e ciar

 

 

      Não se diz que o silêncio é de ouro e muitas vezes é resposta? Tácito é, ainda que, no caso da língua portuguesa, seja raríssimo nesta acepção, calado, silencioso. (Na Eneida, navega-se «com os tácitos remos», isto é, voga surda, calada do remo.) Interessante é ver como, deste sentido, passou também a significar o que não é preciso dizer por estar implícito ou subentendido, o que não é expresso abertamente mas que facilmente se pode intuir. A própria lei fazer decorrer efeitos do silêncio. E, claro, também temos o silêncio significativo.

 

[Texto 312] 

Helder Guégués às 14:35 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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18
Mai 11

Sobre «camareira»

D. Dominique perdeu o domínio

 

 

      Tanto quanto pude ler, só a imprensa brasileira e, entre nós, o Jornal de Notícias e o Diário de Notícias, dizem que o alarve do Strauss-Khan tentou abusar de uma camareira. O resto da imprensa fala em empregada. Antigamente, só as famílias nobres tinham camareiras. As rainhas tinham donzelas, açafatas, aias... A camareira, e então camareira-mor, era a máxima jerarquia, como escreveu Camilo, nas empregadas do paço. Agora, as camareiras, decerto que por influência da língua espanhola e por compreensível evolução semântica, são simples arrumadeiras em hotéis. Evolução oposta à de «ministro», antigamente somente criado, servidor.

      «Diz a imprensa que o chefe do FMI saiu nu da casa de banho de um quarto de hotel e tentou, por duas vezes, abusar de uma camareira» («O crime sexual também é um abuso de poder», Pedro Tadeu, Diário de Notícias, 17.05.2011, p. 9).

 

[Texto 26]

Helder Guégués às 15:49 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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17
Mai 11

Sobre «compreender»

Abranger na mente

 

 

      «As perícias de abuso sexual compreendem a observação de todo o corpo e não apenas os orifícios naturais, explicou ao DN o director do Instituto de Medicina Legal de Lisboa [Jorge Costa Santos]» («Vítimas de abuso sexual são observadas em todo o corpo», Licínio Lima, Diário de Notícias, 17.05.2011, p. 3).

      É, vê-se imediatamente, linguagem de manual. «As perícias de abuso sexual compreendem, etc.» Nesta acepção, compreender é conter em si, em sua natureza; estar ou ficar incluído; abranger. A acepção mais conhecida e usada do verbo, apreender (algo) intelectualmente, utilizando a capacidade de compreensão, de entendimento; perceber, é um sentido derivado daquele. Compreender passou a ser também encerrar na mente, abranger na mente.

 

[Texto 19]

 

Helder Guégués às 22:57 | comentar | favorito
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