Linguagem

Algumas esquisitices

 

 

 

      Perguntam-me, com insistência, se não acho que a expressão «rotina diária» é redundante. Respondo que não, e que talvez estejam a confundir com «rotina habitual», esta sim redundante.

      A língua, porém, não deixa de ter dubiedades quase inultrapassáveis. Lembremos algumas pela pena de Agostinho de Campos.

      «Jogar com pau de dois bicos não é privilégio exclusivo das pessoas muito espertas. Há palavras que fazem o mesmo, e nem por isso as consideramos mais espertas que as outras. Os verbos alugar, hospedar, cheirar são dessa espécie: Eu aluguei esta casa, e o senhorio alugou-me esta casa. Fulano hospeda-me na sua casa e eu hospedo-me em casa de Fulano. As flores cheiram bem e a gente cheira as flores.

      Certas palavras que nasceram perfeitas, e viveram anos de boa saúde, podem adoecer por culpa nossa. Assim acontece com a própria palavra saúde, coitadinha. A sua correspondente latina, salus, salutis, tinha os significados nítidos e agradáveis de salvação, felicidade, saúde. Acontece porém que a evolução da palavra saúde a torna dúbia, incerta, por vários motivos.

À uma, já se vai dizendo boa saúde, má saúde, como se o substantivo saúde, só por si, já não significasse coisa nenhuma. À outra, damos em chamar casas de saúde àquelas que servem para receber doentes; e quando um funcionário fica em casa com quarenta graus de febre, diz-se que não compareceu na repartição por motivo de saúde» («Esquisitices da nossa fala», in Língua e Má Língua. Lisboa: Livraria Bertrand, 1944, p. 213). 

      Ainda ontem a ministra da Saúde falava em «esperança positiva». Pelo menos para Ana Jorge, a esperança já não é algo que, singelo, valha por si.

 

[Texto 6]

 

Helder Guégués às 09:05 | favorito
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