11
Out 16

Léxico: «fio do Norte»

Até hoje

 

      Desde pequeno que conheço este cordel, este fio, e até hoje ignorava o nome que se lhe dá. Usa-se para amarrar maços de cartas — os carteiros, dantes (?), usavam-no —, encomendas, embrulhos, etc. Chegado ao conhecimento desta designação, agora é fácil: agora já sei que também se lhe chama fio de vela, fio de sapateiro e corda Hemp. Numa drogaria, um cliente, já idoso, queria lembrar-se do nome, e foi uma pessoa muito mais nova que também estava ao balcão — caixeiro-viajante, soube depois — que lembrou o nome. Um novelo de 100 m por 1,48 €.

 

[Texto 7151]

Corda_Hemp (1).jpeg

 

 

 

Helder Guégués às 18:42 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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20
Set 16

Léxico: «lavagem»

Era e ainda é

 

      «O “tempero” foi de água-forte, ou seja, ácido nítrico que pode matar se bebido e ainda mais rapidamente se se tratar de uma lavagem, outro nome dado à época ao clister» («Isabel quis matar o marido com água-forte, Tomás salvou-se e ela morreu», Anabela Natário, Expresso Diário, 19.09.2016).

      Dado à época e até recentemente, quando calhava. Tanto é assim que ainda permanece este sentido nos dicionários.

 

[Texto 7108]

Helder Guégués às 15:57 | comentar | favorito
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07
Jul 16

«Saprófago/necrófago»

Essencialmente sinónimos

 

      «Se ele [Marcelo] está bem recordado das aulas de botânica sabe que os cogumelos são fungos e que a maioria dos fungos (tal como as bactérias) alimentam-se decompondo a matéria orgânica de corpos mortos. A ciência chama-lhe saprófagos (dos corpos vivos dir-se-ia necrófagos) e popularmente são referidos como decompositores. Mas atenção: alimentam-se em boa parte de organismos vivos, com os quais se associam. Deste modo são igualmente parasitas ou mutualísticos» («Cogumelos: será que Marcelo se lembra de botânica?», Henrique Monteiro, Expresso Diário, 6.07.2016).

      Será mesmo assim? A nossa primeira obrigação, recordem-se, é duvidar. Saprófago é o que se alimenta de substâncias putrefactas; necrófago, por sua vez, é o que se alimenta de cadáveres ou substâncias em decomposição. Há, de facto, fungos necrófagos (estuda-se isso em Medicina Legal, por exemplo), mas não se alimentam de corpos vivos, mas sim de corpos mortos — como os elementos do vocábulos deixam supor. Aposto, porém, que não era isto que Henrique Monteiro queria escrever.

 

[Texto 6940]

Helder Guégués às 17:52 | comentar | favorito
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29
Dez 15

«Antes» e «dantes»

Antes de mais

 

      «A pouco e pouco tornou a viver bem, mesmo sem a fortuna de dantes, pilhada no Brasil por antigos empregados do meu bisavô» («A Monarquia», António Lobo Antunes, Visão, 23.12.2015). O leitor R. A. mandou-me esta frase com uma pergunta: «Quer comentar?» Perguntei então se o que estava em causa era a repetição do som. «Não ficava melhor “a fortuna de antes”?» Antes e dantes são sinónimos, é verdade, mas o primeiro é advérbio não apenas de tempo. Se quero dar a ideia de outrora, antigamente, é «dantes» que tendo a usar, embora também pudesse usar «antes». Como quase de certeza não quereria aquele encontro de sons (de... dan), evitava — no caso específico desta frase — ambos e optava por outrora: «A pouco e pouco tornou a viver bem, mesmo sem a fortuna de outrora, pilhada no Brasil por antigos empregados do meu bisavô.» Este «de dantes» é, curiosamente, muito encontradiço nas obras de António Lobo Antunes.

      Há, contudo, matizes que julgo não estarem nos dicionários. Certa vez, o Bom Português foi para a rua perguntar se se devia dizer «antes usava bigode» ou «dantes usava bigode», e concluiu que eram sinónimos. Imaginemos que hoje me encontro pela segunda vez — e a primeira foi na semana passada — com um homem que não conhecia. Desta vez, aparece sem bigode. Para me assegurar da identidade dele, pergunto «antes não usava bigode?», e não «dantes não usava bigode?».

