20
Nov 17

Como se traduz por aí

Problemas com os dicionários?

 

      Ontem à noite, vi quase todo o episódio de Testemunha Silenciosa (temporada 9, episódio 1) na Fox Crime. Enfim, achei que não me faria mal. Às tantas, aparece uma detective e diz ao chefão, referindo-se a um suspeito: «Ele tem cadastro por fraude e logro.» Isto segundo a tradução e legendagem de Lígia Teixeira, da Wordzilla. Só há um problema, e grande, e é que «logro» não é palavra que se encontre no nosso Código Penal. No original, está «for fraud and decepcion». Será então assim: «Ele tem cadastro por fraude e burla.»

 

[Texto 8359]

Helder Guégués às 11:21 | comentar | favorito
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17
Nov 17

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Alguma coisa nova (e má)

 

      «No misterioso Black Rabbit Rose, de Hollywood, pode visitar o lounge, onde são servidos cocktails com algum espetáculo à mistura. O Bullet Catch é feito a partir de rum e café e servido com um floreio de fogo» («Experiencie o melhor do luxo em Los Angeles», João Moniz, Destak, 17.11.2017, p. 17).

      Sabe Deus o que João Moniz quis dizer com «floreio de fogo». Lá está o avariado «feito a partir de». Homem, é «feito com» e acabou-se. Floreio de fogo... De certeza que algum português já esteve naquele misterioso Black Rabbit Rose. Talvez Manuel S. Fonseca, editor da Guerra e Paz, quem sabe. Ah, mas esperem: não quererá o jornalista dizer que a bebida é flambeada? Pois, só que «flambeio» apenas existe como forma verbal, não podemos dizer «servido com um flambeio», que ele poderia ter confundido com «floreio». Leio aqui: «For a unique and decadent after-dinner drink, ask for the Bullet Catch, a dark and potent concoction of freshly brewed coffee, cigar smoke rum, coconut cream, cinnamon and a flaming shot of Green Chartreuse.»

 

[Texto 8350]

Helder Guégués às 10:04 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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11
Nov 17

Como se traduz nas rádios

É o sabe

 

      «Na matança, levada a cabo por um homem de 26 anos, morreram 27 pessoas, incluindo a filha do pastor, todos os professores da escola dominical e grande parte do coro» («Igreja que foi palco de massacre no Texas vai ser demolida», Rádio Renascença, 9.11.2017, 15h44). É simples: o jornalista (são jornalistas que escrevem isto?) que pergunte à senhora sua mãe se sabe o que é escola dominical.

 

[Texto 8321]

Helder Guégués às 14:47 | comentar | favorito
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06
Nov 17

Léxico: «flip off»

 

      Lembram-se do caso, recentíssimo, daquela heroína estado-unidense, Juli Briskman de sua graça, que fez um gesto obsceno quando a caravana presidencial lhe passou ao lado? Eu disse heroína? Queria dizer idiota. Avisou os patrões de que era ela a ciclista que aparecia numa imagem que chegou a todo o mundo (talvez não chegasse à Mongólia Interior, não sei). Pois foi despedida. Oh que surpresa! E porque não regista flip off o Dicionário de Inglês-Português da Porto Editora?

 

[Texto 8298]

Helder Guégués às 18:48 | comentar | ver comentários (1) | favorito
27
Out 17

Tradução: «procession»

E esta para começar

 

      Uma coisa boa é hoje não ser Dia Nacional da Desburocratização e ninguém ir à rádio lançar inanidades sobre tão magno assunto. Posto isto, temos de dizer alguma coisa. «Uma vez que a procissão do enterro se estendia até onde os seus olhos alcançavam, resolveu descer da bicicleta e seguir a pé, de cabeça baixa» (Pintar o Futuro — Uma História de Amor e de Esperança, Louise L. Hay e Lynn Lauber. Tradução de Duarte Sousa Tavares. Lisboa: Pergaminho, 2012, p. 110). No original está procession, e até há alguma sinonímia no par procissão/cortejo, mas não se usam habitualmente os termos «cortejo» e «préstito» para funeral?

 

[Texto 8273]

Helder Guégués às 11:23 | comentar | ver comentários (10) | favorito
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25
Out 17

Tradução: «arrondissement»

Pode ser mais difícil

 

      «A primeira acção promocional da My Genuine Portugal decorreu na famosa festa de tradições culinárias e vínicas, que atrai meio milhão de visitantes, organizada pela Câmara do 18.° Bairro de Paris, no famoso bairro boémio de Montmartre [Butte-Montmartre]. “Nesta festa, Portugal é o país convidado de honra, porque há uma presença muito forte de portugueses em Paris”, explica o presidente do 18.º Bairro de Paris, Eric Lejoindre, que degustou os produtos portugueses» («“Turistas têm de encontrar produtos de Portugal quando regressam a casa”», Susana Pinheiro, Público, 25.10.2017, p. 20).

