07
Mar 17

«Aportar», verbo só para alguns

Esta vida de marinheiro

 

      «É lá que a coragem vai beber 
e ela aporta dinamismo, motiva, impulsiona a lutar por aquilo em que se acredita, etc.» Os nutricionistas é que julgam precisar do verbo «aportar», mas, na realidade, só os marinheiros precisam dele. Experimentem consultar um dicionário. Esperem! Não todos, naturalmente. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, felizmente, só regista o que era de esperar: «(verbo transitivo e intransitivo) entrar em (um porto); (verbo transitivo) trazer a um porto». E chega.

 

[Texto 7538]

Helder Guégués às 11:24 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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01
Mar 17

Livros RTP

Longe vá o agouro

 

      Na última semana, já ouvi pelo menos três vezes, na Antena 1, um anúncio a um livro de Italo Calvino nos Livros RTP. E com que frase sonante fazem a promoção dos livros? Com esta: «Livros que valem a pena ler.» RTP, rais ta partam! Até podem ser livros que valem a pena, mas serão livros que vale a pena ler?

 

[Texto 7518]

Helder Guégués às 18:50 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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01
Fev 17

«Tratar-se de», pela 1000.ª vez

Para tudo dizer

 

      «Minhotos de nascimento e apoiantes do Sporting de Braga, Dona Clara e Marcelo – o “senhor professor”, como fez sempre questão de o chamar – conversaram animadamente durante mais de 40 minutos, como se de velhos amigos se tratassem, tendo o Presidente da República confessado: “se eu não tivesse outras coisas[,] ficava aqui e ainda jantava consigo”» («Presidente ao domicílio», Lusa e TSF, 1.02.2017, 21h28).

      Já sei que não aprendem, mas que se lixe. Então tratar-se não é um verbo defectivo e impessoal, pelo que se usa sempre na 3.ª pessoa do singular? «Como se de velhos amigos se tratasse». Ai esta Lusa, esta Lusa... um verdadeiro lusus naturae, é que é.

 

[Texto 7455]

Helder Guégués às 23:34 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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25
Jan 17

Simplesmente «implodir»

Menos palavras

 

  «As defesas tentam implodir com um processo em que foi investigada uma alegada rede de corrupção centrada num empresário de sucata de Ovar, Manuel Godinho, que apanhou nas malhas o antigo ministro Armando Vara e o ex-presidente da REN José Penedos, todos condenados a penas de prisão efectiva» («As mil e uma falhas que as defesas encontram no processo Face Oculta», Mariana Oliveira, Público, 25.01.2017, p. 15).

    «Implodir com um processo»? Veja lá isso melhor, Mariana Oliveira. Expletivo, no mínimo. Tente assim: «As defesas tentam implodir um processo em que foi investigada uma alegada rede de corrupção centrada num empresário de sucata de Ovar, etc.»

 

[Texto 7432]

Helder Guégués às 21:09 | comentar | favorito
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11
Jan 17

Léxico: «pingotear»

Só pinotear

 

      «No forte pingotear da chuva, etc.» Escolha de palavras de escritora portuguesa conceituadíssima. No prelo. Ah, pois, mas o tal plumitivo não deixava que se usasse tal verbo. Não está no dicionário! Pelo menos não está no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Ainda argumentaria que é um termo brasílico, pois quase só no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, da Academia Brasileira de Letras, o encontraria.

 

[Texto 7401]

Helder Guégués às 21:30 | comentar | ver comentários (6) | favorito
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Escortinhar: cortar em pequenos pedaços, dividir em bocadinhos

Escortinhar.JPG

 

Helder Guégués às 18:55 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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20
Nov 16

A descoberta dos verbos

Mas são verdes

 

      «Daí, o ver-mo-lo a saltitar, ininterruptamente nesta época, da redacção do Eco Popular (1848-1849) para a do Jornal do Povo (1849-1851); desta para a da Semana (1850) de Lisboa, onde escreveria a peça O Lobisomem, único texto publicado postumamente» (Camilo Castelo Branco: Roteiro Dramático dum Profissional das Letras, Alexandre Cabral. Lisboa: Edições Terra Livre, 1980, p. 81).

