02
Dez 17

Léxico: «Antropoceno/Antropocénico»

Pensemos

 

      «A expressão “Antropoceno” é atribuída ao químico e prémio Nobel Paul Crutzen, que a propôs durante uma conferência em 2000, ao mesmo tempo que anunciou o fim do Holoceno — a época geológica em que os seres humanos se encontram há cerca de 12 mil anos, segundo a União Internacional das Ciências Geológicas (UICG), a entidade que define as unidades de tempo geológicas» («E se formos os últimos seres vivos a alterar a Terra? Antropoceno», Raquel Dias da Silva, Público, 2.12.2017, p. 28).

      Peguemos primeiro em Holoceno, se não se importam. No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, de Holoceno remete-se para Holocénico, e há quem afirme que esta forma é mais correcta. Em Plistocénico, porém, já remete para Plistoceno, por onde se prova que estas remissões não obedecem a nenhuma lógica. Estamos, agora, em condições de tratar do termo Antropoceno, o que se resolve com uma pergunta. Porque não regista aquele dicionário a variante Antropocénico?

 

[Texto 8425] 

Helder Guégués às 21:03 | comentar | ver comentários (1) | favorito
27
Nov 17

Léxico: «edelvais»

Vamos às variantes

 

       «Uma pessoa nascida em Dezembro num qualquer país europeu nunca verá desabrochar os jacintos, os lírios, os ásteres, os cíclames e os edelvais, nunca verá as folhas do plátano tornarem-se vermelhas e douradas, nunca ouvirá os grilos ou os pássaros» (Os Sonhos de Einstein, Alan Lightman. Tradução de Ana Maria Chaves. Alfragide: Edições Asa, 10.ª ed., 2010, p. 67).

      Neste caso, o erro é do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, que não regista esta variante de edelvaisse. Os bons dicionários acolhem todas as variantes. Ali atrás, eu registaria não apenas cetogénico, mas também cetogénio. Como é que os falantes sabem se determinada grafia de uma palavra é a correcta?

 

[Texto 8401]

Helder Guégués às 14:57 | comentar | favorito
11
Nov 17

Léxico: «muxama»

Imita os bons, e serás como eles

 

      «É aqui [Café Castelo de Silves] que os visitantes podem saborear pratos feitos com produtos da região. Entre as sugestões está a muxama de atum (uma espécie de presunto do mar) com espuma de coentros, gotas de azeite e amêndoas torradas ou os figos gratinados com queijo de ovelha e presunto, regados com mel aromatizado com alecrim» («Tapas mediterrânicas para provar dentro de muralhas», Rui Pando Gomes, «Sexta», Correio da Manhã, 27.10 a 2.11.2017, p. 41).

      Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, sim, é contigo que estou a falar: o velho Morais regista ambas as grafias, muxama e moxama. Imita os bons, regista ambos. Ou imita os maus, e serás pior do que eles.

 

[Texto 8323]

Helder Guégués às 19:13 | comentar | ver comentários (2) | favorito
22
Out 17

«Chachachá/chá-chá-chá»

A alguém interessa

 

      «– O Georgie adorava chachachá. Estava sempe a tentar que eu dançasse com ele» (Pintar o Futuro — Uma História de Amor e de Esperança, Louise L. Hay e Lynn Lauber. Tradução de Duarte Sousa Tavares. Lisboa: Pergaminho, 2012, p. 91). Prefiro a grafia chá-chá-chá (como blá-blá-blá). Claro que não têm nada que ver com isso, mas a Porto Editora pode ter: o Dicionário da Língua Portuguesa só acolhe a grafia chachachá, mas o Dicionário de Português-Inglês apresenta ambas, chachachá e chá-chá-chá.

 

[Texto 8248]

Helder Guégués às 15:54 | comentar | ver comentários (1) | favorito
02
Set 17

Léxico: «javista»

Amputado

 

      O Pentateuco, segundo os estudiosos, é o resultado de quatro fontes ou tradições: javista, eloísta, sacerdotal e deuteronomista. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não regista javista, mas apenas a variante jeovista.

