17
Out 17

O particípio de «intervir»

Todas as opiniões

 

      «Os Estados têm intervido ao investir em infra-estruturas e em indústrias de base, etc.» Estamos sempre, todos nós, não é?, a corrigir este erro. Ora, há quem defenda (Helena Mateus Montenegro, por exemplo, nas Questões de Gramática do Português, pp. 25-26) que, para desambiguar e por ser mais eufónico nas formas compostas com o verbo «ter», o particípio passado de «intervir» é intervido. E não defende o mesmo Rodrigo de Sá Nogueira, na página 272 do seu Dicionário de Verbos Portugueses Conjugados?

 

[Texto 8229]

Helder Guégués às 11:35 | comentar | ver comentários (1) | favorito
Etiquetas: ,
03
Out 17

Verbo «adequar»

Outra grande falha

 

      Um dos mais constantes leitores do Linguagista manda-me este excerto de um artigo e pergunta se a forma verbal está correcta: «Nunca um método será ideal para todas as mulheres, mas quanto maior for a escolha, menor “a possibilidade de a pessoa pensar ‘eu não faço contracepção porque não tenho nenhum método que se adeqúe ao meu estado de saúde’” [afirma Teresa Bombas, presidente da Sociedade Portuguesa de Contracepção]» («Já há uma app para controlar a fertilidade registada no Infarmed», Catarina Lamelas Moura, Público, 3.10.2017, p. 12).

      Sim, está correcta. É uma falha em que eu já reparara e lamentara: a Infopédia, para a conjugação, não indica a grafia anterior ao Acordo Ortográfico de 1990. Ou, para sermos mais rigorosos, não se sabe que norma está a seguir. Não se percebe a falha, pois para o restante léxico tem dois dicionários e, o que é mais, no caso dos verbos bastava um asterisco a indicar a outra grafia. Aqui entre nós, este verbo é esquisito e, como Cláudio Moreno, evito conjugá-lo. Se é defectivo? Para mim, não.

 

[Texto 8185]

Helder Guégués às 14:29 | comentar | ver comentários (3) | favorito
Etiquetas: ,
19
Set 17

«Fez fazer»

Poupem os músculos

 

      «Ser burguês não me fez fazer uma ideia irreal do mundo» (A Cor dos Dias ­— Memórias e Peregrinações, António Alçada Baptista. Queluz de Baixo: Editorial Presença, 2003, p. 52).

      Por vezes, vemos certas pessoas levantarem o sobrolho quando ouvem construções como esta. Poupem os músculos — e poupem-nos a paciência.

 

[Texto 8160]

Helder Guégués às 19:52 | comentar | ver comentários (3) | favorito
Etiquetas: ,
13
Ago 17

Léxico: «guardar-se de»

Antes holicismo

 

      Estava aqui a pensar se guardar-se de não seria cópia do francês se garder de. Aqui em Stendhal, leio: «Elle se garda de répondre, etc.» Mas não, pois até nas Ordenações Afonsinas o encontro. (E lá está a numeração romana, que as professoras primárias ignoram: título LXIIII, v. g.)

 

[Texto 8090]

Helder Guégués às 08:15 | comentar | ver comentários (2) | favorito
Etiquetas: ,
12
Ago 17

Léxico: «arear»

Muita areia

 

      Volto a trazer para aqui uma notícia sobre o abastecimento de água em Almeirim. «Colapso de furo, que areou, deixou água canalizada de Almeirim com cor acastanhada» («Avaria na rede de água afetou 14 mil pessoas», José Durão, Correio da Manhã, 9.08.2017, p. 18).

     Nunca tinha visto o verbo arear em contextos semelhantes, mas suponho que está correcto, pois é uma das acepções registadas nos dicionários.

 

[Texto 8089]

Helder Guégués às 08:32 | comentar | favorito
Etiquetas: ,
21
Jun 17

Ah, o verbo «haver»...

Gramática a arder

 

      Hoje começa o Verão, e as coisas ainda aquecem mais. O episódio de ontem do Mata-Bicho, com Bruno Nogueira, era sobre os incêndios. «Se deixarem andar aos tiros por todas as florestas, portanto está resolvido o problema dos fogos, ainda que deixem de haver animais.» Olá, João Quadros: talvez fosse boa ideia contratar os serviços de um revisor, não? É que, assim, está a vender mercadoria avariada. Entretanto, aprenda: o verbo haver é impessoal quando exprime existência e vem acompanhado dos auxiliares ir, dever, poder, etc.

