29
Jan 17

A importância da ortografia

Entretanto, em Espanha

 

      De manhã, estive a ouvir a rubrica «Verba Volant», do Professor Emilio del Río, no programa No es un día cualquiera, de Pepa Fernández, na Rádio Nacional de Espanha. (Tão-só o melhor programa radiofónico da Península Ibérica, na minha opinião.) Falavam de topónimos invulgares. Em Espanha, no tempo de Franco, algumas pessoas iam para a beira da estrada, à passagem do caudilho por certas localidades, manifestar o seu apoio com cartazes. Se eram de Lerma, o cartaz dizia «Lerma con Franco»; se eram de Laño, dizia «Laño con Franco», e por aí fora. Ora, um dia, os de Revilla Cabriada, um topónimo estupendo, foram saudar o ditador, que ia num descapotável e leu o cartaz: «Revilla Cabriada con Franco». O ditador, cabreado como una mona, como se diz em castelhano, porque com poucas luzes de ortografia, mandou logo dois picoletos (outro termo que falta no Dicionário de Espanhol-Português da Porto Editora) pedirem satisfações aos supostos descontentes.

 

[Texto 7443]

Helder Guégués às 14:49 | comentar | favorito
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26
Jan 17

Afinal, agora também se diz Chéquia

Mais curto e informal

 

    E a propósito de alteração de topónimos, no ano passado, uma comissão constitucional da República Checa aprovou a tradução para as línguas oficiais da ONU do topónimo simplificado Cesko, que em inglês será Czechia, em espanhol Chequia e em francês Tchéquie. Ficamos de fora, sim, mas para quem quiser, em português é Chéquia. Será também um nome oficial, mas menos formal, que se usará em rótulos de produtos — na Pilsner Urquell, por exemplo —, em acontecimentos desportivos, etc.

 

[Texto 7435] 

Helder Guégués às 21:29 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Monte Carlo

Não mudem também este

 

      «WRC inaugura temporada em Montecarlo» (André Rodrigues, Rádio Renascença, 19.01.2017). Já não bastavam os tristes casos de Mumbai, Myanmar e outros que tais, agora — na verdade, nos últimos anos, é sempre assim que o vejo escrito — também Monte Carlo anda por aí estropiado. Quem conhecer André Rodrigues, um conhecido, amigo, familiar, já sabe o que tem de fazer.

 

[Texto 7434]

 

Monte Carlo.jpeg

Helder Guégués às 20:23 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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11
Jan 17

Como se escreve nos jornais

Parte sim, parte não

 

      No Público, a imagem é semelhante a esta, talvez até mais bonita, e a legenda da rubrica «Sem comentário»: «Nevão cobriu de branco o Parthenon, em Atenas». Não podia ser tudo em português, pois claro. Parte sim, parte não, Partenão, Pártenon. Um dia vão aprender.

 

[Texto 7403]

Pártenon.jpg

© http://www.metronews.ca/

Helder Guégués às 23:01 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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25
Dez 16

Já nem os fusos

Já não sabem às quantas andam

 

    «Os habitantes de Augsburg vão ter de deixar as suas casas este domingo para as autoridades desativarem uma bomba de 1,8 toneladas da II Grande Guerra. Na área que vai ser selada localizam-se, entre outros edifícios, a catedral medieval e a Câmara Municipal, não sendo autorizado qualquer movimento nas ruas próximas, a partir das 08:00 locais de domingo (09:00 em Portugal) e todas as pessoas devem ter deixado as suas casas às 10:00 locais. […] Estas situações são habituais na Alemanha, no entanto, esta operação envolve mais moradores que uma registada em 2011, na cidade Koblenz, no Estado da Renânia-Palatinado, no centro-este da Alemanha, em que foram retiradas 45.000 pessoas das suas residências» («Mais de 54 mil pessoas têm de sair de casa no Natal por causa de bomba», TSF/Lusa, 24.12.2016).

   Imagino que até tenham instruções, como noutros sítios, para não escreverem Augsburgo e Coblença, por isso, esqueçamos essa questão. Mas, e a hora? Às 8h00 locais, 9h00 em Portugal? Mas se o fuso de Berlim é UTC+1, como é isso?

 

[Texto 7350]

Helder Guégués às 09:18 | comentar | ver comentários (6) | favorito
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05
Dez 16

Léxico: «angelino»

Se não temos, pedimos

 

      Ora cá está uma questão linguística com que nunca tinha deparado: qual o gentílico da cidade americana de Los Angeles? Diga-se, antes de mais nada, que nem a todos os topónimos corresponde necessariamente um gentílico. A origem não é espanhola? É: Los Ángeles. (Talvez, não se sabe exactamente, El Pueblo de Nuestra Señora la Reina de los Ángeles del Río de Porciúncula.) Então, procuremos — já que em português nada está registado — no Dicionário da Real Academia Espanhola. Há duas cidades com este nome: uma nos Estados Unidos e outra no Chile. Para ambas, o gentílico castelhano é angelino. Será este que usarei sempre que for necessário, até porque temos o adjectivo angelino, próprio de anjo, angelical.