 

[Texto 8113]

Helder Guégués às 06:45 | comentar | favorito
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09
Jun 17

Lambuzar, labuzar, enlabuzar, enlambuzar

E as outras?

 

      O poeta Manuel Alegre lá ganhou o Prémio Camões. O que é que se diz? Ah, podia ter sido há mais tempo. Mas não é por tão pouco que aqui venho, interrompendo tarefas mais importantes. Porque será que os lexicógrafos nos subtraem tantas palavras? Estou aqui a ler num texto a palavra enlabuzar, mas, qual quê!, os dicionários que temos hoje em dia não a registam. Querem que todos digam «enlambuzar». Não, não aceitemos: é lambuzar, labuzar, enlabuzar, enlambuzar. Fui.

 

[Texto 7911]

Helder Guégués às 10:30 | comentar | ver comentários (4) | favorito
01
Mar 17

Léxico: «auspicar»

Fora dos dicionários

 

      Ora cá está um verbo que nunca tinha visto fora dos dicionários: «A todos os leitores, sobretudo aos confrades, auspico que esta viagem pelas avenidas da memória, etc.» Os dicionários remetem simplesmente para o verbo auspiciar, variante muito mais conhecida.

 

[Texto 7517]

Helder Guégués às 17:24 | comentar | favorito
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19
Dez 16

«Galáxico»?

Já vimos outros casos

 

      De vez em quando, vejo o adjectivo «galáxico», como agora mesmo, e a autora é licenciada em Filologia Românica. Lembram-se, decerto, da dupla torácico/toráxico, que defendi há uns anos, com o argumento de que, se o primeiro o herdámos, o segundo se formou na nossa língua. O argumento, quanto a «galáxico», não pode ser outro. Ainda supus que em galego se escrevesse desta forma, mas não.

 

[Texto 7338]

Helder Guégués às 22:58 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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«Altifalante/alto-falante»

Não é preciso acrescentar

 

     Temos altifalante e alto-falante, mas a autora obedeceu ao que a etimologia pede e acrescentou uma terceira forma: «autofalante». Talvez — quem sabe? — tenha levado a vida inteira a dizer e a escrever desta maneira.

 

[Texto 7337]

Helder Guégués às 12:41 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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07
Dez 16

Léxico: «riodonorense»

Querem ver?

 

      «Do outro lado da raia, que aqui nunca existiu, está Rionor espanhol. Um povo que agora tem 12 habitantes. Sempre fizeram vida com eles. De um lado e do outro. As regras de Franco e Salazar pouco se sentiam. O que mais se ouvia eram os sons das festas quando se casavam rionorenses espanhóis com riodonorenses portugueses, diz Norberto Preto» («INATEL leva Rio de Onor a Lisboa», Afonso de Sousa, TSF, 7.12.2016).

   Querem ver que os próprios se querem riodonorenses e não riodonoreses, única variante, esta última, que está no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora e no Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa? Algum leitor compassivo nos ajude neste transe.

 

[Texto 7309]

Helder Guégués às 16:48 | comentar | favorito
23
Nov 16

«Congregacionalismo/congregacionismo»

Muitas sílabas

 

      Congregacionalismo e congregacionismo. Há de tudo: dicionários que não registam nenhum dos termos; dicionários que acolhem os dois; dicionários que registam apenas um deles. Só nos interessa os que registam ambos os termos. Entre estes está o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, que define congregacionalismo como a (1) «defesa do direito das congregações de administrarem os seus assuntos, sem estarem sujeitas a uma instituição religiosa superior» e (2) o «conjunto das igrejas (protestantes) organizadas segundo esse princípio». Quanto a congregacionismo, que custa um pouco menos a pronunciar, diz que é a «forma de organização eclesiástica protestante que defende a autonomia das igrejas locais». Ou seja, são sinónimos, variantes, e por isso cabe perguntar: são mesmo necessários os dois termos? Há centenas, milhares de variantes que opulentam a língua — mas será o caso?

 

[Texto 7269]

Helder Guégués às 15:55 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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