 

[Texto 7932]

Helder Guégués às 06:48 | comentar | ver comentários (1) | favorito
Etiquetas: ,
14
Jun 17

O verbo «haver», mais uma vez

Uma catástrofe repetida

 

      No Jornal da Tarde, na RTP1, o enviado da Lusa a Londres, Bruno Manteigas, a respeito do número de vítimas do incêndio na Torre Grenfell, disse: «Haverão ainda muitas mais.» Bruno Manteigas, por amor de Deus, aprenda que, no sentido de existir ou acontecer, o verbo haver se usa apenas na terceira pessoa do singular: «Haverá ainda muitas mais.» E depois vêm falar dos alunos que dão erros — e estes profissionais que não sabem usar a língua? Uma vergonha, isso sim. Se lhe quiserem dizer: bmanteigas@lusa.pt.

 

[Texto 7920]

Helder Guégués às 13:49 | comentar | ver comentários (5) | favorito
Etiquetas: ,
01
Mai 17

Valor condicional

Toma e embrulha

 

      Tenho a certeza de que esta lição será útil a alguém: «Têm um valor condicional (respeitante à dependência de uma situação da realização de uma outra) o presente [condicional simples] e o pretérito perfeito do condicional [condicional composto] em frases como se eu tivesse possibilidades, iria viver para o campo; se eu tivesse tido possibilidades, teria ido viver para o campo. Em Portugal, o pretérito imperfeito e o pretérito mais-que-perfeito podem ocupar o lugar das duas formas verbais acima, respetivamente, sem alteração de valor: ia (= iria) / tinha ido (= teria ido) viver para o campo» (Manual de Linguística Portuguesa, Ana Maria Martins e Ernestina Carrilho (eds.). Berlim: De Gruyter, 2016, p. 323). Mas isto é alguma coisa nova? Basta ver nas obras de Gil Vicente, por exemplo, o pretérito mais-que-perfeito simples empregado em vez do condicional simples ou do imperfeito do conjuntivo.

 

[Texto 7772]

Helder Guégués às 16:18 | comentar | ver comentários (3) | favorito
Etiquetas: ,
09
Abr 17

Como se fala no futebol

Assim se educam as massas

 

  Desde ontem que ando a ouvir, incrédulo, Petit, técnico do Moreirense, nos noticiários da Antena 1 dizer isto: «Por isso, expectitamos um jogo extremamente difícil, mas que vamos trabalhar, lutar, pelos três pontos.» Pilriteiro que dás pilritos, etc. Mas os jornalistas é que não têm vergonha em deixar passar erro tão grosseiro, no que mostram falta de discernimento.

 

[Texto 7693]

Helder Guégués às 10:31 | comentar | ver comentários (1) | favorito
Etiquetas: ,
23
Mar 17

O verbo «aderir», regência

Endesa, não sais daqui ilesa

 

      Queremos ler as notícias na Rádio Renascença, e pimba, salta-nos a publicidade da Endesa, cujos funcionários andam por aí a bater às portas quais Testemunhas de Jeová. Tarifa Quero +. E depois isto (ou esta cagada, se preferirem): «Quantos mais produtos aderir, mais descontos acumula.» Então o verbo aderir não se constrói com a preposição a, suas melgas eléctricas espanholas?

 

[Texto 7607]

Helder Guégués às 19:59 | comentar | favorito
Etiquetas: ,
07
Mar 17

«Aportar», verbo só para alguns

Esta vida de marinheiro

 

      «É lá que a coragem vai beber 
e ela aporta dinamismo, motiva, impulsiona a lutar por aquilo em que se acredita, etc.» Os nutricionistas é que julgam precisar do verbo «aportar», mas, na realidade, só os marinheiros precisam dele. Experimentem consultar um dicionário. Esperem! Não todos, naturalmente. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, felizmente, só regista o que era de esperar: «(verbo transitivo e intransitivo) entrar em (um porto); (verbo transitivo) trazer a um porto». E chega.

 

[Texto 7538]

Helder Guégués às 11:24 | comentar | ver comentários (2) | favorito
Etiquetas: ,