    Já uma vez aqui debatemos qual a melhor tradução do francês arrondissement, e creio que concluímos que «bairro» era a melhor. Quem diz que não é a melhor opção esquece ou ignora (no caso de leitores brasileiros) que bairro foi, para nós, durante muito tempo, a designação de área administrativa ou fiscal em que se dividiam algumas cidades. Em Lisboa, ainda se pode ver isso em algumas placas toponímicas. A primeira conclusão é então que uma boa tradução de arrondissement para o Brasil não é necessariamente boa para Portugal, e vice-versa. A porca começa a torcer o rabo quando tivermos o azar de, num mesmo texto, toparmos com a subunidade municipal do arrondissement, que é o quartier. Pois é. Como raro isso acontecerá, por mim continuarei a traduzir por «bairro». Mas podemos ter aqui, no artigo do Público, outro problema: se a arrondissement corresponde, grosso modo, a nossa freguesia (mas a correspondência só acontece com duas ou três cidades francesas), podemos traduzir mairie du 18e arrondissement por «Câmara do 18.° Bairro»? Não me parece.

 

[Texto 8267]

Helder Guégués às 22:44 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Tradução: «moving boxes»

Eu não digo de certeza

 

     «A avó voltou para dentro do seu apartamento no segundo andar, cheio de caixas de mudança e do som persistente de marteladas» (Pintar o Futuro — Uma História de Amor e de Esperança, Louise L. Hay e Lynn Lauber. Tradução de Duarte Sousa Tavares. Lisboa: Pergaminho, 2012, p. 8).

    Pensei, sei lá, que se referisse a caixas de velocidades, gearboxes. Estou a brincar, mas não muito: no original está «moving boxes». O que me parece, contudo, é que nós não dizemos isto assim. No mínimo, escreveria «caixas das mudanças», mas o mais provável seria dar a volta à frase.

 

[Texto 8263]

Helder Guégués às 20:55 | comentar | ver comentários (5) | favorito
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23
Out 17

Tradução: «phlegmy cough»

Reabilitação do catarro

 

      «– Bom dia – conseguiu responder o velho, e depois rebentou num longo ataque de tosse cheia de expectoração» (Pintar o Futuro — Uma História de Amor e de Esperança, Louise L. Hay e Lynn Lauber. Tradução de Duarte Sousa Tavares. Lisboa: Pergaminho, 2012, p. 16).

      Pode dizer-se assim, sem dúvida, mas estamos aqui para melhorar (e para nos divertirmos, e para passar o tempo, e para aprendermos...). No original, duas palavras, phlegmy cough. Então, duas palavras em português — tosse catarrosa. «Algumas tossiam constipadas, e queriam da sua tosse catarrosa fingir a debilidade do peito, que não pode com o coração» (Coração, Cabeça e Estômago, Camilo Castelo Branco. Lisboa: Parceria A. M. Pereira, 1969, p. 168).

 

[Texto 8252]

Helder Guégués às 08:38 | comentar | favorito
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Tradução: «strident»

É preciso ver

 

      «Nas docas da cidade, onde pela manhã os pescadores remexem o salmão pescado na noite anterior, o apoio declarado a Abe mistura-se com a preocupação de que ele seja demasiado estridente e esteja a pôr o Japão em risco» («“Não temos onde nos esconder”», Malcolm Foster, Reuters, tradução de António Domingos, Público, 22.10.2017, p. 19).

      Sim, sim, no original está «too strident», mas strident tem vários significados, é polissémico, e este não se adequa ao contexto. No caso, é enérgico, veemente.

 

[Texto 8251]

Helder Guégués às 08:33 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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22
Out 17

Tradução: «umbrella stand»

Talvez na IKEA

 

      «Voltou-se e foi contra um porta-chapéus-de-chuva» (Pintar o Futuro — Uma História de Amor e de Esperança, Louise L. Hay e Lynn Lauber. Tradução de Duarte Sousa Tavares. Lisboa: Pergaminho, 2012, p. 125). Isto diz-se assim em português, «porta-chapéus-de-chuva»? Talvez se diga na IKEA. É simples em inglês, umbrella stand, e ainda mais simples em português — bengaleiro.

 

[Texto 8247]

Helder Guégués às 15:42 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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20
Out 17

Era um recado para o futuro

Chama-se presciência

 

      Meu Deus, acho que as autoras se estavam a dirigir directamente ao tradutor. É arrepiante, vejam: «– Ei não é uma palavra – respondeu Langley de modo afetado, e foi-se embora» (Pintar o Futuro — Uma História de Amor e de Esperança, Louise L. Hay e Lynn Lauber. Tradução de Duarte Sousa Tavares. Lisboa: Pergaminho, 2012, p. 11). «Yo isn’t a word.» É que o rapaz das entregas (deliveryman) já antes usara a palavra: «– Ei... bolas, não tinha percebido. O senhor é cego» (idem, ibidem). Ah, bolas, no original a palavra é outra: «Hey—oh, damn, man, I didn’t realize. You blind.» Para a próxima sai melhor, não é? (Está aqui uma pessoa a espreitar por cima do meu ombro e a resmungar «mais um Sousa Tavares». Não percebo. Não conheço ninguém.)

 

[Texto 8244]

Helder Guégués às 10:53 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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