08
Nov 17

Ortografia: «Hébron»

Ou não sei nada

 

     Já li alguma coisa da Bíblia, sim, mas não me lembrava nada de Macpela. É o nome de um campo, um terreno, e de uma caverna na vizinhança (Cave of Machpelah, para a legião de anglófonos que nos segue) de Hébron, comprados por Abraão ao hitita Efrom por 400 siclos de prata. A caverna serviu de sepultura para Sara, esposa de Abraão, e pelo menos para mais cinco outras personagens: Abraão, Isaac, Rebeca, Jacob e Lia. Está tudo no Génesis. Isto está tudo muito bem, acho eu, mas porque é que na reputadíssima Bíblia dos Capuchinhos se lê Hebron e não Hébron? Não é assim? Éden, hífen, Hébron, Sídon, Sólon...

 

[Texto 8309]

Helder Guégués às 12:41 | comentar | favorito
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13
Set 17

Topónimos

É escolher

 

      «Emmanuel Macron andou pelas ruas de St. Martin e garantiu que a ilha “vai renascer”» («Furacão “​Irma”. Presidente francês foi ver o que resta de St. Martin», Rádio Renascença, 13.09.2017, 1h16). «O Presidente francês, Emmanuel Macron, prometeu reconstruir rapidamente as ilhas de São Martinho e São Bartolomeu, nas Caraíbas, destruídas pelo furacão Irma» («Macron promete reconstruir ilha de São Martinho», Público, 13.09.2017, p. 25).

 

[Texto 8148]

Helder Guégués às 11:39 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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05
Set 17

Goreia, Goreia, Goreia — escreva vinte vezes

Sempre actual

 

      «Ocasionalmente, este torpor sofre abalos. O mais recente ocorreu há meses, no rescaldo das declarações de Marcelo Rebelo de Sousa em Gorée que refletem os estereótipos dessa amnésia: a evocação de um alegado “pioneirismo” – mais um – de Portugal na abolição da escravatura, como reflexo da sua “vocação humanista”. A reação às suas palavras traduziu-se, fundamentalmente, num apelo a um debate aberto – e livre das velhas retóricas – sobre a nossa memória coletiva do período colonial e, em particular, do tráfico de escravos» («Torres de marfim e poeira amnésica», Paulo Jorge de Sousa Pinto, Público, 28.07.2017, p. 44).

      Para um historiador, não está mal — está péssimo. Em francês é Gorée, mas em português é Goreia. É, pois, o ensejo para republicar um texto de 2007 do Assim Mesmo sobre esta questão: «Os topónimos estrangeiros por vezes dão a volta à cabeça das pessoas. Sobretudo dos revisores. Há certo tempo, um autor insistia em escrever “Gorée”, a pequeníssima ilha ao largo de Dacar que foi entreposto de escravos e é actualmente Património Mundial da Humanidade. Descoberta em 1444 pelos Portugueses, o nome foi-lhe dado pelos Franceses, que se assenhorearam dela no final do século XVII. Desde então, decorreu tempo suficiente para o topónimo ter sido, como foi, aportuguesado para Goreia. Em Fevereiro de 1992, o Papa João Paulo II visitou a ilha, pedindo então, em nome dos Europeus, perdão por todo o mal causado a África ao longo dos séculos. Também George W. Bush esteve, em 2003, na Goreia, assim como, antes dele, Bill Clinton. Durante a visita de Bush, as autoridades de Dacar decidiram limpar as ruas de vendedores e de outras personagens igualmente conspícuas, concentrando-as num campo de futebol. Que ironia. Como acto simbólico, a visita é muito comovedora, sim, mas o pior é o que os Estados Unidos fizeram e continuam a fazer em África. O Darfur é um exemplo bem claro.»

 

[Texto 8122]

Helder Guégués às 09:44 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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«Coli Sare»

Queremos saber

 

      Se virmos um mapa da Guiné-Bissau, o que encontramos é Coli Sare, e não Cóli-Sari, ali no triângulo formado por Farim, Olossato e Mansabá. Surpreende, no entanto, haver tão poucas referências à toponímia das ex-colónias portuguesas, isto num momento em que se publicam tantos livros sobre a Guerra Colonial. As aldeias dos Fulas com sare ou sara no nome significa que eram antigas; se tinham sintchã ou sintcham no nome, eram de fundação recente.

 

[Texto 8116]

Helder Guégués às 06:15 | comentar | favorito
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22
Ago 17

Léxico: «Ísquia»

Quão diferentes

 

      «Abalo de 4.0 atingiu a ilha de Ischia. Primeiro balanço aponta para dois mortos e 39 feridos» («Sismo em Itália. Bebé resgatado com vida dos escombros», Rádio Renascença, 22.08.2017, 6h59). «Um sismo de magnitude 4 na escala de Richter abalou a ilha de Ísquia, no Golfo de Nápoles, sul de Itália, provocando a morte de duas pessoas, além de danos materiais» («Sismo na ilha de Ísquia, em Itália», TSF, 21.08.2017, 22h36).

      Talvez só se encontre a grafia Ísquia na segunda metade do século XX — Rebelo Gonçalves, por exemplo, não regista o topónimo —, mas basta pensar: o que está em harmonia com a nossa língua, Ischia ou Ísquia? Não, não não sabemos todos o mesmo. Não, não temos todos o mesmo cuidado.