 

[Texto 6509]

Helder Guégués às 08:27 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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11
Nov 15

Sinónimos de «leilão»

Menos pobres do que isso

 

      «Public auction or vendue of *** was an important variation on the trade among retailers.» O tradutor fingiu que não estava ali um sinónimo, e deu-nos isto: «O leilão público de *** era uma variante importante do comércio entre retalhistas.» Há outras hipóteses, mas o mais provável é que não traduzisse por não encontrar no Dicionário de Inglês-Português da Porto Editora ou então porque não conhece sinónimos em português. Ora, lê-se nos dicionários de língua inglesa, vendue é «a public auction», nada mais. E não temos nós leilão e hasta, por exemplo? E até almoeda. (O crioulo cabo-verdiano tem móia, o leilão e, em especial, o leilão de salvados, conceito de que já aqui tratámos.)

 

[Texto 6387]

Helder Guégués às 23:31 | comentar | favorito
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16
Jul 15

«Vácuo legal/vazio legal»

Voto pelo mais conhecido

 

      «Mas, afinal, quem tem a competência de retirar ou não um mandato de um eurodeputado do PE? Paulo de Almeida Sande — jurista, professor de Ciência Política da Universidade Católica e antigo director do gabinete do Parlamento Europeu em Portugal — admite que há “uma lacuna, um vácuo” legal e explica que a legislação europeia não prevê a perda de mandato em caso de mudança de partido e que a legislação nacional também não o prevê para eurodeputados do PE» («Ninguém é competente para retirar mandato 
a Marinho e Pinto», Maria João Lopes, Público, 16.07.2015, p. 13).

      Sim, por vezes — muito poucas em Portugal, bastantes mais no Brasil — lê-se «vácuo legal» em vez do mais vulgar «vazio legal». Se eu faria a emenda? Creio que não, apenas sugestão. Mas fi-la, certa vez, à expressão «travões e contrapesos». O autor não quis. «Já não se admitem sinónimos? Todos têm de usar as mesmas palavras?» O desejo da excentricidade persegue com mais insistência alguns de nós.

 

[Texto 6056]

Helder Guégués às 07:39 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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25
Abr 15

«Caça grossa/caça miúda ou fina»

Assim está bem

 

      Há uns anos, no programa Couto & Coutadas, na RTP2, ouvi o nutricionista João Breda falar em «caça maior» e em «caça menor». Chasse majeure et chasse mineure, c’est ça? Em português, avisei então e volto a avisar, diz-se caça grossa e caça miúda ou, como li hoje, fina.

 

[Texto 5789]

Helder Guégués às 14:05 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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21
Fev 15

Vinho do Porto

Pode acontecer

 

      Não sei, mas palpita-me que alguém pode querer saber que o vinho do Porto é também denominado, na região, vinho generoso, vinho tratado, vinho fino ou vinho de benefício, ao passo que o vinho de mesa é também conhecido como vinho de pasto ou vinho de consumo.

 

[Texto 5595]

Helder Guégués às 20:36 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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10
Dez 14

«Fadiga/fatiga»

Mas não é apenas isso

 

   Fadiga e fatiga são, sem qualquer dúvida, sinónimos, variantes, mas nem todos os dicionários o atestam. Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, por exemplo, «fatiga» é apenas a «merenda dos trabalhadores rurais» e um regionalismo para «fatia». Está errado, por incompleto.

 

[Texto 5345]

Helder Guégués às 10:08 | comentar | favorito
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30
Ago 14

«Contenção/contensão»

São sinónimos

 

 

  «Seja pela forçada contensão, ou pelo espírito de luta evidenciado, esse, claramente!,
 o romance [Podem Chamar-me Eurídice...] capta o leitor: são
 as lutas estudantis antifascistas que muitos de nós vivemos, dadas mais no seu ambiente interior (anímico, e de tarefas clandestinas) que exterior,
 e Lisboa surge como cidade manietada, a que a chuva ténue dá certo brilho mas dificultando a acção comum» («Podem chamar-me Eurídice...», Maria Alzira Seixo, Público, 20.08.2014, p. 39).

 

[Texto 4982]

Helder Guégués às 05:45 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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02
Jul 14

«Nutrimento/nutriente»

Seria útil

 

 

   Em certos verbetes, seria útil haver remissões. Por exemplo, em «nutrimento» (que eu desconhecia, mas de «nutricamento» já falei no Assim Mesmo) devia fazer-se uma remissão para a respectiva acepção do verbete «nutriente».

 

[Texto 4793]

Helder Guégués às 10:15 | comentar | favorito