20
Abr 19

Léxico: «fabela/ sesamóide / sesamóideo»

Se aprofundarmos um pouco...

 

      «Há um pequeno osso no joelho que se pensava estar a desaparecer com a evolução. Chama-se fabela, uma palavra que vem do latim e significa “pequeno feijão”, está ligado a um aumento do risco de artrose, segundo um estudo do Imperial College de Londres, é hoje três vezes mais comum do que há um século. A fabela é um osso sesamoide, isto é, um osso arredondado, que cresce no tendão de um músculo (o maior é a patela, ou rótula). A fabela é muito mais pequena e fica atrás do joelho, sendo por vezes nas radiografias confundido com um fragmento ósseo ou um corpo estranho [osteófito]. Mas nem todas as pessoas o têm» («Dói-lhe o joelho? A culpa pode ser da fabela, o osso que está a ressurgir», Diário de Notícias, 19.04.2019, 17h41).

      Não sei se eu o tenho ou não; sei que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora o ignora, registando apenas uma acepção, como outros dicionários: a de «pequena fábula». O Dicionário de Termos Médicos, contudo, regista-o: «Pequena fibrocartilagem que, por vezes, se forma nos músculos gémeos e que é visível em radiografias.» A definição, porém, não está correcta, pois a fabela tanto pode ter natureza fibrocartilaginosa como óssea. Aliás, o artigo não fala em osso sesamóide? Ora, os sesamóides (como a rótula, ou patela) tanto podem ser pequenos ossos como cartilagens. De qualquer maneira, a redacção induz em erro. Reparem: «pequena fibrocartilagem que, por vezes, se forma». O que significa isto? Para mim, que da noite para o dia — longe vá o agoiro! — nos pode aparecer este osso. Trata-se de um osso inconstante, quer dizer, uns têm, outros não. Aprofundando um pouco mais: salvo melhor opinião (vários médicos seguem este blogue), a definição de sesamóide tão-pouco está correcta. Diz assim: «ANATOMIA designação de uns pequenos ossos ou cartilagens supranumerários que se encontram próximos das articulações ou no seio de tendões». (E porque não regista sesamóideo, «com a forma da semente do sésamo»?) Pretendem afirmar que a rótula, por exemplo, um sesamóide, é um osso supranumerário?

 

[Texto 11 229]

Helder Guégués às 07:41 | comentar | favorito
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19
Abr 19

O léxico dos Censos

Mais avisos

 

      Compulsando o Decreto-Lei n.º 54/2019, de 18 de Abril, relativo aos Censos de 2021, o leitor Afonso Costa — e depois eu — viu dois termos e uma expressão que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não contém. O primeiro é censitário, que não aparece no sentido constante do diploma legal; o segundo é pseudonimização (de que encontramos aqui uma definição); o terceiro é segredo estatístico. Aquele dicionário acolhe vários segredos — desde o mais crucial, o de Estado, àquele que o não é, o de polichinelo, passando por aquele de que o estatístico constitui, digamos, uma subcategoria, o segredo profissional —, mas não este. Uma palavra final, repetida, pois já tratei do caso, para lamentar que muitos dos nossos jornalistas continuem a dizer e a escrever «o Censos». Não se enxerga razão nem atenuante para o solecismo.

      E pronto, como dizia invariavelmente o Eng. Sousa Veloso no final do TV Rural, despeço-me com amizade até ao próximo programa. Dia. Texto.

 

[Texto 11 228]

Helder Guégués às 16:15 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «cetoprofeno»

Ficamos avisados, ficais avisados

 

      «A agência francesa do medicamento (ANSM) fez uma advertência a médicos e pacientes sobre riscos decorrentes do uso do ibuprofeno [segundo antálgico mais usado em França] e do cetoprofeno, que podem agravar infeções em tratamento, e pediu uma investigação a nível europeu» («Tem ibuprofeno em casa? França aconselha a trocá-lo por paracetamol», TSF, 19.04.2019, 13h42).

