27
Mar 17

Como se traduz nos jornais

Mais em benefício próprio

 

      Duas miúdas, no aeroporto de Denver, foram ontem impedidas de embarcar num voo da United Airlines porque vestiam leggings. Revolta nas «redes sociais». «Ao que tudo indica, as duas meninas estariam a viajar em beneficio [sic] de uma empresa, e esse tipo de viagens pede uma forma de vestir mais cuidada. Ainda assim, as justificações da United Airlines não convenceram a maioria e várias celebridades norte-americanas ameaçam deixar de voar com a companhia» («O caso das leggings que impediram duas meninas de voar na United Airlines», Observador, 27.03.2017, 12h11).

       Ora esta, a viajarem em benefício de uma empresa... E como é isso, o jornalista do Observador pode explicar-nos? Enquanto esperamos, vamos tentar perceber por outros meios. No Twitter, a companhia área respondeu: «The passengers this morning were United pass riders who were not in compliance with our dress code policy for company benefit travel.» Ah, company benefit travel, ou seja, é uma regalia atribuída aos trabalhadores da United Airlines, provavelmente certo número de viagens gratuitas, um passe.

 

[Texto 7630]

Helder Guégués às 19:19 | comentar | favorito
Etiquetas: ,
25
Mar 17

Tradução: «pharmacien chimiste»

Ainda é assim?

 

      O pai era «pharmacien chimiste et travaillait dans la recherche». Acho que em português nunca tinha visto. Sim, farmacêutico-químico — como a Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira o grafa: «O curso universitário da Faculdade de Farmácia dá o título de farmacêutico-químico e os graus de licenciado e doutor em Farmácia» (vol. X, p. 946). Mas isto era na década de 50.

 

[Texto 7623]

Helder Guégués às 17:46 | comentar | favorito
Etiquetas: ,

Tradução: «mugshot»

Foto da ficha policial

 

      «Sarah Fowlkes, de 27 anos, professora numa escola em Lockhart, no Texas, pode enfrentar uma pena até 20 anos de prisão depois de ter sexo com um aluno de 17 anos. […] Na sua “mugshot” (fotografia tirada na esquadra) sorriu, ao invés de mostrar um semblante mais carregado ou conformado» («Professora sorri para a foto da polícia depois de ter sexo com aluno menor», Diário de Notícias, 23.03.2017, 19h11).

      O jornalista achou graça à palavra mugshot e teve de a usar. Por sorte, diga-se, a definição é melhor do que a de alguns dicionários. O Dicionário de Inglês-Português da Porto Editora, por exemplo, define-a assim: «(polícia) identificação fotográfica». Não é clara. A definição do Concise Oxford Spanish Dictionary não está nada mal: «foto (de archivo policial)». Tal como a do Diccionari UB Anglès-Català: «retrat d’un delinqüent en la fitxa policial». Na origem, estaria relacionado com uma caneca de cerveja, e que não seria bonita. O dicionário da Porto Editora carrega nas tintas (expressão que o da língua portuguesa não regista) e diz que mug é «tromba; fuças; ventas». E falta dizer que mugshot é informal.

 

[Texto 7622]

Helder Guégués às 17:01 | comentar | ver comentários (2) | favorito

Tradução: «mouth-to-snout»

Ai Jesus!

 

      «Mouth-to-snout resuscitation saves dog in fire» (London Evening Standard, 24.03.2017, p. 25). Li ontem esta notícia a meio da tarde, e fiquei com curiosidade sobre a forma como a traduziriam os nossos meios de comunicação. Literalmente, pois claro, mas tiveram receio de a deixar sem aspas: «A proeza foi lograda após 20 minutos de respiração ‘boca-a-focinho’, que trouxeram o animal de volta ao mundo dos vivos.» Isto no corpo da notícia, que no título nada podia figurar que cheirasse a zoofilia ou qualquer outra parafilia a pedir internamento ou bastão policial: «Bombeiro salva cão após 20 minutos de respiração boca-a-boca» (André de Jesus, SIC, 24.03.2017, 19h16).

 

[Texto 7621]

Helder Guégués às 15:44 | comentar | favorito
Etiquetas: ,
24
Mar 17

Carabineiros e Guarda Civil

Isso mesmo

 

      «Uma vida de perigos, sempre com a Guarda Fiscal à perna do lado português, e os Carabineiros, do lado espanhol. Polícia que atirava assim que via um contrabandista» («Festival do Contrabando: Quando se passava a fronteira a salto», Maria Augusta Casaca, TSF, 23.03.2017, 7h47).

