21
Jun 17

Ah, o verbo «haver»...

Gramática a arder

 

      Hoje começa o Verão, e as coisas ainda aquecem mais. O episódio de ontem do Mata-Bicho, com Bruno Nogueira, era sobre os incêndios. «Se deixarem andar aos tiros por todas as florestas, portanto está resolvido o problema dos fogos, ainda que deixem de haver animais.» Olá, João Quadros: talvez fosse boa ideia contratar os serviços de um revisor, não? É que, assim, está a vender mercadoria avariada. Entretanto, aprenda: o verbo haver é impessoal quando exprime existência e vem acompanhado dos auxiliares ir, dever, poder, etc.

 

[Texto 7932]

Helder Guégués às 06:48 | comentar | ver comentários (1) | favorito
Etiquetas: ,
14
Jun 17

O verbo «haver», mais uma vez

Uma catástrofe repetida

 

      No Jornal da Tarde, na RTP1, o enviado da Lusa a Londres, Bruno Manteigas, a respeito do número de vítimas do incêndio na Torre Grenfell, disse: «Haverão ainda muitas mais.» Bruno Manteigas, por amor de Deus, aprenda que, no sentido de existir ou acontecer, o verbo haver se usa apenas na terceira pessoa do singular: «Haverá ainda muitas mais.» E depois vêm falar dos alunos que dão erros — e estes profissionais que não sabem usar a língua? Uma vergonha, isso sim. Se lhe quiserem dizer: bmanteigas@lusa.pt.

 

[Texto 7920]

Helder Guégués às 13:49 | comentar | ver comentários (3) | favorito
Etiquetas: ,
01
Mai 17

Valor condicional

Toma e embrulha

 

      Tenho a certeza de que esta lição será útil a alguém: «Têm um valor condicional (respeitante à dependência de uma situação da realização de uma outra) o presente [condicional simples] e o pretérito perfeito do condicional [condicional composto] em frases como se eu tivesse possibilidades, iria viver para o campo; se eu tivesse tido possibilidades, teria ido viver para o campo. Em Portugal, o pretérito imperfeito e o pretérito mais-que-perfeito podem ocupar o lugar das duas formas verbais acima, respetivamente, sem alteração de valor: ia (= iria) / tinha ido (= teria ido) viver para o campo» (Manual de Linguística Portuguesa, Ana Maria Martins e Ernestina Carrilho (eds.). Berlim: De Gruyter, 2016, p. 323). Mas isto é alguma coisa nova? Basta ver nas obras de Gil Vicente, por exemplo, o pretérito mais-que-perfeito simples empregado em vez do condicional simples ou do imperfeito do conjuntivo.

 

[Texto 7772]

Helder Guégués às 16:18 | comentar | ver comentários (3) | favorito
Etiquetas: ,
09
Abr 17

Como se fala no futebol

Assim se educam as massas

 

  Desde ontem que ando a ouvir, incrédulo, Petit, técnico do Moreirense, nos noticiários da Antena 1 dizer isto: «Por isso, expectitamos um jogo extremamente difícil, mas que vamos trabalhar, lutar, pelos três pontos.» Pilriteiro que dás pilritos, etc. Mas os jornalistas é que não têm vergonha em deixar passar erro tão grosseiro, no que mostram falta de discernimento.

 

[Texto 7693]

Helder Guégués às 10:31 | comentar | ver comentários (1) | favorito
Etiquetas: ,
23
Mar 17

O verbo «aderir», regência

Endesa, não sais daqui ilesa

 

      Queremos ler as notícias na Rádio Renascença, e pimba, salta-nos a publicidade da Endesa, cujos funcionários andam por aí a bater às portas quais Testemunhas de Jeová. Tarifa Quero +. E depois isto (ou esta cagada, se preferirem): «Quantos mais produtos aderir, mais descontos acumula.» Então o verbo aderir não se constrói com a preposição a, suas melgas eléctricas espanholas?

