23
Fev 18

«Put oneself in else’s shoes»

Nem pés nem sapatos: cabeça

 

      Pareço o Emplastro: um português qualquer diz um disparate, e lá estou eu por detrás do fautor. No Portugal em Directo, da Antena 1, Mário Galego foi falar com Alexandre Monteiro, arqueólogo e coordenador do Centro de Arqueologia Náutica do Alentejo Litoral, com sede em Alcácer do Sal. A propósito da descoberta de um biberão... — biberão não, porra, que é galicismo — uma mamadeira, assim é que é, enterrada com um bebé numa sepultura romana, disse o arqueólogo: «Nós aqui nas reservas de Alcácer do Sal temos um biberão romano e quando sabemos que esse biberão foi enterrado juntamente com um bebé que morreu quando tinha cerca de quatro meses de idade, nós conseguimos, se formos pais, pôr-nos nos pés daquela família que resolveu enterrar o bebé com o biberão.» Algum revisor manhoso lhe terá dito certo dia que não se diz «pôr-se nos sapatos dos outros» (como fazem alguns tradutores...), mas sem lhe explicar que não se trocam os sapatos pelos pés. Idiomatismo por idiomatismo: os Ingleses põem-se nos sapatos dos outros; nós, ou nos pomos no lugar ou na pele dos outros.

 

[Texto 8799]

Helder Guégués às 18:50 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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22
Fev 18

Rússia, Federação da Rússia

Deixou-se ir; pensemos nós

 

      «Na noite de 22 de fevereiro de 2014, os homens mais poderosos da Rússia reuniram-se no Kremlin e decidiram a anexação da Crimeia. [...] Putin anexou formalmente a Crimeia à Federação Russa no dia 18 de março de 2014» («Crimeia», Boris Johnson, Diário de Notícias, 22.02.2018, p. 38).

      O tradutor foi atrás da língua de partida, simplesmente: «On the night of 22 February 2014, the most powerful men in Russia gathered in the Kremlin and resolved to seize Crimea from Ukraine. [...] Mr Putin formally annexed Crimea into the Russian Federation on 18 March 2014.» Sim, correntemente, Rússia; formalmente, Federação da Rússia. Mas isso depende das línguas. Uma boa forma de o ver é no nome das embaixadas em vários países: Ambassade de La Fédération de Russie en France; Embajada de la Federación de Rusia en el Reino de España; Botschaft der Russischen Föderation; Ambasciata della Federazione Russa nella Repubblica Italiana; Embaixada da Federação da Rússia na República Portuguesa.

 

[Texto 8790]

Helder Guégués às 21:18 | comentar | favorito
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19
Fev 18

Tradução: «equerry»

Sou todo ouvidos

 

      «The Queen has picked the first black man to hold the role of equerry, one of the most important positions in the royal household» («Queen picks the first black equerry: Ghanaian-born officer will be the most visible man by Her Majesty’s side as Prince Philip’s retirement looms», Alice Evans, Mail, 9.07.2017, 22h00).

      Uma coisa é saber o que significa, outra, bem diferente, é encontrar a melhor tradução. Equerry é então um funcionário da Casa Real britânica. Estão aqui a sugerir-me que se traduza por «assessor», mas não me convence. Traduzimo-lo por «alto funcionário»? «Assistente»? Veja-se aqui: «Ainda que ele fosse um “royal equerry” [ajudante de ordens da família real], Townsend não era visto como marido adequado para a princesa porque era divorciado, e o Palácio de Buckingham o transferiu para Bruxelas» («Noivado de Harry mostra que família real deixou escândalos no passado», Michael Holden, Folha de S. Paulo, 27.11.2017, 11h47). E aqui: «La reina Isabel II eligió por primera vez a un hombre negro como “equerry”, una suerte de escudero o asistente privado, con una posición muy importante dentro del protocolo de la casa real y muy cercano a ella» («Primera vez en la historia: Isabel II eligió un asistente privado negro», Clarín, 9.07.2017, 11h47). Também equacionei «ajudante-de-campo», mas com algumas dúvidas. E a propósito, não me parece que esteja correcta a definição deste termo no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «oficial-às-ordens de um general».

