Vespas e taparueres

A importância de ser rigoroso

 

      «Depois de a empresa Digital Decor ter publicado nas redes sociais algumas fotografias a dar conta das várias etapas de transformação da mota, assumindo a autoria do trabalho, o DN procurou saber de onde surgiu afinal a ideia de fazer entrar o motociclo nas festividades [sic] do tetra encarnado. Carlos Simões, proprietário da agência publicitária, responde: “A ideia foi do próprio Eliseu. Ele é um colecionador, tem algumas motas e esta Vespa antiga é uma relíquia, de 1967, que pertencia à coleção dele”» («Eliseu vai ganhar substituta para a Vespa do 36», Rui Frias, Diário de Notícias, 17.05.2017, 00h24).

   Motociclo? Se for uma Vespa V5A1T, de 50 cc, de 1967, não é um motociclo, mas um ciclomotor. Serão pueris minudências para o jornalista, mas não para mim, nem, suponho, para os leitores do Linguagista. (Ah, sim: vou ter hoje a primeira de quatro aulas de código de motociclos.) E nos dicionários? Temos um lapso... não, dois, no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: as duas acepções de «vespa» estão grafadas em itálico, quando nenhuma — leram bem, nenhuma — deve ser assim grafada. O insectozinho, coitado, apesar de mau, não merece o itálico; o veículo motorizado, por sua vez, também não, pois que se trata de um termo surgido por derivação imprópria. Que eu saiba, ninguém escreve em itálico gilete, maisena, chiclete, cotonete, etc. (A propósito, não sei o que esperam para dicionarizar «taparuere»: «Tira um taparuere. Deita o conteúdo do taparuere num prato. Põe o prato no micro-ondas. Carrega no botão. Espera. Na mesa quadrada, sob a luz do candeeiro suspenso, senta-se a comer», Perfeitos Milagres, Jacinto Lucas Pires. Lisboa: Cotovia, 2007, p. 39.)

 

[Texto 7845]

Helder Guégués às 07:19 | comentar | favorito