      Carabineiros, muito bem. Na lógica dos que escrevem e dizem Guardia Civil, seriam os Carabineros. O Corpo de Carabineiros, criado em 1829 e integrado em 1940 na Guarda Civil, tinha como missão a vigilância das costas e fronteiras espanholas e a repressão da fraude fiscal e o contrabando.

 

[Texto 7618]

Helder Guégués às 15:16 | comentar | ver comentários (1) | favorito
Etiquetas: ,

Tradução: «associate»

Mau, descambamos

 

      «Rowley [comissário adjunto da Scotland Yard] aproveitou fazer [sic] um apelo a quem possa auxiliar nas investigações. “Quem conheceu Khalid Masood e sabe quem são os seus associados pode ajudar e dar-nos informação sobre lugares que visitou recentemente”» («Polícia faz duas novas detenções relacionadas com ataque de Westminster», Rádio Renascença, 24.03.2017, 8h12).

      Afinal, não é só na TSF que se vêem estes erros crassíssimos de tradução. Sim, a polícia usou o termo associates — mas, no contexto, significa cúmplices, como me parece evidente.

 

[Texto 7616]

Helder Guégués às 12:49 | comentar | favorito
Etiquetas: ,
23
Mar 17

Tradução: «sympathy»

Não caias nesse

 

      «“Os meus pensamentos e as minhas orações, assim como a minha mais profunda simpatia, vão para todos aqueles que foram afetados pela horrível violência” do ataque, escreveu a rainha numa mensagem» («“Os meus pensamentos vão para todos os afetados pela horrível violência”», Lusa/TSF, 23.03.2017, 13h13).

      Seria simpático, sim, mas não foi simpatia que a rainha ofereceu, senhor tradutor da Lusa: «The Queen has said her “thoughts, prayers, and deepest sympathy” are with all those who have been affected by yesterday’s “awful violence”» (The Guardian, 23.03.2017, 11h37). Geralmente, sympathy é solidariedade, apoio, compreensão, e até, mas não é o caso, pêsamescondolências.

 

[Texto 7608]

Helder Guégués às 20:01 | comentar | favorito
Etiquetas: ,

Tradução: «strike ballot» e «fare-dodger»

E também os bilingues

 

     «Strike ballot over Tube worker fired after tackling fare dodger» (Dick Murray, London Evening Standard, 22.03.2017, p. 4).

      As editoras também devem ter a ambição de melhorar os dicionários bilingues, em que ainda temos muito caminho para percorrer. Neste simples título de um jornal inglês de hoje, há logo duas coisas que estão fora, por exemplo, do Dicionário de Inglês-Português da Porto Editora: strike ballot e fare dodger (o Collins grafa-o fare-dodger). O primeiro, strike ballot, é a votação secreta num sindicato para deliberar se se avança para greve ou não. O segundo, fare-dodger, é a pessoa que tenta viajar em transporte público sem pagar bilhete; penetra, talvez se pudesse dizer.

 

[Texto 7605]

Helder Guégués às 19:41 | comentar | ver comentários (3) | favorito
22
Mar 17

Tradução: «lockdown»

Pelo menos a definição

 

      O edifício do Parlamento britânico estava fechado, ninguém entrava e ninguém saía. Em inglês, isto diz-se numa só palavra: lockdown. Nas televisões, podia ler-se: «UK Parliament on lockdown after officer stabbed.» Seja como for, devia estar nos nossos dicionários bilingues. No Merriam-Webster: «an emergency measure or condition in which people are temporarily prevented from entering or leaving a restricted area or building (such as a school) during a threat of danger». (Uma dica para quando quiserem pesquisar neste dicionário: basta, ao escreverem a palavra no Google, acrescentar «mw». Assim: «lockdown mw».)

 

[Texto 7601]

Helder Guégués às 20:41 | comentar | ver comentários (3) | favorito

Léxico: «pigmalião»

Assim não vamos lá

 

      «J’ai eu la chance de rencontrer mon pygmalion en la personne d’une, etc.» Como aconteceu com muitos outros nomes próprios, também Pigmalião se transformou, pela chamada derivação imprópria, em substantivo comum: pigmalião. Nos dicionários de língua francesa encontramo-lo, porque, naturalmente, reflectem esse uso na língua. Nos nossos, nada, nem pigmalião nem pigmalionismo. Parece uma conspiração para poderem afirmar, ainda com mais razão, que a língua inglesa tem incomparavelmente mais vocábulos. Pudera, se ignoramos os nossos!

 

[Texto 7600]

Helder Guégués às 20:38 | comentar | ver comentários (1) | favorito