18
Jul 17

Léxico: «embastilhar»

Cada vez menos

 

      O marechal François de Bassompierre (1579-1646), de origem alemã, que servira com brilho Henrique IV e Luís XIII, «fut embastillé par Richelieu en 1631». Embastiller é encarcerar na Bastilha, célebre fortaleza em Paris, e, por extensão de sentido, em qualquer prisão. No caso de Bassompierre, foi mesmo na Bastilha, onde permaneceu doze anos. Alguns dicionários de língua portuguesa — mas não o da Porto Editora — registam o verbo embastilhar, com o mesmo significado.

 

[Texto 8039]

Helder Guégués às 16:54 | comentar | favorito
13
Jul 17

«Madeixas californianas»

Radical...

 

   «É magra e bronzeada, tem enormes olhos azuis, uma pulseira desmesurada no braço e os óculos escuros a segurarem-lhe o cabelo loiro de madeixas californianas» (Diz-me Quem Sou, Sophie Kinsella. Tradução de Carmo Vasconcelos Romão. Alfragide: Quinta Essência, 2016).

      Madeixas californianas (California-girl hair, no original). Têm este nome, ao que parece, porque os surfistas da Califórnia clareiam o cabelo, e sobretudo as pontas, com parafina. Lembrei-me disto porque li ontem no Notícias ao Minuto que Rita Pereira, que já usou madeixas californianas, mudou «radicalmente de visual». Radicalmente... Estes jornalistas são peritos em léxico sensacionalista: «radical», «drama», «tragédia», etc.

 

[Texto 8020] 

Helder Guégués às 11:23 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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08
Jul 17

«Bucket list»

Insistem

 

      «Estudo, a que o Destak teve acesso, tem como base uma amostra de mil inquiridos em cada um dos 12 países europeus participantes, com o objetivo de “inspirar os portugueses a procurar concretizar os sonhos da sua ‘bucket list’ [lista de coisas a fazer antes de morrer]”» («O sonho de dar a volta ao planeta», Destak, 7.07.2017, p. 11).

      Por qualquer motivo, insistem em usar palavras e expressões em inglês. Em primeiro lugar, nesta lista do que fazer antes de esticar o pernil, para os Portugueses, está dar a volta ao mundo (53 %). Nela não encontramos, curiosamente, importar um «filho» da América, mas está, por exemplo, formar família (41,2 %).

 

[Texto 7988]

Helder Guégués às 10:04 | comentar | favorito
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05
Jul 17

Tradução: «tunic»

Ainda pior

 

      O marido da «coqueta» vai agora a caminho da festa, vestido com o «dólman do partido». No original está tunic, que não se traduz, evidentemente, por «dólman». Decerto, os membros do Partido Comunista usavam uma espécie de uniforme, um casaco ou túnica, comprida e de tecido grosso, cingida com um cinto. Como muitos haviam combatido na Grande Guerra, tinham de conservar algum atavio vagamente militar, não é?, ou iam parecer simples mujiques. O dólman é diferente: é um casaco curto usado pelos oficiais do exército. Má opção — leva, por isso, um ✖.

 

[Texto 7981] 

Helder Guégués às 21:26 | comentar | favorito
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Tradução: «flirtatious»

Má opção

 

      Na festa também estava a flirtatious wife do primeiro-ministro, que o tradutor verteu por «coqueta». Parece-me, em qualquer caso, mal traduzido. Não estamos perante um caso, entre tantos, como avalanche/avalancha — tanto quanto tenho visto, esta variante nem sequer é usada neste lado do Atlântico. Não apenas isso: não me parece que a flirtatious corresponda ao galicismo «coquete».

 

[Texto 7980]

Helder Guégués às 20:57 | comentar | ver comentários (5) | favorito
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04
Jul 17

Tradução: «understorey»

Ainda pior

 

      Só agora vi que no Dicionário de Inglês-Português da Porto Editora para understorey a tradução proposta é «(primeira camada vertical na canopia [sic] florestal mista) sub-bosque». Assim, evidentemente, ainda menos desculpável é que o Dicionário da Língua Portuguesa não registe sub-bosque nem soto-bosque. É um erro, e não dos menores, que em qualquer definição de um dicionário se usem palavras que esse mesmo dicionário não regista em verbete autónomo.