 

[Texto 8765]

Helder Guégués às 18:50 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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03
Fev 18

Léxico: «slot»

Faixa horária, apenas

 

      «“Como se não nos bastasse a falta de slots em Portugal para poder crescer, temos um outro grande problema – não conseguimos contratar pilotos experientes.” O desabafo de José Lopes, diretor da easyJet em Portugal, vem com um apelo aos governantes nacionais para que assegurem “vantagens fiscais” que permitam atrair profissionais com experiência» («Pilotos estão a fugir para Espanha. Ganham 30% mais», Ana Margarida Pinheiro, Diário de Notícias, 26.01.2018, p. 19).

      Nem todos temos a sorte de ser especialistas em aeronáutica como a jornalista do DN e o seu entrevistado. Suponhamos que consultássemos, cientes do contexto, o Dicionário de Inglês-Português da Porto Editora. «Cá está», diríamos, «o que procurávamos: “AERONÁUTICA abertura para passagem de ar em aerofólio”.» Aerofólio, aerofólio... No portal da Autoridade Nacional da Aviação Civil (ANAC), leio isto: «Qualquer operador que pretenda aterrar ou descolar num aeroporto coordenado deverá obter uma faixa horária (slot) atribuída pela Coordenação Nacional de Slots (aceda ao site nos links relacionados).» Vá, agora é a vez de o leitor mexer os dedos e ir ver o que é «aeroporto coordenado». Como sou boa pessoa, fica aqui o Glossário da Aviação Civil da ANAC.

 

[Texto 8678]

Helder Guégués às 21:26 | comentar | favorito
01
Fev 18

Como se traduz nos jornais

Um par de qualquer coisa

 

      Rádio Renascença: «Um membro do governo britânico demitiu-se por chegar atrasado ao parlamento. Michael Bates, secretário de Estado para o desenvolvimento internacional, chegou meia hora atrasado a uma sessão na Câmara dos Lordes, o que fez com que não respondesse a uma pergunta que lhe foi colocada» (7h46). Jornal i: «Michael Bates, secretário de Estado do Departamento para o Desenvolvimento Internacional no Reino Unido, chegou dois minutos atrasado à sessão de perguntas e respostas e, por isso, pediu a demissão “com efeitos imediatos”, noticia o The Guardian» («Secretário de Estado inglês demite-se por chegar 2 minutos atrasado», 12h25). The Guardian: «Bates had been due in the chamber at 3pm on Wednesday to answer a scheduled question from Lister on income inequality but arrived a couple of minutes late. In his absence the question was answered by the Lords chief whip, John Taylor» (31.01.2018, 20h23).

      O jornalista do i não sabe que, em contextos como este, «a couple of minutes» significa quase sempre, não dois minutos, mas alguns minutos, um lapso de tempo indeterminado, mas curto. Lamentável. A Rádio Renascença, por seu lado, parece ter uma fonte, não apenas alternativa, mas mais rigorosa.

 

[Texto 8662]

Helder Guégués às 22:04 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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22
Jan 18

Como se traduz por aí

Assim não se percebe

 

      O Franjinhas vai hoje participar num debate na Universidade de Copenhaga e pode ser detido. «De acordo com fontes da Fiscalia Geral do Estado, contactadas pela agência de notícias EFE, o pedido de detenção foi formalizado por Pablo Llarena, juiz do Tribunal Supremo e aplica-se apenas à Dinamarca» («Justiça espanhola pede à Dinamarca detenção do ex-presidente da Catalunha», Rádio Renascença, 22.01.2018, 8h29).

     Agora é assim, metade castelhano, metade português? Desaprovado. A Fiscalía General del Estado não é o equivalente em Espanha à portuguesa Procuradoria-Geral da República? Então, escrevam-no assim.

 

[Texto 8608]

Helder Guégués às 10:11 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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17
Jan 18

Contas erradas

O melhor é não ler

 

      «A saúde do Presidente norte-americano, Donald Trump, é “excelente”, anunciou esta terça-feira o médico da Casa Branca, Ronny Jackson. [...] O chefe de Estado pesa 108,4 quilos, para 1,88 metros de altura. O médico considera que Trump devia fazer uma dieta e reduzir no consumo de gorduras» («Saúde física e mental de Trump é “excelente”, mas médico receita dieta», Rádio Renascença, 16.01.2018, 21h11).