 

[Texto 7303]

Helder Guégués às 23:45 | comentar | favorito
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28
Nov 16

Rio Cuanza

Não é nostalgia, não

 

      «Os camaradas que vinham da patrulha das áreas da nascente do Cuanza, [sic] viram o avião a deitar fumo e a voar sem direcção» (Dino Matrosse na Mira da PIDE, Julião Mateus Paulo. Alfragide: Editorial Caminho, 2013, p. 117).

   Então, um angolano, ainda para mais com funções no Estado, escreve em pleno século XXI Cuanza, e na tradução de um livro inglês que aqui tenho o tradutor optou repetidamente por Kwanza? Imperdoável.

 

[Texto 7283]

Helder Guégués às 20:57 | comentar | ver comentários (1) | favorito
27
Nov 16

Havana, Haia, Corunha e por aí fora

Não para nós

 

      Vá lá, no fluxo contínuo nas rádios e nas televisões a propósito da morte de Fidel Castro, não aflorou nem uma vez a velha mania de antepor o artigo, em maiúscula, ao nome da capital, A Havana. Em Espanha, porém, lá vieram lembrar, na Fundéu, que se escreve «con el artículo en mayúscula, pues forma parte del nombre; por tanto, es inapropiado mencionar esa ciudad omitiendo el artículo: “En Habana tuvo lugar...”». É lá com eles; para nós, Havana, Haia, Corunha, etc.

 

[Texto 7281]

Helder Guégués às 11:06 | comentar | favorito
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17
Nov 16

Ortografia: «Hidra»

Ilhas gregas e macacos

 

    «É um regime que remonta à sua adolescência e que Cohen levou consigo para a ilha grega de Hydra, onde viveu na década de 60 e se apaixonou por Marianne Ihlen, que viria a inspirar três das suas mais fabulosas composições: Hey, That’s No Way to Say Goodbye, Bird on the Wire e, é claro, So Long, Marianne» («“Disse que estava pronto para morrer. Exagerei”», Dan Cairns, Sábado, n.º 655, 17.11.2016, p. 100).

   Aposto que é linda — mas em português escreve-se Hidra. «Hidra, mit. f. astr. f. e top. <f.>», escreveu Rebelo Gonçalves no seu Vocabulário da Língua Portuguesa. Já alguém dirá que é só uma letra diferente e que não é preciso gastar tanto tempo a falar do caso. Como queiram. Só espero que não seja o mesmo que traduziu donkeys por «macacos»...

 

[Texto 7249]

Helder Guégués às 22:54 | comentar | ver comentários (5) | favorito
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02
Nov 16

Os Rifenhos e o Makhzen

Mais português

 

      «No entanto, alguém estava a filmar, com um telemóvel, e colocou o vídeo na Internet — ouvem-se gritos, e vê-se quando é esvaziado o camião. O vídeo foi colocado no Facebook, no Twitter, e desencadeou uma reacção de horror, e protestos a nível nacional, em que se ouviram palavras contra o Makhzen — o termo que descreve [sic] o Palácio Real. “Mohcine foi assassinado, a culpa é do Makhzen”, ouviu-se nas manifestações de Casablanca e na capital, Rabat, além das cidades do Rif. A última onda de protestos foi na segunda-feira» («Uma questão para o rei: quem matou Mouhcine Fikri no camião do lixo?», Clara Barata, Público, 2.11.2016, p. 22).

      Eu não o grafaria em itálico: Makhzen, ou Dar al-Makhzen. Tal como também escrevo Rife, e não Rif, a região montanhosa de Marrocos Setentrional, cujos naturais ou habitantes são os Rifenhos.

 

[Texto 7216]

Helder Guégués às 20:40 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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31
Out 16

Era uma vez em Núrsia

E não se fala mais nisso

 

      «Parece quase um milagre que, face à violência do abalo que acordou o Centro de Itália na manhã de ontem — o terceiro em menos de três meses —, não haja notícia de nenhuma vítima mortal. Com intensidade de 6,5 na escala de Richter, o sismo com epicentro a seis quilómetros de Núrsia foi o mais forte no país desde 1980, quando um sismo de intensidade 6,9 matou mais de 2700 pessoas» («Núrsia desespera com três sismos em menos de três meses», Pedro Crisóstomo, Público, 31.10.2016, p. 22).

      A imprensa portuguesa ainda não sabe exactamente se o epicentro foi em Núrsia, Nórcia ou Norcia. O Jornal de Notícias arrisca mais, e em parágrafos seguidos usa duas formas diferentes. Eu, como nas minhas breves deambulações religioso-teológicas tenho encontrado São Bento de Núrsia, não tenho mais argumentos. Mas pode não ser a melhor opção, pois norcino é, em italiano, o matador de porcos, salsicheiro, o que está relacionado com Norcia, «famosa tra l’altro per l’industria tradizionale della salatura e dell’insaccatura delle carni suine». Mas até em italiano nursino é variante antiga (porque directamente do latim) de norcino. Sendo assim, opto por Núrsia/Nursinos/nursino.

 

[Texto 7210]

Helder Guégués às 12:20 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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