 

[Texto 8102]

Helder Guégués às 08:35 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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29
Jan 17

A importância da ortografia

Entretanto, em Espanha

 

      De manhã, estive a ouvir a rubrica «Verba Volant», do Professor Emilio del Río, no programa No es un día cualquiera, de Pepa Fernández, na Rádio Nacional de Espanha. (Tão-só o melhor programa radiofónico da Península Ibérica, na minha opinião.) Falavam de topónimos invulgares. Em Espanha, no tempo de Franco, algumas pessoas iam para a beira da estrada, à passagem do caudilho por certas localidades, manifestar o seu apoio com cartazes. Se eram de Lerma, o cartaz dizia «Lerma con Franco»; se eram de Laño, dizia «Laño con Franco», e por aí fora. Ora, um dia, os de Revilla Cabriada, um topónimo estupendo, foram saudar o ditador, que ia num descapotável e leu o cartaz: «Revilla Cabriada con Franco». O ditador, cabreado como una mona, como se diz em castelhano, porque com poucas luzes de ortografia, mandou logo dois picoletos (outro termo que falta no Dicionário de Espanhol-Português da Porto Editora) pedirem satisfações aos supostos descontentes.

 

[Texto 7443]

Helder Guégués às 14:49 | comentar | favorito
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26
Jan 17

Afinal, agora também se diz Chéquia

Mais curto e informal

 

    E a propósito de alteração de topónimos, no ano passado, uma comissão constitucional da República Checa aprovou a tradução para as línguas oficiais da ONU do topónimo simplificado Cesko, que em inglês será Czechia, em espanhol Chequia e em francês Tchéquie. Ficamos de fora, sim, mas para quem quiser, em português é Chéquia. Será também um nome oficial, mas menos formal, que se usará em rótulos de produtos — na Pilsner Urquell, por exemplo —, em acontecimentos desportivos, etc.

 

[Texto 7435] 

Helder Guégués às 21:29 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Monte Carlo

Não mudem também este

 

      «WRC inaugura temporada em Montecarlo» (André Rodrigues, Rádio Renascença, 19.01.2017). Já não bastavam os tristes casos de Mumbai, Myanmar e outros que tais, agora — na verdade, nos últimos anos, é sempre assim que o vejo escrito — também Monte Carlo anda por aí estropiado. Quem conhecer André Rodrigues, um conhecido, amigo, familiar, já sabe o que tem de fazer.

 

[Texto 7434]

 

Monte Carlo.jpeg

Helder Guégués às 20:23 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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11
Jan 17

Como se escreve nos jornais

Parte sim, parte não

 

      No Público, a imagem é semelhante a esta, talvez até mais bonita, e a legenda da rubrica «Sem comentário»: «Nevão cobriu de branco o Parthenon, em Atenas». Não podia ser tudo em português, pois claro. Parte sim, parte não, Partenão, Pártenon. Um dia vão aprender.

 

[Texto 7403]

Pártenon.jpg

© http://www.metronews.ca/

Helder Guégués às 23:01 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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25
Dez 16

Já nem os fusos

Já não sabem às quantas andam

 

    «Os habitantes de Augsburg vão ter de deixar as suas casas este domingo para as autoridades desativarem uma bomba de 1,8 toneladas da II Grande Guerra. Na área que vai ser selada localizam-se, entre outros edifícios, a catedral medieval e a Câmara Municipal, não sendo autorizado qualquer movimento nas ruas próximas, a partir das 08:00 locais de domingo (09:00 em Portugal) e todas as pessoas devem ter deixado as suas casas às 10:00 locais. […] Estas situações são habituais na Alemanha, no entanto, esta operação envolve mais moradores que uma registada em 2011, na cidade Koblenz, no Estado da Renânia-Palatinado, no centro-este da Alemanha, em que foram retiradas 45.000 pessoas das suas residências» («Mais de 54 mil pessoas têm de sair de casa no Natal por causa de bomba», TSF/Lusa, 24.12.2016).

   Imagino que até tenham instruções, como noutros sítios, para não escreverem Augsburgo e Coblença, por isso, esqueçamos essa questão. Mas, e a hora? Às 8h00 locais, 9h00 em Portugal? Mas se o fuso de Berlim é UTC+1, como é isso?

 

[Texto 7350]

Helder Guégués às 09:18 | comentar | ver comentários (6) | favorito
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05
Dez 16

Léxico: «angelino»

Se não temos, pedimos

 

      Ora cá está uma questão linguística com que nunca tinha deparado: qual o gentílico da cidade americana de Los Angeles? Diga-se, antes de mais nada, que nem a todos os topónimos corresponde necessariamente um gentílico. A origem não é espanhola? É: Los Ángeles. (Talvez, não se sabe exactamente, El Pueblo de Nuestra Señora la Reina de los Ángeles del Río de Porciúncula.) Então, procuremos — já que em português nada está registado — no Dicionário da Real Academia Espanhola. Há duas cidades com este nome: uma nos Estados Unidos e outra no Chile. Para ambas, o gentílico castelhano é angelino. Será este que usarei sempre que for necessário, até porque temos o adjectivo angelino, próprio de anjo, angelical.

 

[Texto 7303]

Helder Guégués às 23:45 | comentar | favorito
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