      A olho, só pelo que nos diz a experiência, dizemos logo que não, não pode ser. Vamos à fonte: «But while Jackson acknowledged he advised Trump -- who is 6 foot, 3 inches and weighs 239 pounds -- to eat better and exercise more, he said it’s genetics that have kept Trump in sterling health.» Então 239 libras equivalem a 108 quilogramas? Faço e volto a fazer as contas e dá sempre 94,8 kg. É incrível a falta de cuidado com que escrevem. Eu nem devia ligar, mas isto é demasiado. Pobres leitores. E não faltam outros desconchavos no artigo, como este: «Em conclusão, Donald Trump deverá permanecer saudável até ao final do seu actual mandado como Presidente dos Estados Unidos.» Quando deviam usar «mandado», usam «mandato», quando, pelo contrário, o adequado é «mandato», usam «mandado». E não corrigem nem se envergonham. Apre!

 

[Texto 8591]

 

 

Nota: Virou-se o feitiço contra o feiticeiro: fiz as contas, vá-se lá saber porquê, como se fossem 209 libras e não, como são na realidade, 239. Como, entretanto, corrigiram o «mandado», estamos quites. Ainda assim, peço desculpa, nada de arrogâncias.

Helder Guégués às 11:50 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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12
Jan 18

Tradução: «morocco leather»

Vá mandando

 

      «O próprio caderno onde a lista foi inscrita mostra a opulência da encomenda. Está encadernado em couro marroquino vermelho e marcado com as armas reais de Espanha, na capa e contracapa, com gravação a ouro. A lista, em excelente estado de conservação, fazia parte de numa coleção privada inglesa, e foi publicada pela primeira vez no catálogo da exposição “The S.J. Phillips Collection of Jewels of Portugal”, organizado pela Sotheby’s, em Lisboa, em maio último» («O que comprava uma rainha portuguesa em Paris há 200 anos? Lista tem 71 páginas», Carolina Rico, TSF, 12.01.2018, 14h39).

      Sim, Carolina Rico, no catálogo da Sotheby’s lê-se que é de «red morocco leather», mas bem pode ter sido feito em Alcanena. Morocco (leather), senhora jornalista, traduz-se por marroquim, que só etimologicamente é que é de Marrocos. Claro que não deixou de haver marroquim de Marrocos, não é? Não tem de quê, vá mandando sempre.

 

[Texto 8571]

Helder Guégués às 17:31 | comentar | favorito
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10
Jan 18

Tradução: «electrify»

A enlouquecer

 

      Oprah Winfrey pode ser a próxima presidente dos Estados Unidos? «Esta noção espicaça a imaginação desde que Winfrey é famosa, mas o discurso de agitar os espíritos que fez no domingo à noite, na gala dos Globos de Ouro, electrificou muitos entre os 56% de descontentes com outra personalidade televisiva, o presidente Donald Trump» («Oprah. A América está a enlouquecer ou a ganhar juízo?», Monica Hesse e Dan Zak, Público, 10.01.2018, p. 17).

      Claro que não é erro de Monica Hesse e Dan Zak — é do tradutor português, que, nos jornais, quase nunca sabemos quem é. Evidentemente, desta vez até agradece. Com que então electrificados... No original: «electrified much of the 56 percent of the populace that disapproves of her fellow television personality». É electrizar, ou seja, entusiasmar, empolgar. Sabem, sabem, mas depois mostram o contrário.

 

[Texto 8561]

Helder Guégués às 20:59 | comentar | favorito
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07
Jan 18

Tradução: «like»

Estou que não

 

      «Noutra mensagem [Trump] segue o seu raciocínio. “Na verdade, ao longo da minha vida os meus dois maiores trunfos têm sido a minha estabilidade mental e o facto de ser, tipo, muito esperto.”» («Trump defende-se: “Sempre fui, tipo, muito esperto. Aliás, um génio”», Rádio Renascença, 6.01.2018, 15h12).

      Será mesmo a melhor tradução? («Actually, throughout my life, my two greatest assets have been mental stability and being, like, really smart.») É de uso informal, como também «tipo» em português, mas a minha dúvida é se se deve traduzir como o jornalista o fez. Estou que não.

 

[Texto 8552]

Helder Guégués às 12:13 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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