 

[Texto 7607]

Helder Guégués às 19:59 | comentar | favorito
Etiquetas: ,
07
Mar 17

«Aportar», verbo só para alguns

Esta vida de marinheiro

 

      «É lá que a coragem vai beber 
e ela aporta dinamismo, motiva, impulsiona a lutar por aquilo em que se acredita, etc.» Os nutricionistas é que julgam precisar do verbo «aportar», mas, na realidade, só os marinheiros precisam dele. Experimentem consultar um dicionário. Esperem! Não todos, naturalmente. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, felizmente, só regista o que era de esperar: «(verbo transitivo e intransitivo) entrar em (um porto); (verbo transitivo) trazer a um porto». E chega.

 

[Texto 7538]

Helder Guégués às 11:24 | comentar | ver comentários (2) | favorito
Etiquetas: ,
01
Mar 17

Livros RTP

Longe vá o agouro

 

      Na última semana, já ouvi pelo menos três vezes, na Antena 1, um anúncio a um livro de Italo Calvino nos Livros RTP. E com que frase sonante fazem a promoção dos livros? Com esta: «Livros que valem a pena ler.» RTP, rais ta partam! Até podem ser livros que valem a pena, mas serão livros que vale a pena ler?

 

[Texto 7518]

Helder Guégués às 18:50 | comentar | ver comentários (1) | favorito
Etiquetas: ,
01
Fev 17

«Tratar-se de», pela 1000.ª vez

Para tudo dizer

 

      «Minhotos de nascimento e apoiantes do Sporting de Braga, Dona Clara e Marcelo – o “senhor professor”, como fez sempre questão de o chamar – conversaram animadamente durante mais de 40 minutos, como se de velhos amigos se tratassem, tendo o Presidente da República confessado: “se eu não tivesse outras coisas[,] ficava aqui e ainda jantava consigo”» («Presidente ao domicílio», Lusa e TSF, 1.02.2017, 21h28).

      Já sei que não aprendem, mas que se lixe. Então tratar-se não é um verbo defectivo e impessoal, pelo que se usa sempre na 3.ª pessoa do singular? «Como se de velhos amigos se tratasse». Ai esta Lusa, esta Lusa... um verdadeiro lusus naturae, é que é.

 

[Texto 7455]

Helder Guégués às 23:34 | comentar | ver comentários (1) | favorito
Etiquetas: ,
25
Jan 17

Simplesmente «implodir»

Menos palavras

 

  «As defesas tentam implodir com um processo em que foi investigada uma alegada rede de corrupção centrada num empresário de sucata de Ovar, Manuel Godinho, que apanhou nas malhas o antigo ministro Armando Vara e o ex-presidente da REN José Penedos, todos condenados a penas de prisão efectiva» («As mil e uma falhas que as defesas encontram no processo Face Oculta», Mariana Oliveira, Público, 25.01.2017, p. 15).

    «Implodir com um processo»? Veja lá isso melhor, Mariana Oliveira. Expletivo, no mínimo. Tente assim: «As defesas tentam implodir um processo em que foi investigada uma alegada rede de corrupção centrada num empresário de sucata de Ovar, etc.»

 

[Texto 7432]

Helder Guégués às 21:09 | comentar | favorito
Etiquetas: ,
11
Jan 17

Léxico: «pingotear»

Só pinotear

 

      «No forte pingotear da chuva, etc.» Escolha de palavras de escritora portuguesa conceituadíssima. No prelo. Ah, pois, mas o tal plumitivo não deixava que se usasse tal verbo. Não está no dicionário! Pelo menos não está no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Ainda argumentaria que é um termo brasílico, pois quase só no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, da Academia Brasileira de Letras, o encontraria.

 

[Texto 7401]

Helder Guégués às 21:30 | comentar | ver comentários (6) | favorito
Etiquetas: ,