      Não eram ainda os tempos acelerados de hoje em dia, nem se tinha à disposição a informática, mas já se viam estes erros. Então não é «vermo-lo» que se escreve? É uma forma do Infinitivo Pessoal Presente: vermosvermos + overmo-lo. Todas as pessoas: ver, veres, ver, vermos, verdes, verem. Com o pronome: vê-lo, vere-lo, vê-lo, vermo-lo, verde-lo, verem-no. Não é para todos os camilianistas, mortos ou vivos...

 

[Texto 7257]

Helder Guégués às 20:41 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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21
Set 16

O musical gerúndio

De ciganos, fadistas e alentejanos

 

      «Estranhará porque que falo muito no gerúndio e articulo desta maneira. O gerúndio, a mim, me soa mais musical, do que dizer por exemplo, cantar. Se disser cantando, é outra coisa. Gosto mais, me soa mais musical. Soa-me melhor chorando, em vez de chorar. Eu gosto de articular este português meio antigo, é muito rítmico. Sou um bocado vidrado no ritmo. É uma pancada, como outra qualquer. Gosto de falar assim, a língua torna-se noutra coisa» («“Já não tenho nada para provar ao fado, nem aos fadistas”», Elsa Araújo Rodrigues, Observador, 3.04.2016, p. 12).

      A jornalista comentara que a entoação era muito parecida com a dos ciganos. O mesmo pensei eu quando o vi ser entrevistado por Maria João Seixas no programa Afinidades, em que o fadista também falou das relações de amizade que teve com ciganos e confessou que lhe agradava mais usar o gerúndio.

 

[Texto 7113]

Helder Guégués às 20:28 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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16
Set 16

Duplos particípios

Agora, o português (II)

 

      Na televisão acham sempre — e sempre a realidade os desmente — que é uma excelente ideia ir para a rua saber como escrevem e falam as pessoas. De novo com Sandra Duarte Tavares na rubrica da RTP Agora, o português. «“Devias ter imprimido o documento” ou “devias ter impresso o documento”»? Uma senhora exprimiu o profundo sentir do povo — seja lá qual for o povo: «Para mim, “imprimido”, mas a Real Academia tem aprovados os dois términos. [...] Não sei se é verdade ou mentira.» Sandra Duarte Tavares, académica, fala em «particípio maior» e em «particípio pequenino», decerto porque não quer que os queridos telespectadores se macem muito, até porque os pobrezinhos já têm a imeeeeensa trabalheira de decorar os números de valor acrescentado dos concursos. Sempre boazinha. Seja como for, em Março do ano passado, Sandra Duarte Tavares mostrou que não dominava a terminologia, como demonstrámos aqui. A regra — mas há quem a repute mera tendência da língua —, essa vimo-la aqui.

 

[Texto 7091]

Helder Guégués às 15:00 | comentar | favorito
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27
Jun 16

Regência do verbo «suceder»

O romancista ou o jornalista?

 

      José Rodrigues dos Santos, ontem, em directo de Londres: «Quando Margaret Thatcher, por exemplo, foi afastada do Partido Conservador, quem a sucedeu foi John Major, que não... sem eleições gerais» («Grã-Bretanha sob fortes réplicas após sismo do Brexit», RTP1, 26.06.2016).

      No português antigo era, de facto, assim: prevalecia a regência directa (a sucedeu), ao passo que hoje em dia domina a regência indirecta (lhe sucedeu). Se o jornalista o ignora, o romancista não devia desconhecer.

 

[Texto 6909]

Helder Guégués às 23:57 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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29
Mai 16

O verbo «remediar»

Culta e adulta?

 

      «O incrível mundo dos micróbios», anunciava ontem a RTP2 em alguns jornais. E porquê incrível? Ora, porque os micróbios, garantem-nos, e quem o quisesse comprovar que visse o programa Biosfera, «detetam metais pesados, remediam solos e biofertilizam as plantas». Eu nem sabia que os micróbios mediam os solos, quanto mais que os voltavam a medir. Ah, queriam dizer «remedeiam», do verbo «remediar»? E será mesmo o melhor verbo para expressar a ideia? Não seria melhor «corrigir», por exemplo? Teria pelo menos a vantagem de (talvez, porque há sempre margem para o erro) não errarem a forma verbal.

 

[Texto 6844]

Helder Guégués às 14:00 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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