20
Set 18

Plural de «corrimão»

Plural duplo

 

      «Mas a cidade não conta o seu passado, contém-no como as linhas da mão, escrito nas esquinas das ruas, nas grades das janelas, nos corrimões das escadas, nas antenas dos para-raios, nos postes das bandeiras, cada segmento marcado por sua vez de arranhões, riscos, cortes e entalhes» (As Cidades Invisíveis, Italo Calvino. Tradução de José Colaço Barreiros. Alfragide: Publicações Dom Quixote, 3.ª ed., 2016, p. 19).

      É uma das muitas provas de que a língua não é o que devia ser, mas o que é. Em rigor, o plural de corrimão devia ser apenas corrimãos, mas, a par deste, foi ganhando direitos corrimões. Curiosamente, a palavra usada por Calvino, scorrimano, também não parece ser a mais escorreita em italiano. Boa escolha a do tradutor...

 

[Texto 9955]

Helder Guégués às 19:57 | comentar | favorito | partilhar
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Uma coisa é forma de assim

O rigor habitual

 

      «Quatro crianças morreram esta quinta-feira, na Holanda, numa colisão entre um comboio e o carrinho elétrico em que seguiam, conduzido por um supervisor. [...] O primeiro-ministro holandês, Mark Rutte, está “profundamente impressionado” com o “acidente horrível” em que um comboio colidiu com uma bicicleta que transportava crianças para a escola num atrelado, provocando a morte a quatro delas» («Tragédia na Holanda. Quatro crianças morrem em passagem de nível», Rádio Renascença, 20.09.2018, 16h15).

      Ficamos sem saber exactamente de que veículo se trata. Na TSF, conseguiram piorar: «Na Holanda, as bicicletas munidas de grandes atrelados de madeira instalados à frente do guiador do ciclista são muito populares» («Quatro crianças morrem em colisão entre comboio e bicicleta na Holanda», TSF, 20.09.2018, 10h22). Logo de madeira, nos tempos que correm. Então não. Pois bem, de bicicleta não tem nada. Nem de madeira. «Elektrische bolderwagen», chama-lhe o De Telegraaf, que mostra um veículo semelhante ao que podem ver aqui (imagem daqui: https://sqoot.nl/voertuigen/stint/).

 

[Texto 9954]

Vagão.jpg

 

Helder Guégués às 18:30 | comentar | favorito | partilhar
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Léxico: «inverneiro»

Tão certo como eu ser Helder

 

      «A fumagem aproveitava a lareira, sempre acesa para cozinhar e aquecer a casa dos frios inverneiros. O porco era integralmente usado, do focinho ao rabo, passando pelas tripas, genialmente aproveitadas para invólucros, uma ideia que hoje nos pode parecer evidente, mas que teve origem em muita imaginação e escassez de meios» (Sabores do Ar e do Fogo/ Tastes of Air and Fire, Fátima Moura, coord. José Quitério. Lisboa: Clube do Coleccionador dos Correios, 2013, p. 92).

      É claro que inverneiro existe e se usa, Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Se queres saber, e para não ir mais longe, eu uso-o de quando em quando.

 

[Texto 9953]

Helder Guégués às 17:30 | comentar | favorito | partilhar
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Léxico: «borregar»

Borregos, cavalos e aviões

 

      «Mais de uma dezena de voos tiveram de ficar em espera, um “borregou” a aproximação e dois tiveram de divergir para Faro com problemas de combustível» («‘Drone’ interrompeu operação no Aeroporto de Lisboa», Rádio Renascença, 20.09.2018, 14h01).

      Já em 2014, lembrar-se-ão, aqui tínhamos visto o verbo borregar. Não são necessárias as aspas, mas vá lá a gente meter isto na cabeça dos jornalistas. Se fossem robôs, já o sabiam, bastava pressionar com um ⍝.

 

[Texto 9952]

Helder Guégués às 14:37 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar
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Os Francos

Ainda há esperança

 

      «“Houve uma extorsão, um roubo”, diz ao Público Antón Sánchez, porta-voz do En Marea, sobre as posses dos Francos. “Esta é mais uma demonstração da impunidade de que ainda goza a família Franco”» («O património dos Francos é multimilionário. “Foi extorsão e roubo”», Manuel Louro, Público, 20.09.2018, p. 22).

      Infelizmente, agora escrever de forma correcta também é notícia. Seja como for, ainda há esperança, sobretudo se continuarmos a denunciar, sem desfalecer, todos os erros que formos vendo.

 

[Texto 9951]

Helder Guégués às 11:41 | comentar | ver comentários (2) | favorito | partilhar
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Como falam os políticos

Ou seja, pouco português

 

      «A Aliança vai agora arrancar com a comissão instaladora que vai preparar o congresso para “Dezembro ou Janeiro”. Santana Lopes reitera que será um partido que não apostará nas sedes físicas, mas que será mais digital e “low cost” [baixo custo]. E será low profile também? “Não, é low cost, high profile, mas desmaterializado e paper-free.”» («Santana quer uma Aliança “low cost” mas “high profile”. E digital», Sofia Rodrigues, Público, 20.09.2018, p. 4).

 

[Texto 9950]

Helder Guégués às 11:22 | comentar | ver comentários (2) | favorito | partilhar
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Léxico: «lumínico»

Não creio

 

      «Segundo [Letizia] Treves, a influência na arte europeia perdura até hoje. “As telas [de Caravaggio] têm uma originalidade notável, um naturalismo intenso, uma narrativa enérgica e uma carga emotiva única. E têm, claro, um tratamento lumínico que é simplesmente impressionante e que muitos tentaram copiar”, diz ainda Treves» («Sujos e repugnantes, eis os italianos na luz de Caravaggio», Paulo Anunciação, Diário de Notícias, 12.10.2016, 00h37).

      Castelhanismo? Não creio. No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: ✘. No VOLP da Academia Brasileira de Letras: ✔.

 

[Texto 9949]

Helder Guégués às 08:46 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar
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