 

[Texto 7975]

Helder Guégués às 11:34 | comentar | ver comentários (3) | favorito

Tradução: «cautionary tale»

Serve para prevenir, sim, mas...

 

      Há um livro, publicado em 1907, do escritor anglo-francês Hilaire Belloc com o título Cautionary Tales for Children: Designed for the Admonition of Children between the ages of eight and fourteen years. Nele, um rapazinho, Jim, depois de desobedecer à ama, é comido por um leão. Traduzir cautionary tale, expressão que surge noutros contextos, por «conto cautelar» não me parece nada feliz, mas é como o fazem tradutores com currículo... A mim, «conto cautelar» remete-me logo para o Direito, ocorre-me logo a providência cautelar. Não seria melhor traduzir, porque é disso que se trata e neste caso as expressões são usadas e conhecidas, por história exemplar ou conto edificante?

 

[Texto 7974]

Helder Guégués às 08:49 | comentar | ver comentários (7) | favorito
02
Jul 17

Tradução: «sous-bois»

Para o currículo

 

      Não cabe tudo nos dicionários? Cabe, nos digitais cabe e não custa nada. Para o Dicionário de Francês-Português da Porto Editora, sous-bois é «(matas) vegetação rasteira». Ora, isto é mais a definição do que a tradução do termo francês, e num dicionário bilingue procuramos menos a definição do que a correspondência noutra língua. Acontece que temos, e são por vezes usados, os termos sub-bosque e, a cheirar menos a cópia, soto-bosque. (Que eu, oh sacrilégio, não encontro na minha bíblia. A minha bíblia... Assim se vê como treslêem. Caem no blogue de pára-quedas porque descobrem aqui o seu nome e, em vez de tentarem aprender alguma coisa, abespinham-se.) Como no caso anterior, basta acrescentar, até porque em certos contextos poderá ser «vegetação rasteira» a forma mais adequada. As três, então: vegetação rasteira; sub-bosque; soto-bosque.

 

[Texto 7970]

Helder Guégués às 17:31 | comentar | ver comentários (2) | favorito

Tradução: «bas-fond»

É só acrescentar

 

      Muitas vezes, a tradução para bas-fond que vejo por aí é submundo, e não me parece nada mal. (Sim, é verdade, quantas vezes não a vejo por traduzir...) O Dicionário de Francês-Português da Porto Editora, porém, não a propõe entre as possíveis traduções: «ralé, escória, as camadas mais baixas da sociedade». E, contudo, a primeira acepção de submundo do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora é «grupo social constituído por pessoas cujas actividades são consideradas ilícitas ou marginais (crime, jogo, narcotráfico, etc.)».

 

[Texto 7969]

Helder Guégués às 17:16 | comentar | favorito

O que vale o currículo

Só se aplica aos demais

 

      Estes até em artigo de morte pedem o currículo à Velha Ceifeira. Olha se nas editoras lhes fizessem o mesmo a eles, mas com amostras de trabalhos, hã?, que grande perda para a língua. A pessoa — cujo apelido não é Costa — que simpaticamente me ofereceu o livro disse-me que pensara oferecê-lo a uma biblioteca pública, depois de desistir, o que é humano, de o ler até ao fim, «mas parece-me perigoso divulgar isto. Pensei na lareira, por politicamente incorrecto que isto pareça, mas o verniz das capas não convidava ao gesto».

 

[Texto 7968]

Helder Guégués às 12:26 | comentar | favorito
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01
Jul 17

Tradução: «dress code»

Só na cabeça deles

 

    «“Não andamos na rega”. ANTRAL defende “dress code” para taxistas» (Rádio Renascença, 1.07.2017, 21h32).

    O pobre jornalista não conseguiu extrair dos neurónios nada mais português. Como é que se pode julgar que dress code é mais adequado do que «código de vestuário», numa tradução directa, ou «maneira de vestir», por exemplo? Não percebo. Quanto aos taxistas e aos dirigentes associativos dos taxistas, é muito curioso, e certamente por acaso, que se preocupem agora com estas questões. Vê-se logo que são pioneiros. Agora vão passar a andar de fato e gravata — mas, e as maneiras?

 

[Texto 7966]

Helder Guégués às 23:31 | comentar | favorito
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