      Há alguma boa razão para o dicionário da Porto Editora registar ibuprofeno, mas não cetoprofeno? É o que me parecia.

 

[Texto 11 227]

Helder Guégués às 14:15 | comentar | favorito
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Léxico: «bomba de gasolina» e outras miudezas

Falhas e dúvidas

 

      «Uma jornalista de 29 anos morreu na noite de quinta-feira na sequência de um tiroteio em Londonderry, na Irlanda do Norte, que está a ser investigado pela polícia como um “incidente terrorismo”. Vários atos violentos marcaram a noite de quinta-feira em Creggan, na cidade de Derry, onde se registaram lançamentos de bombas de gasolina contra carros da polícia e um tiroteio que acabaria por ferir mortalmente uma jovem jornalista» («Jovem jornalista morta na Irlanda do Norte em “incidente terrorista”», TSF, 19.04.2019, 12h49).

      Esta é nova. Pelo menos, não me lembro de alguma vez a ter visto num jornal. É, sem dúvida, uma boa forma de evitar um estrangeirismo — cocktail molotov. (Não atino com a razão de a Porto Editora não o grafar em itálico e estar num verbete autónomo. Estranhamente, no verbete cocktail só vamos encontrar (também sem o itálico) cocktail dinatoire, que eu desconhecia, e que define como a «reunião social em que se combina o serviço tradicional de bebidas com a apresentação de pratos mais substancias do que os habituais aperitivos, fornecendo, assim, uma refeição semelhante ao jantar» (sim, já vi a gralha). E onde pára o portuguesíssimo (no nome deturpado) pudim Molotov?

      Claro que não me escapa o motivo de terem escolhido a locução «bombas de gasolina»: na imprensa de língua inglesa, lê-se petrol bombs. Imprensa espanhola: explosivos molotov. Imprensa francesa: cocktails Molotov. Imprensa catalã: còctels Molotov. Imprensa italiana: bottiglie Molotov. Imprensa romena: cocteiluri Molotov. Imprensa alemã: Brandsätze. Etc.

[Texto 11 226]

Helder Guégués às 14:03 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «almôndega»

Já foi

 

      Já que falei nas almôndegas da IKEA, exortemos os lexicógrafos a redigirem uma nova definição de almôndega. Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, é a «pequena bola arredondada de carne picada, preparada com ovos, farinha e temperos, geralmente cozinhada em molho espesso». Já foi. Quem ainda não comeu almôndegas de soja, por exemplo? Tem remédio: uma extensão de sentido.

 

[Texto 11 225]

Helder Guégués às 13:07 | comentar | favorito

Léxico: «plogging»

Finalmente, uma boa ideia

 

      Já que a vamos ver mais vezes, pois vai realizar-se mensalmente uma acção, fica aqui exarada: «Cuidar do ambiente enquanto cuida da sua saúde é possível. Plogging junta duas palavras suecas, plocka upp (apanhar) e jogga (correr), uma atividade que consiste em apanhar o lixo com que se vai cruzando enquanto pratica corrida» («Apanhar lixo a correr ao lado de uma campeã olímpica? O Plogging chegou a Portugal», TSF, 19.04.2019, 10h20, itálicos meus).

      Finalmente, qualquer coisa da Suécia sem ser as famosas almôndegas da IKEA.

 

[Texto 11 224]

Helder Guégués às 12:50 | comentar | favorito

Léxico: «quantização»

Quantos são?

 

      Atropelam-se-me debaixo dos dedos: vi agora mesmo que não registas prussianismo/prussianista, e dá jeito, não é? Mas eis que temos aqui algo mais sério: «quantização direccional» (Richtungsquantelung, escreve aqui Max Born). Ora, não tens quantização. Assim, não há ciência.

 

[Texto 11 223]

Helder Guégués às 10:20 | comentar | favorito
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